O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, decidiu nesta quarta-feira (28) manter a taxa básica de juros americana no intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. A decisão interrompe a sequência de elevações após o aumento de 0,25 ponto percentual aprovado em setembro, mas revelou uma divisão entre os integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) sobre a necessidade de intensificar o combate à inflação.
A manutenção foi aprovada por dez votos a dois. Lisa D. Cook e Beth M. Hammack divergiram da maioria e defenderam uma elevação imediata de 0,25 ponto percentual, que levaria os juros para a faixa de 4% a 4,25% ao ano. A divisão contrasta com a unanimidade registrada na reunião de setembro e evidencia diferenças na avaliação dos riscos inflacionários.
Embora tenha optado pela estabilidade dos juros, o Fed reforçou a percepção de que a atividade econômica americana continua apresentando força. No comunicado, a autoridade monetária classificou o ritmo de expansão como forte, avaliação mais positiva do que a utilizada na reunião anterior, quando descreveu o crescimento como sólido.
A combinação de atividade resistente, inflação acima da meta e divergência entre dirigentes mantém aberta a possibilidade de uma nova elevação dos juros na última reunião de política monetária de 2026, marcada para os dias 8 e 9 de dezembro.
Dois integrantes do Fed defenderam aumento imediato dos juros
A votação representa uma mudança importante na composição das decisões recentes do banco central americano. Em 16 de setembro, os 12 integrantes votantes haviam concordado com a elevação de 0,25 ponto percentual, que estabeleceu o intervalo atualmente em vigor.
Na reunião de outubro, a maioria considerou adequado preservar a taxa enquanto novas informações sobre inflação, crescimento e emprego são incorporadas à avaliação da política monetária. Cook e Hammack, por outro lado, entenderam que as condições econômicas já justificavam um aperto adicional.
A divergência não significa que o Fed tenha assumido compromisso com uma elevação em dezembro. As decisões são tomadas a cada reunião, conforme a evolução dos indicadores e a avaliação dos riscos para os objetivos de estabilidade de preços e máximo emprego.
O comunicado também apresenta uma mudança de linguagem em relação a setembro. Na ocasião, o banco central afirmou que a elevação dos juros contribuiria para acelerar o retorno da inflação à meta de 2%. Agora, a instituição enfatizou que o acúmulo de novas informações ajudará a determinar a postura monetária apropriada para alcançar esse objetivo.
A alteração preserva a possibilidade de novos aumentos, mas evita indicar antecipadamente qual será a decisão seguinte. Ao mesmo tempo, a classificação mais favorável do crescimento econômico sugere que o Fed continua identificando capacidade de expansão mesmo diante de custos de financiamento elevados.
Inflação americana alcança 3,7% e gasolina sobe 9,1% em setembro
A persistência das pressões inflacionárias permanece como um dos principais obstáculos para a flexibilização das condições financeiras nos Estados Unidos.
Segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS), o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) avançou 0,6% em setembro, após alta de 0,4% em agosto. No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 3,7%, refletindo especialmente o aumento dos custos de energia.
Os preços da gasolina subiram 9,1% em setembro e responderam por mais da metade da variação mensal do índice geral. Em 12 meses, o combustível acumulou valorização de 34,2%, enquanto o conjunto dos preços de energia avançou 20,4%.
O núcleo do CPI, que exclui alimentos e energia, apresentou aumento mensal de 0,3% e acumulou 2,6% em 12 meses. A diferença entre a inflação geral e o núcleo demonstra o peso dos combustíveis na recente aceleração dos preços.
A meta oficial do Federal Reserve, entretanto, não utiliza diretamente o CPI. A referência adotada pela instituição é o índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE), calculado pelo Bureau of Economic Analysis (BEA).
Em agosto, último mês disponível para esse indicador até a decisão de outubro, o PCE registrou inflação anual de 3,4%. O núcleo do índice, que desconsidera alimentos e energia, acumulou alta de 3% no mesmo período.
Esses números mostram que a inflação permanece acima da meta de 2% mesmo quando são utilizadas medidas que reduzem a influência direta das oscilações de alimentos e combustíveis.
