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Flávio Bolsonaro é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro; PF apura contas e viagens

Inquérito no STF investiga relações financeiras de Flávio Bolsonaro com o advogado Willer Tomaz, incluindo acesso a conta de offshore e viagens internacionais; apuração também envolve Cláudio Castro e Alexandre Ramagem.

por Carlos Menezes
20/10/2026 às 07h46
em Política
Inquérito Sobre Suspeita De Lavagem De Flávio Também Investiga Cláudio Castro E Ramagem

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é investigado pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro em um procedimento que examina suas relações financeiras com o advogado Willer Tomaz, empresário ligado ao setor de apostas e também investigado por possíveis irregularidades envolvendo recursos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A apuração foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde o ministro Alexandre de Moraes foi sorteado para a relatoria, após a identificação de elementos que envolvem o parlamentar.

Os investigadores analisam a existência de possíveis vínculos econômicos entre Flávio Bolsonaro e empresas associadas a Willer Tomaz. Entre os elementos identificados estão registros que apontam o senador como usuário com privilégios de administração em uma conta bancária vinculada à offshore Alcazar Holding, além de informações sobre viagens internacionais realizadas em 2025 com participação de empresas relacionadas ao advogado. A Polícia Federal procura esclarecer se essas operações corresponderam a relações pessoais legítimas ou se existem movimentações financeiras irregulares.

A investigação também passou a examinar fatos envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). Uma das frentes envolve suspeitas de irregularidades em uma licitação da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), realizada em 2022, que resultou na contratação de uma empresa de processamento de pagamentos. Outra trata de transferências que somam R$ 270 mil e teriam Ramagem como beneficiário final, segundo a hipótese analisada pelos investigadores.

O avanço das apurações ocorre na última semana antes do segundo turno presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro. Flávio Bolsonaro disputa a eleição contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto as investigações sob responsabilidade da Polícia Federal procuram estabelecer a origem, a destinação e os beneficiários de determinadas movimentações financeiras.

Flávio nega ter negócios irregulares com Willer Tomaz e afirma que sua relação com o advogado é exclusivamente de amizade. A defesa de Tomaz também rejeita as acusações, sustenta que todas as suas participações empresariais são lícitas e critica a divulgação de informações de um procedimento sigiloso durante o período eleitoral. As suspeitas não representam condenação nem demonstram, isoladamente, participação do senador em crime.

PF encontrou Flávio Bolsonaro como usuário de conta bancária de offshore

Um dos principais elementos da investigação envolve a identificação de Flávio Bolsonaro como usuário com privilégios administrativos em uma conta bancária vinculada à empresa Alcazar Holding, associada a Willer Tomaz. A informação foi localizada em mensagens eletrônicas analisadas pela Polícia Federal durante o exame de dados relacionados ao advogado. O conteúdo das comunicações passou a integrar as suspeitas sobre possíveis relações financeiras entre os dois.

Segundo as informações divulgadas sobre os registros, o senador aparecia com a classificação de usuário master, condição que pode oferecer acesso operacional ampliado a funcionalidades bancárias. Os investigadores examinam o significado dessa autorização e procuram determinar se ela estava relacionada apenas a procedimentos administrativos ou a alguma participação econômica na empresa.

Em maio de 2025, uma comunicação encaminhada à instituição financeira solicitou a retirada do acesso do parlamentar à conta. O episódio é considerado relevante para a investigação porque demonstra a existência de um vínculo operacional que precisa ser esclarecido. A Polícia Federal também procura identificar quando o acesso foi concedido, quais permissões estavam disponíveis e se houve movimentações realizadas por meio dessa credencial.

A existência de acesso administrativo não equivale automaticamente à condição de sócio ou proprietário da empresa. Em operações empresariais, diferentes pessoas podem receber permissões para consultar informações ou executar determinadas atividades, conforme os contratos e as regras internas da instituição financeira. A análise criminal exige verificar a extensão efetiva dessas permissões e sua eventual utilização.

Outro ponto é a distinção entre participação societária formal e possível participação econômica não declarada. A primeira pode ser examinada em registros empresariais, enquanto a segunda depende de elementos adicionais, como contratos, transferências, direitos sobre resultados e poderes de decisão. A Polícia Federal procura esclarecer se o vínculo identificado possui alguma dessas características.

