O Brasil suspendeu nesta terça-feira (20) as exportações de carne de aves para a China e a Malásia após a confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus no município de Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. A interrupção segue protocolos sanitários internacionais e ocorre em meio à adoção de restrições por outros países compradores, incluindo o México. As medidas representam um novo obstáculo para a indústria avícola brasileira, que acumulou receitas de US$ 8,67 bilhões com exportações de carne de frango nos primeiros nove meses de 2026.
A confirmação da doença, ocorrida em 18 de outubro, levou o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) a determinar medidas de contenção e comunicar o episódio aos parceiros comerciais. Enquanto China e Malásia estão sujeitas à suspensão nacional das certificações, outros mercados adotam limitações territoriais, que podem abranger determinadas regiões produtoras. A extensão dos efeitos comerciais dependerá principalmente da duração das restrições e da aceitação, pelos importadores, das medidas brasileiras de regionalização sanitária.
O impacto ocorre justamente quando a avicultura brasileira apresenta crescimento expressivo nas vendas internacionais. Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mostram que os embarques chegaram a 4,421 milhões de toneladas entre janeiro e setembro, aumento de 14% em relação ao mesmo período de 2025. A receita avançou 21%, desempenho que evidencia a importância dos mercados externos para a cadeia produtiva e amplia a relevância econômica de eventuais interrupções prolongadas.
China concentra parcela relevante das exportações brasileiras
A suspensão dos embarques para a China representa uma das principais preocupações comerciais do setor. O mercado chinês recebeu aproximadamente 420 mil toneladas de carne de frango brasileira entre janeiro e setembro de 2026, volume equivalente a cerca de 9,5% das exportações nacionais no período. A participação demonstra que uma restrição prolongada pode afetar significativamente o planejamento comercial dos frigoríficos, especialmente daqueles com maior exposição ao país asiático.
Somente em setembro, a China comprou 40,9 mil toneladas de carne de frango brasileira, segundo levantamento da ABPA. O volume representou aproximadamente 8,2% das 500,3 mil toneladas exportadas pelo Brasil naquele mês. A comparação ajuda a dimensionar a parcela dos embarques sujeita ao risco comercial, embora não permita calcular automaticamente o prejuízo decorrente da suspensão.
O protocolo sanitário entre Brasil e China prevê a interrupção cautelar das certificações diante da ocorrência de determinadas enfermidades em estabelecimentos comerciais. A retomada depende das condições estabelecidas pelas autoridades competentes e da avaliação das medidas adotadas para conter a circulação do vírus. Uma das questões decisivas será a possibilidade de restringir territorialmente o embargo, preservando operações de estabelecimentos localizados fora da região afetada.
A diferenciação entre suspensão nacional e regionalização tem consequências econômicas importantes. Quando a restrição alcança todo o território brasileiro, mesmo frigoríficos distantes do foco deixam de realizar os embarques abrangidos pela medida. Caso o importador aceite limitar a restrição à área afetada, unidades de outras regiões poderão manter suas operações, desde que cumpram os requisitos sanitários exigidos.
Restrições atingem outros mercados e ampliam incertezas
Além da China e da Malásia, o episódio desencadeou restrições comerciais com diferentes abrangências geográficas. O México também interrompeu compras de produtos avícolas brasileiros, enquanto outros destinos estabeleceram limitações regionais relacionadas à ocorrência sanitária em Santa Catarina. A aplicação das medidas depende dos certificados internacionais e das regras específicas negociadas entre o Brasil e cada país importador.
A situação exige atenção especial das empresas que trabalham com contratos de fornecimento, programação de abates e cargas destinadas ao exterior. Produtos preparados para mercados sujeitos a novas exigências podem precisar de reavaliação documental ou redirecionamento comercial, dependendo das condições aplicáveis. O efeito financeiro não se limita necessariamente ao cancelamento de vendas, pois alterações de destino podem envolver custos logísticos, diferenças de preços e ajustes na utilização da capacidade industrial.
O México ganhou relevância crescente como comprador de produtos avícolas brasileiros nos últimos anos. Uma interrupção das importações pode afetar empresas que desenvolveram operações comerciais específicas para atender ao mercado mexicano. Entretanto, a dimensão efetiva das perdas dependerá dos volumes ainda não embarcados, dos contratos existentes e do período durante o qual as restrições permanecerem em vigor.
O setor também acompanha a posição de outros parceiros comerciais, especialmente daqueles que reconhecem mecanismos de regionalização sanitária. A diferença entre um bloqueio nacional e uma restrição limitada ao entorno da propriedade contaminada pode determinar a continuidade de parcela expressiva das exportações. Por enquanto, os dados disponíveis não permitem estabelecer o valor total das operações comerciais afetadas.
Granja com 6 mil perus foi interditada após confirmação da doença
O foco de Newcastle foi identificado em um estabelecimento comercial de criação de perus localizado em Nova Itaberaba. Segundo o Ministério da Agricultura, a propriedade possuía aproximadamente 6 mil aves, que permaneceram no estabelecimento e não foram encaminhadas ao processamento para consumo. A confirmação ocorreu após investigação epidemiológica conduzida pelo serviço veterinário estadual e análises realizadas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo.
O processo de investigação envolveu amostras coletadas entre 21 de setembro e 14 de outubro. Após a confirmação laboratorial, o estabelecimento foi interditado, com suspensão da movimentação de animais e adoção dos procedimentos previstos no plano nacional de contingência. As medidas incluem a eliminação sanitária das aves, a limpeza e desinfecção das instalações e o monitoramento de propriedades próximas.
