Os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado somaram R$ 105,934 bilhões em agosto, segundo dados divulgados pelo Banco Central. O resultado ficou R$ 6,971 bilhões acima dos R$ 98,963 bilhões registrados em julho e representa crescimento de aproximadamente 42,6% em relação a agosto de 2025, quando a conta havia alcançado R$ 74,3 bilhões. De janeiro a agosto deste ano, os juros acumulam R$ 774,550 bilhões, enquanto o resultado em 12 meses chegou a R$ 1,182 trilhão, equivalente a 8,86% do Produto Interno Bruto.
A pressão dos juros ocorreu mesmo em um mês de melhora do resultado primário. O setor público consolidado registrou déficit primário de aproximadamente R$ 10 bilhões em agosto, abaixo dos R$ 17,3 bilhões observados no mesmo período do ano passado. Depois da incorporação dos juros, porém, o déficit nominal chegou a R$ 115,9 bilhões no mês. Em 12 meses, o resultado nominal negativo alcançou R$ 1,264 trilhão, equivalente a 9,48% do PIB.
A diferença entre os dois indicadores mostra o peso da conta financeira sobre o resultado fiscal. O déficit primário acumulado em 12 meses foi de R$ 82,1 bilhões, ou 0,62% do PIB, enquanto os juros nominais chegaram a R$ 1,182 trilhão no mesmo intervalo. Em valores nominais, portanto, os juros foram aproximadamente 14,4 vezes superiores ao déficit primário acumulado.
Essa comparação não significa que todo o valor dos juros represente desembolso de caixa realizado no período. As estatísticas fiscais do Banco Central registram os juros pelo regime de competência e incorporam diferentes componentes financeiros, incluindo os efeitos das operações de swap cambial. Ainda assim, os números ajudam a dimensionar a diferença entre o desequilíbrio das receitas e despesas antes dos juros e o resultado final das contas públicas depois da incorporação dos encargos financeiros.
Governo Central concentrou 97% dos juros em agosto
A maior parcela dos juros nominais de agosto ficou concentrada no Governo Central, conceito que reúne Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central nas estatísticas fiscais. A conta dessa esfera somou R$ 102,881 bilhões, equivalente a aproximadamente 97,1% dos R$ 105,934 bilhões registrados pelo setor público consolidado no mês.
Os governos regionais responderam por R$ 2,564 bilhões, enquanto as empresas estatais registraram R$ 489 milhões. A soma dos três componentes corresponde aos R$ 105,934 bilhões divulgados pelo Banco Central e evidencia a predominância federal na composição mensal do resultado financeiro.
Nos oito primeiros meses de 2026, os juros nominais acumulam R$ 774,550 bilhões, o que representa uma média mensal de aproximadamente R$ 96,8 bilhões. O resultado de agosto ficou cerca de R$ 9,1 bilhões acima dessa média, reforçando a aceleração da conta financeira no mês.
Na comparação com julho, quando os juros haviam somado R$ 98,963 bilhões, houve aumento de aproximadamente 7%. Com isso, o resultado mensal voltou a superar a marca de R$ 100 bilhões depois da redução observada no mês anterior.
Swaps explicam grande parte da diferença em relação a 2025
Um dos principais elementos por trás da alta na comparação anual foi a mudança no resultado das operações de swap cambial do Banco Central. Em agosto de 2025, essas operações haviam produzido ganho de R$ 19,9 bilhões. Em agosto de 2026, o resultado foi uma perda de R$ 9,3 bilhões.
A diferença entre os dois períodos chega a R$ 29,2 bilhões. No mesmo intervalo, os juros nominais totais aumentaram aproximadamente R$ 31,6 bilhões, passando de R$ 74,3 bilhões para R$ 105,934 bilhões. Considerados esses valores, a mudança no resultado dos swaps corresponde a cerca de 92% da diferença observada entre os dois meses.
Esse cálculo ajuda a evitar uma interpretação simplificada de que todo o aumento dos juros nominais em agosto decorreu diretamente da taxa Selic. A taxa básica é um dos componentes relevantes do custo financeiro do setor público, mas as estatísticas do Banco Central também refletem mudanças no estoque da dívida, inflação, câmbio, composição dos passivos e resultados de instrumentos financeiros.
