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C6 Bank cancela emissão de bonds no exterior após investidores exigirem juros altos

por João Souza
29/04/2026 às 10h10
em Negócios
C6 Bank - Gazeta Mercantil

C6 Bank suspende captação de dívida externa e mercado de bonds brasileiros enfrenta nova barreira de custos

A dinâmica do mercado de capitais internacional impôs um freio estratégico aos planos de expansão de capital do C6 Bank. Em um movimento que reflete o atual estado de aversão ao risco no cenário global, a instituição financeira decidiu engavetar, por tempo indeterminado, sua estreia no mercado internacional de dívida. O banco planejava a emissão de títulos de dívida, conhecidos como bonds, com prazo de três anos, visando captar um montante mínimo de US$ 300 milhões. Entretanto, o descompasso entre as taxas oferecidas e o prêmio de risco exigido pelos investidores estrangeiros inviabilizou a operação nos termos pretendidos.

A decisão do C6 Bank ocorre em um momento de extrema sensibilidade geopolítica, com o mercado monitorando atentamente os desdobramentos dos conflitos no Oriente Médio. O ambiente de volatilidade tem tornado os gestores de grandes fundos globais mais arredios a nomes estreantes no mercado de dívida, priorizando a liquidez e a segurança de emissores já consolidados ou soberanos. Para o C6 Bank, a captação representaria não apenas um aporte de capital, mas a validação de sua marca perante o ecossistema financeiro global.

Leia também: Shutdown nos EUA: descubra como a paralisação pode afetar dólar, juros e até o Brasil.

O impasse nas taxas e o papel da International Finance Corporation (IFC)

Os bastidores da negociação revelam que o obstáculo principal não foi a falta de interesse, mas o preço da diversificação. De acordo com Philippe Katz, CFO do C6 Bank, os bancos coordenadores da oferta sinalizaram aos investidores uma taxa de retorno (yield) próxima a 6,20%. No entanto, ao sentarem à mesa, os investidores demandaram um prêmio maior, elevando o sarrafo para a casa dos 6,50%. Diante dessa pressão por um retorno mais elevado, a diretoria do banco optou pela prudência financeira.

Leia também: Terra Investimentos: Justiça libera cotas de Wajdi Ibrahim, mas mantém bloqueio de imóveis em disputa de R$ 76,8 milhões

Katz foi enfático ao afirmar que, embora a diversificação das fontes de captação seja um objetivo estratégico, ela não deve ocorrer a qualquer custo. “Nesse patamar de taxa, não faz sentido essa diversificação. Por ora, não vamos fazer essa emissão externa”, ressaltou o executivo. Apesar do recuo na oferta pública, o C6 Bank mantém uma porta aberta para uma via alternativa. A International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial voltado ao setor privado, estava prevista como investidora âncora da operação, com um aporte de até US$ 50 milhões. Agora, o banco estuda a possibilidade de realizar uma emissão privada exclusiva junto à IFC, o que mitigaria a exposição à volatilidade do mercado aberto.

O programa de US$ 5 bilhões e o sindicato de bancos coordenadores

A tentativa de emissão do C6 Bank não era um evento isolado, mas parte de uma estratégia de longo curso. Conforme reportado pela agência de classificação de risco Moody’s, a instituição possui um programa de captação de títulos de prazo médio e seniores que visa levantar até US$ 5 bilhões ao longo do tempo. A suspensão desta primeira tranche de US$ 300 milhões representa um adiamento tático, mas não o cancelamento das ambições globais da companhia.

A robustez da operação era evidenciada pelo sindicato de bancos coordenadores, liderado pelo JP Morgan — que detém participação acionária no C6 Bank. O grupo de instituições envolvidas incluía nomes de peso como Bradesco BBI, Deutsche Bank, Goldman Sachs, Itaú BBA, Safra e UBS Investment Bank. A presença desses gigantes do setor bancário sublinha a tese de que o banco possui fundamentos sólidos, mas que esbarrou em uma conjuntura macroeconômica adversa que penaliza o “custo Brasil” e novas emissões corporativas.