O governo federal estabeleceu uma área de atenção sanitária que abrange Nova Itaberaba e os municípios de Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. O trabalho de campo prevê o acompanhamento de aproximadamente 133 propriedades, com inspeções clínicas e coleta de materiais para exames laboratoriais. O objetivo é identificar rapidamente possíveis ocorrências adicionais e impedir que a enfermidade se espalhe para outros estabelecimentos comerciais.
A resposta sanitária também envolve o controle da circulação de aves e a avaliação das condições epidemiológicas da região. A atuação conjunta das autoridades federais e estaduais busca delimitar a ocorrência e produzir informações que possam sustentar futuras negociações com os países importadores. A comprovação do controle do foco será fundamental para definir os próximos passos.
Doença de Newcastle não compromete segurança da carne inspecionada, afirma governo
A doença de Newcastle é uma enfermidade viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres. Dependendo da cepa e das características dos animais infectados, pode provocar manifestações respiratórias, alterações neurológicas e distúrbios digestivos. A circulação de variantes virulentas exige notificação às autoridades internacionais de saúde animal e adoção de medidas específicas de controle.
O Ministério da Agricultura esclareceu que o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro. A confirmação da doença em uma propriedade comercial não significa, portanto, que os produtos regularmente inspecionados estejam impróprios para consumo. As restrições às exportações têm natureza sanitária preventiva e visam impedir a disseminação internacional do agente infeccioso por vias consideradas relevantes pelos protocolos veterinários.
A distinção é importante para o mercado doméstico, que absorve parcela significativa da produção nacional. A eventual redução dos embarques pode alterar temporariamente a disponibilidade de determinados produtos no Brasil, mas não há elementos suficientes para concluir que ocorrerá uma queda generalizada dos preços ao consumidor. Esse resultado dependerá da duração dos bloqueios, da capacidade de redirecionamento da produção e do comportamento da demanda.
Novo episódio reacende preocupação com o comércio internacional
O registro em Santa Catarina ocorre pouco mais de dois anos depois de outro foco de Newcastle em uma granja comercial brasileira. Em julho de 2024, a doença foi identificada em um estabelecimento avícola de Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, provocando a adoção de medidas emergenciais e restrições sanitárias. Naquela ocasião, as autoridades conseguiram controlar a ocorrência, permitindo a posterior revisão das limitações impostas à região.
O histórico também demonstra que a duração de um embargo comercial não depende exclusivamente do controle epidemiológico da doença. Mesmo após a eliminação de um foco, os países compradores precisam avaliar as notificações oficiais e reconhecer o cumprimento das condições previstas em seus protocolos. Por isso, os prazos de retomada podem variar de um destino para outro.
A suspensão de outubro também ocorre depois da recuperação das exportações brasileiras de carne de frango em 2026. O desempenho de setembro foi especialmente expressivo em mercados que haviam registrado volumes reduzidos no ano anterior, durante as restrições relacionadas à influenza aviária. Esse histórico reforça a importância da previsibilidade sanitária para um setor que opera com contratos internacionais e cadeias de fornecimento de grande escala.
Os números acumulados de janeiro a setembro permitem dimensionar a exposição econômica sem antecipar perdas ainda não realizadas. Considerando a receita de US$ 8,673 bilhões e o volume de 4,421 milhões de toneladas, o valor médio das exportações brasileiras no período foi de aproximadamente US$ 1.962 por tonelada. Trata-se de uma média nacional calculada a partir de diferentes produtos e destinos, que não corresponde necessariamente ao preço contratado por qualquer mercado específico.
Retomada das vendas dependerá de negociações sanitárias
O Ministério da Agricultura mantém interlocução com as autoridades dos países importadores para comunicar as medidas adotadas e apresentar a evolução do controle da doença. A aceitação da regionalização poderá reduzir o alcance comercial das restrições, permitindo que estabelecimentos situados fora das áreas afetadas continuem atendendo determinados destinos. A decisão, entretanto, depende das regras de cada mercado.
Para os frigoríficos brasileiros, o principal desafio imediato é adaptar a programação comercial às exigências sanitárias vigentes. A eventual redistribuição de cargas para outros compradores poderá amortecer parte dos efeitos, mas não elimina automaticamente diferenças de preços, especificações de produtos e custos logísticos. As condições de cada contrato também poderão influenciar a capacidade das empresas de reorganizar os embarques.
A evolução das investigações epidemiológicas nas 133 propriedades monitoradas será um dos fatores determinantes para a resposta oficial. Novos resultados laboratoriais, a conclusão dos procedimentos de erradicação e o reconhecimento internacional das medidas brasileiras deverão orientar as próximas decisões comerciais. Até que esses procedimentos avancem, permanecem indefinidos o prazo de normalização das exportações e o impacto financeiro efetivo sobre a indústria avícola nacional.
Fontes:
Ministério da Agricultura e Pecuária — notas oficiais de 19 de outubro de 2026 sobre a confirmação do foco de Newcastle e as medidas de controle sanitário.
Ministério da Agricultura e Pecuária — informações da coletiva de imprensa de 19 de outubro de 2026 sobre o monitoramento epidemiológico e o comércio internacional.
Associação Brasileira de Proteína Animal — balanço das exportações brasileiras de carne de frango de setembro de 2026, divulgado em 7 de outubro.
Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina — comunicado sobre a confirmação da doença em Nova Itaberaba e as medidas de contenção.
Ministério da Agricultura e Pecuária — documentação oficial sobre a doença de Newcastle e os procedimentos nacionais de vigilância e emergência zoossanitária.









