O BTG Pactual (BPAC11), banco controlado por um grupo de sócios liderado por André Esteves, adquiriu aproximadamente R$ 13 bilhões em carteiras de crédito do Banco de BrasÃlia (BRB; BSLI3) desde dezembro de 2025, perÃodo marcado pelo agravamento da crise financeira da instituição pública após suas operações com o Banco Master. As aquisições envolveram empréstimos imobiliários, antecipação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e crédito consignado de servidores do Governo do Distrito Federal (GDF). Segundo informações publicadas nesta sexta-feira (23) pelo UOL, com base em três fontes dos bancos envolvidos, as carteiras foram negociadas com deságio próximo de 30%. O BTG tornou-se o principal comprador desses ativos desde a liquidação do Master pelo Banco Central, em novembro do ano passado.
As operações ocorreram em um momento de necessidade de reforço da liquidez do BRB, que enfrenta dificuldades para recompor seu capital e divulgar demonstrações financeiras atualizadas. A transferência de carteiras permite transformar créditos com recebimento previsto ao longo dos próximos anos em recursos disponÃveis imediatamente. Em contrapartida, descontos elevados podem reduzir o valor obtido pela instituição em relação ao montante contratual dos empréstimos. O impacto efetivo sobre o patrimônio depende do valor contábil dos ativos, das provisões constituÃdas e das condições estabelecidas em cada contrato de cessão.
As negociações teriam se intensificado entre março e julho de 2026, quando o BRB também utilizou mecanismos de liberação de recursos anteriormente sujeitos a recolhimento compulsório para atender à s suas obrigações. Segundo a apuração, os bancos continuam discutindo novas transferências de carteiras. Procurados para comentar as operações, BTG Pactual e BRB não se manifestaram. Até a divulgação da reportagem, não havia confirmação pública das instituições sobre o valor agregado de R$ 13 bilhões ou as condições especÃficas das cessões.
Carteiras foram negociadas com deságio de aproximadamente 30%
O desconto relatado nas operações chama a atenção por sua dimensão. Em uma cessão de crédito, o comprador adquire o direito de receber pagamentos futuros de contratos originados por outra instituição financeira. O preço da negociação pode ser inferior ao valor nominal desses contratos, considerando fatores como inadimplência esperada, prazo de recebimento, custo de financiamento e remuneração exigida pelo comprador. No caso das operações entre BTG e BRB, as fontes consultadas pelo UOL apontaram deságio próximo de 30%.
Se os R$ 13 bilhões mencionados corresponderem ao valor nominal das carteiras, um desconto uniforme de 30% representaria um preço teórico de aquisição de aproximadamente R$ 9,1 bilhões. A diferença nominal seria de R$ 3,9 bilhões, mas esse cálculo não pode ser tratado automaticamente como prejuÃzo contábil do BRB ou lucro do BTG. O resultado econômico depende, entre outros fatores, do valor pelo qual os créditos estavam registrados, das perdas já provisionadas e dos recebimentos efetivamente realizados. As condições contratuais completas não foram divulgadas.
Para o BRB, a principal vantagem imediata é a obtenção de caixa sem precisar esperar o vencimento dos empréstimos. A medida pode contribuir para atender saques, pagamentos e outras obrigações financeiras em perÃodos de pressão sobre a liquidez. Entretanto, a venda também reduz a participação do banco nos fluxos futuros de receitas gerados pelas carteiras transferidas. A utilização recorrente desse mecanismo pode criar desafios para a recuperação da rentabilidade no longo prazo.
Para o BTG, a aquisição oferece a possibilidade de incorporar ativos geradores de receitas por um preço inferior ao valor de face. O retorno dependerá da qualidade dos contratos, da inadimplência e do custo de administração e financiamento das operações. A compra com desconto não elimina o risco de crédito, especialmente quando há incertezas sobre a capacidade de pagamento dos devedores. A avaliação desses fatores é fundamental para determinar a rentabilidade efetiva das aquisições.
