O Citi elevou nesta terça-feira (27) sua recomendação para as ações do Mercado Livre (MELI), negociadas na Nasdaq, de neutra para compra, após a recente desvalorização dos papéis da companhia. A revisão ocorreu em meio à turbulência nos mercados financeiros após o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras e foi acompanhada de uma redução no preço-alvo, de US$ 2.100 para US$ 2.050. Apesar do ajuste, a nova avaliação representa um potencial de valorização de aproximadamente 22,8% em relação à cotação de referência utilizada na análise.
A decisão reflete uma distinção entre o desempenho das ações no curto prazo e as perspectivas operacionais da empresa. Embora o ambiente econômico brasileiro tenha se tornado mais incerto, a instituição considera que o Mercado Livre dispõe de condições para continuar ampliando sua participação no comércio eletrônico latino-americano. A avaliação também incorpora o efeito dos investimentos em logÃstica, serviços financeiros e aquisição de clientes sobre as margens de rentabilidade.
O movimento chama atenção porque ocorre enquanto investidores reavaliam o risco de empresas expostas ao consumo brasileiro, especialmente aquelas sensÃveis ao custo do crédito e ao comportamento da renda das famÃlias. A desvalorização recente do Mercado Livre reduziu o preço de entrada para novos investidores, mas não eliminou os desafios financeiros da companhia. A tese de investimento depende, sobretudo, de sua capacidade de transformar o avanço das vendas e dos serviços financeiros em resultados sustentáveis.
A redução de US$ 50 no preço-alvo equivale a um ajuste negativo de aproximadamente 2,4% na avaliação anterior do Citi. Portanto, a mudança para compra não decorre de uma revisão mais otimista do valor futuro da empresa, mas de uma avaliação mais favorável da relação entre o preço atual das ações e o retorno potencial esperado. Esse potencial também varia conforme a cotação utilizada: uma alta de 22,8% não constitui garantia de valorização e pode mudar significativamente durante o pregão.
Crescimento de 50% nas receitas sustenta a tese de expansão
Os resultados financeiros mais recentes do Mercado Livre ajudam a explicar por que a companhia permanece no radar dos investidores apesar das preocupações com a economia brasileira. No segundo trimestre de 2026, a empresa registrou receitas lÃquidas e financeiras de US$ 10,17 bilhões, crescimento de aproximadamente 50% em relação aos US$ 6,79 bilhões contabilizados no mesmo perÃodo de 2025.
O Brasil teve participação decisiva nesse desempenho. De acordo com as demonstrações financeiras encaminhadas à Securities and Exchange Commission (SEC), a receita lÃquida e financeira das operações brasileiras alcançou US$ 5,53 bilhões entre abril e junho, ante US$ 3,47 bilhões um ano antes. O avanço de aproximadamente 59% em dólares colocou o paÃs como responsável por 54,4% das receitas consolidadas do grupo no trimestre.
A dimensão dessa participação evidencia tanto a importância estratégica do mercado brasileiro quanto a exposição da companhia à s condições econômicas locais. Mudanças na taxa de câmbio, no custo do crédito e no consumo doméstico podem provocar efeitos relevantes sobre o resultado consolidado, mesmo quando as operações em outros paÃses mantêm desempenho positivo.
O volume bruto de mercadorias comercializadas, conhecido pela sigla GMV, atingiu US$ 21,9 bilhões no segundo trimestre, com crescimento de 36% em moeda constante na comparação anual. No Brasil, a expansão foi ainda maior, alcançando 39% pelo mesmo critério, enquanto a quantidade de produtos vendidos aumentou 56%.
A diferença entre o crescimento do volume financeiro de mercadorias e o aumento da quantidade de itens vendidos merece atenção. Ela indica que a expansão não dependeu apenas do valor agregado das compras, mas também de uma frequência maior de transações e da ampliação da base de consumo. Entretanto, os indicadores não permitem concluir isoladamente que todos os vendedores tiveram ganhos equivalentes ou que o valor médio dos pedidos evoluiu de maneira uniforme.
Parte desse desempenho está relacionada à estratégia de redução das barreiras para compras de menor valor, incluindo investimentos nas condições de frete e na infraestrutura de entregas. O Mercado Livre informou que 77% das remessas classificadas como rápidas foram entregues em até 48 horas no segundo trimestre. A eficiência logÃstica funciona como instrumento de retenção de consumidores, embora sua expansão envolva despesas que podem comprometer os resultados no curto prazo.
Margem operacional cai apesar do avanço das vendas
O principal contraponto à trajetória de crescimento aparece na rentabilidade. Enquanto a receita consolidada avançou aproximadamente 50% no segundo trimestre, o lucro operacional recuou de US$ 825 milhões para US$ 683 milhões, uma redução de 17,2% na comparação anual. A margem operacional passou de aproximadamente 12,2% para 6,7%, queda de cerca de 5,4 pontos percentuais.
