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Crise do Ueno Bank no Paraguai derruba presidente do BC e ameaça recursos públicos

Banco entrou em processo de resolução após registrar capital abaixo do mínimo exigido; governo tenta proteger depósitos, enquanto investigação criminal e suspensão de resgates ampliam os efeitos da crise.

por Bruno Assis
04/11/2026 às 07h29
em Economia
Crise Do Ueno Bank No Paraguai Derruba Presidente Do Bc E Ameaça Recursos Públicos - Gazeta Mercantil - Economia

A crise financeira do Ueno Bank provocou a renúncia do presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, na terça-feira, 3 de novembro, e levou as autoridades a adotar medidas emergenciais para proteger depositantes e recursos públicos mantidos na instituição. O banco, que ganhou espaço no mercado paraguaio com a expansão dos serviços digitais, entrou em um procedimento de resolução depois que o regulador identificou uma deterioração grave de sua capacidade de absorver perdas.

O Banco Central do Paraguai (BCP) informou que o índice de solvência do Ueno caiu para menos da metade do mínimo legalmente exigido, após ajustes realizados nas demonstrações financeiras durante um processo de regularização. A decisão de iniciar a resolução foi aprovada por unanimidade pela diretoria da autoridade monetária em 2 de novembro e comunicada publicamente no dia seguinte.

A gravidade da situação levou o regulador a determinar a atuação de interventores para examinar o patrimônio da instituição, preservar ativos e conduzir os procedimentos previstos na legislação bancária. Paralelamente, o Ministério Público iniciou uma investigação criminal e confirmou detenções de dirigentes ligados ao banco, enquanto o Congresso passou a discutir alterações emergenciais nas regras de proteção aos depósitos.

Os efeitos da crise também atingiram o mercado de capitais. A Superintendência de Valores suspendeu temporariamente os resgates de determinados fundos de investimento com aplicações vinculadas ao Ueno. Uma agência de classificação de risco rebaixou a avaliação de solvência do banco de AApy, atribuída em março, para Dpy, categoria associada a deterioração financeira acentuada.

O caso coloca o governo de Santiago Peña diante de uma questão adicional: a proteção de valores pertencentes a instituições públicas, incluindo reservas previdenciárias. Segundo informações divulgadas pela Câmara dos Deputados, cerca de US$ 355 milhões do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável por benefícios previdenciários e serviços de saúde, estavam aplicados no banco.

Banco Central identificou solvência inferior à metade do mínimo exigido

A situação do Ueno Bank chegou ao estágio de resolução após a identificação de insuficiência patrimonial durante o acompanhamento regulatório. Segundo o comunicado oficial, os ajustes efetuados nos balanços da instituição reduziram seu índice de solvência a um nível inferior a 50% do mínimo exigido pela regulamentação.

O indicador de solvência relaciona o capital disponível de um banco aos riscos assumidos em suas operações. Sua função é demonstrar se a instituição mantém recursos próprios suficientes para absorver perdas sem comprometer imediatamente os depósitos e outras obrigações.

Quando esse indicador fica abaixo dos limites regulatórios, o banco perde parte de sua capacidade financeira de enfrentar perdas inesperadas. No caso do Ueno, o resultado identificado pelo BC paraguaio foi considerado grave o suficiente para justificar a abertura do procedimento previsto na Lei nº 2.334/2003, que disciplina a garantia de depósitos e a resolução de instituições financeiras.

O Banco Central não divulgou, no comunicado inicial, o valor exato da insuficiência patrimonial nem uma estimativa definitiva das perdas que poderão ser identificadas. A apuração desses números dependerá da avaliação dos ativos e passivos realizada durante a intervenção.

A diferença entre uma dificuldade temporária de liquidez e um problema de solvência é relevante. Um banco pode enfrentar falta momentânea de dinheiro disponível mesmo possuindo patrimônio suficiente para cumprir suas obrigações. Já a insuficiência de capital indica que sua estrutura patrimonial deixou de atender aos parâmetros de segurança definidos pelo regulador.

No procedimento de resolução, as autoridades podem avaliar alternativas para preservar depósitos e ativos, identificar responsabilidades e determinar a destinação das operações. A abertura desse processo não equivale, por si só, a uma conclusão definitiva sobre o valor recuperável pelos credores ou a uma sentença criminal contra seus administradores.