Crise do BRB começou com operações bilionárias envolvendo o Master
A situação financeira do Banco de BrasÃlia se deteriorou após a identificação de irregularidades em transações realizadas com o Banco Master, instituição de Daniel Vorcaro liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025. Investigações da PolÃcia Federal apontaram suspeitas de aquisição de carteiras de crédito sem lastro e outras operações consideradas incompatÃveis com as exigências de controle e gestão de riscos. Os problemas levaram à substituição de integrantes da administração e à realização de auditorias independentes. A dimensão das perdas passou a orientar as medidas de recuperação da instituição.
Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, realizada em 9 de junho, o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, apresentou informações sobre as operações investigadas. Segundo o executivo, aproximadamente R$ 30 bilhões foram movimentados nas transações entre o BRB e o Master, dos quais R$ 21,9 bilhões permaneceram registrados na instituição em quatro carteiras de investimentos. Desse montante, cerca de R$ 12,1 bilhões foram classificados como ativos irregulares ou de difÃcil recuperação. A situação exigiu medidas para reforçar o patrimônio e preservar a capacidade operacional do banco.
Esses valores não devem ser confundidos com os R$ 13 bilhões em carteiras que o BTG teria comprado do BRB. O primeiro conjunto está relacionado à s operações investigadas envolvendo o Banco Master e à avaliação de possÃveis perdas. O segundo refere-se à alienação de ativos para obtenção de liquidez após o agravamento da crise. Não há informação suficiente para afirmar que os créditos adquiridos pelo BTG correspondam à s carteiras consideradas irregulares nas operações anteriores.
A distinção também é importante para compreender a origem das dificuldades financeiras. Uma instituição pode enfrentar problemas de liquidez quando não possui recursos imediatamente disponÃveis para cumprir suas obrigações, mesmo mantendo ativos em seu balanço. Já uma insuficiência patrimonial ocorre quando as perdas comprometem o capital necessário para absorver riscos e atender à s exigências regulatórias. O BRB enfrenta pressões relacionadas à s duas dimensões, o que explica a combinação de venda de ativos, busca de financiamento e medidas de capitalização.
BTG também sondou aquisição da Financeira BRB
Além das carteiras de crédito, o BTG demonstrou interesse na Financeira BRB, subsidiária responsável por operações de crédito consignado da instituição pública. Segundo as informações obtidas pelo UOL, representantes do banco privado procuraram a administração do BRB durante o primeiro semestre para avaliar a possibilidade de uma negociação. As conversas envolveriam também a gestão da folha de pagamento dos servidores do Governo do Distrito Federal. Não há confirmação de proposta vinculante ou de acordo concluÃdo.
A transferência dessas atividades representaria uma mudança mais profunda do que a simples venda de carteiras existentes. O crédito consignado constitui uma fonte recorrente de receitas para instituições financeiras, especialmente quando relacionado a clientes com pagamentos descontados diretamente da remuneração. Já a administração de folhas salariais permite ampliar o relacionamento com correntistas e oferecer outros produtos bancários. A combinação pode gerar receitas que se estendem por vários anos.
De acordo com a apuração, estudos internos realizados pelo BRB indicaram que uma eventual alienação integral dessas operações poderia prejudicar o banco no longo prazo. O entendimento seria de que a perda de uma atividade estratégica comprometeria parte da capacidade futura de geração de resultados. A alternativa, portanto, não avançou para uma transação anunciada publicamente. O episódio evidencia a diferença entre vender ativos para reforçar o caixa e abrir mão de negócios considerados essenciais para a continuidade da instituição.
BRB ainda enfrenta atraso na divulgação de balanços
A falta de demonstrações financeiras atualizadas continua sendo um dos principais obstáculos à avaliação da situação do Banco de BrasÃlia. A instituição adiou sucessivamente a divulgação dos resultados de 2025 em razão das auditorias e dos ajustes necessários após as investigações sobre o Banco Master. O atraso dificulta a mensuração pública das perdas efetivas e da capacidade do banco de recuperar seus indicadores financeiros. Também restringe as informações disponÃveis aos acionistas para avaliar riscos e perspectivas.