O lucro lÃquido também diminuiu, passando de US$ 523 milhões no segundo trimestre de 2025 para US$ 466 milhões no mesmo perÃodo de 2026, retração próxima de 11%. A combinação de receitas crescentes com resultados menores mostra que parte relevante da expansão comercial foi absorvida por despesas operacionais, investimentos estratégicos e custos associados aos serviços financeiros.
Os números revelam um dos principais desafios enfrentados pela administração: preservar o ritmo de crescimento sem comprometer excessivamente a geração de resultados. Investimentos em frete, tecnologia, publicidade, infraestrutura logÃstica e expansão do crédito podem contribuir para ampliar a participação de mercado, mas exigem recursos antes que seus benefÃcios econômicos sejam plenamente capturados.
A pressão também aparece especificamente nas operações brasileiras. Segundo os dados segmentados apresentados à SEC, a margem de contribuição direta do Brasil caiu de 15,6% no segundo trimestre de 2025 para 10% no mesmo perÃodo de 2026. A redução de aproximadamente 5,6 pontos percentuais ocorreu mesmo com o expressivo crescimento das receitas no paÃs.
Essa margem segmentada não corresponde à margem operacional consolidada, pois considera uma estrutura especÃfica de custos atribuÃdos a cada mercado. Ainda assim, a comparação ajuda a identificar onde parte da expansão comercial está exigindo maior esforço financeiro.
Para os investidores, a discussão deixa de se concentrar exclusivamente na velocidade de crescimento das vendas e passa a envolver o retorno econômico sobre os investimentos. Uma empresa pode ampliar sua participação de mercado e, simultaneamente, apresentar deterioração temporária de margens. O impacto sobre seu valor depende da capacidade de recuperar rentabilidade posteriormente, sem perder competitividade.
Mercado Pago amplia exposição ao risco de crédito
A expansão do Mercado Pago representa outro componente importante da avaliação do Mercado Livre. A plataforma financeira encerrou o segundo trimestre de 2026 com uma carteira de crédito superior a US$ 16 bilhões, crescimento de 75% em dólares na comparação com o mesmo perÃodo do ano anterior. O avanço amplia as receitas potenciais, mas também aumenta a necessidade de monitorar inadimplência, provisões e qualidade das concessões.
No perÃodo, o volume total de pagamentos processados alcançou aproximadamente US$ 101 bilhões, crescimento anual de 56%. O número de usuários ativos mensais da operação financeira chegou a 88 milhões, avanço de 30%, enquanto a carteira de cartões de crédito atingiu US$ 7,7 bilhões.
Esses indicadores demonstram que o Mercado Pago deixou de funcionar apenas como instrumento de pagamento associado ao comércio eletrônico e passou a constituir uma operação financeira com relevância própria. A integração entre as duas atividades permite utilizar informações sobre o comportamento comercial dos usuários para desenvolver produtos financeiros, ampliar relacionamentos e oferecer crédito.
O crescimento, entretanto, exige maior atenção aos riscos. As demonstrações financeiras mostram que as despesas consolidadas com provisões para créditos de liquidação duvidosa alcançaram US$ 1,28 bilhão no segundo trimestre, ante US$ 690 milhões no perÃodo correspondente de 2025. A elevação foi de aproximadamente 85%, ritmo superior ao crescimento das receitas consolidadas.
Embora parte desse aumento acompanhe naturalmente a expansão da carteira, a evolução das provisões precisa ser examinada em conjunto com os indicadores de inadimplência. No segundo trimestre, o Mercado Livre informou uma taxa de atrasos entre 15 e 90 dias de 7% para a carteira total, enquanto o indicador especÃfico dos cartões de crédito ficou em 4,6%.
Os percentuais representam uma fotografia do perÃodo e não eliminam o risco de deterioração futura. Uma desaceleração econômica, acompanhada de perda de renda ou maior comprometimento financeiro das famÃlias, pode afetar a capacidade de pagamento dos clientes. Nessa hipótese, o crescimento da carteira exigiria atenção adicional à concessão de crédito e à constituição de provisões.
Selic elevada afeta consumidores e investimentos dos concorrentes
A polÃtica monetária brasileira acrescenta outra variável à estratégia da companhia. Em setembro, o Comitê de PolÃtica Monetária do Banco Central reduziu a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, mantendo os juros básicos em um patamar elevado. A autoridade monetária destacou a persistência de incertezas econômicas e a necessidade de preservar condições adequadas para a convergência da inflação à meta.