As operações de swap cambial são um exemplo dessa dinâmica. Dependendo do comportamento do câmbio e dos juros, elas podem produzir ganhos ou perdas para o Banco Central e alterar significativamente o resultado mensal dos juros nominais. Em agosto, a passagem de um ganho de R$ 19,9 bilhões para uma perda de R$ 9,3 bilhões produziu impacto particularmente relevante na comparação anual.
Selic caiu em agosto, mas transmissão para as contas públicas não é imediata
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano na reunião encerrada em 5 de agosto. A taxa permaneceu nesse patamar até 16 de setembro, quando o Copom fez novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a meta para 13,75% ao ano.
A redução da taxa básica não provoca queda imediata e proporcional nos juros nominais apropriados pelo setor público. Isso ocorre porque o estoque de obrigações possui diferentes indexadores, vencimentos e custos contratados. Uma parcela responde mais rapidamente às mudanças da Selic, enquanto títulos prefixados ou vinculados a índices de preços seguem mecanismos diferentes de remuneração.
O Relatório Mensal da Dívida Pública Federal divulgado pelo Tesouro Nacional ajuda a dimensionar essa exposição, embora trate especificamente da Dívida Pública Federal e não de todo o setor público consolidado. Em agosto, os títulos remunerados por taxa flutuante representavam 52,74% da DPF, acima dos 51,11% observados em julho. Foi o maior percentual da série histórica iniciada em dezembro de 2000.
Os títulos vinculados a índices de preços correspondiam a 23,22% do estoque, enquanto os prefixados representavam 20,31%. Essa composição mostra por que a taxa básica possui influência importante sobre o custo do endividamento federal, mas não permite simplesmente aplicar a Selic sobre toda a dívida para calcular a conta de juros do setor público.
O custo médio acumulado em 12 meses da Dívida Pública Federal subiu de 12,45% ao ano em julho para 12,59% em agosto. No mês, o estoque da DPF alcançou R$ 9,29 trilhões, praticamente estável em relação a julho, depois de R$ 88,39 bilhões em apropriação de juros serem compensados em grande parte por R$ 84,43 bilhões de resgates líquidos.
Juros em 12 meses cresceram R$ 235,7 bilhões em um ano
No acumulado dos 12 meses encerrados em agosto, os juros nominais chegaram a aproximadamente R$ 1,1822 trilhão, equivalentes a 8,86% do PIB. Um ano antes, no período encerrado em agosto de 2025, a conta estava em R$ 946,5 bilhões, ou 7,61% do PIB.
A diferença nominal entre os dois períodos é de aproximadamente R$ 235,7 bilhões, enquanto a participação dos juros no PIB aumentou 1,25 ponto percentual. O avanço mostra que a pressão financeira sobre as contas públicas não se restringe ao resultado isolado de agosto.
Na comparação com os 12 meses encerrados em julho de 2026, quando os juros estavam próximos de R$ 1,1505 trilhão, houve acréscimo de aproximadamente R$ 31,7 bilhões. Nesse tipo de comparação, entretanto, é preciso considerar que se trata de uma janela móvel de 12 meses: agosto de 2026 entra no cálculo ao mesmo tempo em que agosto de 2025 deixa a base. Por isso, a variação do acumulado não corresponde aos R$ 105,9 bilhões apropriados exclusivamente no último mês.
A diferença é praticamente explicada pelo fato de os R$ 105,9 bilhões registrados em agosto deste ano substituírem, na janela de 12 meses, os R$ 74,3 bilhões de agosto do ano passado.
Déficit nominal chega a R$ 1,264 trilhão
O resultado nominal, que incorpora o saldo primário e os juros nominais apropriados, foi deficitário em R$ 115,9 bilhões em agosto. No acumulado de 12 meses, o déficit chegou a aproximadamente R$ 1,264 trilhão, ou 9,48% do PIB.
O percentual aumentou 0,12 ponto percentual em relação ao acumulado até julho. A evolução mostra que a melhora observada no resultado primário do mês não foi suficiente para compensar o crescimento da conta financeira.
Em agosto de 2025, o déficit primário havia sido de R$ 17,3 bilhões. Neste ano, caiu para aproximadamente R$ 10 bilhões, melhora de cerca de R$ 7,3 bilhões. No mesmo período, porém, os juros nominais aumentaram aproximadamente R$ 31,6 bilhões, mais do que anulando o efeito positivo da redução do déficit antes dos encargos financeiros.
