O endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,9% em abril, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mesmo em um cenário de desemprego baixo, renda média em alta e expansão da atividade econômica. O dado evidencia um descompasso entre a melhora recente do mercado de trabalho e a situação financeira das famílias, pressionadas por juros elevados, custo de vida persistente e dívidas acumuladas nos últimos anos.
A inadimplência também segue em patamar elevado. Segundo os dados citados no levantamento, 29,6% das famílias estavam com dívidas em atraso. O quadro ajuda a explicar a decisão do governo federal de lançar o Novo Desenrola Brasil, segunda etapa do programa de renegociação de dívidas, com expectativa de alcançar cerca de 20 milhões de pessoas e renegociar até R$ 58 bilhões em débitos antigos e recentes.
O contraste chama atenção porque os indicadores tradicionais de renda e emprego sugerem uma economia mais favorável ao consumidor. No trimestre encerrado em março, a taxa de desemprego ficou em 6,1%, o menor patamar para o período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O rendimento médio mensal também avançou, superando R$ 3.722.
Apesar disso, a melhora da renda não se converteu em alívio financeiro amplo. Parte relevante do orçamento continua comprometida com alimentação, moradia, transporte, saúde, educação e pagamento de dívidas. Na prática, a renda adicional tem sido absorvida por despesas básicas e obrigações financeiras, limitando a capacidade de poupança e de reorganização das famílias.
Novo Desenrola mira dívida de até R$ 58 bilhões
O Novo Desenrola Brasil foi lançado pelo governo federal como tentativa de reduzir a pressão financeira sobre as famílias e aliviar o quadro de inadimplência. A segunda edição do programa pretende atingir cerca de 20 milhões de pessoas e renegociar até R$ 58 bilhões em dívidas.
A iniciativa ocorre depois de uma primeira fase do Desenrola, lançada em maio de 2023. Naquele momento, o programa renegociou R$ 53,2 bilhões em dívidas de 15 milhões de brasileiros, produzindo queda temporária da inadimplência.
O alívio, porém, não se sustentou. A combinação de juros altos, inflação em itens essenciais, crédito caro e orçamento apertado voltou a pressionar as famílias. O retorno da inadimplência a patamares elevados mostra que a renegociação, embora importante, não resolve sozinha a fragilidade financeira de longo prazo.
Para especialistas, programas de renegociação têm efeito mais consistente quando acompanhados de melhora do custo do crédito, aumento real da renda disponível e educação financeira. Sem essas condições, há risco de parte das famílias renegociar dívidas antigas, mas voltar a se endividar em pouco tempo.
Juros altos encarecem crédito e travam reorganização financeira
O atual nível de endividamento tem origem em um ciclo que começou durante e após a pandemia. Em outubro de 2020, a Selic chegou a 2% ao ano, o menor patamar histórico, em uma tentativa de estimular a economia diante da crise sanitária.
O crédito mais barato ajudou a sustentar consumo, mas também ampliou o endividamento. Com a reabertura da economia, entre 2021 e 2022, a inflação acelerou, obrigando o Banco Central a mudar a direção da política monetária e elevar os juros de forma agressiva.
A Selic chegou a 13,75% ao ano em agosto de 2022. Depois, houve um ciclo de cortes que levou a taxa para cerca de 10,50% ao ano em meados de 2024. A expectativa era que a redução dos juros ajudasse as famílias a reorganizar suas finanças.
Esse cenário mudou novamente com a piora das incertezas globais e a retomada de pressões inflacionárias. Ao longo de 2024 e, principalmente, de 2025, o Banco Central voltou a agir, levando a taxa básica de juros a 15% ao ano em junho de 2025, o maior nível desde 2006.
Mercado de trabalho forte não elimina peso das dívidas
A melhora do emprego e da renda não tem sido suficiente para reduzir a pressão financeira sobre as famílias. Segundo o economista Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, é possível haver mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, famílias mais endividadas.
