O Grupo Bimbo, uma das maiores empresas de panificação do mundo, está ampliando a adoção de práticas de agricultura regenerativa em sua cadeia de fornecimento, incluindo operações no Brasil. A companhia mexicana encerrou 2025 com mais de 500 mil hectares cultivados sob esse modelo agrÃcola em diferentes paÃses, crescimento de 73% em relação aos mais de 290 mil hectares registrados no ano anterior. O avanço faz parte de uma estratégia de longo prazo para modificar a origem das matérias-primas utilizadas na fabricação de pães, bolos, biscoitos e outros alimentos industrializados, com a meta de obter 100% dos ingredientes considerados essenciais de áreas manejadas com práticas regenerativas até 2050.
No Brasil, a iniciativa deixou a fase experimental e passou à implementação formal em 2025, envolvendo a operação local da empresa, um fornecedor estratégico e produtores rurais. A mudança representa uma ampliação da presença do programa na cadeia agroindustrial brasileira, embora a Bimbo ainda não tenha informado quantos hectares estão abrangidos no paÃs, quais propriedades participam ou qual volume de ingredientes já é adquirido dessas áreas.
Os resultados globais referentes a 2025 foram apresentados originalmente pela companhia em junho de 2026 e reiterados em um comunicado de setembro. O avanço ganhou nova repercussão nesta terça-feira (13), às vésperas das celebrações internacionais relacionadas à agricultura. Portanto, os mais de 500 mil hectares representam o desempenho consolidado ao final do ano passado, e não uma expansão ocorrida exclusivamente em outubro.
A estratégia coloca o fornecimento agrÃcola no centro das iniciativas ambientais do grupo. Em vez de concentrar investimentos apenas nas fábricas, no consumo de energia e nas embalagens, a Bimbo procura atuar também nas propriedades responsáveis pela produção de ingredientes como trigo e milho, considerados fundamentais para sua atividade industrial.
Expansão da Bimbo chega ao Brasil, mas área cultivada ainda não foi divulgada
A formalização do projeto brasileiro ocorreu durante 2025, depois de uma etapa piloto destinada a testar a implementação das práticas agrÃcolas com parceiros locais. A companhia informou que o programa reúne sua equipe no paÃs, um fornecedor estratégico e produtores rurais, sem detalhar a identidade das propriedades participantes ou a localização das áreas de cultivo.
A ausência desses dados impede determinar a participação brasileira nos mais de 500 mil hectares anunciados globalmente. Também não é possÃvel calcular quanto da matéria-prima comprada pela Bimbo no Brasil já provém das propriedades envolvidas na iniciativa.
Essa distinção é importante porque o crescimento de 73% corresponde à operação internacional do grupo. Embora o Brasil faça parte da expansão, não há informações públicas suficientes para atribuir ao mercado brasileiro a mesma taxa de crescimento.
A empresa atua no paÃs com marcas como Pullman, Plusvita, Wickbold, Seven Boys, Rap10 e Ana Maria, entre outras. O tamanho desse portfólio reforça a importância de uma cadeia de fornecimento agrÃcola capaz de assegurar regularidade, qualidade e disponibilidade de ingredientes utilizados em diferentes categorias de produtos.
Para uma indústria de panificação, a relação com os produtores rurais não se limita ao preço de aquisição das matérias-primas. Condições climáticas, produtividade das lavouras, qualidade dos grãos e disponibilidade de insumos influenciam o planejamento industrial e a formação dos custos ao longo de toda a cadeia.
Nesse contexto, a agricultura regenerativa passou a integrar a estratégia de abastecimento da Bimbo. A companhia pretende reduzir vulnerabilidades relacionadas à degradação dos solos e à variabilidade climática, além de estimular métodos de produção capazes de preservar os recursos naturais.
Entretanto, ainda será necessário acompanhar a divulgação de indicadores especÃficos sobre a operação brasileira para avaliar a dimensão econômica e ambiental dos resultados locais.
O que é agricultura regenerativa e como funciona na produção de alimentos?
A agricultura regenerativa reúne práticas de manejo voltadas à recuperação e à manutenção da saúde dos solos, ao aumento da biodiversidade e à melhoria da capacidade dos sistemas agrÃcolas de enfrentar condições ambientais adversas.
Entre as técnicas adotadas nos programas da Bimbo estão o plantio direto, a rotação de culturas e a utilização de plantas de cobertura. A combinação busca reduzir a exposição da terra, diminuir perdas provocadas pela erosão e favorecer processos biológicos fundamentais para a fertilidade.
