O mercado financeiro voltou a reduzir suas expectativas para o crescimento da economia brasileira e elevou a projeção de inflação para 2026. Segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (28) pelo Banco Central, a estimativa para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano passou de 1,88% para 1,86%, enquanto a previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou de 4,92% para 4,99%, afastando-se do limite superior da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
A deterioração das expectativas de crescimento não está restrita ao desempenho de 2026. Os participantes da pesquisa também revisaram para baixo as estimativas para 2027 e 2028, indicando menor dinamismo da atividade econômica nos próximos anos. Para 2027, a mediana das projeções recuou de 1,43% para 1,41%, aproximando-se da previsão de 1,4% apresentada pelo próprio Banco Central em seu Relatório de Política Monetária de setembro.
O movimento ocorre em um momento de desaceleração já identificada pelos indicadores oficiais. Depois de encerrar 2025 com crescimento de 2,3%, a economia brasileira avançou 1,1% no primeiro trimestre de 2026 e 0,5% no segundo, consideradas as comparações com os trimestres imediatamente anteriores e os ajustes sazonais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Embora o país continue registrando expansão da produção, a perda de velocidade das atividades mais sensíveis ao crédito e ao consumo tornou-se um componente relevante das projeções econômicas. O cenário combina menor crescimento, expectativas inflacionárias ainda superiores à meta e uma taxa básica de juros que, apesar dos cortes realizados ao longo do ano, permanece em patamar restritivo.
A nova pesquisa Focus reúne as expectativas coletadas até sexta-feira (25). Os resultados representam a mediana das estimativas apresentadas pelas instituições participantes e não devem ser confundidos com projeções próprias do Banco Central ou com resultados econômicos efetivamente registrados.
Crescimento menor amplia distância entre projeções para 2026 e 2027
A revisão do PIB para 1,86% consolida uma sequência recente de reduções nas estimativas do mercado. No levantamento de 14 de setembro, a previsão estava em 1,89%. Uma semana depois, recuou para 1,88%, antes de alcançar o patamar divulgado nesta segunda-feira.
A trajetória demonstra uma mudança gradual na avaliação sobre a capacidade de expansão da economia brasileira durante o segundo semestre. Embora as revisões semanais sejam relativamente pequenas, sua continuidade indica que os analistas vêm incorporando perspectivas menos favoráveis para a demanda doméstica, o consumo e os investimentos.
O desempenho esperado para 2026 também representa uma desaceleração de 0,44 ponto percentual em relação ao crescimento de 2,3% registrado em 2025. A diferença não significa retração econômica, mas aponta para uma expansão inferior à observada no ano anterior.
Para 2027, o cenário é de crescimento ainda mais moderado. A previsão de 1,41% indica que o mercado não espera uma recuperação expressiva da atividade logo no primeiro ano seguinte. As estimativas para 2028 também passaram por revisão negativa, reforçando a percepção de que a desaceleração poderá ultrapassar o horizonte imediato.
A leitura ganha relevância quando comparada às projeções institucionais divulgadas na última semana.
Em 22 de setembro, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda reduziu de 2,3% para 2% sua estimativa de crescimento do PIB em 2026. Para 2027, o governo revisou a previsão de 2,5% para 2,3%.
Dois dias depois, o Banco Central apresentou um cenário menos favorável. Em seu Relatório de Política Monetária, publicado em 24 de setembro, a autoridade monetária reduziu de 2% para 1,8% a estimativa de crescimento da economia brasileira em 2026 e projetou expansão de 1,4% em 2027.
Essa comparação revela uma diferença importante entre as avaliações para o próximo ano. Enquanto a Fazenda trabalha com crescimento de 2,3%, as estimativas do Banco Central e do mercado financeiro estão próximas de 1,4%.
A divergência não representa uma inconsistência estatística, mas reflete hipóteses distintas sobre a velocidade de recuperação do consumo, os efeitos da redução dos juros, o desempenho setorial e as condições de financiamento da economia.
No cenário da Fazenda, a flexibilização monetária iniciada em 2026 deverá favorecer gradualmente o crédito, os investimentos e as atividades mais sensíveis às condições financeiras. O Ministério também considera a continuidade da expansão da indústria extrativa e das exportações associadas.
Já o Banco Central destaca que os efeitos da política monetária sobre a economia ocorrem com defasagem e que a moderação da atividade deve prosseguir durante 2026 e 2027.
Inflação projetada volta a subir, apesar da deflação de agosto
O outro movimento relevante do Focus desta segunda-feira foi a elevação da expectativa para o IPCA de 2026, de 4,92% para 4,99%. A nova estimativa supera em 0,49 ponto percentual o limite superior de tolerância da meta de inflação.
O Conselho Monetário Nacional estabelece uma meta central de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Portanto, a faixa considerada para o acompanhamento da inflação vai de 1,5% a 4,5%.
Desde janeiro de 2025, o Brasil adota o regime de meta contínua, no qual a inflação acumulada em 12 meses é avaliada mensalmente. Pela regulamentação, considera-se formalmente descumprida a meta quando o IPCA permanece fora do intervalo de tolerância durante seis meses consecutivos.
Isso significa que a projeção de 4,99% para dezembro não representa, por si só, um descumprimento formal já ocorrido. Trata-se de uma expectativa de mercado que, caso confirmada, colocaria a inflação acima do limite superior estabelecido pelo CMN.