A explicação está na composição do orçamento. Muitas famílias ainda carregam dívidas acumuladas desde a pandemia, período em que o crédito foi usado para complementar renda, manter consumo e cobrir despesas emergenciais.
Dados do Banco Central citados no levantamento mostram que o comprometimento da renda das famílias com dívidas, especialmente bancárias, chegou a 29,3% em janeiro, o maior nível da série histórica. Isso significa que quase um terço da renda está direcionado ao pagamento de compromissos financeiros.
Quando há aumento de renda, o ganho tende a ser usado para despesas básicas ou pagamento de dívidas antigas. O resultado é que a melhora no salário não gera, necessariamente, folga no orçamento. Para boa parte das famílias, ela apenas reduz parcialmente a pressão.
Custo de vida consome renda adicional
O custo de vida elevado é um dos principais fatores que impedem a recuperação financeira das famílias. Embora a inflação geral tenha passado por momentos de desaceleração, itens essenciais continuaram pesando no orçamento.
Pesquisa Quaest citada no texto-base aponta que 71% dos brasileiros afirmam conseguir comprar menos do que há um ano. Apenas 11% dizem comprar mais, enquanto 17% não percebem diferença. A percepção de perda de poder de compra é especialmente forte porque os alimentos e gastos básicos têm alta frequência no orçamento.
Dados do IPCA mostram que, no início do Desenrola, em maio de 2023, a inflação dos alimentos acumulava alta de 5,54% em 12 meses. Depois, o índice acelerou e chegou a 7,81% em abril de 2025. No mesmo período, a inflação geral alcançou 5,53%, o maior nível desde janeiro de 2023.
A volatilidade dos alimentos básicos também contribuiu para a sensação de aperto. Arroz, feijão, leite, frutas, hortaliças e carnes registraram altas expressivas em diferentes momentos dos últimos anos. As carnes, por exemplo, acumularam alta de 21,17% em janeiro de 2025.
Gastos essenciais tomam mais espaço no orçamento
Em março, os gastos com itens essenciais consumiam 41,8% do orçamento das famílias, segundo dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria. A pressão vem principalmente de habitação, transportes, saúde, educação e alimentação.
Essa composição reduz a margem de manobra do consumidor. Quando quase metade da renda é consumida por gastos básicos, sobra menos dinheiro para lazer, poupança, consumo discricionário e pagamento acelerado de dívidas.
O problema é mais intenso entre famílias de menor renda, que destinam parcela maior do orçamento a alimentação e moradia. Nesses grupos, qualquer aumento de preços em itens básicos tem impacto imediato sobre o poder de compra.
Mesmo quando a renda nominal sobe, a melhora pode ser anulada pelo encarecimento de despesas obrigatórias. Por isso, indicadores positivos de emprego e salário não necessariamente se traduzem em sensação de prosperidade para a população.
Cartão de crédito lidera dívidas das famílias
O cartão de crédito segue como a principal modalidade de dívida entre os consumidores endividados. Segundo a CNC, em março, ele aparecia como principal tipo de dívida para 84,9% dos consumidores nessa condição.
A predominância do cartão mostra como o crédito de curto prazo se tornou parte da rotina financeira das famílias. Parcelamentos, compras recorrentes e uso do limite para complementar orçamento ajudam a manter o consumo, mas também podem gerar acúmulo de compromissos.
O problema se agrava quando o consumidor olha apenas para o valor da parcela e não para o custo total da dívida. Essa dinâmica é comum em produtos financeiros de fácil acesso, especialmente no crédito digital e em compras parceladas.
Em um ambiente de juros elevados, o uso recorrente do cartão pode levar rapidamente à inadimplência. Quando a fatura não é paga integralmente, encargos e juros tornam a dívida mais difícil de administrar.
Educação financeira ganha peso no debate
Além das variáveis macroeconômicas, especialistas apontam o comportamento financeiro como parte relevante do problema. Para a economista Olívia Resende, especialista em finanças e economia comportamental, o chamado viés do presente ajuda a explicar por que o consumo segue forte mesmo com juros altos.
