Ronaldo Caiado (PSD) formalizou nesta terça-feira, 6 de outubro, apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial. O ex-governador de Goiás, quinto colocado na primeira etapa da disputa, recebeu o candidato do PL em Goiânia para marcar a adesão à campanha contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O anúncio amplia a lista de antigos adversários que passaram a apoiar Flávio depois do primeiro turno. Na segunda-feira, 5, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) também declarou voto no candidato do PL. Juntos, Caiado e Zema receberam aproximadamente 2,93 milhões de votos no domingo.
A soma é eleitoralmente relevante porque Flávio terminou o primeiro turno 2.224.965 votos à frente de Lula. O candidato do PL recebeu 56.104.503 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente obteve 53.879.538, ou 45,16%.
Caiado recebeu 2.605.148 votos, correspondentes a 2,18% dos válidos. Zema somou outros 326.488, ou 0,27%. A votação conjunta dos dois, de 2.931.636 votos, supera em cerca de 706 mil votos a vantagem obtida por Flávio sobre Lula no primeiro turno.
Isso não significa, porém, que os votos sejam automaticamente transferidos ao candidato apoiado. Eleitores não necessariamente seguem a orientação de candidatos derrotados, e o comportamento dessas bases será uma das variáveis decisivas até o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Caiado leva apoio político de Goiás
O movimento de Caiado tem peso adicional em Goiás, onde sua influência política vai além dos 2,6 milhões de votos recebidos nacionalmente para presidente. O ex-governador deixou o Palácio das Esmeraldas com seu grupo político preservado e viu Daniel Vilela (MDB), seu sucessor, ser reeleito governador no primeiro turno.
Vilela também aderiu à candidatura de Flávio e participou da articulação realizada em Goiânia. A aproximação permite que o candidato do PL reúna no segundo turno grupos que estiveram em campos adversários durante a eleição estadual.
Flávio já havia vencido a eleição presidencial em Goiás no primeiro turno, com votação superior à de Lula. A estratégia agora é ampliar essa vantagem e tentar transformar o estado em uma das bases de crescimento do candidato na etapa decisiva.
Durante a campanha presidencial, Caiado procurou construir uma candidatura própria e fez críticas tanto ao governo Lula quanto a Flávio Bolsonaro. Encerrado o primeiro turno, decidiu apoiar o candidato do PL e afirmou que não adotaria uma posição de neutralidade.
Antes do anúncio, Caiado informou que pretendia apresentar à campanha de Flávio propostas de seu próprio programa de governo que pudessem ser incorporadas à agenda do segundo turno, incluindo temas relacionados à segurança pública, saúde e inteligência artificial.
A adesão, portanto, envolve também uma tentativa de inserir pontos programáticos da candidatura derrotada na plataforma de Flávio.
PSD não acompanha Caiado e permanece neutro
O apoio de Caiado é pessoal e não representa uma adesão formal do PSD à candidatura do PL.
O presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, que foi candidato a vice na chapa de Caiado, decidiu manter o partido neutro no segundo turno. A direção nacional liberou diretórios estaduais, parlamentares e lideranças para escolher livremente entre Flávio Bolsonaro e Lula.
Essa decisão cria um cenário no qual diferentes grupos do PSD podem ocupar lados opostos da eleição presidencial.
Caiado segue com Flávio, enquanto outras lideranças do partido avaliam neutralidade ou aproximação com Lula. Governadores e dirigentes regionais passaram a ser procurados pelas duas campanhas desde a definição do segundo turno.
A postura do PSD também mostra uma diferença importante entre apoio partidário e apoio individual. Flávio ganhou o respaldo de um dos principais nomes nacionais da legenda, mas não recebeu automaticamente a estrutura nacional do partido.
Caiado e Zema somam 2,45% dos votos válidos
A entrada de Caiado e Zema na campanha de Flávio também permite dimensionar numericamente o primeiro movimento de alianças do segundo turno.
Os dois candidatos somaram 2,45% dos votos válidos na primeira etapa. Em números absolutos, foram 2,93 milhões de votos.
Flávio terminou o primeiro turno com vantagem de 1,87 ponto percentual sobre Lula. A soma dos percentuais obtidos por Caiado e Zema é, portanto, maior do que a diferença percentual que separou os dois classificados.
O cálculo ajuda a mostrar por que os apoios ganharam importância imediata, mas não permite projetar sozinho o resultado do segundo turno.
