A Volkswagen registrou prejuízo operacional de € 5,86 bilhões no terceiro trimestre de 2026, resultado mais de quatro vezes superior ao saldo negativo de € 1,30 bilhão contabilizado no mesmo período do ano passado. O balanço divulgado nesta quinta-feira, 29 de outubro, mostra que a maior montadora da Europa enfrenta uma combinação de perdas contábeis, enfraquecimento das vendas na China, tarifas comerciais dos Estados Unidos e margens menores na comercialização de veículos elétricos.
A receita trimestral recuou 6,3%, de € 80,31 bilhões para € 75,28 bilhões. O resultado líquido também se deteriorou, passando de prejuízo de € 1,07 bilhão no terceiro trimestre de 2025 para perdas de € 5,82 bilhões entre julho e setembro deste ano. A companhia atribuiu parte expressiva do desempenho a despesas extraordinárias, principalmente relacionadas à revisão do valor contábil de ativos da Porsche.
O agravamento das contas ocorre enquanto a administração prepara uma ampla reestruturação industrial para recuperar a rentabilidade. O programa prevê redução de custos, simplificação de estruturas e ajustes na produção europeia. As mudanças provocaram resistência dos sindicatos alemães, que ameaçam iniciar paralisações em janeiro de 2027 caso a empresa mantenha decisões relacionadas aos acordos trabalhistas.
Prejuízo operacional aumenta € 4,56 bilhões em um ano
O balanço consolidado mostra que o prejuízo operacional do terceiro trimestre aumentou € 4,56 bilhões em relação ao mesmo intervalo de 2025. Em termos proporcionais, o resultado negativo ficou aproximadamente 351% maior, segundo cálculo realizado a partir dos números publicados pela Volkswagen.
A margem operacional passou de 1,6% negativos para 7,8% negativos, deterioração de 6,2 pontos percentuais. O indicador demonstra quanto a companhia perdeu operacionalmente em relação à receita gerada no trimestre.
No acumulado de janeiro a setembro, a situação também se agravou. O lucro operacional caiu de € 5,41 bilhões em 2025 para apenas € 71 milhões em 2026, retração de 98,7%. A receita dos nove meses totalizou € 233,38 bilhões, abaixo dos € 238,67 bilhões registrados um ano antes.
O resultado líquido acumulado apresentou uma reversão ainda mais significativa. Depois de registrar lucro de € 3,41 bilhões nos nove primeiros meses de 2025, o grupo contabilizou prejuízo de € 2,72 bilhões no mesmo período de 2026. A diferença representa uma deterioração de aproximadamente € 6,13 bilhões.
Os números evidenciam que a perda registrada entre julho e setembro praticamente eliminou o resultado operacional positivo acumulado pela companhia no primeiro semestre.
Porsche responde por € 6,4 bilhões em perdas contábeis
O principal fator extraordinário que pressionou o balanço foi a revisão do valor contábil de ativos associados à Porsche. Segundo a Volkswagen, os encargos especiais totalizaram € 8,7 bilhões nos nove primeiros meses do ano, dos quais € 7,8 bilhões foram reconhecidos no terceiro trimestre.
Desse montante acumulado, € 6,4 bilhões correspondem à redução do valor contábil de ágio relacionado à Porsche, enquanto aproximadamente € 1 bilhão está associado a ajustes de ativos de empresas integralmente consolidadas na China. Também foram contabilizadas despesas ligadas à reestruturação industrial e à planejada venda da operação de Osnabrück, na Alemanha.
As baixas contábeis representam revisões na avaliação econômica de ativos. Portanto, não significam necessariamente que a companhia tenha realizado desembolsos de caixa equivalentes aos valores reconhecidos como despesa.
Sem os efeitos extraordinários, o lucro operacional da Volkswagen teria alcançado € 8,8 bilhões entre janeiro e setembro, com margem ajustada de 3,8%.
Embora positiva, essa rentabilidade foi considerada insuficiente pela própria administração para sustentar os investimentos necessários à transformação industrial do grupo.
O diretor financeiro e de operações, Arno Antlitz, afirmou na apresentação dos resultados que a companhia precisa acelerar as medidas destinadas a recuperar sua competitividade. Entre as prioridades mencionadas estão a redução da complexidade da linha de modelos, a diminuição dos custos administrativos, ganhos de eficiência nas fábricas e o desenvolvimento mais rápido de novas tecnologias.