Em 12 meses, a relação também é expressiva. O setor público acumulou déficit primário de R$ 82,1 bilhões, mas terminou o período com déficit nominal superior a R$ 1,26 trilhão depois da incorporação dos juros.
Dívida bruta sobe para 82,9% do PIB
A pressão financeira também aparece nos indicadores de endividamento. A Dívida Bruta do Governo Geral alcançou R$ 11,055 trilhões em agosto, correspondente a 82,9% do PIB. Em julho, eram R$ 10,947 trilhões, ou 82,6% do PIB. A relação dívida/PIB avançou, portanto, 0,3 ponto percentual no mês.
Segundo o Banco Central, a incorporação dos juros nominais exerceu impacto equivalente a 0,8 ponto percentual do PIB sobre a evolução mensal da dívida bruta. A desvalorização cambial acrescentou aproximadamente 0,1 ponto, enquanto o crescimento nominal do PIB atuou no sentido contrário e retirou cerca de 0,5 ponto percentual da relação.
No acumulado de 2026, a dívida bruta já avançou 4,2 pontos percentuais do PIB. Os juros nominais contribuíram com 6,5 pontos para o aumento, enquanto emissões líquidas acrescentaram outros 1,5 ponto. O crescimento nominal do PIB e o efeito cambial compensaram parte dessa pressão.
A Dívida Líquida do Setor Público também aumentou e atingiu R$ 9,241 trilhões em agosto, equivalente a 69,3% do PIB. Em julho, o indicador correspondia a 69,1% do PIB quando apresentado com uma casa decimal.
Os movimentos da dívida mostram por que o resultado primário é apenas uma das variáveis relevantes para a sustentabilidade fiscal. Juros, crescimento nominal da economia, inflação, câmbio, emissões e resgates de dívida também alteram a relação entre endividamento e PIB.
Juros permanecem acima de R$ 1 trilhão em 12 meses
O resultado de agosto mantém a conta de juros nominalmente acima da marca de R$ 1 trilhão. Em todo o ano de 2025, os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado haviam alcançado R$ 1,0076 trilhão, correspondentes a 7,91% do PIB. Em 2024, foram R$ 950,4 bilhões, ou 8,07% do PIB.
Embora o valor nominal tenha aumentado entre 2024 e 2025, sua proporção em relação ao PIB recuou. O Banco Central também destacou que 2025 marcou a primeira redução dos juros nominais como proporção do PIB depois de quatro anos consecutivos de aumento, influenciada principalmente pelo resultado favorável das operações de swap cambial naquele exercício.
Em 2026, o quadro voltou a mostrar crescimento relevante. Os R$ 1,182 trilhão acumulados nos 12 meses até agosto superam em aproximadamente R$ 174,6 bilhões o montante registrado em todo o ano de 2025, embora as duas medidas utilizem períodos diferentes e, portanto, não devam ser tratadas como uma comparação de anos-calendário.
A trajetória dos próximos meses dependerá da combinação entre a redução da Selic, o estoque e a composição da dívida, a inflação, o câmbio, o resultado das operações de swap e o desempenho das contas primárias. Como parte relevante da Dívida Pública Federal possui remuneração flutuante, a continuidade do ciclo de queda dos juros tende a reduzir gradualmente o custo de uma parcela do estoque, mas o efeito não ocorre de forma instantânea nem uniforme.
O resultado de agosto deixa evidente essa diferença de escala. Enquanto o setor público registrou déficit primário de aproximadamente R$ 10 bilhões no mês, os juros nominais alcançaram R$ 105,9 bilhões. Nos 12 meses encerrados em agosto, foram R$ 82,1 bilhões de déficit primário diante de R$ 1,182 trilhão em juros. É essa combinação que levou o déficit nominal acumulado a R$ 1,264 trilhão e manteve a dívida bruta próxima de 83% do PIB.
Fontes
Banco Central do Brasil — Estatísticas Fiscais de agosto de 2026.
Banco Central do Brasil — Histórico das taxas básicas de juros e decisões do Comitê de Política Monetária de agosto e setembro de 2026.
Tesouro Nacional — Relatório Mensal da Dívida Pública Federal de agosto de 2026.
Tesouro Nacional — dados de estoque, composição, custo médio e perfil da Dívida Pública Federal.