Os juros elevados produzem efeitos distintos sobre as empresas do comércio eletrônico. Pelo lado da demanda, encarecem o financiamento de compras, pressionam o orçamento das famÃlias e podem reduzir o consumo de produtos dependentes de parcelamento. Pelo lado empresarial, aumentam o custo de captação e tornam mais exigente a avaliação financeira de projetos de expansão.
Para plataformas menores ou concorrentes que ainda precisam desenvolver estruturas de distribuição, tecnologia e atendimento, o custo do capital pode dificultar novos investimentos. Empresas com maior escala operacional e infraestrutura já estabelecida podem apresentar vantagens competitivas, embora também estejam sujeitas ao aumento das despesas financeiras e à necessidade de remunerar adequadamente o capital investido.
Essa dinâmica constitui uma das questões centrais para a avaliação do Mercado Livre. Sua rede logÃstica, a base de consumidores e a integração com o Mercado Pago representam ativos que exigiram investimentos acumulados ao longo de vários anos. Replicar uma estrutura semelhante demanda recursos financeiros, capacidade tecnológica e tempo de execução.
A existência dessas vantagens, contudo, não garante que a concorrência perderá intensidade. A disputa com outras plataformas envolve preços, condições de frete, publicidade, serviços oferecidos aos vendedores e experiência de compra. Além disso, concorrentes internacionais podem contar com fontes de financiamento externas e estratégias de investimento que não dependem exclusivamente das condições de crédito no Brasil.
Câmbio acrescenta incerteza aos resultados em dólares
A volatilidade cambial constitui outro fator relevante para a avaliação das ações. O Mercado Livre divulga seus resultados consolidados em dólares, mas obtém uma parcela expressiva de suas receitas em moedas locais, principalmente no Brasil, México e Argentina. Oscilações nas taxas de câmbio podem alterar os valores apresentados nas demonstrações financeiras mesmo quando o desempenho operacional permanece relativamente estável.
Uma desvalorização do real, por exemplo, reduz o valor em dólares das receitas brasileiras quando convertidas para a moeda de apresentação do grupo, mantidas as demais condições. O efeito final sobre o lucro depende também da composição dos custos, das obrigações financeiras, dos instrumentos de proteção cambial e da estrutura de cada operação.
Por essa razão, a companhia utiliza indicadores de crescimento em moeda constante para demonstrar a evolução dos negócios sem parte das distorções provocadas pelo câmbio. No segundo trimestre, a expansão de 39% do GMV brasileiro nessa base foi inferior ao crescimento de 57% registrado em dólares, evidenciando como a conversão cambial pode modificar a leitura dos resultados.
A distinção também é importante para os investidores que acompanham a companhia na Nasdaq. Uma melhora operacional no Brasil não se traduz necessariamente em aumento proporcional do lucro consolidado em dólares, especialmente durante perÃodos de desvalorização cambial.
Próximo balanço deverá mostrar se o crescimento preserva sua força
A mudança de recomendação do Citi ocorre antes da divulgação dos resultados referentes ao terceiro trimestre de 2026, perÃodo que permitirá avaliar a continuidade do crescimento e a trajetória recente das margens operacionais. Os investidores deverão observar especialmente o desempenho do comércio eletrônico brasileiro, o custo das operações logÃsticas e a evolução da carteira de crédito do Mercado Pago.
O contraste entre receitas em expansão e lucro pressionado deverá permanecer no centro dessa avaliação. No segundo trimestre, o Mercado Livre conseguiu ampliar expressivamente suas atividades, mas registrou redução tanto do resultado operacional quanto do lucro lÃquido. Uma eventual recuperação de margens, acompanhada da manutenção do crescimento, fortaleceria os argumentos favoráveis à companhia. A continuidade da compressão, por outro lado, poderia exigir novas revisões das projeções financeiras.
A valorização potencial apontada pelo Citi depende dessas variáveis e das condições de mercado. A elevação da recomendação para compra representa uma mudança de avaliação do banco sobre a atratividade das ações, não uma alteração comprovada das perspectivas financeiras futuras. Os próximos demonstrativos permitirão confrontar essa expectativa com resultados efetivamente realizados.
Fontes:
MercadoLibre, Inc. — Carta aos acionistas e resultados financeiros do segundo trimestre de 2026, divulgados em 5 de agosto de 2026.
Securities and Exchange Commission (SEC) — Formulário 10-Q do MercadoLibre referente ao trimestre encerrado em 30 de junho de 2026, incluindo demonstrações financeiras e informações segmentadas.
Banco Central do Brasil — Comunicado e ata da 281ª reunião do Comitê de PolÃtica Monetária, realizada em setembro de 2026.








