O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira, 4 de novembro de 2026, manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, interrompendo uma sequência de cinco reduções consecutivas iniciada em março. A decisão foi unânime entre os sete integrantes do colegiado e ocorreu em meio à deterioração das expectativas de inflação, ao aumento das incertezas fiscais e à desaceleração da atividade econômica. O Banco Central também elevou de 5,2% para 5,6% sua projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026, afastando ainda mais a estimativa do teto da meta de inflação, de 4,5%.
A manutenção dos juros era o resultado predominante nas expectativas dos investidores, embora parte do mercado ainda considerasse a possibilidade de uma redução de 0,25 ponto percentual. A decisão encerra temporariamente o ciclo de flexibilização monetária que havia levado a Selic de 15% para 13,75% ao ano, uma diminuição acumulada de 1,25 ponto percentual desde março. O comitê não estabeleceu uma data para a retomada dos cortes e condicionou seus próximos passos à evolução dos indicadores econômicos.
A reunião foi a primeira realizada após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro, e ocorreu durante um período de revisão das expectativas sobre a condução da política econômica brasileira. No comunicado, o Banco Central reiterou que acompanha os efeitos das decisões fiscais sobre a política monetária e os preços dos ativos financeiros. A preocupação doméstica foi acompanhada pelo agravamento das condições internacionais, especialmente em razão dos conflitos no Oriente Médio, das oscilações do petróleo e da manutenção de políticas monetárias restritivas nas economias avançadas.
Banco Central eleva projeções de inflação para 2026 e 2027
A revisão das estimativas de inflação foi uma das principais mudanças apresentadas pelo Copom. No cenário de referência, a projeção para o IPCA de 2026 passou de 5,2%, na reunião de setembro, para 5,6% em novembro. A elevação de 0,4 ponto percentual coloca a expectativa do Banco Central 1,1 ponto percentual acima do limite superior de tolerância da meta.
Para 2027, a mudança foi ainda maior. A projeção avançou de 3,9% para 4,7%, aumento de 0,8 ponto percentual entre as duas reuniões. Com isso, a estimativa também passou a superar o teto de 4,5%, indicando que o próprio cenário de referência da autoridade monetária contempla pressões inflacionárias que poderão persistir durante o próximo ano.
O Copom também revisou para 3,5% sua estimativa de inflação para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária. Na reunião anterior, a projeção apresentada era de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028. Como os horizontes são diferentes, a comparação entre os valores não representa uma revisão direta para um mesmo período, embora ambos permaneçam acima do centro da meta de 3%.
As projeções do comitê não devem ser confundidas com as expectativas coletadas pelo Boletim Focus. Enquanto o levantamento reúne estimativas de instituições financeiras e consultorias, os números apresentados na decisão do Copom resultam de modelos próprios, construídos a partir de hipóteses sobre juros, câmbio, preços internacionais e outras variáveis econômicas.
No cenário de referência divulgado nesta quarta-feira, o Banco Central considera uma taxa de câmbio inicial de R$ 5,20 por dólar e utiliza a trajetória futura da Selic extraída da pesquisa Focus. Para os preços do petróleo, a hipótese acompanha aproximadamente os contratos futuros durante seis meses, passando depois a incorporar crescimento de 2% ao ano. O modelo também considera bandeira tarifária verde nas contas de energia elétrica em dezembro de 2026 e dezembro de 2027.
Expectativas do mercado se afastam da meta de 3%
A decisão ocorreu depois de uma revisão expressiva nas projeções econômicas coletadas pelo Banco Central. Na pesquisa Focus com referência em 30 de outubro, divulgada em 3 de novembro, a estimativa mediana para a inflação de 2026 atingiu 5,22%, ante 5,19% na semana anterior. Para 2027, a previsão subiu de 4,34% para 4,76%, aumento de 0,42 ponto percentual em apenas uma semana.
O afastamento das expectativas em relação à meta ganhou importância porque a política monetária atua sobre os preços com defasagem. Uma alteração da Selic não modifica imediatamente o comportamento da inflação, mas influencia gradualmente o crédito, o consumo, os investimentos e a formação de preços pelas empresas.
Desde janeiro de 2025, o Brasil utiliza um regime de meta contínua de inflação, com centro de 3% e intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Nesse sistema, o cumprimento da meta é acompanhado mensalmente, considerando a inflação acumulada em 12 meses. O descumprimento formal ocorre quando o IPCA permanece fora da faixa de tolerância por seis meses consecutivos.
