Um grupo de bispos e arcebispos católicos divulgou uma carta com crÃticas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, a dois dias do segundo turno das eleições de 2026. O documento, publicado na quinta-feira (22), questiona posições polÃticas associadas ao senador nas áreas de democracia, meio ambiente, direitos trabalhistas e programas sociais. Embora não mencione nominalmente os presidenciáveis, o texto faz referências ao governo Jair Bolsonaro e estabelece diferenças entre os projetos polÃticos em disputa. A manifestação também provocou esclarecimentos sobre a distinção entre posições individuais de religiosos e pronunciamentos oficiais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Intitulada “Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026”, a manifestação utiliza princÃpios da Doutrina Social da Igreja para avaliar propostas dos candidatos. Os signatários afirmam que uma das candidaturas representa riscos à ordem democrática, à soberania nacional e à proteção das populações mais vulneráveis. Em contrapartida, apresentam uma avaliação favorável a aspectos da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente nas polÃticas sociais e ambientais. O documento ressalva que o atual presidente também está sujeito a crÃticas.
A versão inicialmente divulgada reunia 47 nomes de autoridades religiosas, enquanto uma atualização disponibilizada pelo Centro Nacional de Fé e PolÃtica Dom Helder Câmara (CEFEP) passou a apresentar 54 signatários. Outras contagens circularam durante a divulgação do manifesto, indicando que a lista sofreu alterações. Entre os participantes estão bispos, arcebispos e religiosos eméritos de diferentes regiões brasileiras. A carta representa a posição de seus signatários, não uma manifestação formal de todo o episcopado nacional.
Carta aponta riscos à democracia e critica legado de Jair Bolsonaro
A defesa das instituições democráticas é um dos principais argumentos apresentados pelos religiosos. O documento faz referência à condenação de Jair Bolsonaro por sua participação na tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022 e questiona a continuidade de determinadas orientações polÃticas na candidatura de seu filho. Os autores também citam experiências autoritárias do século XX para justificar suas preocupações. Essas comparações expressam a avaliação polÃtica dos signatários e não atribuem automaticamente a Flávio Bolsonaro responsabilidade pelos atos de seu pai.
O manifesto também critica posições relacionadas à polÃtica externa brasileira. Os religiosos questionam o que interpretam como alinhamento excessivo aos interesses dos Estados Unidos, particularmente em assuntos comerciais e na exploração de recursos estratégicos. A carta associa essas preocupações à defesa da soberania nacional e do bem comum. As afirmações sobre eventuais compromissos do candidato representam interpretações dos autores e exigem distinção em relação à s propostas formalmente apresentadas pela campanha.
Meio ambiente, Bolsa FamÃlia e jornada de trabalho estão entre as crÃticas
Na área ambiental, os bispos questionam a possibilidade de continuidade de polÃticas adotadas durante o governo Jair Bolsonaro. O documento menciona a Lei nº 15.190/2025, relacionada ao licenciamento ambiental, e associa a preservação dos recursos naturais aos princÃpios da encÃclica Laudato si’, publicada pelo papa Francisco. Para os signatários, o enfrentamento da crise climática deve integrar as prioridades de qualquer governo. A posição reflete o conceito de ecologia integral defendido pela Igreja Católica.
Os programas sociais também aparecem entre os pontos de divergência. A carta critica posições historicamente atribuÃdas ao partido de Flávio Bolsonaro e questiona a consistência dos compromissos recentes do candidato com a manutenção de benefÃcios destinados à população de baixa renda. Os religiosos recorrem à tradição social católica para defender a proteção dos grupos mais vulneráveis. O documento, entretanto, não demonstra que programas especÃficos serão necessariamente encerrados em um eventual governo do PL.
Outro tema abordado é a organização da jornada de trabalho. Os signatários criticam posições contrárias ao fim da escala 6×1 e propostas de remuneração por hora trabalhada, relacionando essas questões à dignidade e aos direitos dos empregados. Também questionam polÃticas de ampliação do acesso a armas de fogo e manifestações favoráveis a personagens associados à repressão durante a ditadura militar. Para os autores, essas posições entram em conflito com princÃpios de proteção da vida e promoção da paz.
CNBB esclarece que carta não representa posição oficial da entidade
Nesta sexta-feira (23), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil publicou uma nota esclarecendo quais instâncias possuem competência para se manifestar oficialmente em seu nome. Segundo a entidade, essa atribuição pertence à Assembleia Geral, ao Conselho Permanente e à Presidência, conforme as disposições de seu Estatuto Canônico. Comissões episcopais e conselhos regionais também podem se pronunciar dentro de suas respectivas competências. A explicação estabelece que manifestações assinadas individualmente por bispos não devem ser automaticamente atribuÃdas à Conferência.
