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Confiança do Empresário Industrial tem Pior Janeiro em 10 Anos com Selic a 15%

por Camila Braga
24/01/2026 às 00h17
em Economia
Confiança Do Empresário Industrial Tem Pior Janeiro Em 10 Anos Com Selic A 15% - Gazeta Mercantil

Juros a 15% ao ano levam confiança do empresário industrial ao pior patamar de janeiro em uma década

O cenário macroeconômico brasileiro inicia o ano de 2026 sob uma nuvem de cautela que remonta aos períodos mais recessivos da história recente do país. Dados divulgados na última quarta-feira (21) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelam que a confiança do empresário industrial registrou o seu pior desempenho para um mês de janeiro nos últimos dez anos. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) situou-se em 48,5 pontos, um patamar que, embora apresente uma leve oscilação positiva de 0,5 ponto em relação ao fechamento de 2025, consolida um diagnóstico de pessimismo no setor produtivo.

Para compreender a profundidade deste indicador, é necessário dissecar as variáveis que compõem o humor do mercado. A confiança do empresário industrial não é apenas um sentimento abstrato; é o termômetro que antecipa decisões de investimento, contratações e expansão da capacidade instalada. Quando este índice permanece abaixo da linha divisória de 50 pontos, a sinalização é clara: a indústria está em contração ou, no mínimo, em compasso de espera, travada por um custo de capital proibitivo.

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Nesta análise aprofundada, a Gazeta Mercantil examina os fatores estruturais que derrubaram a confiança do empresário industrial, o impacto da taxa Selic em 15% ao ano, a comparação histórica com a crise de 2016 e as perspectivas para o setor nos próximos trimestres.

O Peso dos Juros na Confiança do Empresário Industrial

O fator preponderante para a deterioração da confiança do empresário industrial em janeiro de 2026 é, inequivocamente, a política monetária restritiva. Com a taxa Selic fixada em 15% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o custo do crédito tornou-se um obstáculo quase intransponível para a alavancagem operacional.

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A indústria é um setor intensivo em capital. A aquisição de maquinário, a gestão de estoques e o capital de giro dependem de financiamento. Quando a taxa básica de juros atinge o maior nível em quase 20 anos, o serviço da dívida consome a margem de lucro das companhias, erodindo a confiança do empresário industrial.

Segundo Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, o pessimismo atual não é um evento súbito, mas o resultado de um processo cumulativo. A elevação dos juros, iniciada no final de 2024 para combater pressões inflacionárias, demorou alguns trimestres para contaminar a economia real. Agora, em 2026, o “efeito retardado” da política monetária manifesta-se plenamente, consolidando a falta de confiança do empresário industrial diante de um mercado consumidor desaquecido e custos financeiros exorbitantes.

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Anatomia do ICEI: Realidade vs. Expectativa

O levantamento da CNI, que ouviu 1.058 empresas (sendo 426 pequenas, 383 médias e 249 grandes) entre os dias 5 e 9 de janeiro, oferece uma radiografia detalhada da confiança do empresário industrial. O índice é composto por dois vetores principais: o Índice de Condições Atuais e o Índice de Expectativas. A análise segregada desses componentes revela a dicotomia vivida pelo setor.

Condições Atuais: O Choque de Realidade

O subíndice que mede a percepção sobre as condições atuais da economia e dos próprios negócios registrou apenas 44 pontos, mesmo com uma alta marginal de 0,2 ponto. Na metodologia do ICEI, qualquer valor abaixo de 50 indica uma visão negativa. Portanto, a confiança do empresário industrial em relação ao momento presente é inexistente. Os gestores avaliam que o ambiente de negócios está pior do que há seis meses.

Isso reflete a dificuldade de repasse de custos, a demanda interna enfraquecida e a competição com importados em um cenário de câmbio volátil (com o dólar comercial operando a R$ 5,32). A percepção de deterioração corrente é o que ancora o índice geral na zona de pessimismo.

Expectativas: Um Otimismo Cauteloso

Por outro lado, o Índice de Expectativas subiu 0,7 ponto, atingindo 50,7 pontos. Ao cruzar a barreira dos 50 pontos, a confiança do empresário industrial em relação ao futuro (próximos seis meses) saiu da zona de pessimismo para uma neutralidade com viés positivo.

No entanto, a CNI alerta para a natureza desse otimismo. Ele não é sistêmico. A confiança do empresário industrial para o futuro é sustentada exclusivamente pela aposta no desempenho da própria empresa (“porta para dentro”), enquanto as perspectivas para a economia brasileira como um todo (“porta para fora”) permanecem negativas. O industrial confia na sua capacidade de gestão e eficiência, mas desconfia do ambiente macroeconômico que o cerca.

Comparativo Histórico: O Fantasma de 2016

O dado mais alarmante do relatório é a constatação de que este é o pior janeiro para a confiança do empresário industrial desde 2016. A comparação não é trivial. O ano de 2016 marcou o auge de uma das recessões mais severas da história econômica do Brasil, caracterizada por instabilidade política e desajuste fiscal.

