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Derrota de Flávio Bolsonaro abre disputa na direita; Tarcísio e Michelle ganham espaço para 2030

Governador de São Paulo e senadora eleita pelo Distrito Federal surgem entre os nomes discutidos para a sucessão do bolsonarismo; PL terá as maiores bancadas do Congresso e seis governadores a partir de 2027.

por Júlia Campos
26/10/2026 às 18h05
em Política
Michelle E Tarcísio - Gazeta Mercantil

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 abriu uma nova discussão sobre a liderança da direita brasileira e a sucessão política de Jair Bolsonaro. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), eleita senadora pelo Distrito Federal, estão entre os nomes considerados por integrantes do campo conservador para a disputa presidencial de 2030. Enquanto Tarcísio inicia um segundo mandato à frente do maior estado do país, Michelle assumirá seu primeiro cargo eletivo, com mandato de oito anos. A definição de uma candidatura nacional, entretanto, dependerá das articulações entre partidos e lideranças ao longo dos próximos quatro anos.

Lula venceu a eleição de domingo (25) com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos (48,21%) de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de 4.430.191 votos, depois de o senador ter encerrado o primeiro turno à frente do presidente. Apesar da derrota presidencial, o PL ampliou sua representação no Congresso e conquistou seis governos estaduais. Os resultados demonstram que a legenda continuará com presença expressiva na oposição a partir de 2027.

A discussão sobre a sucessão ocorre em um cenário no qual Jair Bolsonaro permanece impedido de disputar eleições e cumpre pena de prisão após condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Flávio, escolhido pelo pai para representar seu grupo político na corrida presidencial, encerrará o mandato no Senado em 31 de janeiro de 2027. A saída do Congresso modifica sua posição institucional, embora a votação presidencial tenha ampliado sua projeção nacional. Tarcísio e Michelle, por outro lado, terão mandatos para desenvolver suas agendas políticas durante o próximo ciclo eleitoral.

Tarcísio chega a 2027 com novo mandato em São Paulo

Reeleito governador de São Paulo no primeiro turno, com 62,65% dos votos válidos, Tarcísio de Freitas permanecerá à frente da administração estadual até o início de 2031. O resultado foi confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 4 de outubro e representou uma vitória sobre Fernando Haddad (PT), sem necessidade de segundo turno. Ex-ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, o governador mantém relações políticas com o ex-presidente e com partidos de direita e centro-direita. Sua posição no comando do maior colégio eleitoral do Brasil constitui um elemento relevante nas discussões sobre a próxima eleição presidencial.

A administração paulista oferece a Tarcísio uma estrutura para ampliar sua atuação política e apresentar resultados de governo. Projetos de transporte, saneamento básico, infraestrutura e concessões estarão entre os temas acompanhados durante o novo mandato. O desempenho nessas áreas poderá influenciar sua relação com setores empresariais, gestores públicos e dirigentes partidários. Isso não representa, entretanto, uma candidatura presidencial anunciada ou uma garantia de apoio para 2030.

O governador também precisará conciliar a aproximação com outras legendas e a relação com o eleitorado identificado com Jair Bolsonaro. A campanha de 2026 demonstrou a importância dessas alianças, especialmente durante o segundo turno, quando Tarcísio participou de compromissos ao lado de Flávio. A continuidade dessa relação poderá influenciar as negociações internas da direita nos próximos anos. A escolha de um candidato comum dependerá de entendimentos partidários ainda inexistentes.

Caso decida disputar a Presidência em 2030, Tarcísio terá de observar a regra constitucional de desincompatibilização. O artigo 14, parágrafo 6º, da Constituição determina que governadores renunciem ao mandato até seis meses antes da eleição para concorrer a outro cargo. Assim, uma eventual candidatura presidencial exigiria que ele deixasse o governo paulista antes do término previsto de seu segundo mandato. Essa condição terá importância prática nas articulações eleitorais.

Michelle Bolsonaro assume mandato próprio no Senado

Michelle Bolsonaro também chega ao período pós-eleitoral com uma mudança em sua trajetória política. Eleita senadora pelo Distrito Federal com 938.496 votos, correspondentes a 29,1% dos votos registrados na disputa para o Senado, ela assumirá o cargo em fevereiro de 2027. Foi a candidata mais votada para o Senado no DF, segundo os resultados oficiais divulgados pela Justiça Eleitoral. A eleição lhe garante um mandato de oito anos e uma posição institucional independente dos cargos anteriormente ocupados por integrantes de sua família.

A ex-primeira-dama construiu parte de sua presença política por meio de atividades ligadas ao PL Mulher e de manifestações públicas sobre temas religiosos e sociais. Sua atuação também incluiu iniciativas voltadas à inclusão de pessoas com deficiência, especialmente da comunidade surda. A entrada no Senado permitirá que participe diretamente de votações, comissões e debates legislativos. O mandato oferecerá uma oportunidade de desenvolver uma trajetória parlamentar própria.

