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BTG seleciona ações defensivas diante de previsão de queda de 17% do Ibovespa

Relatório também estima desvalorização de 10% a 15% do real e juros reais longos acima de 8%, cenário que favorece balanços menos alavancados.

por Camila Braga
26/10/2026 às 16h19
em Ibovespa
Btg Pactual (Bpac11) Abre Bsec Ao Mercado Após Movimentar R$ 160 Bilhões - Gazeta Mercantil

A interrupção temporária das negociações na B3 nesta segunda-feira, 26 de outubro, após a forte reação negativa do mercado à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aumentou a relevância de dois critérios para a escolha de ações: a capacidade de proteger receitas por meio da exposição ao dólar e a solidez financeira para atravessar um período prolongado de juros elevados. Em análise divulgada após o resultado eleitoral, o BTG Pactual destaca exportadoras, seguradoras e companhias com caixa superior às dívidas como alternativas para reduzir a exposição a parte desses riscos.

O banco projeta que o Ibovespa possa recuar 17% nas próximas semanas, para aproximadamente 170 mil pontos, e estima uma desvalorização de 10% a 15% do real. As projeções consideram um ambiente de juros reais de longo prazo acima de 8% e um processo mais lento de redução da taxa básica de juros. Trata-se de um cenário prospectivo, não de uma estimativa consolidada para o desempenho de cada ação.

A reação do mercado começou antes mesmo da abertura regular das negociações. A B3 acionou o mecanismo de circuit breaker e suspendeu temporariamente as operações com ações e outros ativos abrangidos pelo procedimento. A medida interrompe negociações em momentos de queda acentuada, com o objetivo de permitir que o mercado absorva a mudança de preços e as novas informações disponíveis.

O resultado eleitoral foi confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na noite de domingo, 25. Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, de Flávio Bolsonaro (PL). A diferença de 4,43 milhões de votos encerrou uma disputa cujo desfecho contrariou as expectativas que vinham influenciando as posições de investidores antes do segundo turno.

Na sexta-feira, 23, último pregão antes da votação, o Ibovespa fechou aos 205.082,56 pontos, com alta de 0,47%, enquanto o dólar comercial terminou abaixo de R$ 5. A comparação com o patamar de 170 mil pontos indicado pelo BTG representa uma redução potencial de aproximadamente 35.083 pontos, equivalente a 17,1% do fechamento anterior à eleição.

Exportadoras oferecem proteção cambial, mas a dívida continua determinante

O primeiro grupo identificado pelo BTG reúne empresas que recebem parte relevante de suas receitas em moeda estrangeira. Nessa categoria estão Vale (VALE3), Gerdau (GGBR4), Suzano (SUZB3), PRIO (PRIO3), SLC Agrícola (SLCE3), 3Tentos (TTEN3), São Martinho (SMTO3), WEG (WEGE3) e Embraer (EMBJ3).

A lógica econômica é a exposição cambial. Quando uma empresa recebe dólares e registra parcela significativa de seus custos no Brasil, a conversão da receita externa para reais pode ampliar o faturamento em moeda nacional. Esse efeito pode contribuir para a margem operacional e para a geração de caixa, especialmente quando os preços internacionais dos produtos permanecem favoráveis.

A proteção, porém, não é automática. Mineradoras, siderúrgicas e produtoras de celulose dependem das condições de seus respectivos mercados globais. Empresas industriais podem ter despesas relevantes com componentes importados, enquanto companhias agrícolas enfrentam custos associados a fertilizantes, defensivos, máquinas e insumos cotados internacionalmente. A desvalorização do real também pode aumentar o custo de dívidas denominadas em moeda estrangeira.

O desempenho recente das ações mostra que a exposição cambial não impediu perdas antes da eleição. No levantamento do banco, a Vale acumulava queda de 13,4% em 30 dias e recuo de 11,6% em 2026. A Suzano perdia 9,3% no intervalo mensal e 16,3% no ano. A WEG registrava retração de 16,5% em 30 dias e de 11,3% no acumulado anual, enquanto a Embraer recuava 10% no mês e permanecia praticamente estável no ano, com alta de 0,3%.