Rebaixamento de AApy para Dpy confirma deterioração financeira

A crise provocou uma mudança expressiva na classificação de risco atribuída ao Ueno Bank. Em relatório publicado em 3 de novembro, a agência Solventa & Riskmétrica reduziu a nota de solvência da instituição de AApy, com perspectiva estável em março de 2026, para Dpy.

A categoria Dpy é utilizada pela classificadora para instituições que apresentam deterioração econômica e financeira acentuada, com indicadores de solvência inferiores aos limites exigidos e descumprimentos capazes de levar à aplicação de mecanismos de resolução pelo supervisor.

A revisão foi fundamentada na decisão do Banco Central de iniciar o procedimento de resolução e nas consequências regulatórias da insuficiência patrimonial identificada. O relatório também registra que foram designados interventores para verificar a situação financeira e adotar medidas destinadas à preservação dos ativos.

A passagem de uma classificação elevada para uma categoria associada a problemas graves de solvência altera a avaliação formal do risco da instituição. O relatório, contudo, não apresenta uma estimativa de quanto os depositantes ou investidores poderão recuperar nem determina o resultado econômico final da intervenção.

A classificação também não deve ser confundida com a nota de crédito soberano do Paraguai. O rebaixamento diz respeito especificamente ao Ueno Bank e não representa uma alteração automática da avaliação da capacidade de pagamento do governo paraguaio.

O BCP procurou afastar essa interpretação ao afirmar que a situação constitui um episódio específico, sem representar uma condição generalizada de fragilidade do sistema financeiro nacional.

Garantia de depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por cliente

A proteção dos depositantes tornou-se uma das principais prioridades da intervenção. De acordo com o Banco Central, o Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) assegura cobertura de até 75 salários mínimos mensais para atividades diversas não especificadas, valor equivalente a 228,3 milhões de guaranis por depositante na data da decisão.

O limite é aplicado por pessoa física ou jurídica e por instituição financeira. Isso significa que a garantia não é multiplicada automaticamente pelo número de contas mantidas pelo mesmo cliente no banco.

Em comunicado separado, divulgado em 3 de novembro, o regulador anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos depositantes do Ueno, utilizando recursos do FGD. A autoridade monetária informou que os pagamentos seriam realizados em breve, mas ainda não havia apresentado um calendário completo de liberação dos valores.

O comunicado também esclarece que clientes com saldos superiores ao primeiro pagamento receberão as parcelas restantes conforme o cronograma que vier a ser estabelecido. Eventuais dívidas vencidas do depositante com o próprio Ueno deverão ser consideradas na compensação antes do pagamento da garantia.

Os 10 milhões de guaranis anunciados inicialmente representam aproximadamente 4,4% do teto ordinário de 228,3 milhões. Portanto, o valor do primeiro desembolso não corresponde ao limite total da cobertura legal.

Para valores superiores à garantia, a recuperação dependerá dos mecanismos previstos na legislação e da situação patrimonial identificada durante a resolução. O Banco Central afirmou que buscará a maior proteção possível para esses saldos, sem estabelecer, até aquele momento, um percentual definitivo de restituição.

Congresso discute pagamentos antecipados e proteção dos fundos públicos

A dimensão dos depósitos públicos ampliou a pressão sobre as autoridades paraguaias. O Instituto de Previsión Social, responsável por administrar recursos vinculados à previdência e à assistência à saúde, estava entre os organismos com aplicações no Ueno Bank.

A Câmara dos Deputados informou que aproximadamente US$ 355 milhões pertencentes às reservas previdenciárias do IPS estavam expostos à situação da instituição financeira. Esse montante corresponde a recursos administrados em nome de segurados e beneficiários, o que torna sua preservação uma questão de interesse público.

O Congresso passou a examinar duas frentes legislativas relacionadas à crise. Uma delas procura acelerar os pagamentos aos depositantes abrangidos pelo FGD. A outra pretende ampliar excepcionalmente a proteção dos recursos públicos mantidos no Ueno Bank.

Na terça-feira, o Senado aprovou, com modificações, uma proposta para permitir a antecipação da garantia de depósitos em até 40 salários mínimos por depositante, mediante compensação das obrigações vencidas com o banco. O projeto prevê um mecanismo de pagamento antecipado em prazo reduzido, sujeito à conclusão do processo legislativo.

A medida foi encaminhada à Câmara dos Deputados, que convocou uma sessão extraordinária para esta quarta-feira, 4 de novembro, às 10h, no horário local, com o objetivo de examinar a alteração legal.