Em março, o BRB comunicou ao mercado que a conclusão dos trabalhos de auditoria era necessária para assegurar a confiabilidade dos números apresentados. Posteriormente, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), relacionou a publicação dos balanços à conclusão das negociações de apoio financeiro à instituição. Em setembro, ela voltou a afirmar que o atraso estava associado a questões técnicas e à estruturação de um empréstimo. O banco continuava sem divulgar integralmente os resultados pendentes até esta sexta-feira.
Para os investidores, a ausência de informações financeiras atualizadas aumenta a dificuldade de estimar o valor patrimonial da instituição. Indicadores como Ãndice de Basileia, provisões para perdas, rentabilidade e qualidade da carteira de crédito dependem de dados contábeis consistentes. Sem esses números, também se torna mais difÃcil avaliar o efeito das vendas realizadas ao BTG. A publicação dos balanços permanece uma etapa relevante para restabelecer a transparência sobre as condições do BRB.
Empréstimo de até R$ 6,6 bilhões depende de garantias
O plano de recuperação do BRB inclui uma operação de crédito com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), destinada ao reforço patrimonial da instituição. A Lei Distrital nº 7.845, de 10 de março de 2026, autorizou o Governo do Distrito Federal, controlador do banco, a adotar medidas de capitalização e contratar operações financeiras de até R$ 6,6 bilhões. A legislação também prevê a possibilidade de utilização de bens públicos e outras estruturas admitidas pela regulamentação. O objetivo declarado é preservar a continuidade da instituição e recompor suas condições econômico-financeiras.
Em fato relevante divulgado em 28 de maio, o BRB informou a celebração de um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal para viabilizar a contratação de crédito pelo Distrito Federal junto ao FGC. O modelo envolve garantias prestadas por instituições financeiras e contragarantias relacionadas a receitas públicas do DF, sem aval ou transferência de recursos pela União. O banco esclareceu que a implementação dependeria da conclusão das etapas técnicas, contratuais e regulatórias necessárias. A formalização do acordo, portanto, não representava a liberação automática dos recursos.
Durante audiência no Senado, Nelson Antônio de Souza explicou que o plano previa carência de 18 meses e remuneração equivalente ao IPCA acrescido de 4,5% ao ano. Segundo a apresentação do executivo, o pagamento das parcelas começaria em 2028, com desembolsos mensais próximos de R$ 95,6 milhões. A administração projetava a retomada dos lucros em 2027, após a absorção dos principais impactos das operações investigadas. Essas estimativas dependem da execução do plano de recuperação e não constituem resultados garantidos.
A dificuldade de concluir o financiamento aumenta a importância de outras alternativas de obtenção de recursos. Nesse contexto, a venda de carteiras de crédito constitui uma solução que pode produzir efeito imediato sobre o caixa. Entretanto, operações dessa natureza não substituem necessariamente a necessidade de recomposição de capital. A recuperação financeira depende da combinação entre liquidez suficiente, reconhecimento das perdas e geração futura de resultados.
Conselho discute alternativas que podem mudar controle do BRB
As dificuldades de capitalização também levaram integrantes do Conselho de Administração a discutir alternativas estruturais para o Banco de BrasÃlia. Segundo o UOL, uma das possibilidades mencionadas informalmente seria a entrada de novos investidores em condições que reduzissem a participação do Governo do Distrito Federal. Nesse cenário, o controlador público poderia deixar de deter a maioria do capital votante. Não há, contudo, proposta de privatização formalmente anunciada ou operação de transferência de controle aprovada.
