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Cade aprova aquisição de 12% do Assaí por investidores ligados ao Grupo Muffato

Participação poderá chegar a 12,0134% do capital da Sendas Distribuidora; operação é minoritária, não altera o controle do Assaí e prevê manutenção da independência entre as redes.

por João Souza
01/10/2026 às 01h44
em Empresas
Assaí Tem Lucro Líquido De R$ 347 Mi No 4º Trimestre

A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou sem restrições a aquisição de uma participação de até 12,0134% no capital da Sendas Distribuidora (ASAI3), dona da operação do Assaí Atacadista, por investidores ligados aos empresários Ederson e Everton Muffato. A decisão, tomada nesta quarta-feira, 30 de setembro, encerra uma etapa relevante da análise concorrencial de uma movimentação que vinha sendo acompanhada pelo mercado desde o crescimento da participação dos empresários na companhia.

A operação envolve principalmente os fundos Snapper Rocks Strategy Fundo de Investimento em Ações e WHG Apache Fundo de Investimento em Ações, veículos ligados aos irmãos Muffato, além de posições mantidas por outros fundos e pelo próprio Everton Muffato. Consideradas as ações já detidas, derivativos ainda pendentes de liquidação e participações relacionadas aos investidores, a posição poderá chegar a 12,0134% do capital social da Sendas Distribuidora.

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O aval do Cade não significa que o Grupo Muffato tenha comprado o controle do Assaí, tampouco representa uma fusão entre as duas redes. A participação continua sendo minoritária e os elementos apresentados à autoridade antitruste indicam que as duas operações deverão permanecer independentes. Também não foi anunciada qualquer transferência de controle da Sendas Distribuidora ou mudança automática em sua administração.

A distinção é relevante porque Ederson e Everton Muffato são acionistas do Grupo Muffato, um dos maiores grupos supermercadistas do país e concorrente direto do Assaí em determinadas regiões. O grupo opera as bandeiras Super Muffato e Max Atacadista, além de manter negócios em segmentos como logística, combustíveis, imóveis e serviços financeiros. O Assaí, por sua vez, concentra sua atuação no atacado de autosserviço e mantém presença nacional.

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Participação poderá chegar a 12,0134%

A estrutura analisada pelo Cade é mais complexa do que uma compra isolada de ações em bolsa. Parte da posição foi constituída diretamente por meio de ações da Sendas Distribuidora e outra parte envolve instrumentos financeiros conhecidos como total return swaps, ou TRS, contratados com instituições financeiras.

Segundo as informações apresentadas no processo, o Snapper Rocks possui uma participação de aproximadamente 10,656160% em ações da Sendas Distribuidora, enquanto o WHG Apache detém cerca de 0,549961%. Somadas, essas posições representam aproximadamente 11,206121% do capital da companhia. O restante necessário para atingir os 12,0134% considerados pelo Cade inclui derivativos ainda existentes e outras participações vinculadas aos investidores.

O Apache também mantém exposição por meio de derivativos equivalentes a cerca de 0,676% do capital da Sendas, enquanto o Exitus Fundo de Investimento possui instrumentos correspondentes a aproximadamente 0,059%. Everton Muffato, por sua vez, aparece com participação direta de aproximadamente 0,005% e derivativos equivalentes a cerca de 0,010% da companhia.

A soma dessas posições explica por que o percentual analisado pelo Cade é superior à quantidade de ações que já aparecem diretamente em nome dos fundos. Os derivativos financeiros podem representar exposição econômica às ações mesmo antes de eventual conversão ou liquidação em papéis da companhia, razão pela qual foram considerados na estrutura apresentada à autoridade concorrencial.

Cade aprovou negócio sem impor restrições

A Superintendência-Geral do Cade concluiu que a operação poderia ser aprovada sem a imposição de remédios concorrenciais ou outras restrições específicas. A análise considerou, entre outros pontos, a participação minoritária dos investidores, as regras de governança da Sendas Distribuidora e os compromissos de manutenção da independência entre as atividades do Assaí e do Grupo Muffato.