Em outra iniciativa, parlamentares apresentaram um projeto destinado a permitir a cobertura integral dos recursos públicos depositados no Ueno, inclusive valores pertencentes a instituições previdenciárias. A proposta foi encaminhada para análise nas comissões parlamentares.

As duas medidas possuem objetivos distintos. A primeira busca antecipar o acesso dos depositantes aos recursos garantidos pela legislação. A segunda pretende criar uma proteção excepcional para valores públicos que podem superar os limites ordinários do sistema de garantia.

A aprovação definitiva dessas alterações ainda depende da tramitação legislativa correspondente. Até sua conclusão, não é possível considerar assegurada a restituição integral de todos os recursos públicos mantidos na instituição.

Ministério Público investiga dirigentes e examina cerca de 2 mil páginas

A crise financeira passou também à esfera criminal. Em comunicado divulgado em 3 de novembro, o Ministério Público paraguaio confirmou a abertura de uma investigação após receber uma denúncia apresentada por integrantes da diretoria do Banco Central.

O procedimento está sob responsabilidade do promotor Francisco Cabrera, da Unidade Especializada em Delitos Econômicos e Anticorrupção. Segundo a instituição, a denúncia formal possui aproximadamente 200 páginas e, com a documentação complementar, reúne cerca de 2 mil páginas para exame.

Durante entrevista coletiva, Cabrera confirmou detenções de dirigentes ligados ao Ueno Bank e informou que a investigação está concentrada na identificação de possíveis responsabilidades penais decorrentes das operações examinadas pelo regulador.

Entre as hipóteses investigativas mencionadas pelo Ministério Público estão lesão de confiança, condutas indevidas em situações de crise e estelionato, além de outros possíveis delitos econômicos. A existência dessas hipóteses não significa que os crimes tenham sido comprovados ou que os investigados já tenham sido condenados.

O promotor explicou que as detenções foram determinadas, entre outros motivos, para garantir a presença das pessoas investigadas durante o procedimento. Também foram recebidas informações de inteligência sobre o risco de saída do país por parte de alguns envolvidos.

A etapa seguinte consiste em examinar os documentos e decidir se existem elementos suficientes para a apresentação de acusações formais. O Ministério Público informou que as medidas cautelares eventualmente solicitadas deverão respeitar os procedimentos previstos na legislação processual paraguaia.

Até a conclusão da investigação, as suspeitas devem permanecer diferenciadas das irregularidades patrimoniais já identificadas pelo Banco Central. A insuficiência de capital que motivou a resolução constitui um fato regulatório, enquanto a eventual responsabilidade criminal de administradores depende de apuração própria.

Renúncia de Carlos Carvallo amplia questionamentos sobre supervisão bancária

A saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central acrescentou uma dimensão institucional à crise. Ele apresentou sua renúncia em 3 de novembro, depois de a autoridade monetária formalizar a abertura do procedimento de resolução do Ueno Bank.

Carvallo havia assumido a presidência do BCP em setembro de 2023, no início do governo Santiago Peña. Antes disso, exerceu funções no setor financeiro privado, incluindo a direção da instituição que antecedeu a estrutura atual do Ueno.

Essa trajetória passou a ser questionada no ambiente político paraguaio diante das dificuldades financeiras identificadas pelo regulador. A discussão envolve a qualidade da fiscalização bancária, a identificação antecipada dos riscos e as respostas institucionais adotadas antes da decisão de intervenção.

Ao anunciar sua saída, Carvallo afirmou que a renúncia permitiria reduzir as controvérsias políticas em torno da autoridade monetária e preservar as condições de trabalho de seus integrantes. Ele também indicou a necessidade de garantir a continuidade administrativa do procedimento iniciado contra o Ueno.

A renúncia não representa, por si mesma, comprovação de responsabilidade individual pelas irregularidades investigadas. A eventual apuração de condutas administrativas ou penais exige procedimentos próprios e documentação específica.

O governo de Santiago Peña passou a enfrentar cobranças relacionadas tanto à fiscalização da instituição quanto à concentração de recursos públicos no banco. O debate parlamentar mostra que a preocupação não se restringe à situação dos correntistas, alcançando também a administração de reservas previdenciárias e outros ativos estatais.