Sua relação com Flávio Bolsonaro, entretanto, passou por divergências durante a campanha de 2026. Os dois discordaram publicamente de estratégias eleitorais e alianças estaduais, embora tenham retomado contatos e realizado atividades políticas conjuntas posteriormente. Esses episódios demonstram que o grupo ligado à família Bolsonaro não possui necessariamente posições uniformes sobre todos os projetos partidários. A organização dessas relações poderá influenciar futuras negociações eleitorais.

A possibilidade de Michelle integrar uma chapa presidencial em 2030, como candidata à Presidência ou à Vice-Presidência, permanece no campo das articulações políticas. Sua eleição para o Senado não implica decisão sobre uma candidatura nacional. Uma eventual composição com Tarcísio dependeria de negociações entre PL, Republicanos e outras legendas. Até o momento, não existe uma chapa formalmente definida para a próxima eleição presidencial.

Flávio Bolsonaro perde eleição, mas mantém projeção nacional

A derrota presidencial coloca Flávio Bolsonaro em uma situação diferente da enfrentada por Tarcísio e Michelle. O senador recebeu quase 60 milhões de votos no segundo turno, depois de liderar a primeira etapa da disputa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O resultado confirma sua capacidade de mobilização eleitoral em escala nacional. Ao mesmo tempo, a derrota impede que assuma a Presidência e o deixa sem mandato eletivo a partir de fevereiro.

Flávio também enfrenta investigações relacionadas a operações financeiras e a pessoas de seu círculo de relações. Entre os procedimentos divulgados estão apurações sobre o financiamento do filme Dark Horse, associado à trajetória política de Jair Bolsonaro, e vínculos empresariais com o advogado Willer Tomaz. O senador nega irregularidades e contesta as suspeitas apresentadas pelos investigadores. A existência desses procedimentos não representa condenação e não permite antecipar seus resultados.

O fim do mandato não significa que os casos sejam automaticamente encerrados ou transferidos para instâncias inferiores. A jurisprudência do STF admite a permanência na Corte de investigações relativas a fatos relacionados ao exercício de funções públicas, mesmo após a saída do cargo. A competência deverá ser analisada conforme as circunstâncias de cada procedimento. Essas questões jurídicas passam a integrar o contexto político do senador, sem determinar antecipadamente sua participação futura na vida partidária.

A posição de Flávio no PL também dependerá de decisões internas da legenda e de sua relação com outras lideranças. A expressiva votação presidencial pode ser utilizada como referência em discussões sobre a organização da oposição. Por outro lado, Tarcísio e Michelle terão cargos executivos ou legislativos a partir dos quais poderão desenvolver suas próprias iniciativas. A disputa por influência dentro da direita não se limita, portanto, ao resultado presidencial.

Jair Bolsonaro permanece preso e tenta rever condenação

O ex-presidente Jair Bolsonaro continua impedido de disputar eleições e cumpre pena após condenação pela tentativa de golpe de Estado. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF fixou pena de 27 anos e três meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. A condenação tornou-se definitiva em novembro do mesmo ano. Bolsonaro também possui restrições eleitorais decorrentes de decisões da Justiça Eleitoral.

Em maio de 2026, sua defesa apresentou uma revisão criminal ao Supremo com o objetivo de anular ou modificar a condenação. O processo foi distribuído ao ministro Kassio Nunes Marques e deverá ser examinado pelo plenário, conforme as regras aplicáveis. A apresentação da revisão não suspende automaticamente a pena nem restabelece os direitos políticos do ex-presidente. Seu eventual resultado depende de decisão judicial.

A permanência de Bolsonaro fora das disputas eleitorais diretas cria uma questão de representação política para os partidos que se identificam com sua trajetória. Embora conserve influência entre apoiadores e integrantes do PL, o ex-presidente não poderá ocupar pessoalmente uma candidatura enquanto persistirem seus impedimentos legais. A definição de representantes para eleições futuras envolverá diferentes lideranças e organizações partidárias. Não há mecanismo que transfira automaticamente sua influência política a um familiar ou aliado.

PL terá 121 deputados, 29 senadores e seis governadores

A força partidária da direita não se resume à sucessão presidencial. Segundo levantamento da Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 deputados federais em 2026, conquistando a maior bancada da legislatura que começará em 1º de fevereiro de 2027. A federação formada por PT, PCdoB e PV ficou com 88 cadeiras, enquanto a federação União Brasil-PP obteve 87. O resultado oferece ao PL uma presença expressiva nas negociações legislativas e na organização das comissões parlamentares.

No Senado, a configuração divulgada pela Agência Senado após o segundo turno indica que o PL terá 29 dos 81 integrantes da Casa. A legenda também ocupará a primeira posição em número de senadores, seguida pelo PT, com dez, e pelo MDB, com oito. A composição considera os parlamentares eleitos em outubro, os mandatos ainda vigentes e as substituições decorrentes das eleições estaduais. Alterações partidárias posteriores poderão modificar esses números.