Os números evidenciam uma distinção importante para o investidor: uma característica operacional favorável não assegura valorização imediata das ações. O mercado também considera o preço de entrada, as expectativas de lucro, o comportamento das commodities, o custo de capital e a percepção de risco dos negócios.

A 3Tentos, por outro lado, apresentava alta de 38,9% em 30 dias, apesar de acumular queda de 13,3% no ano. A PRIO avançava 21,3% no período mensal e 78,2% em 2026. A São Martinho subia 14,8% em 30 dias e 41,2% no ano. A Gerdau, depois de avançar 26,6% no acumulado anual, permanecia praticamente estável no intervalo de 30 dias.

Essas diferenças indicam que a seleção não se resume a comprar empresas exportadoras. A valorização anterior, a dinâmica de cada setor e a estrutura de capital alteram a forma como cada companhia pode reagir a uma mudança prolongada no câmbio e nos juros.

Alavancagem separa as empresas com maior capacidade de absorver o choque

A relação entre dívida líquida e Ebitda projetado para 2026 oferece outra dimensão da análise. O indicador compara o endividamento líquido com a geração operacional de resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Quanto maior o múltiplo positivo, maior tende a ser a carga relativa da dívida sobre a capacidade operacional de geração de resultados, embora a interpretação dependa das particularidades de cada negócio.

Entre as exportadoras selecionadas pelo BTG, a SLC Agrícola apresenta o maior índice, de 3,6 vezes. A Suzano aparece com 2,7 vezes, seguida pela 3Tentos, com 2,6 vezes, e pela São Martinho, com 2 vezes. A Vale registra 1 vez, enquanto a Gerdau aparece com 0,5 vez.

No extremo oposto estão companhias cuja posição financeira indica caixa líquido. A PRIO apresenta dívida líquida equivalente a menos 1,1 vez o Ebitda projetado para 2026. Na WEG, a relação é de menos 0,3 vez, e, na Embraer, de menos 0,2 vez.

O sinal negativo indica que o caixa e as aplicações financeiras considerados no cálculo superam a dívida financeira líquida, conforme a metodologia utilizada. Essa condição pode dar maior flexibilidade para financiar investimentos, cumprir obrigações e enfrentar períodos em que o crédito fica mais caro.

A diferença ganha importância quando os juros de longo prazo permanecem elevados. Empresas com endividamento maior podem destinar uma parcela mais expressiva da geração de caixa ao serviço da dívida ou enfrentar condições mais restritivas na renegociação de passivos. O efeito concreto depende, entre outros fatores, dos vencimentos, dos indexadores e da composição das obrigações financeiras.

A posição de caixa, contudo, não elimina riscos operacionais nem garante desempenho positivo das ações. Uma empresa pouco endividada pode sofrer com queda de demanda, pressão de custos ou redução das margens. Da mesma forma, uma companhia mais alavancada pode manter resultados robustos se a geração operacional crescer e o custo da dívida estiver adequadamente administrado.

Seguradoras e Ambev combinam características defensivas

O segundo grupo destacado pelo BTG reúne Caixa Seguridade (CXSE3), Porto Seguro (PSSA3) e Ambev (ABEV3). As três empresas possuem modelos de negócio diferentes, mas compartilham características que podem contribuir para a resistência financeira em períodos de maior volatilidade.

Nas seguradoras, parte dos recursos recebidos em prêmios é mantida para fazer frente a indenizações e outras obrigações com clientes. Esses recursos são aplicados e seus rendimentos podem aumentar quando as taxas de juros estão elevadas, desde que a composição dos investimentos, os prazos dos ativos e as obrigações futuras permitam capturar esse efeito.

Isso não significa que uma Selic elevada produza ganhos ilimitados. O resultado também depende da evolução dos sinistros, dos custos operacionais, da qualidade dos investimentos e da capacidade de precificar os riscos assumidos. Ainda assim, o componente financeiro pode funcionar como uma fonte adicional de receita em comparação com setores mais dependentes do crédito ou do consumo discricionário.

