A coordenadora do programa econômico de Flávio Bolsonaro (PL), Daniella Marques, afirmou que o Brasil só teria uma nova eleição dali a oito anos, durante uma entrevista concedida ao lado do candidato à Presidência da República. A declaração ocorreu em 6 de agosto de 2026, quando a ex-presidente da Caixa Econômica Federal apresentava propostas de ajuste fiscal para um eventual governo do senador. A afirmação contrasta com o calendário eleitoral estabelecido pela Constituição, que prevê mandatos presidenciais de quatro anos e a realização periódica de eleições.
A manifestação foi registrada durante uma conversa sobre as condições polÃticas necessárias para implementar mudanças nas contas públicas. Daniella argumentava que um eventual governo de Flávio Bolsonaro precisaria aproveitar o capital polÃtico obtido nas urnas para aprovar medidas fiscais e administrativas. Nesse contexto, mencionou a renovação do Senado, a articulação com o Congresso Nacional e a preparação de propostas para redução de despesas.
A entrevista foi divulgada originalmente em agosto, embora a declaração tenha voltado ao debate polÃtico na reta final da eleição presidencial. O registro integral permite identificar que a referência aos oito anos foi feita durante uma discussão econômica, sem a apresentação de uma proposta especÃfica para suspender eleições ou ampliar o mandato presidencial para esse perÃodo.
Daniella Marques associa prazo de oito anos a reformas econômicas
Durante o programa, Daniella explicou que a equipe responsável pela formulação econômica da candidatura trabalhava na elaboração de alternativas para reorganizar as despesas federais. Segundo ela, as medidas envolveriam mudanças no modelo de gestão pública, revisão das regras fiscais e negociação polÃtica com diferentes setores do Estado. A ex-presidente da Caixa defendeu que essas iniciativas fossem preparadas ainda durante a transição de governo, caso Flávio Bolsonaro vencesse a disputa.
A coordenadora afirmou que seriam apresentadas aproximadamente 300 possibilidades de cortes de gastos, a partir das quais o candidato e seus articuladores polÃticos poderiam definir prioridades. Também mencionou economistas como Roberto Campos Neto, Mansueto Almeida e Paulo Guedes durante a exposição de suas ideias. As referências aos profissionais foram feitas pela própria Daniella, sem constituir, isoladamente, confirmação de participação formal de todos eles na elaboração das propostas.
Ao detalhar as dificuldades para aprovar mudanças estruturais, ela destacou a diferença entre as medidas desejadas pela equipe econômica e aquelas que efetivamente poderiam obter apoio parlamentar. Rogério Marinho, integrante da articulação polÃtica de Flávio Bolsonaro, foi citado nesse processo de negociação. A declaração sobre o calendário eleitoral apareceu justamente quando Daniella relacionava a possibilidade de reformas à composição polÃtica do Senado.
A coordenadora utilizou a expressão “Só vai ter eleição daqui a oito anos”, acrescentando que o perÃodo permitiria reorganizar o paÃs. Na sequência, defendeu que um futuro governo precisaria reduzir despesas próprias antes de discutir alterações em temas socialmente sensÃveis, incluindo Previdência e salário mÃnimo. Essas referências foram apresentadas como parte de sua argumentação sobre a necessidade de demonstrar compromisso com o ajuste fiscal.
Constituição estabelece eleições antes de 2034
O sistema constitucional brasileiro não prevê um intervalo de oito anos entre eleições presidenciais. O artigo 82 da Constituição Federal estabelece mandato de quatro anos para o presidente da República, com inÃcio em 5 de janeiro do ano seguinte à eleição. Pelas regras atualmente em vigor, o vencedor da disputa presidencial de 2026 exercerá o mandato de 2027 a 2031, com nova eleição prevista para 2030.
O calendário também contempla eleições municipais em 2028, quando os eleitores deverão escolher prefeitos, vice-prefeitos e vereadores. O artigo 29 da Constituição fixa em quatro anos os mandatos municipais e determina a realização de eleições diretas. Dessa maneira, mesmo durante um mandato presidencial iniciado em 2027, o paÃs continuará realizando consultas eleitorais em âmbito municipal.
As eleições gerais de 2030, por sua vez, deverão renovar os mandatos da Presidência, dos governos estaduais e da Câmara dos Deputados, além de parte do Senado. O calendário decorre da alternância constitucional entre eleições municipais e gerais. A mudança de duração dos mandatos ou das regras de votação depende de procedimentos legislativos próprios, não podendo ser determinada unilateralmente pelo presidente eleito.
A Constituição estabelece ainda, no artigo 60, proteção especÃfica ao voto direto, secreto, universal e periódico. Essa garantia integra o conjunto de cláusulas pétreas, que não podem ser abolidas por emenda constitucional. Portanto, uma eventual discussão sobre mudanças no sistema eleitoral precisa respeitar limites materiais que vão além da obtenção de maioria parlamentar.
Renovação do Senado foi apresentada como vantagem polÃtica
Um dos argumentos utilizados por Daniella Marques foi a renovação de dois terços do Senado nas eleições de 2026. O dado corresponde à estrutura constitucional da Casa, composta por 81 integrantes. Neste ano, 54 cadeiras foram submetidas ao voto popular, enquanto os ocupantes das outras 27 vagas possuem mandatos que prosseguem até 2031.