Indicador do PL em 2027 Resultado
Deputados federais 121 de 513
Senadores 29 de 81
Governadores estaduais 6 de 27

Fontes: Câmara dos Deputados, Senado Federal e resultados das Eleições 2026.

O partido também comandará seis governos estaduais: Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e Santa Catarina. Trata-se do maior número de governadores conquistado por uma legenda nas eleições de 2026. O PSD terá cinco administrações estaduais, enquanto PT, PP e Republicanos ficarão com quatro cada. A distribuição demonstra a presença de diferentes partidos na administração dos estados, mesmo entre aqueles que participaram de alianças presidenciais semelhantes.

Maior bancada não significa maioria automática no Congresso

Apesar de ocupar a primeira posição em ambas as Casas, o PL não terá maioria absoluta isoladamente. Seus 121 deputados representam menos de um quarto das 513 cadeiras da Câmara, enquanto os 29 senadores correspondem a pouco mais de um terço do Senado. Para aprovar uma proposta de emenda à Constituição, são necessários pelo menos 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos de votação em cada Casa. O partido, portanto, dependerá de alianças para aprovar mudanças constitucionais.

Essa diferença é particularmente importante porque parte das legendas que apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno também participa de negociações com o governo federal em diferentes áreas. A adesão eleitoral a um candidato não implica compromisso automático de voto em todas as matérias legislativas. Partidos como MDB, PSD, União Brasil e PP possuem parlamentares com posições próprias e interesses estaduais distintos. A formação de maiorias dependerá das pautas submetidas à votação e das articulações de cada momento.

As eleições para as presidências da Câmara e do Senado, previstas para o início de 2027, constituirão um dos primeiros testes dessa nova composição. A escolha das Mesas Diretoras envolve negociações entre partidos, blocos parlamentares e lideranças do governo e da oposição. A dimensão da bancada do PL lhe confere peso nessas conversas, mas não assegura automaticamente o comando das instituições. O resultado dessas disputas poderá influenciar a organização legislativa durante o novo mandato de Lula.

Lula não poderá disputar nova reeleição em 2030

A eleição de 2030 também terá uma característica constitucional relevante: Lula não poderá concorrer a um terceiro mandato presidencial consecutivo. O presidente foi eleito em 2022 e reeleito em 2026, alcançando o limite previsto no artigo 14, parágrafo 5º, da Constituição Federal. A regra permite apenas uma reeleição consecutiva para presidente da República. Assim, a disputa seguinte exigirá que o PT e seus aliados definam outro candidato, salvo eventual mudança constitucional.

A ausência de Lula como candidato não determina, entretanto, qual será a configuração eleitoral de 2030. O campo governista também possui lideranças partidárias e administrativas que poderão participar das articulações, assim como a direita reúne nomes além de Tarcísio, Michelle e Flávio. O cenário dependerá do desempenho dos governos, das alianças regionais e das decisões partidárias nos próximos quatro anos. Não há definição antecipada sobre candidatos, chapas ou coligações.

No caso da direita, as eleições de 2026 deixaram estruturas distintas de atuação política: Tarcísio no governo paulista, Michelle no Senado, Flávio fora de cargo eletivo e o PL com ampla representação no Congresso e nos governos estaduais. Essas posições oferecem caminhos diferentes para a construção de influência dentro da oposição. A possibilidade de convergência ou divergência entre essas lideranças será definida por suas decisões políticas e pelas negociações entre partidos. O resultado presidencial abriu a discussão sobre a sucessão do bolsonarismo, mas não estabeleceu quem representará esse campo nas urnas em 2030.

Fontes

Tribunal Superior Eleitoral — Resultado oficial do segundo turno das Eleições 2026, divulgado em 25 de outubro de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Resultado oficial do primeiro turno das eleições presidenciais, divulgado em 5 de outubro de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Resultado da eleição para governador de São Paulo, com reeleição de Tarcísio de Freitas no primeiro turno, em 4 de outubro de 2026.

Senado Federal — Distrito Federal elege Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao Senado, comunicado de 4 de outubro de 2026.

Câmara dos Deputados — PL sai na frente na eleição da Câmara dos Deputados, com 121 eleitos, levantamento de 5 de outubro de 2026.

Senado Federal — Fim da eleição define composição do Senado em 2027, com 13 partidos, levantamento de 25 de outubro de 2026.

Câmara dos Deputados — PL terá seis governadores a partir de 2027; PT ficará com quatro, comunicado de 26 de outubro de 2026.

Supremo Tribunal Federal — Julgamento da Ação Penal 2668 e comunicado sobre a revisão criminal apresentada pela defesa de Jair Bolsonaro.

Constituição Federal de 1988 — Artigo 14, parágrafos 5º e 6º, e artigo 60, parágrafo 2º, sobre reeleição, desincompatibilização e quórum para emendas constitucionais.

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