Dez anos depois, o Brasil revive um cenário de descrédito no setor produtivo, embora as causas sejam distintas. Se em 2016 a crise era fiscal e política, em 2026 o gargalo é monetário. A confiança do empresário industrial está sendo minada pela necessidade do Banco Central de manter os juros em patamares contracionistas por um período prolongado, sacrificando a atividade econômica em nome da convergência da inflação.

Este paralelo histórico serve como um alerta para o governo e para as autoridades monetárias. Uma confiança do empresário industrial deprimida por muito tempo tende a gerar desinvestimento, obsolescência do parque fabril e, invariavelmente, impacto negativo no mercado de trabalho formal.

O Impacto por Porte de Empresa

A pesquisa da CNI também permite uma análise granular sobre como a confiança do empresário industrial varia de acordo com o tamanho da corporação.

  1. Pequenas Empresas: Tradicionalmente mais vulneráveis a flutuações de juros e com menos acesso a crédito barato, as pequenas indústrias são as que mais sofrem. A confiança do empresário industrial neste segmento tende a ser mais volátil e reativa ao fluxo de caixa de curto prazo.

  2. Médias Empresas: Encontram-se em um limbo, sem a flexibilidade das pequenas e sem o “colchão” financeiro das grandes. O custo de capital a 15% é particularmente danoso para este grupo, que muitas vezes depende de antecipação de recebíveis para operar.

  3. Grandes Empresas: Embora possuam maior resiliência e acesso ao mercado de capitais, a confiança do empresário industrial nas grandes corporações é afetada pela demanda agregada. Se o consumidor não compra (devido ao crédito caro), a grande indústria acumula estoques e freia a produção.

Consequências Econômicas da Baixa Confiança

A manutenção do ICEI abaixo de 50 pontos tem implicações diretas no Produto Interno Bruto (PIB). A confiança do empresário industrial é um indicador antecedente. Quando ela cai, os efeitos são sentidos na economia real meses depois.

  • Retração do Investimento (FBCF): Sem confiança, o empresário suspende projetos de expansão. A Formação Bruta de Capital Fixo tende a cair, comprometendo o crescimento futuro.

  • Estagnação do Emprego: A indústria é um dos maiores empregadores de mão de obra qualificada. Com a confiança do empresário industrial em baixa, as contratações são congeladas e turnos de trabalho podem ser reduzidos.

  • Cadeia de Suprimentos: O pessimismo na indústria contamina o setor de serviços e o comércio, criando um ciclo vicioso de desaquecimento econômico.

Cenário Externo e Incertezas

Embora o foco do ICEI seja doméstico, a confiança do empresário industrial não está imune ao cenário global. O noticiário internacional, com tensões geopolíticas (como as recentes declarações em Davos envolvendo EUA e Europa) e instabilidade em mercados financeiros, adiciona uma camada de risco. A volatilidade cambial, com o Euro e o Dólar oscilando, dificulta o planejamento de custos para a indústria importadora de insumos e exportadora de manufaturados.

Além disso, eventos no sistema financeiro doméstico, como liquidações extrajudiciais de instituições bancárias menores (ex: Will Bank), podem encarecer ainda mais o spread bancário, dificultando o acesso ao crédito e golpeando a confiança do empresário industrial.

Perspectivas: O Que Pode Reverter o Pessimismo?

Para que a confiança do empresário industrial retome uma trajetória consistente de alta e ultrapasse a barreira dos 50 pontos de forma robusta, é necessária uma mudança nos fundamentos macroeconômicos.

O mercado aguarda sinais claros de arrefecimento da inflação que permitam ao Copom iniciar um ciclo de corte de juros. Somente com a Selic recuando dos atuais 15% é que o custo financeiro das empresas se tornará sustentável, destravando investimentos e consumo.

Além disso, a agenda de reformas microeconômicas e a estabilidade fiscal são essenciais para melhorar a percepção de longo prazo. A CNI destaca que, embora haja uma expectativa de melhora para os próximos seis meses (Índice de Expectativas em 50,7), ela é frágil. Qualquer ruído político ou fiscal pode reverter esse viés e afundar novamente a confiança do empresário industrial.

O início de 2026 apresenta um desafio hercúleo para a indústria brasileira. O registro de 48,5 pontos no ICEI de janeiro é mais do que um número estatístico; é um grito de alerta do setor produtivo. A confiança do empresário industrial está ferida pela combinação tóxica de juros altos e atividade fraca.

Enquanto a política monetária continuar operando em terreno restritivo, a retomada do crescimento industrial será lenta e dolorosa. O pior resultado em dez anos deve servir de baliza para as decisões de política econômica nos próximos meses. Sem a recuperação da confiança do empresário industrial, a engrenagem do desenvolvimento nacional corre o risco de gripar, repetindo os erros e as consequências da década passada.

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