No plantio direto, o agricultor evita revolver intensamente o solo antes de cada cultivo, mantendo resÃduos vegetais sobre sua superfÃcie. A cobertura contribui para reduzir a ação direta da chuva, moderar a temperatura e conservar parte da umidade necessária ao desenvolvimento das plantas.
A rotação de culturas, por sua vez, alterna espécies cultivadas em uma mesma área. O procedimento pode interromper ciclos de determinadas pragas, diversificar o aproveitamento de nutrientes e melhorar a estrutura fÃsica do terreno.
As plantas de cobertura são utilizadas principalmente para proteger e beneficiar o solo entre cultivos comerciais. Dependendo das espécies selecionadas, podem contribuir para a ciclagem de nutrientes, a produção de biomassa e a redução da erosão.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) reconhece o mÃnimo revolvimento do solo, a manutenção de cobertura orgânica e a diversificação de espécies como princÃpios centrais da agricultura de conservação, abordagem frequentemente incorporada aos sistemas regenerativos.
A aplicação dessas técnicas, contudo, não produz necessariamente os mesmos resultados em todas as propriedades. Seus efeitos dependem das caracterÃsticas do solo, do clima, das espécies cultivadas e da qualidade do manejo.
Por isso, a simples adoção de determinadas práticas não comprova, isoladamente, a recuperação ambiental de uma área. Para demonstrar resultados, são necessários indicadores como evolução da matéria orgânica, disponibilidade de nutrientes, infiltração de água, erosão e diversidade biológica.
Bimbo trabalha com mais de 570 agricultores em diferentes paÃses
A expansão internacional do programa envolve a colaboração com produtores rurais, fornecedores de matérias-primas, moinhos e instituições especializadas em pesquisa agrÃcola.
Segundo o Grupo Bimbo, mais de 570 agricultores receberam capacitação em práticas regenerativas por meio de iniciativas desenvolvidas pela empresa e seus parceiros. O número é global, sem detalhamento da quantidade de participantes em cada paÃs.
Um dos principais parceiros técnicos é o Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT), organização de pesquisa agrÃcola com atuação internacional e experiência na disseminação de tecnologias de manejo conservacionista.
A parceria procura adaptar as práticas às necessidades regionais, considerando diferenças de clima, solo, disponibilidade de água e estrutura produtiva.
No Canadá, um produtor participante em Saskatchewan combina técnicas de plantio direto com monitoramento meteorológico para orientar suas decisões de manejo. A utilização dessas informações ajuda a programar operações agrÃcolas e a reduzir riscos associados à perda de nutrientes.
Nos Estados Unidos, a companhia destaca uma propriedade em Indiana que trabalha com rotação de milho, soja e trigo, além de plantas de cobertura e integração com a pecuária.
Esses exemplos mostram como o programa incorpora sistemas produtivos distintos, em vez de estabelecer um modelo único para todas as localidades.
A iniciativa também chegou ao Reino Unido em 2025, quando a Bimbo iniciou seu primeiro programa europeu com parceiros especializados. A plataforma internacional de agricultura regenerativa da empresa registra ainda operações em México, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Paraguai e França.
A diversificação geográfica amplia a possibilidade de aplicar práticas semelhantes em ambientes agrÃcolas diferentes, mas também aumenta a necessidade de critérios comparáveis para avaliar os resultados.
Parceria com CIMMYT apresenta resultados em lavouras mexicanas
A experiência acumulada no México oferece exemplos de como a estratégia pode funcionar na prática. A colaboração entre Bimbo e CIMMYT começou antes da expansão mais recente e envolve programas especÃficos para culturas como trigo e milho.
Em 2023, o centro de pesquisa relatou que aproximadamente 400 agricultores dos estados mexicanos de Sonora, Sinaloa e Guanajuato haviam sido alcançados pelas atividades relacionadas ao trigo. As iniciativas incluÃam capacitação sobre agricultura de conservação, uso mais eficiente de fertilizantes e manejo de pragas.
Naquele perÃodo, cerca de 7 mil hectares estavam envolvidos em atividades de melhoria do manejo agrÃcola descritas pelo centro de pesquisa.
Outro projeto, desenvolvido na região central de Jalisco, apresentou resultados relacionados à adaptação de equipamentos agrÃcolas. Produtores participantes modificaram semeadoras convencionais para permitir o plantio direto, reduzindo a necessidade de substituir integralmente o maquinário.
Segundo levantamento divulgado pelo CIMMYT em agosto de 2025, a iniciativa havia alcançado mais de 2.800 hectares ao longo de três anos.
O exemplo é relevante porque a transição para sistemas regenerativos pode exigir investimentos em equipamentos, capacitação e acompanhamento técnico. A possibilidade de adaptar máquinas já existentes representa uma alternativa para diminuir parte dos custos iniciais.
