A relação entre Flávio Bolsonaro (PL) e Robson Calixto da Fonseca, conhecido como Peixe, voltou ao debate polÃtico nesta sexta-feira (23), após a circulação de informações sobre uma emenda parlamentar de aproximadamente R$ 200 mil destinada pelo senador a uma organização não governamental no Rio de Janeiro. A verba foi encaminhada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), investigado pela PolÃcia Federal por suspeitas de irregularidades na aplicação de recursos públicos. Mensagens obtidas pelos investigadores mostram que Peixe procurou uma assessora do gabinete de Flávio para solicitar apoio à entidade. O ex-assessor dos irmãos Brazão foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro de 2026, a nove anos de prisão por integrar uma organização criminosa armada relacionada ao caso Marielle Franco.
O episódio ganhou nova repercussão durante o segundo turno presidencial, quando a expressão “Flávio Bolsonaro Peixe” passou a circular nas redes sociais e em mecanismos de busca. A divulgação das informações ocorre em meio à disputa entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja votação está marcada para domingo (25). Os documentos conhecidos indicam a existência de tratativas entre Peixe e uma integrante do gabinete parlamentar, seguidas da destinação da emenda. Não há, entretanto, comprovação de que o senador tenha participado de desvios ou conhecimento de eventuais irregularidades na execução dos recursos.
A PolÃcia Federal investiga a utilização de organizações da sociedade civil para o recebimento de emendas parlamentares e a possÃvel transferência indevida de valores a empresas e pessoas ligadas aos responsáveis pelas entidades. A apuração envolve suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. No caso do Ifop, os investigadores examinam a destinação dos recursos públicos e a participação de pessoas vinculadas ao grupo polÃtico dos irmãos Brazão. Flávio Bolsonaro afirma que a emenda seguiu os procedimentos legais e que a fiscalização da execução cabe aos órgãos competentes.
Quem é Peixe, citado na investigação envolvendo Flávio Bolsonaro
Robson Calixto da Fonseca, conhecido como Peixe, é ex-policial militar e trabalhou como assessor de Domingos Brazão na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e no Tribunal de Contas do Estado. Segundo as investigações do caso Marielle Franco, ele mantinha relações próximas com os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apontados como responsáveis pelo planejamento do assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes, ocorrido em março de 2018. A Procuradoria-Geral da República identificou Calixto como integrante da estrutura criminosa ligada ao grupo. Ele também foi associado, pelas investigações, a atividades de intermediação polÃtica e financeira.
Em 25 de fevereiro de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Peixe a nove anos de prisão pelo crime de participação em organização criminosa armada. A condenação ocorreu na Ação Penal 2434, que também resultou em penas contra os irmãos Brazão e outros acusados. É importante distinguir as responsabilidades: Peixe foi condenado por integrar a organização criminosa, e não pelos homicÃdios de Marielle Franco e Anderson Gomes. A decisão foi mantida após a rejeição de recursos em junho.
As investigações apontaram ainda que Calixto atuava como intermediário em contatos polÃticos destinados à obtenção de recursos para determinadas entidades. Mensagens extraÃdas de seu telefone celular passaram a integrar apurações sobre a destinação de emendas parlamentares. Entre essas conversas estão os contatos com uma assessora de Flávio Bolsonaro em 2023. O conteúdo das mensagens se tornou relevante para compreender como o pedido de recursos chegou ao gabinete do senador.
Mensagens revelam pedido de recursos a assessora do senador
Em outubro de 2023, Peixe procurou Maria de Fátima Bezerra Castro, conhecida como Fafá, que trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro. Nas mensagens obtidas pela PolÃcia Federal, ele pediu que a assessora verificasse a possibilidade de o senador apoiar financeiramente o Ifop. A interlocutora respondeu com orientações sobre um evento no qual Flávio estaria presente no Rio de Janeiro. O diálogo indica que o pedido foi encaminhado por meio de contatos polÃticos mantidos pelo ex-assessor dos Brazão.
Nos dias seguintes, Peixe voltou a procurar a assessora para reforçar a solicitação de recursos. A emenda de R$ 199.999,79 foi destinada ao instituto em novembro de 2023. Os valores deveriam financiar o projeto esportivo Jogadores do Futuro, voltado ao atendimento de crianças por meio de atividades de futebol. A sequência cronológica entre o pedido e a destinação da verba passou a ser examinada pelos investigadores.