Vendas de veículos caem 10,6% nos primeiros nove meses
A deterioração financeira ocorre em paralelo ao enfraquecimento do volume de negócios. A Volkswagen vendeu aproximadamente 5,88 milhões de veículos entre janeiro e setembro, contra 6,58 milhões no mesmo período de 2025, uma retração de 10,6%.
A diferença equivale a cerca de 701 mil veículos a menos comercializados em nove meses.
No terceiro trimestre, as vendas recuaram 15,1%, passando de 2,22 milhões para 1,88 milhão de unidades. A produção industrial também diminuiu, com queda de 15,9% no período.
A companhia apontou o mercado chinês como um dos principais fatores da desaceleração. O país, historicamente um dos maiores mercados consumidores do grupo, atravessa uma transformação competitiva marcada pelo crescimento de fabricantes locais e pela expansão de veículos elétricos.
As montadoras chinesas passaram a disputar participação de mercado com modelos tecnologicamente competitivos e estruturas de custos diferentes das tradicionais fabricantes europeias.
A pressão também alcança os Estados Unidos, onde tarifas sobre veículos importados elevaram custos e afetaram a rentabilidade de operações internacionais.
Na Europa, o aumento da concorrência e os investimentos necessários à eletrificação continuam pressionando os resultados.
Volkswagen vende mais elétricos, mas enfrenta margens menores
O avanço dos veículos elétricos apresenta efeitos distintos para o grupo. Embora contribua para a estratégia de transformação tecnológica, o crescimento dessa categoria ainda representa pressão sobre a rentabilidade.
Segundo a Volkswagen, os veículos elétricos possuem atualmente margens inferiores às dos automóveis equipados com motores a combustão. Isso significa que o aumento da participação dos modelos eletrificados pode afetar o resultado operacional mesmo quando os pedidos avançam.
Nos nove primeiros meses de 2026, as encomendas de veículos totalmente elétricos na Europa cresceram 39% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Os elétricos representavam aproximadamente 40% da carteira de pedidos europeia ao final de setembro. A nova família de automóveis elétricos urbanos já havia recebido cerca de 150 mil encomendas.
O contraste entre a expansão dos pedidos e a redução das margens ajuda a explicar o desafio da Volkswagen: aumentar a presença no mercado de veículos elétricos sem comprometer a capacidade de geração de lucro.
A recuperação dependerá de fatores como redução dos custos de fabricação, escala de produção, eficiência no desenvolvimento de baterias e posicionamento comercial dos novos modelos.
Plano de reestruturação prevê € 31 bilhões em redução de custos
A administração da Volkswagen estabeleceu um programa de aproximadamente € 31 bilhões em redução de custos e ganhos de eficiência, associado à estratégia de transformação do grupo até 2030.
As medidas abrangem diferentes áreas da operação, incluindo produção, desenvolvimento tecnológico, administração e estruturas corporativas.
O objetivo é enfrentar a perda de competitividade em relação às novas fabricantes e recuperar níveis de rentabilidade considerados adequados pela administração.
O programa também envolve mudanças na organização industrial europeia. A Volkswagen reconheceu que algumas de suas fábricas na Alemanha enfrentam dificuldades para garantir volumes de produção competitivos na próxima década.
Entre as unidades com perspectivas industriais ainda indefinidas estão Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm.
Entretanto, a companhia afirma que não foi tomada decisão definitiva de fechamento dessas quatro fábricas. A administração avalia alternativas de produção, investimentos e novas atividades industriais para instalações cuja ocupação futura ainda não esteja assegurada.
No caso de Osnabrück, o grupo informou que considera a venda da operação e alternativas de utilização industrial do complexo.
Cortes de empregos geram divergência entre empresa e sindicatos
As mudanças industriais também envolvem o quadro de funcionários. A Volkswagen confirmou um acordo para reduzir aproximadamente 50 mil postos de trabalho na Alemanha até 2030, abrangendo Volkswagen, Audi, Porsche e CARIAD.
O presidente-executivo Oliver Blume afirmou que a implementação ocorre principalmente por meio de programas voluntários, aposentadorias antecipadas e outras medidas negociadas.
Segundo declarações divulgadas pela própria montadora, aproximadamente 37 mil acordos de desligamento já haviam sido assinados.
Estimativas sobre a possibilidade de eliminação de até 100 mil empregos em todo o grupo também circularam durante as discussões sobre a reestruturação. Entretanto, a administração diferencia os cortes já negociados das projeções adicionais relacionadas à redução dos custos corporativos.