A elevação também contrasta com o resultado efetivo mais recente do IPCA. Segundo o IBGE, os preços ao consumidor recuaram 0,32% em agosto, depois de uma alta de 0,07% em julho. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses diminuiu de 4,44% para 4,22%, permanecendo dentro do intervalo de tolerância, embora acima do centro da meta.
No acumulado de janeiro a agosto, o indicador registrou alta de 3,11%. A queda mensal foi influenciada principalmente pelo comportamento dos preços de habitação, transportes e alimentação e bebidas.
Entretanto, os indicadores divulgados posteriormente sugerem que parte do alívio observado em agosto poderá não se repetir.
Na sexta-feira (25), o IBGE informou que o IPCA-15 de setembro avançou 0,70%, depois de apresentar deflação de 0,40% em agosto. A prévia da inflação acumulou 3,82% no ano e 4,47% nos últimos 12 meses, aproximando-se novamente do teto de tolerância.
É importante distinguir os dois indicadores: o IPCA-15 utiliza um período de coleta e uma abrangência geográfica diferentes dos empregados no IPCA cheio. Seu resultado funciona como referência para a tendência dos preços, mas não corresponde antecipadamente ao resultado definitivo da inflação de setembro.
A combinação de indicadores ajuda a explicar por que a desaceleração econômica não foi acompanhada de uma revisão equivalente para baixo das expectativas de inflação.
Além dos efeitos temporários observados nas tarifas de energia elétrica, o comportamento futuro dos preços dependerá da evolução dos alimentos, combustíveis, serviços e demais componentes da cesta de consumo.
Para 2027, o Focus também registrou deterioração marginal das expectativas. A projeção de inflação subiu de 4,30% para 4,31%. Embora permaneça abaixo do limite superior de tolerância, a estimativa ainda supera o centro de 3% perseguido pela política monetária.
O mercado também elevou a previsão de reajuste dos preços administrados em 2026, de 4,61% para 4,63%, e a expectativa para o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), de 4,73% para 4,76%.
Selic permanece elevada e recuperação do crédito depende da inflação
Apesar da piora nas expectativas de inflação, os participantes do Focus mantiveram em 13,50% ao ano a previsão para a Selic no encerramento de 2026. Para 2027, a estimativa permaneceu em 12% ao ano.
Atualmente, a taxa básica de juros está em 13,75%, após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de 16 de setembro. A redução de 0,25 ponto percentual deu continuidade ao processo de flexibilização monetária iniciado em março, quando os juros estavam em 15%.
A manutenção da projeção de 13,50% indica que o mercado ainda considera possível uma redução adicional de 0,25 ponto percentual até dezembro, embora essa trajetória dependa das próximas decisões do Copom.
Os juros elevados continuam desempenhando papel relevante no comportamento da atividade econômica. O custo do crédito influencia diretamente o financiamento de veículos, imóveis, investimentos produtivos e capital de giro das empresas. Também interfere nas decisões de consumo das famílias, sobretudo em operações parceladas e empréstimos de prazo mais longo.
A transmissão da política monetária, contudo, não ocorre imediatamente. Mesmo depois de uma redução da Selic, contratos já existentes, condições bancárias, risco de inadimplência e expectativas sobre a inflação podem retardar o barateamento efetivo do crédito.
Esse intervalo ajuda a compreender por que as perspectivas de crescimento continuam moderadas, apesar dos cortes de juros realizados pelo Banco Central.
Na ata da reunião de setembro, o Copom reconheceu a moderação gradual da atividade econômica, especialmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico, mas ressaltou que o mercado de trabalho permanecia aquecido e que as expectativas de inflação continuavam acima da meta.
O colegiado também destacou a necessidade de acompanhar a conjuntura internacional, as condições financeiras e os potenciais impactos de choques sobre os preços de energia e alimentos.
No mercado de câmbio, o Focus manteve a projeção para o dólar em R$ 5,20 no encerramento de 2026. Para 2027, a expectativa permaneceu em R$ 5,28. A estabilidade dessas estimativas contrasta com as revisões nas expectativas para inflação e crescimento, indicando que a pesquisa não registrou alteração equivalente na mediana das previsões cambiais.
A trajetória do dólar representa outra variável importante para o cenário inflacionário, uma vez que oscilações cambiais podem influenciar os custos de importação, os preços de insumos industriais e as condições de comercialização de produtos vinculados ao mercado internacional.
O conjunto das projeções aponta, portanto, para um período em que a economia brasileira deverá enfrentar simultaneamente crescimento moderado e inflação resistente. O principal desafio para a política monetária será conciliar a continuidade do processo de desinflação com a redução gradual da restrição imposta pelos juros sobre o consumo e os investimentos.
A próxima sequência de indicadores econômicos, especialmente o IPCA definitivo de setembro, os dados do mercado de trabalho e as estatísticas de atividade, deverá fornecer elementos adicionais para avaliar se a desaceleração prevista pelo mercado está se consolidando e em que velocidade a inflação poderá retornar ao centro da meta.
Fontes:
Banco Central do Brasil — Pesquisa Focus, referência de 25 de setembro de 2026, divulgada em 28 de setembro.
Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária, setembro de 2026, e ata da 281ª reunião do Copom.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, segundo trimestre de 2026; IPCA de agosto e IPCA-15 de setembro de 2026.
Ministério da Fazenda — Secretaria de Política Econômica, Boletim Macrofiscal de setembro de 2026.









