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Euro cai com crise fiscal na França e aumento do risco político na Europa

Dívida francesa em alta, eleições antecipadas na Espanha e menor expectativa de aperto monetário pressionam a moeda europeia.

por Camila Braga
08/10/2026 às 14h54
em Euro
Inflação Acelera Nas Principais Economias Da Zona Do Euro E Aumenta Pressão Sobre O Bce-Gazeta Mercantil

O euro entrou em outubro sob a maior pressão em mais de um ano, à medida que investidores passaram a combinar em uma mesma conta o aumento dos riscos fiscais da França, a proximidade da eleição presidencial francesa e uma nova rodada de incerteza política na Europa. A moeda chegou nesta semana à mínima de 17 meses diante do dólar e caiu para o menor nível em cerca de 16 meses frente à libra esterlina, enquanto fundos ampliaram posições defensivas em moedas como franco suíço e iene.

Nesta quinta-feira, 8 de outubro, o euro era negociado próximo de US$ 1,12 depois das perdas acumuladas nos últimos pregões. Contra a libra, a cotação permanecia na região de 84,7 pence por euro. No Brasil, o movimento é diferente porque o real também se valorizou fortemente depois do primeiro turno das eleições presidenciais: o euro operava na região de R$ 5,60, depois de superar R$ 5,86 no início do mês.

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Essa diferença é importante. A fraqueza recente do euro não explica sozinha a queda da moeda europeia diante do real. Entre 2 e 8 de outubro, a cotação EUR/BRL recuou aproximadamente 4,4%, movimento concentrado principalmente no primeiro pregão depois das eleições brasileiras, quando houve forte valorização do real. No mercado internacional, porém, a tendência de enfraquecimento do euro vem sendo construída há mais tempo e está diretamente relacionada à deterioração da percepção sobre a Europa.

O foco mais imediato está na França. O país combina déficit público elevado, crescimento econômico fraco, dívida crescente e dificuldade política para aprovar medidas capazes de estabilizar as contas públicas. Em um ambiente global no qual investidores já exigem remunerações maiores para financiar governos endividados, a segunda maior economia da zona do euro passou a funcionar como um dos principais pontos de tensão do mercado europeu.

Dívida francesa chega a 119% do PIB

Os números explicam parte da preocupação. A dívida pública francesa alcançou € 3,595 trilhões ao final do segundo trimestre de 2026, equivalente a 119% do Produto Interno Bruto. Apenas três meses antes, a relação estava em 117,5%.

Isso significa uma alta de 1,5 ponto percentual do PIB em apenas um trimestre. Em valores nominais, o endividamento aumentou € 59,6 bilhões entre abril e junho, depois de já ter crescido € 75,8 bilhões nos três primeiros meses do ano.

O problema não começou em 2026. A França encerrou 2025 com déficit público equivalente a 5,1% do PIB, ou € 152,5 bilhões, enquanto a dívida estava em 115,7% do PIB. A regra fiscal europeia estabelece como referência um déficit de até 3% do PIB, nível do qual o país permanece distante.

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A Comissão Europeia projetava anteriormente que, sem novas medidas, o déficit francês continuaria em 5,1% do PIB em 2026 e poderia subir para 5,7% em 2027. Para a dívida, a estimativa apontava avanço para aproximadamente 120% do PIB no próximo ano.

O mercado passou a exigir um prêmio cada vez maior para financiar esse desequilíbrio. Os juros dos títulos franceses de dez anos chegaram a se aproximar de 5% nesta semana, níveis que não eram vistos havia mais de duas décadas. O aumento do custo de financiamento cria um efeito circular: quanto maior o juro exigido pelos investidores, mais cara se torna a rolagem da dívida e maior a pressão sobre o orçamento.

Problema deixa de ser apenas francês

Uma crise fiscal em um país que utiliza moeda própria costuma produzir pressão principalmente sobre seus títulos e sua taxa de câmbio. Na zona do euro, o mecanismo é mais complexo porque 20 países compartilham a mesma moeda e uma única política monetária, embora mantenham estruturas fiscais nacionais independentes.

Isso faz com que dificuldades em uma grande economia possam contaminar a percepção sobre outras dívidas soberanas. Nas últimas semanas, investidores passaram a diferenciar com maior intensidade os países considerados fiscalmente mais frágeis daqueles vistos como portos seguros.

Títulos alemães ganharam demanda enquanto papéis de países mais endividados enfrentaram pressão. A França tornou-se o centro dessa reprecificação, mas Itália e Espanha também passaram a ser monitoradas com mais atenção.