Parte dos eleitores de Caiado ou Zema pode migrar para Lula, votar em branco ou nulo ou deixar de comparecer. Da mesma forma, Flávio e Lula disputarão os eleitores dos demais candidatos derrotados e os mais de 33 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno.
A maior quantidade de votos fora da disputa entre os dois finalistas está entre os eleitores de Augusto Cury (Avante), que terminou em terceiro lugar com 3.448.569 votos, equivalentes a 2,89%, e Renan Santos (Missão), quarto colocado, com 2.675.887 votos e 2,24%.
Somados, Cury e Renan tiveram mais de 6,1 milhões de votos, mais que o dobro da votação conjunta de Caiado e Zema. A posição desses eleitores pode ter impacto ainda maior sobre a aritmética do segundo turno.
Renan já indicou que não pretende apoiar nenhum dos dois candidatos. A decisão individual de seus eleitores, entretanto, permanece aberta.
Flávio busca consolidar campo de centro-direita
A rápida adesão de Caiado e Zema mostra que a campanha de Flávio começou o segundo turno tentando consolidar os partidos e lideranças de centro-direita que concorreram separadamente na primeira etapa.
A movimentação não se limita aos antigos candidatos presidenciais. A campanha também busca ampliar alianças com governadores, parlamentares e partidos que permaneceram neutros ou divididos no primeiro turno.
O Republicanos é um dos alvos dessa articulação. Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo, participa das conversas para aproximar a direção nacional da legenda da candidatura de Flávio.
As alianças têm importância que vai além do número de votos obtidos diretamente pelas lideranças. Governadores e partidos oferecem estrutura regional, redes de prefeitos, parlamentares, cabos eleitorais e capacidade de mobilização que podem ser utilizadas durante as três semanas de campanha.
O apoio de Caiado tem esse componente em Goiás. Sua candidatura presidencial terminou com 2,18%, mas seu grupo político manteve controle do governo estadual e possui uma base municipal e parlamentar organizada.
Lula também procura ampliar alianças
Do outro lado, Lula iniciou o segundo turno buscando apoios entre partidos e lideranças que não estiveram formalmente em sua coligação no primeiro turno.
O presidente reuniu aliados em Brasília após a votação e iniciou negociações para ampliar sua base política, principalmente em setores do centro e em estados nos quais teve desempenho inferior ao registrado em eleições anteriores.
A campanha petista também observa os movimentos dentro do PSD e do MDB, partidos que possuem lideranças importantes nos estados e não deverão necessariamente seguir uma única posição nacional.
A disputa por esses grupos ganha relevância porque o resultado do primeiro turno foi apertado. A vantagem de Flávio sobre Lula foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos em um universo de aproximadamente 119,3 milhões de votos válidos.
Em termos percentuais, apenas 1,87 ponto separou os dois candidatos.
Isso significa que nenhum dos lados depende exclusivamente dos eleitores que já conquistou. Ambos terão de buscar votos entre candidatos derrotados, indecisos, eleitores que votaram em branco ou nulo e pessoas que não compareceram no primeiro turno.
Segundo turno será em 25 de outubro
Flávio Bolsonaro e Lula voltarão às urnas em 25 de outubro. Até lá, a disputa entra em uma etapa diferente da primeira fase da campanha, com apenas dois candidatos e alianças sendo reorganizadas em ritmo acelerado.
Caiado e Zema foram os primeiros ex-adversários presidenciais a se posicionar claramente a favor de Flávio. O impacto real desses apoios começará a ser medido pelas próximas pesquisas de intenção de voto e pela capacidade de cada campanha de converter as declarações políticas em votos.
A aritmética inicial é favorável ao candidato do PL: ele começa o segundo turno na liderança e passa a contar com duas candidaturas derrotadas que, juntas, obtiveram quase 3 milhões de votos.
Mas a transferência integral desses votos não pode ser presumida. O segundo turno abre uma nova decisão para cada eleitor, e o universo ainda em disputa é muito maior do que a vantagem obtida por Flávio no primeiro turno.
Fontes
Tribunal Superior Eleitoral — resultado da eleição presidencial de 2026
Ronaldo Caiado — declaração de apoio no segundo turno
Romeu Zema — anúncio de apoio a Flávio Bolsonaro
PSD — posicionamento nacional para o segundo turno
Reuters — articulações políticas após o primeiro turno
Agência Brasil — posicionamento dos candidatos derrotados
Poder360 — encontro de Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Daniel Vilela em Goiânia