Os registros demonstram a existência de contato entre Peixe e uma integrante do gabinete, mas não esclarecem, por si só, qual foi o grau de conhecimento do senador sobre a atuação do intermediário. Também não comprovam que o parlamentar tenha participado das decisões administrativas tomadas posteriormente pela entidade beneficiária. A distinção é relevante porque a indicação de uma emenda e sua execução constituem etapas diferentes da utilização de recursos públicos. A investigação procura estabelecer as responsabilidades em cada uma delas.
ONG recebeu recursos de Flávio Bolsonaro e de outros parlamentares
O Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio recebeu aproximadamente R$ 2 milhões em emendas parlamentares relacionadas aos projetos examinados pela PolÃcia Federal. Além dos R$ 200 mil indicados por Flávio Bolsonaro, a entidade foi beneficiada por R$ 300 mil destinados pela deputada federal Chris Tonietto (PL-RJ). O então deputado federal Chiquinho Brazão também indicou R$ 1,5 milhão para um projeto de capacitação profissional. Os recursos foram destinados a iniciativas distintas, com finalidades e perÃodos próprios de execução.
No projeto Jogadores do Futuro, a verba indicada por Flávio deveria financiar atividades esportivas e a aquisição de materiais para crianças atendidas pela organização. Documentos relacionados à prestação de contas levantaram dúvidas sobre a comprovação de determinadas despesas. Entre os pontos examinados aparecem compras de chuteiras e outros equipamentos esportivos. Relatos de responsáveis por participantes indicaram que parte dos materiais previstos não teria sido entregue.
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), mencionada nas apurações, também apontou problemas na forma de aquisição de produtos e contratação de serviços pela entidade. Entre as preocupações estão a ausência de demonstração de condições comerciais mais vantajosas e a possibilidade de utilização inadequada dos recursos. Os apontamentos justificam a necessidade de aprofundamento da fiscalização, mas não representam automaticamente uma decisão definitiva de responsabilização de todos os envolvidos. É necessário distinguir as irregularidades atribuÃdas à organização das responsabilidades individuais dos parlamentares que indicaram as verbas.
PolÃcia Federal investiga suspeitas de desvio de emendas
A apuração sobre o Ifop integra um contexto mais amplo de fiscalização do uso de recursos públicos destinados a organizações da sociedade civil. Em 9 de julho de 2026, a PolÃcia Federal deflagrou a Operação Emendatio, em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), para investigar suspeitas de desvio de emendas parlamentares federais no Rio de Janeiro. A ação cumpriu dois mandados de prisão preventiva e 21 de busca e apreensão, além de medidas de bloqueio patrimonial de R$ 100 milhões. As ordens foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal.
Segundo a PF, as investigações identificaram indÃcios de pagamentos indevidos, utilização de empresas intermediárias e mecanismos destinados a ocultar a origem e a destinação de recursos. A CGU apontou suspeitas de superfaturamento, combinação de propostas entre empresas participantes de cotações e descumprimento de obrigações contratuais. A investigação busca determinar quais pessoas participaram das operações e identificar eventuais beneficiários dos valores. As conclusões dependem do exame dos documentos e das demais provas reunidas.
A existência dessas suspeitas não significa que todos os parlamentares responsáveis por indicar emendas à s organizações investigadas tenham participado de desvios. A responsabilidade pela escolha de uma entidade, a fiscalização administrativa e a execução financeira devem ser analisadas conforme as atribuições de cada agente. Para eventual responsabilização criminal, é necessária a demonstração de conduta individual relacionada aos fatos investigados. No caso de Flávio Bolsonaro, as informações disponÃveis não apontam condenação nem acusação criminal formal decorrente da emenda ao Ifop.
O que dizem Flávio Bolsonaro e o instituto investigado
A assessoria de Flávio Bolsonaro afirma que os recursos foram destinados de acordo com a legislação e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. Segundo o senador, a responsabilidade pela execução das atividades e pela aplicação financeira dos valores pertence à organização beneficiada. O candidato também defende que eventuais irregularidades sejam examinadas pelos órgãos de controle. Sua manifestação não equivale a uma confirmação de participação no esquema investigado.
O Ifop, por sua vez, declarou desconhecer a participação de Robson Calixto na obtenção da emenda parlamentar. A organização afirma que não mantém relações com Peixe nem com a famÃlia Brazão e informou ter contratado serviços especializados para elaborar projetos e apresentá-los a gabinetes parlamentares. Segundo a entidade, representantes realizaram contatos institucionais para buscar recursos destinados à s atividades propostas. Essas explicações integram as manifestações apresentadas em resposta à s suspeitas.