A autoridade também avaliou o fato de os dois grupos atuarem em mercados semelhantes. Tanto o Assaí quanto o Grupo Muffato possuem operações no segmento de autosserviço alimentar, especialmente por meio do modelo de atacarejo. Essa sobreposição exigiu análise concorrencial mais detalhada, já que investidores ligados a uma empresa concorrente passaram a deter uma participação relevante em outra companhia do mesmo setor.

A questão central, entretanto, não estava apenas na quantidade de ações. A análise também considerou quais direitos políticos poderiam ser exercidos pelos investidores e se a posição permitiria influência sobre decisões estratégicas do Assaí. As informações prestadas no processo apontaram que os poderes políticos associados à participação são limitados e que não existe intenção declarada de assumir o controle da Sendas Distribuidora.

A independência entre as empresas também pressupõe a ausência de troca de informações comercialmente sensíveis. Dados como estratégia de preços, negociações com fornecedores, expansão de lojas, custos, margens, planos comerciais e decisões competitivas precisam permanecer separados entre organizações que disputam o mesmo mercado.

Muffato afirma não buscar controle do Assaí

Os investidores declararam que a aquisição possui caráter financeiro e que não existe intenção de alterar o controle da Sendas Distribuidora. Também não foi apresentada ao Cade uma operação destinada a integrar as atividades do Assaí às do Grupo Muffato.

Essa posição é importante diante das especulações que surgiram nos últimos meses sobre uma eventual aproximação entre as duas companhias. Em agosto, depois de questionamentos da Comissão de Valores Mobiliários e da B3 provocados por notícias sobre uma possível combinação de negócios, a Sendas Distribuidora informou ao mercado que não havia negociação ou discussão envolvendo fusão, incorporação, combinação de negócios ou transferência de controle com o Grupo Muffato.

A companhia também afirmou naquela ocasião que os investidores ligados aos Muffato não possuíam direitos especiais nem acesso diferenciado a informações da empresa em razão da participação acionária. O crescimento da posição dos fundos no capital do Assaí, portanto, não deve ser interpretado automaticamente como preparação para uma fusão.

A aprovação concedida pelo Cade nesta semana tampouco modifica esse quadro por si só. A autoridade analisou uma aquisição minoritária de ações e os efeitos concorrenciais decorrentes dessa posição. Qualquer operação futura envolvendo combinação dos negócios, aquisição de controle ou integração das empresas dependeria de fatos novos e poderia exigir outra análise regulatória.

Por que a operação precisou passar pelo Cade

O fato de se tratar de uma participação minoritária não elimina necessariamente a necessidade de análise concorrencial. Investimentos relevantes em empresas concorrentes podem produzir efeitos que vão além do retorno financeiro, especialmente quando conferem direitos políticos, influência em assembleias ou possibilidade de indicação de integrantes para órgãos de administração.

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No caso do Assaí, a presença de investidores ligados ao Grupo Muffato despertou atenção justamente porque as empresas competem em determinadas regiões e formatos de varejo. O Max Atacadista, uma das principais bandeiras do Grupo Muffato, opera no mesmo segmento de atacarejo em que o Assaí concentra sua estratégia.

A análise concorrencial procurou verificar se a participação poderia reduzir os incentivos para a competição entre as redes, criar mecanismos de influência sobre decisões estratégicas ou facilitar acesso a informações sensíveis. A conclusão da Superintendência-Geral foi de que, diante das condições apresentadas e das limitações existentes, a operação poderia ser aprovada sem restrições.

Isso não significa que eventuais condutas futuras estejam previamente autorizadas. Caso a relação entre os investidores e a Sendas Distribuidora ultrapasse os limites considerados na análise ou surjam novos elementos capazes de afetar a concorrência, a atuação da autoridade antitruste continua possível.

Participação cresceu desde 2025

A movimentação dos irmãos Muffato em torno das ações do Assaí começou a ganhar relevância no mercado ao longo de 2025. Os investidores passaram a adquirir papéis da companhia na bolsa e também construíram exposição por meio de derivativos financeiros, aumentando gradualmente sua participação econômica.