Projeções do Fed já indicavam juros mais altos no fim de 2026
As projeções econômicas divulgadas pelo Federal Reserve em setembro ajudam a dimensionar o posicionamento dos dirigentes em relação à trajetória dos juros.
Na ocasião, a mediana das estimativas dos participantes do Fomc apontava uma taxa básica de aproximadamente 4,1% ao final de 2026. Como o ponto médio do intervalo atualmente em vigor é de 3,875%, essa projeção era compatível com pelo menos uma elevação adicional de 0,25 ponto percentual até dezembro.
O conjunto das previsões, no entanto, foi elaborado antes da reunião desta quarta-feira e não representa uma decisão previamente definida. Cada participante apresenta sua avaliação individual sobre o comportamento esperado da economia e o nível de juros considerado apropriado.
No mesmo levantamento, o Fed projetou inflação medida pelo PCE de 3,7% em 2026 e de 2,3% em 2027. Para o núcleo do indicador, as medianas foram de 3,4% e 2,5%, respectivamente.
Essas estimativas indicam que, mesmo nas projeções dos próprios dirigentes, o retorno da inflação à meta ocorreria gradualmente. O cenário ajuda a explicar por que o banco central mantém uma postura cautelosa apesar da estabilidade recente do desemprego.
A próxima rodada de projeções oficiais será divulgada em dezembro, juntamente com a última decisão de juros do ano. O documento permitirá verificar se os dirigentes alteraram suas expectativas para inflação, crescimento e política monetária diante dos dados publicados desde setembro.
Mercado de trabalho registra desemprego de 4,2%, apesar da criação limitada de vagas
O comportamento do mercado de trabalho também permanece no centro das decisões do Federal Reserve, que possui o mandato de promover a estabilidade de preços e o máximo emprego sustentável.
De acordo com os dados oficiais do BLS, a taxa de desemprego americana ficou em 4,2% em setembro, ante 4,1% em agosto. O país registrou criação líquida de 29 mil vagas fora do setor agrícola, resultado que indica crescimento limitado do emprego, embora sem deterioração acentuada da taxa de desocupação.
O número de desempregados permaneceu próximo de 7,1 milhões de pessoas. Desde março, a taxa de desemprego tem oscilado em um intervalo relativamente estreito, entre 4,1% e 4,3%.
O relatório de setembro também revisou para baixo os resultados de julho e agosto, reduzindo em 60 mil o total de empregos anteriormente contabilizados nos dois meses. As revisões reforçam a importância de acompanhar a trajetória do mercado de trabalho por períodos mais longos, em vez de considerar isoladamente os dados mensais.
Apesar do ritmo moderado de contratação, o Fed afirmou que a geração de empregos tem acompanhado a evolução da força de trabalho. Essa avaliação contribuiu para a decisão de manter os juros, sem indicar necessidade imediata de mudanças para sustentar a atividade econômica.
A leitura dos dirigentes sugere que o desafio atual está mais concentrado na inflação persistente do que em uma deterioração expressiva das condições de emprego. Essa avaliação, contudo, poderá mudar conforme os próximos indicadores.
Crescimento econômico forte reduz espaço para uma queda rápida dos juros
A avaliação mais favorável da atividade econômica é outro elemento relevante do comunicado divulgado nesta quarta-feira.
O Federal Reserve destacou a resistência dos gastos domésticos, o crescimento da produtividade e a robustez dos investimentos de capital. A instituição também reconheceu que as incertezas permanecem elevadas, em parte devido aos acontecimentos geopolíticos.
Uma economia que continua crescendo em ritmo elevado tende a apresentar maior capacidade de absorver taxas de juros restritivas. Ao mesmo tempo, a resistência da demanda pode dificultar a desaceleração dos preços quando a oferta não acompanha o consumo.
Por esse motivo, a autoridade monetária precisa equilibrar dois riscos. O primeiro é reduzir os juros prematuramente e permitir que a inflação permaneça acima da meta por um período prolongado. O segundo é manter o crédito excessivamente caro e provocar uma desaceleração econômica mais intensa do que a necessária.