A deputada Chris Tonietto também declarou que integrantes de sua equipe visitaram o instituto antes da destinação de sua emenda. Segundo a parlamentar, o gabinete acompanhou aspectos do projeto, mas não participou da seleção de fornecedores ou da realização dos pagamentos. Ela afirmou ser favorável à investigação de eventuais irregularidades. A posição reforça a necessidade de apurar separadamente as circunstâncias relacionadas a cada indicação parlamentar.
Por que a expressão Flávio Bolsonaro Peixe ganhou repercussão
A busca pela expressão “Flávio Bolsonaro Peixe” ganhou visibilidade nesta sexta-feira, depois que apoiadores de Lula passaram a divulgar o termo nas redes sociais como referência à s reportagens sobre a emenda destinada ao Ifop. A mobilização ocorreu na reta final da campanha presidencial e resgatou investigações divulgadas anteriormente, especialmente em setembro. O assunto passou a reunir discussões sobre financiamento de projetos sociais, relações polÃticas e o histórico criminal de Robson Calixto. A circulação da expressão não acrescenta, por si só, novas provas aos procedimentos investigativos.
O episódio evidencia como fatos anteriores podem retornar ao debate público quando associados a acontecimentos eleitorais. As mensagens de 2023 e a indicação de recursos passaram a receber maior atenção após a condenação de Peixe e a divulgação das suspeitas envolvendo o instituto. A proximidade do segundo turno ampliou a repercussão das informações. Ainda assim, o interesse nas redes sociais não deve ser confundido com o estágio das investigações policiais ou judiciais.
O ponto central da reportagem é a existência de uma emenda parlamentar cuja solicitação foi intermediada, conforme mensagens obtidas pela PolÃcia Federal, por uma pessoa posteriormente condenada por organização criminosa. Essa circunstância justifica o interesse público sobre os procedimentos de indicação e fiscalização de recursos. Entretanto, a condenação de Peixe no caso Marielle não estabelece responsabilidade de Flávio Bolsonaro pelos crimes examinados naquela ação penal. O senador não foi condenado nem identificado como participante dos assassinatos nessa investigação.
O que ainda precisa ser esclarecido
A investigação sobre a emenda parlamentar precisa determinar a efetiva aplicação dos R$ 199.999,79 destinados ao projeto Jogadores do Futuro. Também será necessário esclarecer se os materiais e serviços contratados foram entregues conforme os documentos apresentados e se houve pagamentos sem correspondência com as atividades executadas. Outro ponto relevante é identificar a extensão da participação de intermediários na escolha da entidade e na destinação dos recursos. Essas questões dependem de provas documentais e da avaliação dos órgãos de fiscalização.
O caso também coloca em discussão os mecanismos de controle sobre emendas parlamentares destinadas ao terceiro setor. A apresentação de projetos, a análise técnica, a liberação financeira e a prestação de contas são etapas que envolvem responsabilidades diferentes. A existência de um projeto aprovado não elimina a necessidade de fiscalização posterior, especialmente quando surgem indÃcios de execução irregular. A atuação conjunta da PF e da CGU busca esclarecer essas etapas e identificar possÃveis desvios.
Às vésperas do segundo turno presidencial, a relação entre Flávio Bolsonaro e Peixe permanece no debate polÃtico por causa das mensagens identificadas pelos investigadores e da destinação da emenda ao Ifop. O histórico criminal de Calixto e as suspeitas sobre a organização beneficiada explicam a atenção dada ao episódio. A apuração, contudo, ainda precisa estabelecer se houve irregularidades na execução dos recursos e quem eventualmente participou delas. Até a conclusão dos procedimentos, devem ser preservadas as diferenças entre fatos documentados, suspeitas investigadas e responsabilidades juridicamente comprovadas.
Fontes
PolÃcia Federal — Operação Emendatio, comunicado oficial de 9 de julho de 2026 sobre investigação de desvio de recursos de emendas parlamentares no Rio de Janeiro.
Controladoria-Geral da União — Comunicado oficial da Operação Emendatio, de 9 de julho de 2026, com informações sobre irregularidades identificadas em parcerias com organizações da sociedade civil.
Supremo Tribunal Federal — Ação Penal 2434, julgamento de 25 de fevereiro de 2026, com condenação de Robson Calixto da Fonseca por participação em organização criminosa.
Supremo Tribunal Federal — Decisão de 19 de junho de 2026, divulgada em 22 de junho, sobre a rejeição de recursos na Ação Penal 2434.
Tribunal de Contas da União — Apontamentos de auditoria sobre a aplicação de recursos públicos pelo Ifop, conforme informações divulgadas sobre os procedimentos de fiscalização.
Documentos de emendas parlamentares e prestação de contas do projeto Jogadores do Futuro, citados nas investigações e na cobertura pública do caso.