No desempenho acumulado de 2026 informado pelo BTG, a Caixa Seguridade apresenta alta de 36,5%, enquanto a Porto Seguro avança 12%. Os resultados positivos não anulam a possibilidade de correção das ações diante de uma revisão das expectativas de lucro ou de uma mudança nas condições de mercado.

A Ambev oferece outra forma de proteção. A fabricante de bebidas acumula valorização de 21,2% no ano e apresenta dívida líquida equivalente a menos 0,5 vez o Ebitda projetado para 2026. A posição de caixa líquido reduz a dependência de financiamento externo, enquanto o mercado de bebidas possui características distintas das indústrias sujeitas diretamente aos preços internacionais de commodities.

Mesmo assim, a empresa não está imune à volatilidade econômica. Custos de embalagens, matérias-primas, energia e distribuição podem influenciar a rentabilidade. O desempenho também depende do volume de vendas, dos preços praticados e da concorrência. A combinação de caixa líquido e operação de consumo recorrente deve, portanto, ser entendida como uma característica financeira e operacional, não como garantia de valorização.

Petrobras e Itaú têm exposições diferentes aos juros e ao câmbio

Entre as grandes empresas da Bolsa, o BTG destaca Petrobras (PETR4) e Itaú Unibanco (ITUB4), duas companhias com fontes de resultado e fatores de risco bastante distintos.

Na Petrobras, a exposição ao petróleo e ao câmbio pode favorecer a geração de receitas em reais em determinados cenários. O banco também considera a capacidade histórica de distribuição de proventos da estatal. No levantamento apresentado, as ações acumulam alta de 102,5% em 2026 e avanço de 18,3% em 30 dias, com preço equivalente a 4,8 vezes o lucro projetado para o ano.

O múltiplo relativamente baixo pode indicar uma avaliação menos exigente em relação aos lucros esperados, mas não deve ser analisado isoladamente. Para uma companhia petrolífera, preços internacionais da commodity, volumes de produção, investimentos, custos de extração, política de preços e decisões de distribuição de dividendos podem alterar os resultados futuros.

A valorização acumulada também exige cautela. O avanço de 102,5% no ano significa que parte expressiva do movimento de alta já ocorreu antes da reação eleitoral. Uma queda generalizada do mercado pode pressionar os papéis mesmo quando os fundamentos operacionais da companhia permanecem relativamente favoráveis.

O Itaú apresenta outro perfil. Suas ações acumulam alta de 25,8% em 2026 e valorização de 14% em 30 dias, de acordo com os números reunidos pelo banco. O preço corresponde a 10,9 vezes o lucro projetado para 2026.

Para o setor bancário, juros elevados produzem efeitos diferentes conforme o modelo de negócios. As receitas financeiras, o custo de captação, a demanda por crédito, a inadimplência e a avaliação das carteiras de empréstimos influenciam a rentabilidade. Uma eventual desaceleração da atividade pode afetar a procura por financiamento e a capacidade de pagamento dos clientes, mesmo quando as taxas de juros contribuem para determinadas linhas de receita.

A indicação do Itaú como um dos bancos mais bem posicionados pelo BTG deve, assim, ser interpretada dentro dessa combinação de rentabilidade, qualidade dos ativos e estrutura operacional.

Valuation mostra que empresas sólidas também podem estar caras

A análise de múltiplos acrescenta uma restrição à estratégia defensiva. O preço sobre lucro, conhecido como P/L, compara o valor de mercado da ação com o lucro por ação esperado. Um múltiplo reduzido pode sinalizar desconto, mas também pode refletir expectativas de crescimento menores ou incertezas sobre a sustentabilidade dos resultados.

Entre as empresas analisadas, a WEG tem o maior P/L projetado para 2026, de 28 vezes. A Embraer aparece em 22,8 vezes, a São Martinho em 22,4 vezes e a SLC Agrícola em 21,6 vezes. Já a Vale e a Petrobras registram múltiplos de 4,8 vezes, enquanto a Suzano aparece em 5,2 vezes.