Em fevereiro de 2026, a própria Sendas Distribuidora comunicou ao mercado alterações nessas posições. Parte dos derivativos mantidos pelo Snapper Rocks e pelo Apache foi liquidada, transformando exposição financeira em participação acionária direta. O processo contribuiu para elevar a quantidade de ações efetivamente detidas pelos fundos.

O avanço chamou atenção porque colocou investidores profundamente ligados ao setor supermercadista entre os acionistas relevantes de uma das maiores redes de atacarejo do país. Ederson e Everton Muffato possuem experiência direta no varejo alimentar e integram a estrutura acionária do grupo familiar responsável pelo Super Muffato e pelo Max Atacadista.

Ao mesmo tempo, a natureza pulverizada do capital da Sendas Distribuidora torna participações superiores a 10% particularmente relevantes do ponto de vista societário. Isso não significa controle, mas confere peso econômico e capacidade de participação nas decisões tomadas pelos acionistas dentro dos limites previstos pela legislação e pelo estatuto da companhia.

Aprovação não altera automaticamente conselho ou diretoria

Outro ponto importante da decisão é que o aval do Cade não provoca qualquer alteração automática na administração do Assaí. A aquisição das ações não concede, por si só, cargos no conselho de administração nem na diretoria da Sendas Distribuidora.

Eventuais indicações para os órgãos de governança dependem dos mecanismos societários previstos na legislação, no estatuto e nas regras aplicáveis às companhias abertas. A condição de concorrentes também amplia a sensibilidade em torno de possíveis conflitos de interesse e do acesso a informações estratégicas.

Por esse motivo, a governança é um dos aspectos centrais da relação entre a posição acionária dos Muffato e a operação do Assaí. Um investidor financeiro pode exercer os direitos associados às ações que possui, mas isso não significa acesso irrestrito a dados comerciais ou participação direta na gestão cotidiana da empresa.

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A própria análise do Cade considerou mecanismos destinados a preservar a independência das operações. Esse ponto diferencia a aquisição de uma participação financeira de uma compra de controle, situação em que o adquirente passaria a determinar as principais decisões da companhia.

Assaí e Muffato continuam concorrentes

Na prática, Assaí e Grupo Muffato permanecem concorrentes após a aprovação. O Assaí opera centenas de unidades no país e tem no atacarejo seu principal formato de negócio. O Muffato possui presença particularmente relevante no Paraná e no interior de São Paulo, com supermercados tradicionais e lojas da bandeira Max Atacadista.

A existência de um acionista relevante ligado a um concorrente cria uma configuração pouco comum, mas não necessariamente incompatível com as regras concorrenciais. O ponto decisivo é a preservação da autonomia das empresas e dos incentivos para que continuem disputando clientes, preços, fornecedores e pontos comerciais de maneira independente.

A decisão da Superintendência-Geral representa, portanto, autorização para a estrutura acionária apresentada ao órgão, e não um aval para uma integração futura entre os negócios. A participação de 12,0134% continua minoritária e foi analisada dentro das condições informadas pelos investidores.

A decisão ainda segue os procedimentos próprios do Cade antes de se tornar definitiva. Se não houver avocação pelo Tribunal da autarquia dentro do prazo previsto, a aprovação da Superintendência-Geral poderá transitar em julgado.

Para o mercado, o movimento consolida os investidores ligados aos Muffato entre os acionistas relevantes do Assaí, mas mantém aberta a questão sobre como essa participação será exercida ao longo do tempo. Por enquanto, o quadro formal é de investimento minoritário, ausência de mudança de controle e manutenção da independência entre dois grupos que continuam disputando espaço no varejo alimentar brasileiro.

Fontes

Conselho Administrativo de Defesa Econômica — processo e decisão da Superintendência-Geral sobre a aquisição de participação na Sendas Distribuidora.

Sendas Distribuidora S.A. — comunicados ao mercado relativos às participações dos fundos Snapper Rocks Strategy e WHG Apache.

Comissão de Valores Mobiliários — documentos e comunicados da Sendas Distribuidora sobre participação acionária relevante e esclarecimentos ao mercado.

B3 — informações societárias e comunicações da Sendas Distribuidora.

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