Segundo ela, muitas pessoas avaliam apenas se a parcela cabe no orçamento do mês, sem considerar a taxa de juros ou o custo total da dívida. Pequenas parcelas parecem inofensivas isoladamente, mas, somadas, comprometem parte relevante da renda.
A facilidade de acesso ao crédito digital, a influência do marketing, o consumo estimulado por redes sociais e decisões emocionais também contribuem para a persistência do endividamento. Em muitos casos, o crédito é usado sem planejamento ou sem entendimento claro das condições contratadas.
Pesquisa da Creditas em parceria com a Opinion Box aponta que 59% dos brasileiros começaram o ano sob pressão financeira. Desse total, 34% se declaravam preocupados, 14% em recuperação e 11% sob forte pressão. Apenas 39% afirmaram ter iniciado o ano com sensação de controle sobre as finanças.
Falta de disciplina e imprevisibilidade dificultam planejamento
A mesma pesquisa identificou obstáculos relevantes para o planejamento financeiro. A imprevisibilidade aparece como dificuldade para 32% dos entrevistados, seguida pela falta de disciplina financeira, com 27%, e pela limitação de renda, com 25%.
Esses dados indicam que o problema do endividamento não está ligado apenas ao nível de renda. Mesmo famílias com emprego e salário podem se endividar quando não há reserva de emergência, controle de gastos ou entendimento sobre o custo do crédito.
A ausência de planejamento torna o orçamento mais vulnerável a imprevistos, como despesas médicas, perda temporária de renda, manutenção da casa, problemas com transporte ou ajuda financeira a familiares. Sem poupança, a solução imediata costuma ser recorrer ao crédito.
Nesse contexto, a educação financeira é vista como ferramenta estrutural. Ela ajuda o consumidor a entender limites, comparar alternativas, priorizar dívidas caras e evitar novas contratações em condições desfavoráveis.
Normalização do endividamento preocupa especialistas
Outro ponto destacado por especialistas é a chamada normalização do endividamento. Quando grande parte da população está endividada, a dívida passa a ser percebida como parte comum da vida financeira, o que reduz o senso de urgência para resolver o problema.
Esse fenômeno ganhou força nas redes sociais, onde conteúdos sobre renegociação e redução de dívidas se popularizaram. Alguns materiais prometem atalhos para diminuir débitos bancários, inclusive com orientações para interromper pagamentos deliberadamente e recorrer à Lei do Superendividamento.
Especialistas alertam que essas estratégias não significam cancelamento automático das dívidas. A Lei do Superendividamento pode ajudar consumidores em situações específicas, mas exige critérios, negociação e análise da capacidade de pagamento.
A ideia de que a dívida pode ser simplesmente postergada ou renegociada indefinidamente cria riscos. Sem mudança de comportamento, a renegociação melhora o curto prazo, mas não impede que o consumidor volte a se endividar.
Renegociação alivia curto prazo, mas não resolve causa estrutural
O Novo Desenrola Brasil chega em um momento de pressão financeira elevada e pode oferecer alívio imediato para milhões de consumidores. A renegociação permite reduzir valor de parcelas, organizar débitos e retirar restrições que dificultam acesso ao crédito formal.
O efeito, porém, tende a ser limitado se não vier acompanhado de mudança estrutural. Juros altos, inflação de serviços e alimentos, crédito caro e renda comprometida continuam criando obstáculos para a recuperação plena das famílias.
Para que o endividamento recue de forma mais consistente, será necessário combinar melhora do ambiente macroeconômico, redução do custo do crédito, recomposição do poder de compra e educação financeira. Sem isso, programas de renegociação podem se tornar respostas recorrentes a um problema que se recompõe ao longo do tempo.
O desafio é transformar a melhora do emprego e da renda em folga financeira real. Enquanto a renda adicional for absorvida por dívidas antigas e despesas básicas, o consumidor continuará mais empregado e ganhando mais, mas ainda sem sair do vermelho.