Esses resultados, entretanto, pertencem à s experiências mexicanas e não podem ser automaticamente transferidos para a realidade brasileira. Condições produtivas e econômicas diferentes podem influenciar tanto o custo de adoção quanto os benefÃcios obtidos.
A avaliação dos efeitos no Brasil dependerá de dados coletados especificamente nas propriedades que integram o programa nacional.
Redução da safra brasileira de trigo reforça atenção à cadeia de abastecimento
A expansão da agricultura regenerativa ocorre em um momento de desafios para a produção brasileira de trigo, uma das principais matérias-primas utilizadas na indústria de panificação.
De acordo com o 12º Levantamento da Safra de Grãos, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em setembro de 2026, a produção nacional de trigo na temporada 2025/26 estava estimada em 5,7 milhões de toneladas.
O volume representa queda de 27,1% em relação à safra anterior, associada principalmente à redução da área semeada.
O desempenho contrasta com a produção total de grãos do paÃs, estimada pela Conab em 361,7 milhões de toneladas na mesma temporada, crescimento de 2,6% em relação ao ciclo precedente.
A diferença mostra que os resultados do agronegócio brasileiro não são uniformes entre as culturas. Enquanto determinados produtos apresentam expansão, o trigo enfrenta uma retração que pode influenciar a disponibilidade doméstica do cereal e as necessidades de abastecimento da indústria moageira.
Nesse ambiente, práticas voltadas à preservação da fertilidade e à maior resistência dos sistemas agrÃcolas podem adquirir relevância econômica.
Isso não significa que a agricultura regenerativa seja capaz de compensar, por si só, perdas decorrentes de condições climáticas adversas ou de decisões de plantio. Seus efeitos dependem do horizonte de implementação e das caracterÃsticas de cada propriedade.
Também não há informações suficientes para relacionar diretamente as lavouras participantes do programa brasileiro da Bimbo às regiões responsáveis pela produção nacional de trigo.
Ainda assim, a aproximação entre indústria, fornecedores e produtores pode contribuir para ampliar a troca de informações sobre qualidade, rastreabilidade e planejamento da oferta de matérias-primas.
Agricultura regenerativa pode reduzir riscos, mas exige investimentos
A implantação de práticas regenerativas costuma envolver um perÃodo de adaptação para os agricultores. Dependendo do sistema produtivo, podem ser necessários ajustes no calendário de plantio, nas sementes utilizadas, no manejo de fertilizantes e no controle de plantas daninhas.
Também pode haver necessidade de investimentos em máquinas, assistência técnica e monitoramento do solo.
Os ganhos econômicos não são necessariamente imediatos. Algumas melhorias na estrutura e na matéria orgânica do terreno exigem vários ciclos agrÃcolas para se tornarem mensuráveis, enquanto eventuais alterações de produtividade podem ocorrer durante a transição.
Para a indústria, um desafio adicional é assegurar que a adoção das práticas seja acompanhada de critérios de verificação. Sem dados consistentes, torna-se difÃcil distinguir a área efetivamente submetida a mudanças de manejo daquela que apenas recebeu treinamento ou orientação.
Pesquisa publicada em novembro de 2025 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, vinculada à Embrapa, analisou sistemas de plantio direto em propriedades produtoras de trigo no Paraná. O estudo identificou a necessidade de aprimorar a rotação de culturas e o manejo da fertilidade para favorecer o armazenamento de carbono e a resiliência diante de eventos climáticos extremos.
A pesquisa também demonstrou que caracterÃsticas quÃmicas, fÃsicas e biológicas dos solos precisam ser examinadas conjuntamente. A adoção do plantio direto, isoladamente, não elimina todas as limitações associadas à produtividade e à conservação dos recursos naturais.
Essas conclusões reforçam a importância do acompanhamento técnico nos projetos de agricultura regenerativa. Embora o aumento da área abrangida seja um indicador de expansão operacional, a comprovação dos benefÃcios ambientais depende de medições realizadas ao longo do tempo.
Meta para 2050 prevê 100% dos ingredientes-chave de agricultura regenerativa
A principal meta de longo prazo do Grupo Bimbo é obter, até 2050, todos os ingredientes classificados pela companhia como estratégicos de terras cultivadas sob práticas regenerativas.
O compromisso abrange a cadeia internacional de fornecimento, embora a empresa ainda não tenha apresentado no comunicado mais recente a proporção atual desses ingredientes que já atende integralmente aos critérios estabelecidos.
Para 2030, a companhia afirma que pretende manter e fortalecer as práticas existentes. O comunicado de setembro, entretanto, não detalhou novos objetivos intermediários em hectares ou percentuais de ingredientes abrangidos.