A companhia não apresentou os 100 mil desligamentos como uma meta formal e definitiva. Blume afirmou que eventuais reduções adicionais dependerão dos resultados das medidas de eficiência e de negociações envolvendo marcas, subsidiárias e operações regionais.
Ao final de setembro, a Volkswagen empregava aproximadamente 648,1 mil pessoas em todo o mundo, ante 662,9 mil no encerramento de dezembro de 2025. A diferença representa uma redução líquida de cerca de 14,8 mil trabalhadores, equivalente a 2,2% do quadro.
A diminuição já registrada não deve ser confundida com o número total de postos previstos nos programas de reestruturação, que possuem cronogramas e condições próprias.
Sindicato ameaça greves a partir de janeiro de 2027
A reestruturação intensificou o conflito entre a direção da Volkswagen e os representantes dos trabalhadores na Alemanha.
A IG Metall, sindicato que representa empregados da indústria metalúrgica alemã, exige que a montadora reverta a decisão de denunciar dez acordos coletivos até o fim de outubro.
As negociações envolvem condições salariais, jornadas, critérios de remuneração e outras regras aplicáveis aos trabalhadores.
Segundo a entidade, a proteção negociada anteriormente contra demissões por razões operacionais permanece válida até o encerramento de 2030.
O sindicato considera que novas reduções de custos não podem desconsiderar os compromissos já assumidos com os empregados e as comunidades industriais.
A IG Metall informou que o período de obrigação de paz trabalhista termina em 31 de dezembro. Caso não haja acordo, paralisações poderão ocorrer a partir de 1º de janeiro de 2027.
A entidade também defende a antecipação das negociações e cobra garantias sobre investimentos e perspectivas de continuidade das fábricas.
O conflito adiciona um obstáculo à execução do programa de recuperação financeira, uma vez que alterações nas condições de trabalho e na organização das unidades industriais dependem de processos de negociação e, em determinados casos, de instâncias de representação dos empregados.
Volkswagen reduz previsão de margem de lucro para até 1% em 2026
Apesar dos resultados negativos do terceiro trimestre, a Volkswagen manteve sua projeção de receita anual em aproximadamente € 315 bilhões.
A estimativa de rentabilidade, entretanto, foi significativamente reduzida em setembro. A companhia passou a prever margem operacional de até 1% em 2026, contra uma expectativa anterior situada entre 4% e 5,5%.
A revisão considera aproximadamente € 10 bilhões em efeitos extraordinários projetados para o exercício completo, incluindo os encargos associados à Porsche e à reestruturação do grupo.
Desconsiderando esses impactos, a administração estima uma margem operacional ajustada próxima de 4% para o ano.
A companhia também prevê geração líquida de caixa entre € 3 bilhões e € 6 bilhões na divisão automotiva.
O desempenho de caixa apresenta uma situação diferente daquela observada no resultado contábil. Entre janeiro e setembro, o fluxo de caixa líquido da divisão automotiva alcançou € 4,39 bilhões, crescimento de 144,5% em relação aos € 1,80 bilhão registrados no mesmo período de 2025.
O avanço foi favorecido pela redução de investimentos e por operações relacionadas à carteira de participações empresariais.
Ao final de setembro, a liquidez líquida da divisão automotiva estava em aproximadamente € 33 bilhões. Esse indicador demonstra a existência de recursos financeiros relevantes, apesar da pressão sobre a lucratividade.
A recuperação dependerá da capacidade de converter os ajustes operacionais em resultados recorrentes, reduzir a exposição a negócios de menor rentabilidade e preservar a geração de caixa enquanto executa o processo de transformação industrial.
Fontes:
Volkswagen Group — comunicado oficial de resultados dos nove primeiros meses de 2026, publicado em 29 de outubro, com indicadores financeiros, operacionais e projeções.
Volkswagen Group — relatório financeiro intermediário de janeiro a setembro de 2026, com demonstrações consolidadas e comparações trimestrais.
Volkswagen Group — comunicado ao mercado de 18 de setembro de 2026, com revisão das projeções financeiras e dos efeitos extraordinários esperados para o exercício.
Volkswagen Group — declarações institucionais do presidente-executivo Oliver Blume sobre a reestruturação, os empregos e as perspectivas das fábricas alemãs.
IG Metall — comunicados de setembro e outubro de 2026 sobre as negociações trabalhistas, os acordos coletivos e a possibilidade de paralisações a partir de janeiro de 2027.