O dado oficial mais recente disponível para o IPCA acumulado em 12 meses, referente a setembro, alcançou 4,58%, ultrapassando em 0,08 ponto percentual o limite superior da meta. O resultado interrompeu o movimento de redução observado em agosto, quando a inflação havia ficado em 4,22%.
A deterioração das expectativas para os próximos anos representa um problema adicional para o Banco Central. Quando consumidores e empresas passam a projetar inflação persistentemente mais elevada, decisões de reajuste de preços e salários podem dificultar o retorno do índice à meta, mesmo que a atividade econômica esteja perdendo força.
Petróleo, câmbio e inflação de serviços ampliam riscos
O ambiente internacional passou a ocupar espaço maior na avaliação do Copom. O prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio, associado às pressões sobre os preços do petróleo e de seus derivados, foi identificado como um dos fatores capazes de elevar a inflação brasileira. A manutenção de juros restritivos nas economias avançadas também contribui para a volatilidade internacional e pode afetar o fluxo de recursos destinado aos países emergentes.
Os efeitos de uma valorização persistente do petróleo não se restringem aos combustíveis. A commodity participa diretamente dos custos de transporte, da produção de derivados e de diferentes cadeias industriais. A magnitude do repasse aos preços depende, entretanto, das condições de mercado, do câmbio, da tributação e das políticas comerciais adotadas pelas empresas.
No cenário doméstico, o comitê também destacou os riscos relacionados à inflação de serviços. Esse segmento possui forte relação com a renda, o emprego e o consumo das famílias, podendo apresentar maior resistência à desaceleração mesmo quando determinados preços de bens industriais ou alimentos começam a perder força.
Outro fator relevante é a trajetória cambial. Um real persistentemente depreciado aumenta o custo em moeda nacional de produtos e insumos importados, criando condições para novas pressões inflacionárias. O efeito, contudo, não é automático nem proporcional à valorização do dólar, pois depende das margens empresariais, dos contratos e da capacidade de repasse aos consumidores.
A avaliação do Banco Central considera que os riscos para a inflação continuam acima do habitual, com maior peso para os fatores capazes de pressionar os preços para cima. Entre os riscos de redução da inflação estão uma desaceleração econômica mais intensa no Brasil, o enfraquecimento da atividade global e eventuais quedas dos preços internacionais das commodities.
Economia desacelera, mas mercado de trabalho continua resistente
Apesar da piora das perspectivas inflacionárias, o Copom reconheceu que a economia brasileira apresenta sinais mais evidentes de perda de ritmo. Os indicadores divulgados desde setembro apontam desaceleração principalmente nos setores mais sensíveis ao crédito, ao custo do financiamento e às decisões de consumo e investimento.
O Banco Central também identificou sinais de desaquecimento do mercado de trabalho, embora continue classificando sua situação como resiliente. Essa combinação indica que os efeitos dos juros elevados já alcançam diferentes segmentos da economia, mas ainda não foram suficientes para reduzir as expectativas de inflação ao patamar desejado.
No Relatório de Política Monetária de setembro, a autoridade monetária havia projetado crescimento de 1,8% para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2026 e de 1,4% para 2027. O documento também destacou que a expansão econômica havia perdido velocidade no segundo trimestre, quando o PIB avançou 0,5%, depois de crescer 1,1% nos três primeiros meses do ano.
As expectativas do mercado foram posteriormente revistas para baixo. No Focus divulgado nesta semana, a previsão de crescimento do PIB de 2026 caiu de 1,80% para 1,76%, enquanto a estimativa para 2027 passou de 1,31% para 1,20%.
A desaceleração econômica normalmente reduz parte das pressões sobre os preços, mas o Banco Central enfrenta uma situação em que choques internacionais, câmbio e expectativas inflacionárias podem dificultar esse processo. Por isso, a decisão de manter a Selic considera simultaneamente os sinais de enfraquecimento da atividade e a necessidade de evitar uma persistência maior da inflação.
Decisão interrompe cinco reduções consecutivas da Selic
A manutenção dos juros em novembro representa a primeira interrupção do ciclo de flexibilização monetária iniciado em março de 2026. Depois de permanecer em 15% ao ano desde junho de 2025, a Selic foi reduzida gradualmente em cinco reuniões, todas com cortes de 0,25 ponto percentual.
A primeira redução levou a taxa para 14,75% em março. Em abril, o Copom estabeleceu os juros em 14,50%, seguidos por novas diminuições para 14,25% em junho, 14% em agosto e 13,75% em setembro.