Suspensão de resgates atinge fundos de investimento ligados ao Ueno

Os efeitos da crise ultrapassaram as contas bancárias tradicionais. Em circular datada de 3 de novembro, a Superintendência de Valores do Banco Central informou que determinados fundos mútuos com investimentos vinculados ao Ueno Bank tiveram seus resgates temporariamente suspensos.

A decisão foi formalizada pela Resolução SV.SG. nº 0015/2026 e alcança apenas os fundos identificados no ato regulatório. A autoridade esclareceu que outros fundos de investimento, inclusive os administrados pelas mesmas empresas, não estão automaticamente submetidos às restrições.

Segundo a Superintendência, a suspensão busca garantir tratamento equivalente aos investidores enquanto são determinados os valores dos ativos ligados ao banco. A medida não significa o encerramento ou a liquidação dos fundos, cujo patrimônio permanece juridicamente separado dos recursos de suas administradoras e do próprio Ueno Bank.

O regulador também estabeleceu novos critérios de avaliação dessas aplicações por meio da Resolução SV.SG. nº 0016/2026. A previsão é de que os fundos possam retomar gradualmente resgates e novas aplicações a partir de quinta-feira, 5 de novembro, conforme suas administradoras implementem os critérios exigidos.

A normalização dependerá da situação de cada fundo e da resolução de eventuais pendências operacionais. As administradoras deverão comunicar diretamente aos investidores as datas em que as operações poderão ser retomadas.

A medida demonstra como a deterioração financeira de uma instituição pode atingir outros participantes do mercado, mesmo quando não possuem depósitos bancários tradicionais. Fundos que mantêm títulos ou aplicações vinculadas ao banco precisam avaliar esses ativos antes de calcular adequadamente o valor das cotas e permitir a saída de investidores.

Recuperação dos depósitos dependerá da avaliação dos ativos do banco

O procedimento de resolução conduzido pelo Banco Central do Paraguai terá como uma de suas principais etapas a verificação da situação patrimonial do Ueno Bank. Os interventores deverão examinar a qualidade dos ativos, os compromissos assumidos pela instituição e a capacidade de recuperação dos valores destinados aos depositantes e demais credores.

O resultado dessa avaliação será determinante para identificar a extensão das perdas e os recursos efetivamente disponíveis. Também permitirá distinguir os valores protegidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos daqueles que dependerão de medidas adicionais de recuperação.

A situação dos fundos públicos continuará sujeita às decisões do Congresso e à aplicação dos mecanismos legais de proteção. A aprovação de regras extraordinárias poderá modificar a velocidade e a abrangência dos pagamentos, mas não elimina a necessidade de determinar a situação financeira real da instituição.

Paralelamente, a investigação criminal deverá apurar se existem condutas individuais que contribuíram para as irregularidades encontradas. Essa apuração seguirá procedimentos independentes das decisões destinadas a preservar os depósitos.

O Banco Central sustenta que o episódio não representa uma crise generalizada do sistema bancário paraguaio. A evolução do caso, entretanto, dependerá da conclusão da análise patrimonial, da implementação dos pagamentos anunciados e da definição das medidas legais necessárias para proteger os clientes e os recursos públicos.

Fontes:

Banco Central do Paraguai — comunicado de 3 de novembro de 2026 sobre a abertura do procedimento de resolução do Ueno Bank, insuficiência de solvência, intervenção e cobertura de depósitos.

Banco Central do Paraguai — comunicado de 3 de novembro de 2026 sobre o primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos depositantes do Ueno Bank.

Solventa & Riskmétrica — relatório oficial de revisão da classificação de solvência do Ueno Bank, publicado em 3 de novembro de 2026.

Ministério Público do Paraguai — comunicado de 3 de novembro de 2026 sobre as diligências investigativas, detenções de dirigentes e documentação apresentada pelo Banco Central.

Câmara de Senadores do Paraguai — comunicado de 3 de novembro de 2026 sobre a aprovação de proposta para antecipação da garantia de depósitos e a tramitação da proteção aos recursos públicos.

Câmara dos Deputados do Paraguai — comunicados de 3 de novembro de 2026 sobre a convocação de sessão extraordinária, os projetos emergenciais e os recursos do Instituto de Previsión Social mantidos no Ueno Bank.

Superintendência de Valores do Banco Central do Paraguai — Circular SV.SG. nº 020/2026 sobre a suspensão temporária de resgates em fundos mútuos com investimentos vinculados ao Ueno Bank.

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