Os senadores são eleitos para perÃodos de oito anos, diferentemente do presidente da República e dos deputados federais, cujos mandatos duram quatro anos. A renovação acontece alternadamente: em uma eleição, são escolhidos 27 representantes; na seguinte, 54. Essa regra permite que parte dos senadores mantenha seus mandatos durante diferentes legislaturas, sem interromper a realização das eleições nacionais.
A existência de 54 cadeiras em disputa, entretanto, não significa que todas sejam conquistadas por um mesmo grupo polÃtico. A formação de uma maioria parlamentar depende dos resultados eleitorais e das articulações posteriores entre partidos e senadores. Também não equivale automaticamente à obtenção dos votos necessários para aprovar mudanças constitucionais.
Uma proposta de emenda à Constituição precisa ser aprovada em dois turnos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. São necessários pelo menos 308 votos favoráveis entre os deputados e 49 entre os senadores, correspondentes a três quintos dos integrantes de cada Casa. Mesmo uma base governista numericamente expressiva precisa cumprir essas exigências para modificar dispositivos constitucionais.
Flávio Bolsonaro apresentou PEC para acabar com a reeleição
A declaração de Daniella também deve ser analisada diante de uma iniciativa legislativa apresentada pelo próprio Flávio Bolsonaro. Em março de 2026, o senador protocolou a Proposta de Emenda à Constituição 4/2026, destinada a impedir a reeleição consecutiva para a Presidência da República. A medida foi apresentada com o apoio de outros parlamentares e permanece em tramitação no Senado.
A proposta não estabelece mandato presidencial de oito anos. Seu objetivo declarado é tornar inelegÃvel, para o perÃodo presidencial imediatamente subsequente, quem já estiver exercendo a Presidência. Trata-se, portanto, de uma alteração nas condições de recondução ao cargo, e não de uma iniciativa destinada a eliminar eleições durante dois ciclos presidenciais.
Na própria entrevista de agosto, Flávio Bolsonaro defendeu o fim da reeleição e discutiu a possibilidade de um mandato único de quatro ou cinco anos, dependendo das decisões do Congresso Nacional. A manifestação ocorreu posteriormente à declaração de Daniella sobre o prazo de oito anos. Os posicionamentos precisam ser distinguidos, pois tratam de perÃodos e mecanismos institucionais diferentes.
Segundo o registro legislativo do Senado, a PEC 4/2026 continuava aguardando despacho em outubro. Em 19 de outubro, foi recebido um requerimento do senador Laércio Oliveira para acrescentar seu apoiamento à proposta. O procedimento não corresponde à aprovação do texto nem altera, por si só, as regras constitucionais atualmente aplicáveis às eleições presidenciais.
Outra iniciativa em discussão no Congresso é a PEC 12/2022, de autoria inicial do senador Jorge Kajuru e outros parlamentares. Essa proposta prevê o fim da reeleição consecutiva para chefes do Executivo e a ampliação de mandatos para cinco anos, com alterações no calendário eleitoral. O texto está pronto para deliberação do Plenário do Senado, mas ainda não foi convertido em norma constitucional.
Plano de cortes depende de medidas concretas e aprovação legislativa
A discussão econômica que antecedeu a declaração de Daniella Marques envolveu propostas de contenção de despesas, reorganização administrativa e revisão do arcabouço fiscal. A coordenadora defendeu que a equipe de um eventual governo apresentasse medidas estruturais logo no inÃcio da gestão. Parte dessas alterações, segundo sua própria exposição, dependeria de projetos de lei ou de emendas constitucionais.
A referência a aproximadamente 300 alternativas de cortes não equivale à aprovação de um programa fiscal com esse número de medidas. Para determinar o impacto efetivo das propostas, seria necessário conhecer seus valores, os órgãos atingidos, os prazos de implementação e as modificações legais exigidas. A quantidade de alternativas mencionada por Daniella não permite calcular, isoladamente, a economia que seria obtida.
O processo orçamentário brasileiro também estabelece atribuições distintas para o Executivo e o Legislativo. Cabe ao governo encaminhar propostas e administrar a execução orçamentária, mas o Congresso participa da definição de despesas, da aprovação de leis e do controle sobre a gestão federal. Mudanças que alcancem direitos ou obrigações previstos constitucionalmente dependem dos procedimentos correspondentes.
Essa divisão institucional é particularmente relevante para reformas previdenciárias, alterações na estrutura do serviço público e mudanças permanentes nas regras fiscais. A existência de apoio polÃtico pode facilitar negociações, mas não substitui os requisitos legais de cada iniciativa. Tampouco dispensa a apresentação dos efeitos financeiros e das condições de implementação das medidas propostas.
Segundo turno presidencial ocorrerá em 25 de outubro
A discussão sobre o programa econômico de Flávio Bolsonaro acontece na reta final do segundo turno presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro de 2026. O senador disputa a Presidência com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), após ambos terem avançado na votação realizada em 4 de outubro. A composição do próximo governo dependerá do resultado definitivo das urnas.
Até 22 de outubro, a PEC apresentada por Flávio Bolsonaro permanecia sem aprovação, e a Constituição continuava estabelecendo o mandato presidencial de quatro anos. Assim, independentemente do vencedor da eleição, a legislação vigente prevê a continuidade das eleições periódicas, com pleitos municipais em 2028 e nova disputa presidencial em 2030.