Os valores não permitem concluir, isoladamente, que as ações com menores múltiplos sejam as melhores oportunidades. Empresas de setores diferentes têm ciclos de investimento, perspectivas de crescimento e estruturas de lucro distintas. Uma comparação adequada precisa considerar a qualidade dos resultados, a capacidade de geração de caixa e as perspectivas para os anos seguintes.

O caso da WEG ilustra essa diferença. A companhia apresenta caixa líquido e exposição industrial internacional, mas negocia a um múltiplo superior ao das demais empresas do grupo. A condição financeira favorável não elimina o risco de revisão do preço caso o mercado passe a exigir um retorno maior para investir em ações brasileiras.

O BTG também destaca empresas de sua cobertura com dívida líquida negativa, entre elas VTEX, XP, Locaweb, Bemobi e Cury. A relação entre dívida líquida e Ebitda projetada para 2026 é de menos 5,8 vezes para a VTEX, menos 3,8 vezes para a XP, menos 1,9 vez para a Locaweb, menos 1,3 vez para a Bemobi e menos 0,3 vez para a Cury.

A presença dessas companhias amplia a análise para além das exportadoras. Nesse grupo, o principal argumento é a posição de caixa, e não necessariamente a geração direta de receitas em dólares. A Cury, por exemplo, representa o segmento de construção residencial, cujo comportamento também depende do custo de financiamento, da demanda por imóveis, da renda das famílias e das condições de crédito.

Política fiscal e trajetória da Selic serão decisivas para os preços

A sustentação do cenário projetado pelo BTG depende da evolução das expectativas econômicas e da condução da política fiscal. O banco considera que a percepção de risco poderá mudar com a formação da equipe econômica do novo mandato e com sinais concretos de disciplina nas contas públicas.

A taxa Selic estava em 13,75% ao ano desde setembro, após decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central. A projeção de juros reais longos acima de 8% apresentada pelo BTG não corresponde à taxa básica, mas a uma estimativa para o retorno dos títulos de prazo mais longo descontada a inflação esperada.

Essa distinção importa porque os juros longos influenciam a avaliação dos fluxos de caixa futuros das empresas. Quando o retorno exigido pelos investidores sobe, ações com lucros esperados concentrados em um horizonte distante podem sofrer pressão maior sobre seus múltiplos. Ao mesmo tempo, setores mais dependentes de crédito podem enfrentar condições financeiras mais restritivas.

Uma sinalização fiscal capaz de reduzir a percepção de risco poderia alterar esse quadro, mas não há garantia de que produza uma recuperação imediata ou uniforme. O comportamento do mercado continuará condicionado à política monetária, à atividade econômica, aos preços internacionais de commodities e ao desempenho operacional das empresas.

A seleção apresentada pelo BTG oferece, portanto, três formas distintas de enfrentar a volatilidade: receitas que podem se beneficiar do câmbio, operações com características defensivas e balanços com caixa líquido. A análise comparativa mostra que nenhuma dessas condições deve ser examinada isoladamente. Endividamento, valuation, qualidade dos resultados e exposição setorial permanecem determinantes para avaliar quanto risco cada ação efetivamente carrega.

Fontes:

Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 e balanço da votação.

B3 — comunicado de 26 de outubro de 2026 sobre o acionamento do mecanismo de circuit breaker e a suspensão temporária das negociações.

Banco Central do Brasil — decisão do Copom de setembro de 2026, definição da meta Selic em 13,75% ao ano e informações sobre a condução da política monetária.

B3 — dados do pregão de 23 de outubro de 2026, com o fechamento do Ibovespa antes do segundo turno das eleições.

BTG Pactual — análise de ações divulgada em 26 de outubro de 2026, com projeções de mercado, seleção setorial, desempenho dos papéis, múltiplos de valuation e indicadores projetados de endividamento.

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