A lembrança inevitável é a crise da dívida soberana que atingiu a zona do euro na década passada. O cenário atual é diferente: bancos estão mais capitalizados, existem instrumentos de intervenção que não estavam disponíveis no início daquela crise e ainda não há sinais de ruptura do mercado comum de títulos. Mesmo assim, a velocidade da alta dos rendimentos reacendeu a discussão sobre a sustentabilidade fiscal dentro da união monetária.

Eleição francesa aumenta incerteza

A pressão ganhou uma dimensão política porque a França se aproxima da eleição presidencial de 2027 em um ambiente marcado por forte fragmentação partidária.

Qualquer ajuste fiscal significativo exige decisões politicamente difíceis, como redução de despesas, alterações de benefícios, aumento de receitas ou combinação dessas medidas. Quanto mais próximo fica o calendário eleitoral, menor tende a ser o espaço político para implementar cortes impopulares.

Essa dificuldade ajuda a explicar por que investidores não estão avaliando apenas o tamanho atual do déficit, mas também a probabilidade de que o próximo governo consiga estabilizá-lo. O risco não está simplesmente em a França possuir uma dívida elevada; está na combinação de endividamento crescente com incerteza sobre quem terá condições políticas de corrigir a trajetória.

Nas últimas semanas, manifestações e tensões sociais adicionaram outra camada ao problema. O governo precisa apresentar uma resposta fiscal capaz de convencer os mercados sem produzir uma reação política que torne a aprovação das medidas ainda mais difícil.

Para o euro, essa combinação é negativa porque aumenta o prêmio de risco associado aos ativos europeus e pode incentivar investidores internacionais a procurar alternativas em outras moedas.

Espanha adiciona novo foco de risco político

A França não é o único país importante da zona do euro enfrentando incerteza política. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez convocou eleições antecipadas para 29 de novembro, depois de uma crise envolvendo propostas para o mercado imobiliário e dificuldades para manter apoio parlamentar.

A Espanha chega à disputa em situação econômica diferente da francesa, com crescimento mais forte nos últimos anos, mas o calendário eleitoral amplia a lista de variáveis políticas que os investidores precisam incorporar aos preços dos ativos europeus.

Quando mais de uma grande economia da região enfrenta incerteza simultaneamente, a preocupação deixa de ser apenas com o resultado de uma eleição específica. O mercado começa a precificar o risco de menor coordenação fiscal e política dentro do bloco.

Essa percepção ajuda a explicar por que a pressão sobre o euro passou a aparecer não apenas contra o dólar, mas também diante de outras moedas.

Libra ganha espaço contra o euro

Na quarta-feira, o euro caiu para aproximadamente 84,5 pence, levando a libra ao nível mais forte em cerca de 16 meses frente à moeda comum. Foi a nona sessão consecutiva de valorização da moeda britânica nesse par.

O movimento é relevante porque elimina parte da explicação baseada exclusivamente na força do dólar. Se o euro estivesse caindo apenas porque a moeda americana ganhou força globalmente, seria esperado um comportamento relativamente mais estável diante de outras moedas europeias.

Não foi o que aconteceu. O euro também perdeu terreno contra a libra e enfrentou pressão em relação ao franco suíço, tradicional destino de capital em períodos de aversão ao risco.

Esse comportamento indica que investidores estão construindo operações especificamente direcionadas à fraqueza da moeda europeia, e não apenas comprando dólares.

Franco suíço volta a funcionar como proteção

O franco suíço voltou a ganhar destaque justamente por essa característica. A Suíça possui histórico de estabilidade institucional, inflação relativamente controlada e moeda utilizada como proteção em momentos de turbulência europeia.

Quando investidores aumentam posições vendidas em euro e compradas em franco, estão expressando uma visão mais específica sobre os riscos da zona do euro. A mesma lógica pode aparecer nas operações envolvendo o iene japonês.

O mercado de opções também vem mostrando aumento na procura por proteção contra novas quedas da moeda europeia. Esses instrumentos permitem aos investidores montar posições cujo valor aumenta caso determinado movimento cambial se materialize.

Mais do que a cotação diária, esse comportamento revela uma mudança na distribuição das apostas. O pessimismo deixou de estar concentrado apenas no par euro-dólar.

BCE entra em posição delicada

A situação também complica o trabalho do Banco Central Europeu. A taxa da facilidade de depósito está em 2,50% desde setembro, após duas altas realizadas durante o verão europeu.

