O mercado financeiro voltou a piorar sua estimativa para a inflação brasileira e reduziu a expectativa de crescimento da economia. O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira, 5 de outubro, pelo Banco Central mostra que a mediana das projeções para o IPCA de 2026 subiu de 4,99% para 5,01%, terceira revisão consecutiva para cima. Ao mesmo tempo, a previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto caiu de 1,86% para 1,85%.
A combinação reforça um quadro desconfortável para a política econômica: a inflação esperada voltou a superar 5% ao mesmo tempo em que os economistas enxergam uma expansão mais fraca da atividade. A revisão desta semana foi pequena em magnitude — dois centésimos na inflação e um centésimo no PIB —, mas ganha importância porque confirma tendências que vêm se repetindo nas últimas edições do boletim.
A projeção de 5,01% coloca a inflação esperada 0,51 ponto percentual acima do limite superior da meta, que é de 4,5%. Em relação ao centro da meta, de 3%, a distância chega a 2,01 pontos. Não se trata da inflação já registrada pelo país: o IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,22% até agosto. O Focus mostra o que os analistas consultados pelo Banco Central esperam para o encerramento de 2026.
Essa diferença é importante. A inflação corrente ainda está abaixo do teto da meta, enquanto a estimativa para dezembro indica que os economistas esperam nova aceleração suficiente para levar o índice acima da faixa de tolerância até o final do ano.
Inflação esperada volta a superar 5%
A deterioração ocorre apesar de o IPCA ter registrado deflação de 0,32% em agosto. A queda mensal ajudou a reduzir a inflação acumulada em 12 meses para 4,22%, mas não foi suficiente para melhorar as expectativas para o fechamento do ano. Nas últimas semanas, fatores como pressões de preços no atacado, commodities, energia e incertezas sobre a trajetória fiscal voltaram a entrar no cálculo dos analistas.
O IGP-M, por exemplo, avançou 1,57% em setembro depois de cair 0,22% em agosto. Embora o índice da FGV não seja uma antecipação automática do IPCA, uma aceleração expressiva dos preços no atacado pode, dependendo de sua composição e duração, aumentar a preocupação com repasses futuros ao consumidor.
A previsão de inflação para 2027 teve movimento contrário nesta semana e recuou ligeiramente, de 4,31% para 4,30%. Ainda assim, continua distante do centro da meta de 3% e apenas 0,20 ponto abaixo do teto de 4,5%. Para 2028, a expectativa permaneceu em 3,8%.
Os números sugerem uma convergência lenta. Mesmo depois de 2026, o mercado ainda não trabalha com inflação próxima do centro da meta no horizonte imediatamente seguinte. Isso ajuda a explicar por que as expectativas para a Selic continuam em patamar elevado.
O Focus manteve em 13,50% ao ano a previsão para a taxa básica de juros no encerramento de 2026. Para 2027, a estimativa permanece em 12%, e para 2028, em 10,5%. Apesar da expectativa de redução gradual dos juros, as projeções indicam que o mercado não enxerga espaço para uma flexibilização rápida sem que a inflação esteja mais claramente controlada.
PIB perde força neste ano e nos próximos
A revisão do crescimento também não ficou restrita a 2026. Para este ano, a previsão passou de 1,86% para 1,85%. Em 2027, caiu de 1,41% para 1,40%, enquanto a estimativa para 2028 recuou de 1,83% para 1,81%.
O movimento indica que os analistas não estão enxergando apenas uma desaceleração passageira. As projeções para os três anos recuaram simultaneamente, ainda que em proporções pequenas, sugerindo uma percepção mais cautelosa sobre a capacidade de expansão da economia brasileira no médio prazo.
O crescimento esperado de 1,85% em 2026 representa também uma desaceleração relevante em relação a 2025, quando o PIB avançou 2,3%. A diferença é de 0,45 ponto percentual, o equivalente a uma redução de quase 20% no ritmo de crescimento quando se compara uma taxa à outra.
A atividade, contudo, não está parada. No segundo trimestre deste ano, o PIB cresceu 0,5% em relação aos três meses anteriores e 2% na comparação anual. O carregamento estatístico deixado pela primeira metade do ano também fornece algum suporte ao resultado de 2026. A questão é que os indicadores apontam para perda de fôlego na segunda metade do ano.
O Focus está praticamente no meio das projeções oficiais. O Banco Central reduziu recentemente sua própria estimativa de crescimento para 1,8%, enquanto a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda trabalha com 2%. A mediana de 1,85% dos economistas consultados pelo BC está apenas 0,05 ponto acima da previsão da autoridade monetária e 0,15 ponto abaixo da estimativa do governo.
Essa diferença entre as projeções é pequena, mas mostra leituras distintas sobre a intensidade da desaceleração. O governo espera que a atividade encerre o ano um pouco mais forte, enquanto o Banco Central e o mercado adotam uma postura mais cautelosa.