Geopolítica e a breve janela de oportunidade no mercado de bonds

O fechamento desta janela para o C6 Bank está intrinsecamente ligado à instabilidade no Estreito de Ormuz. O fluxo de petróleo mundial e as tensões entre Estados Unidos e Irã ditam o ritmo do humor dos investidores em Nova York e Londres. Entre meados de abril de 2026, houve um breve período de arrefecimento nas tensões, o que permitiu que algumas companhias brasileiras de grande porte acessassem o mercado com sucesso.

Nesse intervalo específico, empresas como Minerva, J&F, Banco do Brasil e Rede D’Or conseguiram levantar, em conjunto, cerca de US$ 2 bilhões em bonds. O próprio Tesouro Nacional aproveitou o momento para realizar sua maior captação histórica em euros, totalizando 5 bilhões de euros. Contudo, para um emissor novo como o C6 Bank, a janela de oportunidade é muito mais estreita. O investidor de dívida tende a ser mais conservador com instituições que ainda não possuem um histórico de negociação de papéis no mercado secundário internacional, exigindo o “prêmio de novidade” que o banco brasileiro se recusou a pagar.

O retrospecto das captações brasileiras em 2026

O ano de 2026 tem sido marcado por uma dicotomia no mercado de capitais. Se, por um lado, o volume total de captações impressiona, por outro, a seletividade nunca foi tão alta. No início de fevereiro, o Tesouro brasileiro já havia captado US$ 4,5 bilhões. Logo em seguida, no primeiro bimestre, bancos tradicionais como BTG Pactual e Bradesco acessaram o mercado com US$ 750 milhões cada.

Outros setores também buscaram recursos externos para financiar reestruturações e investimentos em infraestrutura. A Sabesp levantou US$ 1,5 bilhão, enquanto a Azul Linhas Aéreas captou US$ 1,3 bilhão como parte crucial de seu plano de recuperação judicial. Até mesmo o setor de agronegócio e energia sustentável marcou presença, com a FSBio levantando US$ 500 milhões. Esse cenário demonstra que o mercado internacional de bonds está aberto para o Brasil, mas os investidores estão operando com uma régua de precificação extremamente rígida para o setor bancário digital e emissores estreantes.

Estrutura de capital e a resiliência dos bancos digitais

A decisão de não emitir dívida cara é vista por analistas de mercado como um sinal de disciplina financeira. Diferente do início da década, onde o crescimento a qualquer custo era a tônica das fintechs e bancos digitais, o atual ciclo econômico exige foco na rentabilidade (bottom line). O C6 Bank, ao optar por aguardar condições mais favoráveis ou focar em negociações bilaterais com a IFC, preserva suas margens e evita uma pressão desnecessária sobre seu custo de captação interno.

A liquidez doméstica, embora mais restrita do que em anos anteriores, ainda oferece alternativas para bancos médios e grandes no Brasil. O adiamento da estreia internacional permite que o banco consolide ainda mais seus indicadores operacionais antes de enfrentar novamente o escrutínio dos grandes detentores de títulos globais. O mercado de bonds é cíclico; a expectativa é que, com uma eventual estabilização dos juros nos Estados Unidos e um alívio nas tensões do Oriente Médio, o banco retome seu programa de US$ 5 bilhões sob condições de precificação mais equilibradas.

Aversão ao risco no Oriente Médio dita o ritmo dos investimentos

O fator determinante para os próximos meses continuará sendo a geopolítica. A energia e as commodities funcionam como o termômetro do risco país para economias emergentes. Enquanto o conflito no Oriente Médio não apresentar uma rota clara de resolução ou estabilização, os bonds de mercados emergentes continuarão a sofrer com a volatilidade dos Treasuries americanos. Para o investidor global, o cálculo é simples: se os títulos do Tesouro dos EUA oferecem retornos historicamente altos, o prêmio exigido para investir em um banco brasileiro deve ser substancialmente superior para compensar o risco cambial e soberano.

Nesse contexto, o C6 Bank adota uma postura de “esperar para ver” (wait and see). A gestão de Philippe Katz sinaliza que a instituição está capitalizada o suficiente para não depender de uma emissão predatória. A solidez do grupo de coordenadores e o interesse da IFC garantem que a tese de investimento no banco permanece intacta, aguardando apenas que o ruído macroeconômico diminua para que o valor real do papel seja reconhecido sem descontos punitivos.

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