A inflação da zona do euro voltou a acelerar, especialmente por causa da energia, o que normalmente aumentaria a pressão por novos juros mais altos. Ao mesmo tempo, a turbulência nos mercados de dívida e o aumento do custo de financiamento dos governos criam um risco de aperto excessivo das condições financeiras.

A ata mais recente do BCE mostra que seus dirigentes ainda consideram os riscos inflacionários relevantes, mas não demonstram disposição para elevar os juros automaticamente. A avaliação predominante é de que os próximos movimentos devem depender dos dados econômicos e da persistência da inflação.

O dilema é evidente. Se o banco central subir juros agressivamente, pode aumentar ainda mais o custo da dívida de países como França e Itália. Se reagir de forma muito branda à inflação, pode comprometer sua credibilidade e produzir nova pressão sobre a moeda.

Os mercados reduziram recentemente parte das apostas em uma sequência mais agressiva de aumentos de juros europeus. Essa reprecificação também retirou suporte do euro.

Euro já perde cerca de 5% frente ao dólar em 2026

A pressão das últimas semanas aprofundou um movimento que vinha se formando ao longo do ano. O euro acumula queda de aproximadamente 5% diante do dólar em 2026.

Nesta quinta-feira, a taxa de referência do Banco Central Europeu colocou o euro a US$ 1,1186. A moeda americana, por sua vez, aproximou-se recentemente do maior nível em 18 meses diante de uma cesta de divisas.

O diferencial de juros continua sendo uma variável importante. Quanto maior a remuneração oferecida pelos títulos americanos em relação aos europeus, maior tende a ser o incentivo para investidores manterem recursos em dólares.

Mas a atual fase do mercado acrescentou outro fator: o dólar passou a ser beneficiado não apenas pelos fundamentos americanos, mas pela piora relativa da percepção sobre a Europa.

Contra o real, movimento tem componente brasileiro

Para o investidor brasileiro, entretanto, a leitura precisa ser diferente. O euro caiu de aproximadamente R$ 5,87 em 2 de outubro para a região de R$ 5,61 nesta quinta-feira, redução próxima de 4,4%.

Grande parte dessa queda ocorreu em 5 de outubro, primeiro pregão depois da eleição presidencial brasileira. Naquele dia, o real se valorizou fortemente depois de Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, movimento acompanhado por entrada de capital estrangeiro e alta de 7,70% do Ibovespa.

Isso significa que a queda do EUR/BRL resulta da combinação de duas forças: enfraquecimento internacional do euro e fortalecimento doméstico do real.

A distinção é relevante para empresas que importam produtos europeus, brasileiros que planejam viagens e companhias que possuem receitas ou despesas denominadas em euro. Uma moeda europeia mais barata em reais pode reduzir custos de importação e viagens, mas também diminui, quando convertida para reais, a receita de exportadores que vendem para a Europa.

Teste será saber se crise fiscal permanece concentrada

O principal ponto a observar agora é se o mercado continuará tratando a França como um problema administrável ou começará a enxergar risco de contágio para o restante da zona do euro.

Até aqui, autoridades europeias têm argumentado que a França possui instrumentos para estabilizar suas contas e que não existe justificativa para uma intervenção extraordinária do BCE no mercado de títulos. Essa avaliação pressupõe, porém, que o país consiga avançar com um orçamento crível.

Uma deterioração adicional dos títulos franceses, acompanhada por aumento dos rendimentos em Itália e Espanha, mudaria essa leitura. Nesse cenário, o euro poderia enfrentar uma pressão mais estrutural.

O movimento inverso também é possível. Um acordo fiscal francês capaz de reduzir a incerteza sobre a dívida, combinado com estabilização política e sinais de crescimento mais forte na Europa, poderia retirar parte das posições pessimistas construídas nas últimas semanas.

Por enquanto, o mercado está cobrando um preço maior pela incerteza europeia. O euro deixou de sofrer apenas diante de um dólar forte e passou a perder espaço também para moedas utilizadas como proteção ou que oferecem perspectivas monetárias mais favoráveis. A França está no centro dessa mudança — e os próximos meses mostrarão se o problema permanecerá nacional ou se se transformará em uma questão para toda a zona do euro.

Fontes:

Banco Central Europeu — taxas de câmbio de referência, taxas básicas de juros e ata da reunião de política monetária de setembro de 2026

Institut National de la Statistique et des Études Économiques — dívida pública e contas das administrações públicas francesas

Comissão Europeia — projeções macroeconômicas e fiscais para França

Governo da Espanha — convocação das eleições gerais antecipadas e calendário eleitoral

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