Focus desta segunda ainda não incorporou o resultado eleitoral
Há uma particularidade importante na leitura do boletim divulgado nesta segunda-feira. As estimativas do Focus são coletadas até a sexta-feira anterior à publicação. Portanto, os números divulgados hoje refletem projeções enviadas até 2 de outubro, antes do primeiro turno das eleições presidenciais realizado no domingo.
Isso significa que o Focus desta semana ainda não captura a reação dos mercados ao resultado que colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula e levou a disputa para o segundo turno.
A diferença é relevante porque a reação financeira desta segunda-feira foi intensa. O dólar chegou a operar abaixo de R$ 5 e ativos brasileiros registraram forte valorização no exterior e na abertura doméstica. Caso parte desse movimento seja mantida, a nova configuração do câmbio, dos juros de mercado e das expectativas políticas poderá aparecer nas próximas edições do Focus.
Por enquanto, a mediana para a cotação do dólar no fim de 2026 permanece em R$ 5,20. Para 2027, os economistas mantiveram a estimativa em R$ 5,28 e, para 2028, em R$ 5,30.
O contraste é evidente: enquanto o boletim desta segunda ainda trabalha com dólar a R$ 5,20 no encerramento do ano, o mercado à vista reagiu ao resultado eleitoral com uma valorização expressiva do real. Será preciso observar se essa mudança persiste ou se representa apenas uma reação inicial das mesas de negociação.
Inflação acima da meta restringe espaço para cortes maiores
A combinação de inflação esperada em 5,01% e PIB crescendo abaixo de 2% coloca o Banco Central diante de uma situação delicada. Uma atividade mais fraca normalmente aumentaria o espaço para redução de juros. Uma inflação acima do teto, por outro lado, recomenda cautela.
Esse conflito explica por que o mercado ainda espera uma Selic de 13,50% no fim do ano mesmo diante da desaceleração da economia. A taxa básica permanece muito elevada em termos nominais e continua exercendo efeito restritivo sobre crédito, investimento e consumo.
A velocidade da redução dos juros dependerá cada vez mais das expectativas para 2027 e 2028. Se a inflação esperada continuar resistente, o Banco Central terá menos liberdade para acelerar o ciclo de cortes. Caso as projeções convirjam de maneira mais firme para a meta, o espaço aumenta.
Nesse sentido, o dado mais preocupante do Focus não é necessariamente o avanço de 4,99% para 5,01% isoladamente. Uma mudança de dois centésimos é pequena. O sinal mais relevante é a sequência: esta é a terceira semana consecutiva em que os economistas aumentam a estimativa para a inflação de 2026.
Expectativas persistentes importam para a política monetária porque podem influenciar reajustes de preços, negociações salariais e contratos. Quanto mais tempo permanecem afastadas da meta, maior o risco de o Banco Central precisar manter juros restritivos por período prolongado.
Próximas semanas podem mudar o cenário rapidamente
O ambiente econômico de outubro reúne variáveis capazes de alterar rapidamente essas projeções. Além dos próximos indicadores de inflação e atividade, o mercado passará a incorporar com mais intensidade a eleição presidencial, as propostas econômicas dos dois candidatos e a composição do Congresso a partir de 2027.
A política fiscal também continuará no centro das análises. A Secretaria de Política Econômica projeta crescimento de 2% neste ano e inflação de 4,9%, cenário ligeiramente mais favorável do que o da mediana do Focus. Para que essa diferença se confirme, será necessário que a desaceleração da atividade não seja tão forte e que as pressões inflacionárias cedam nos últimos meses do ano.
O Focus desta segunda-feira, portanto, deve ser interpretado como a fotografia de um momento imediatamente anterior à eleição. Ele mostra inflação esperada novamente acima de 5%, crescimento perdendo força e juros ainda elevados, mas não incorpora a forte reprecificação dos ativos ocorrida após as urnas.
A próxima edição será especialmente relevante. Pela primeira vez, as instituições consultadas pelo Banco Central poderão ajustar suas estimativas já conhecendo o resultado do primeiro turno, o comportamento do câmbio e dos juros depois da votação e as primeiras sinalizações econômicas das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro.
Se a reação favorável dos mercados persistir, parte das projeções poderá mudar. Se a volatilidade aumentar durante a campanha, o efeito pode seguir direção oposta. Até lá, o cenário-base permanece claro: o mercado espera crescimento abaixo de 2% em 2026 e inflação acima do limite da meta.
Fontes
Banco Central — Relatório Focus divulgado em 5 de outubro de 2026.
Banco Central — Relatório de Política Monetária de setembro de 2026.
IBGE — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo e Contas Nacionais.
Ministério da Fazenda — Boletim Macrofiscal de setembro de 2026.
Conselho Monetário Nacional — regime de metas para a inflação.