A sequência de cinco cortes retirou 1,25 ponto percentual da taxa básica em aproximadamente seis meses. A interrupção anunciada nesta quarta-feira mantém integralmente a redução acumulada, mas indica que o Banco Central decidiu não ampliar o processo neste momento.
Na prática, a Selic de 13,75% continua representando um nível elevado de juros nominais. Seu impacto se estende às operações de crédito, ao financiamento de empresas, às decisões de investimento e à remuneração de aplicações financeiras, embora as taxas efetivamente cobradas pelos bancos também dependam de fatores como risco de inadimplência, prazo e custos operacionais.
A revisão das expectativas de juros acompanha a mudança no cenário inflacionário. O Focus passou a indicar Selic de 13,50% ao fim de 2026, ante 13,25% na pesquisa anterior. Para dezembro de 2027, a projeção avançou de 11,75% para 12,50%, diferença de 0,75 ponto percentual.
Considerando a taxa mantida nesta quarta-feira, a estimativa mediana para o encerramento de 2026 ainda contempla uma redução adicional de 0,25 ponto percentual. Essa possibilidade, entretanto, depende de nova decisão do Copom e não representa um compromisso assumido pela autoridade monetária.
Política fiscal permanece entre as preocupações do comitê
A decisão foi tomada dez dias depois do segundo turno das eleições presidenciais, que confirmou a reeleição de Lula. O resultado eleitoral ampliou as discussões sobre as medidas econômicas que poderão ser adotadas no próximo mandato, especialmente em relação ao ajuste das contas públicas, à trajetória da dívida e à futura composição da equipe econômica.
O comunicado do Copom não atribuiu a manutenção dos juros diretamente ao resultado das eleições nem apresentou avaliação sobre nomes ou propostas específicas para o Ministério da Fazenda. O documento reiterou, contudo, a importância de acompanhar os efeitos da política fiscal sobre os ativos financeiros e as condições de funcionamento da política monetária.
A relação entre juros e política fiscal ocorre por diferentes mecanismos. A percepção sobre a sustentabilidade da dívida pública pode influenciar os prêmios de risco exigidos pelos investidores, as taxas de juros de longo prazo e o comportamento do câmbio. Alterações nessas variáveis podem afetar as expectativas de inflação e, consequentemente, as decisões do Banco Central.
O efeito fiscal também depende da composição das medidas adotadas. Mudanças nas despesas públicas, na arrecadação e nas transferências de renda podem produzir impactos distintos sobre a demanda agregada, a inflação e a atividade econômica. A avaliação desses efeitos exige considerar tanto as decisões formalmente anunciadas quanto sua execução e seus resultados.
Ata será divulgada em 10 de novembro e próxima reunião ocorrerá em dezembro
A decisão desta quarta-feira foi tomada pelos sete integrantes do Copom, incluindo o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. A unanimidade indica que todos os participantes votaram pela manutenção da Selic em 13,75%, embora os fundamentos individuais da decisão sejam detalhados posteriormente na ata do colegiado.
O documento está previsto para publicação em 10 de novembro e deverá oferecer informações adicionais sobre a avaliação dos riscos inflacionários, os efeitos da desaceleração econômica e os fatores considerados na interrupção do ciclo de cortes.
A última reunião ordinária do Copom em 2026 está marcada para os dias 8 e 9 de dezembro. Até lá, o Banco Central poderá incorporar novos indicadores de inflação, atividade econômica e mercado de trabalho, além de informações sobre o cenário internacional e a política fiscal.
A manutenção dos juros não representa o encerramento definitivo do ciclo de flexibilização monetária. O comunicado deixa os próximos movimentos em aberto e estabelece que a duração da pausa dependerá da evolução das condições econômicas e da confiança do comitê na convergência da inflação para a meta de 3%.
Fontes:
Banco Central do Brasil — Comunicado da 282ª reunião do Comitê de Política Monetária, de 4 de novembro de 2026, com a decisão unânime sobre a Selic, avaliação dos riscos econômicos e projeções de inflação.
Banco Central do Brasil — Comunicado da 281ª reunião do Copom e ata de setembro de 2026, utilizados para comparar as projeções e a trajetória recente dos juros.
Banco Central do Brasil — Relatório Focus com referência em 30 de outubro de 2026, com as expectativas de mercado para inflação, Selic e crescimento econômico.
Banco Central do Brasil — Histórico das taxas básicas de juros e acompanhamento do regime de metas de inflação, com dados sobre as decisões anteriores e a evolução do IPCA.