A distinção é relevante porque os signatários da carta afirmam estar em comunhão com a CNBB e alinhados à mensagem divulgada por seu Conselho Permanente. Essa identificação, contudo, não transforma o manifesto em posicionamento institucional da entidade. A nota da Conferência esclarece as regras de representação, sem constituir uma decisão sobre a validade das opiniões polÃticas apresentadas pelos religiosos. Também não significa que a CNBB tenha formalmente endossado as crÃticas direcionadas à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Na quarta-feira (21), o Conselho Permanente da CNBB havia divulgado uma mensagem própria sobre o segundo turno. O documento defende o respeito à Constituição, ao Estado Democrático de Direito e aos resultados legÃtimos das urnas. Também recomenda a participação consciente dos eleitores e destaca a importância dos direitos fundamentais, da proteção social e da preservação ambiental. Diferentemente da carta dos bispos, a manifestação oficial não estabelece uma comparação direta entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Religiosos utilizam ensinamentos da Igreja para avaliar candidaturas
A carta apresenta referências a documentos da Igreja Católica sobre dignidade humana, justiça social e responsabilidade polÃtica. Entre eles estão a encÃclica Laudato si’, a exortação apostólica Dilexi Te e textos clássicos da Doutrina Social da Igreja. Os signatários utilizam esses ensinamentos para fundamentar suas crÃticas à s posições associadas ao candidato do PL. Trata-se de uma aplicação desses princÃpios religiosos ao cenário eleitoral brasileiro.
O arcebispo dom Luiz Fernando Lisboa, de Cachoeiro de Itapemirim, no EspÃrito Santo, defendeu publicamente a necessidade de os católicos considerarem os ensinamentos sociais da Igreja ao escolher o próximo presidente. Outros signatários atuam em dioceses e arquidioceses das cinco regiões brasileiras, incluindo dom Roque Paloschi, de Porto Velho, e dom Paulo Mendes Peixoto, de Uberaba. A abrangência geográfica demonstra a participação de lideranças religiosas de diferentes localidades. Não há, entretanto, elementos para afirmar que o conjunto dos católicos brasileiros compartilhe das avaliações expressas no manifesto.
A participação de autoridades religiosas no debate polÃtico é assegurada pela liberdade de expressão e de religião. Ao mesmo tempo, a diversidade de interpretações dentro da Igreja exige cuidado para não apresentar posições de grupos especÃficos como orientações institucionais obrigatórias. Documentos religiosos podem oferecer critérios éticos para a avaliação de polÃticas públicas, mas a escolha eleitoral pertence individualmente aos cidadãos. Essa distinção é particularmente importante quando manifestações são divulgadas à s vésperas de uma votação.
Manifesto amplia debate polÃtico antes do segundo turno
A divulgação da carta ocorre em um momento decisivo da campanha presidencial, com Lula e Flávio Bolsonaro disputando o segundo turno no domingo, 25 de outubro. O documento acrescenta à discussão eleitoral temas como proteção social, democracia, direitos trabalhistas e preservação ambiental. Embora não cite diretamente os candidatos, suas referências ao governo Jair Bolsonaro identificam o alvo das principais crÃticas. O texto também diferencia as candidaturas ao apresentar uma avaliação mais favorável à trajetória polÃtica do atual presidente.
A manifestação dos bispos e a mensagem oficial da CNBB possuem, portanto, alcances distintos. Enquanto o grupo de religiosos apresenta crÃticas direcionadas a uma das candidaturas, a Conferência concentra seu pronunciamento institucional na defesa da democracia e dos direitos fundamentais. A diferença não elimina a relevância polÃtica da carta, mas impede que suas conclusões sejam atribuÃdas automaticamente à Igreja Católica como um todo. Com a aproximação da votação, o manifesto passa a integrar o debate público sobre os projetos apresentados pelos presidenciáveis.
Fontes
Centro Nacional de Fé e PolÃtica Dom Helder Câmara (CEFEP) — Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026, de 22 de outubro de 2026.
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) — Nota oficial sobre quem pode agir e falar em nome da CNBB, de 23 de outubro de 2026.
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) — Mensagem do Conselho Permanente ao Povo Brasileiro sobre o segundo turno das eleições, de 21 de outubro de 2026.
Santa Sé — Carta EncÃclica Laudato si’, do papa Francisco.
Santa Sé — Exortação Apostólica Dilexi Te, do papa Leão XIV.
Tribunal Superior Eleitoral — Calendário oficial das Eleições Gerais de 2026.