Uma mudança dessa natureza exigiria decisões societárias, polÃticas e regulatórias. A eventual alienação do controle de um banco público precisaria observar a legislação aplicável e as competências da Câmara Legislativa do Distrito Federal, além das exigências do Banco Central. O processo também envolveria a avaliação do patrimônio, dos riscos e das obrigações da instituição. A discussão informal de alternativas não significa que a privatização esteja decidida.
O caráter público do BRB acrescenta uma dimensão polÃtica ao processo de recuperação. A instituição mantém relações com servidores, empresas e órgãos governamentais, além de operar produtos financeiros de alcance regional e nacional. Alterações em seu controle poderiam modificar a estratégia de negócios e a relação com o acionista público. Essas consequências precisam ser consideradas separadamente das necessidades imediatas de obtenção de caixa.
A continuidade das atividades também é relevante para a economia do Distrito Federal. O BRB administra operações de crédito, depósitos e serviços financeiros que envolvem diferentes segmentos da população. Uma reestruturação pode preservar essas atividades, mas seus custos e efeitos dependerão da solução adotada. Até o momento, as discussões divulgadas não permitem estabelecer qual modelo será escolhido.
O que as operações representam para BTG e BRB
As compras de carteiras atribuÃdas ao BTG mostram como instituições com maior capacidade financeira podem atuar como adquirentes de ativos de bancos que precisam reforçar a liquidez. Para o comprador, a operação pode representar uma oportunidade de ampliar a carteira de crédito com remuneração ajustada ao risco. Para o vendedor, permite antecipar recursos que seriam recebidos gradualmente. O equilÃbrio econômico depende das condições especÃficas de cada cessão.
No caso do BRB, a dimensão das operações relatadas demonstra a importância da alienação de ativos na administração da crise. A transferência de R$ 13 bilhões em carteiras representa um volume expressivo, mas o valor recebido e seu impacto contábil ainda não foram detalhados publicamente. Também não há confirmação sobre quanto dessas negociações ocorreu sem retenção de riscos ou outras obrigações pelo banco vendedor. Esses aspectos são necessários para medir os efeitos reais sobre o balanço.
A participação do BTG nas compras não significa que a instituição tenha assumido o controle do BRB ou se comprometido a financiar sua recuperação. A aquisição de carteiras e uma eventual operação societária são negócios distintos, com estruturas contratuais e consequências diferentes. Também não há informação de que o BTG tenha apresentado proposta formal de aquisição da instituição pública. O interesse relatado na Financeira BRB não modifica essa conclusão.
O desfecho da crise dependerá principalmente da capacidade do Banco de BrasÃlia de reconhecer as perdas relacionadas ao Master, concluir as auditorias, obter financiamento e reconstruir sua posição patrimonial. A divulgação dos balanços será essencial para dimensionar o problema e avaliar a eficácia das medidas anunciadas. Até lá, a venda de carteiras continuará entre os instrumentos disponÃveis para administrar as necessidades de liquidez. A apuração sobre os R$ 13 bilhões adquiridos pelo BTG acrescenta uma informação relevante sobre a extensão dessas operações, mas suas condições definitivas ainda dependem de confirmação pública pelas instituições envolvidas.
Fontes
BRB — Fato relevante de 28 de maio de 2026 sobre o acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal para viabilizar operação de crédito com o Fundo Garantidor de Créditos.
BRB — Fato relevante de 31 de março de 2026 sobre o adiamento da divulgação das demonstrações financeiras de 2025.
Senado Federal — Audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos realizada em 9 de junho de 2026, com esclarecimentos do presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza.
Governo do Distrito Federal — Lei nº 7.845, de 10 de março de 2026, sobre medidas de recomposição patrimonial e fortalecimento financeiro do Banco de BrasÃlia.
BRB — Central de Relações com Investidores, documentos societários e comunicados ao mercado divulgados até 23 de outubro de 2026.
B3 — Cadastro das companhias listadas BTG Pactual (BPAC11) e BRB (BSLI3 e BSLI4).