Essa ausência limita a possibilidade de avaliar, a partir dos dados anunciados, o ritmo necessário para alcançar a meta de 2050.
A evolução de 290 mil para mais de 500 mil hectares em apenas um ano representa uma ampliação expressiva da cobertura do programa. No entanto, área cultivada e volume de ingredientes efetivamente adquiridos são indicadores diferentes.
Uma propriedade pode adotar determinadas práticas regenerativas sem fornecer toda a sua produção à Bimbo. Da mesma forma, a quantidade de hectares abrangidos não permite determinar automaticamente a participação dessas matérias-primas no abastecimento total da companhia.
Para mensurar o avanço em direção ao objetivo de 2050, seriam necessários dados adicionais sobre volumes comprados, culturas participantes, critérios de classificação e mecanismos de verificação independente.
Sustentabilidade passa a integrar estratégia industrial do grupo
A iniciativa faz parte de uma estratégia ambiental mais ampla da companhia, que também contempla redução de emissões de gases de efeito estufa, gestão da água, diminuição de resÃduos e mudanças nas embalagens.
No Brasil, a Bimbo apresenta compromissos relacionados à redução de emissões diretas e indiretas e ao envolvimento de fornecedores em programas de medição de impactos ambientais.
A extensão dessas ações ao campo reflete uma caracterÃstica da indústria de alimentos: parte relevante dos riscos ambientais e produtivos está presente antes da chegada das matérias-primas à s fábricas.
Ao trabalhar diretamente com fornecedores e produtores, empresas do setor podem ampliar sua capacidade de acompanhar a origem dos ingredientes e estimular melhorias no manejo agrÃcola.
A transição também pode criar oportunidades para produtores que consigam demonstrar conformidade com critérios de fornecimento mais exigentes. Entretanto, eventuais benefÃcios comerciais, preços diferenciados ou contratos de longo prazo dependem das condições negociadas com cada comprador.
A Bimbo não divulgou se os participantes brasileiros recebem remuneração adicional pela adoção das práticas regenerativas, tampouco informou os custos totais do projeto no paÃs.
Sem esses números, não é possÃvel calcular o retorno financeiro da iniciativa brasileira nem estabelecer seu impacto sobre os preços dos produtos vendidos ao consumidor.
Expansão no Brasil dependerá de resultados mensuráveis
O avanço global para mais de 500 mil hectares marca uma nova escala para a estratégia agrÃcola do Grupo Bimbo. A ampliação de 73% em um ano indica que o programa deixou de ser restrito a experiências localizadas e passou a integrar uma rede internacional de fornecedores e produtores.
No Brasil, a transformação do projeto piloto em implementação formal representa uma etapa importante, mas ainda inicial do ponto de vista da transparência dos resultados.
A dimensão efetiva da iniciativa dependerá da divulgação de informações sobre hectares cultivados, número de produtores, culturas abrangidas, volumes adquiridos e indicadores ambientais obtidos nas propriedades brasileiras.
A trajetória internacional da companhia demonstra que a adoção dessas práticas pode envolver assistência técnica, adaptações de equipamentos e parcerias de pesquisa. O desafio seguinte é verificar até que ponto essas mudanças geram melhorias duradouras na qualidade dos solos e na segurança do abastecimento industrial.
Para o Grupo Bimbo, a agricultura regenerativa passou a ocupar uma posição estratégica na relação entre produção agrÃcola, sustentabilidade e disponibilidade de matérias-primas. Para os produtores brasileiros, o alcance dessa transformação dependerá não apenas da expansão dos programas, mas também das condições econômicas oferecidas para a transição e dos resultados que possam ser comprovados ao longo dos próximos anos.
Fontes
- Grupo Bimbo — Comunicado institucional de 9 de setembro de 2026 sobre crescimento de 73% da agricultura regenerativa e superação de 500 mil hectares.
- Grupo Bimbo — Comunicado de 5 de junho de 2026 sobre a expansão global e formalização do programa brasileiro.
- Grupo Bimbo — Plataforma institucional de agricultura regenerativa, indicadores de participação e metas para 2050.
- Bimbo Brasil — Informações institucionais sobre sustentabilidade e portfólio de marcas.
- Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT) — Estudos e relatórios de projetos com o Grupo Bimbo no México, divulgados em 2023 e 2025.
- Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) — PrincÃpios técnicos da agricultura de conservação.
- Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) — 12º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, setembro de 2026.
- Embrapa — Pesquisa sobre manejo do solo, armazenamento de carbono e produtividade do trigo em propriedades agrÃcolas do Paraná, publicada em novembro de 2025.