A manutenção dos juros em outubro indica que a maioria do comitê prefere obter informações adicionais antes de alterar novamente as condições monetárias. Os votos divergentes, porém, mostram que existe preocupação dentro do próprio Fed com o risco de uma resposta insuficiente à inflação.
Juros elevados nos EUA podem afetar dólar, Bolsa e investimentos no Brasil
As decisões do Federal Reserve possuem consequências que ultrapassam a economia americana. Como os títulos do Tesouro dos Estados Unidos são utilizados como referência internacional de remuneração e risco, alterações nas expectativas de juros influenciam os fluxos globais de capital.
Quando o mercado passa a considerar provável um período mais prolongado de juros elevados nos Estados Unidos, os ativos americanos podem se tornar relativamente mais atraentes. Esse movimento tende a aumentar a concorrência pelos recursos destinados a países emergentes, incluindo o Brasil.
Uma possível consequência é a pressão sobre o real, especialmente quando a expectativa de juros elevados se combina com maior aversão ao risco internacional. A intensidade desse efeito depende também da política monetária brasileira, das condições fiscais e da percepção dos investidores sobre a economia doméstica.
Para as empresas brasileiras, juros internacionais mais altos podem elevar o custo de captação em dólares e dificultar operações de financiamento externo. Companhias com endividamento em moeda estrangeira ficam particularmente expostas a mudanças simultâneas nas taxas de financiamento e no câmbio.
Na Bolsa brasileira, o impacto não ocorre de maneira uniforme. Empresas mais dependentes de crédito e de financiamento de longo prazo podem enfrentar maior sensibilidade às condições financeiras, enquanto companhias exportadoras podem ser beneficiadas por determinados movimentos cambiais.
A decisão desta quarta-feira, isoladamente, não determina a direção do dólar ou do Ibovespa. A reação dos mercados depende principalmente da diferença entre o resultado anunciado e as expectativas que já estavam incorporadas aos preços dos ativos.
Novos dados de inflação e emprego serão decisivos para a reunião de dezembro
O calendário econômico americano prevê a divulgação de indicadores relevantes antes do próximo encontro do Federal Reserve.
Nesta quinta-feira (29), o Bureau of Economic Analysis divulgará os dados de setembro das despesas de consumo pessoal e do índice PCE. O relatório permitirá verificar se as pressões inflacionárias identificadas no CPI também se refletiram na medida de preços preferida pelo banco central.
O mesmo órgão publicará a estimativa inicial do Produto Interno Bruto (PIB) americano referente ao terceiro trimestre de 2026. O resultado será importante para avaliar se a expansão econômica mantém o ritmo considerado forte pelo Fed.
Em 6 de novembro, o Bureau of Labor Statistics divulgará o relatório de emprego de outubro. Os números de contratações, desemprego e remuneração poderão alterar a percepção dos dirigentes sobre o equilíbrio entre atividade econômica e inflação.
A última reunião do Fomc em 2026 ocorrerá em 8 e 9 de dezembro. Além da decisão sobre a taxa básica, o encontro será acompanhado da atualização das projeções econômicas e das estimativas individuais para a trajetória dos juros.
Até lá, a manutenção da faixa entre 3,75% e 4% representa uma interrupção no aperto iniciado em setembro, mas não uma sinalização de encerramento definitivo das altas. A combinação entre inflação elevada, crescimento resistente e dois votos favoráveis a juros maiores mantém a política monetária americana sob avaliação nas próximas semanas.
Fontes:
Federal Reserve — comunicado oficial do Comitê Federal de Mercado Aberto de 28 de outubro de 2026.
Federal Reserve — comunicado de política monetária de 16 de setembro de 2026.
Federal Reserve — Sumário das Projeções Econômicas de setembro de 2026.
Federal Reserve — nota de implementação da política monetária de 28 de outubro de 2026 e calendário oficial de reuniões de 2026.
Bureau of Labor Statistics — Índice de Preços ao Consumidor de setembro de 2026, divulgado em 14 de outubro.
Bureau of Labor Statistics — relatório de emprego de setembro de 2026, divulgado em 2 de outubro.
Bureau of Economic Analysis — relatório de renda pessoal e despesas de consumo de agosto de 2026 e calendário oficial de divulgação de indicadores econômicos.