A confirmação de eventual irregularidade dependerá dos documentos bancários e societários reunidos durante a investigação. Até o momento, as informações disponíveis não demonstram que Flávio Bolsonaro tenha praticado pessoalmente operações de lavagem de dinheiro por meio da conta examinada.

Viagens de Flávio à Europa aparecem entre as movimentações investigadas

Outra frente da apuração envolve viagens realizadas por Flávio Bolsonaro à Europa em 2025. Registros examinados pela Polícia Federal indicam que uma empresa ligada a Willer Tomaz participou do pagamento ou da contratação de trechos de voos executivos utilizados pelo senador e por integrantes dos círculos familiares envolvidos. As viagens ocorreram entre destinos de Portugal e França.

A empresa Cathedral, sediada na Ilha da Madeira, aparece nas informações sobre a aquisição dos serviços de transporte aéreo. A estrutura empresarial mantém relação com negócios do advogado no setor de apostas, incluindo a Rede Loto. Os investigadores procuram estabelecer a origem dos recursos utilizados nos pagamentos e verificar quem assumiu efetivamente os custos das viagens.

A participação de uma empresa na contratação de passagens ou fretamentos não demonstra, isoladamente, que tenha existido vantagem ilícita. Operações desse tipo podem envolver pagamentos realizados por terceiros, reembolsos e divisão de despesas entre passageiros. A regularidade depende da identificação dos responsáveis financeiros e da finalidade efetiva das transações.

O principal ponto sob exame é se os serviços foram custeados por recursos empresariais em benefício pessoal de Flávio Bolsonaro ou de seus familiares, sem justificativa econômica ou contratual compatível. Caso sejam identificadas despesas dessa natureza, também será necessário determinar se houve reembolso, autorização regular ou outro fundamento para os pagamentos.

Willer Tomaz sustenta que as viagens decorreram da amizade entre as famílias e nega que tenham representado negócios irregulares ou benefícios ocultos. Flávio Bolsonaro também afirma que a relação com o advogado é pessoal. Essas manifestações integram a defesa apresentada diante das informações divulgadas sobre a investigação.

A análise dos registros de viagem poderá ajudar a esclarecer a cronologia e a natureza das relações financeiras entre os envolvidos. Entretanto, a identificação de deslocamentos conjuntos não constitui prova de lavagem de dinheiro. A investigação precisará demonstrar eventual vínculo com recursos de origem ilícita e mecanismos de ocultação ou dissimulação.

Investigação começou no setor de apostas e chegou ao candidato presidencial

A apuração teve origem em movimentações financeiras relacionadas a empresas de apostas e plataformas de pagamento digital. Durante o exame de operações atribuídas a Willer Tomaz e a pessoas jurídicas associadas ao advogado, a Polícia Federal identificou documentos e comunicações que mencionavam Flávio Bolsonaro. Como o parlamentar possui foro por prerrogativa de função em determinadas hipóteses, os elementos foram encaminhados ao Supremo Tribunal Federal.

A partir desse material, os investigadores passaram a examinar se existiam relações financeiras entre o senador e as estruturas empresariais analisadas. O objetivo é determinar se os vínculos identificados correspondem a transações legítimas ou se foram utilizados mecanismos de ocultação patrimonial. A investigação envolve dados eletrônicos, registros bancários e documentos societários.

Willer Tomaz também figura em procedimentos relacionados à Operação Sem Desconto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro associadas a fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. A conexão entre essas investigações decorre do exame de operações financeiras e das pessoas envolvidas, mas não significa que todas as transações investigadas tenham origem nos mesmos fatos.

O enquadramento de uma operação como lavagem de dinheiro depende de requisitos legais específicos. Não basta demonstrar movimentação financeira elevada, utilização de empresa no exterior ou relacionamento pessoal com alguém investigado. É necessário estabelecer elementos que indiquem ocultação ou dissimulação da natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes de infração penal.

Essa distinção é especialmente importante no caso de Flávio Bolsonaro. O nome do senador aparece em informações que justificaram aprofundamento investigativo, mas a existência de um inquérito não permite presumir a comprovação dos crimes examinados. A responsabilidade dependerá de provas individualizadas sobre a conduta do parlamentar.

Licitação da Loterj amplia investigação sobre relações financeiras

A Polícia Federal também examina possíveis irregularidades em uma licitação realizada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), durante a administração do então governador Cláudio Castro. O procedimento resultou na contratação da Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia, posteriormente denominada RioPag, para prestar serviços de processamento eletrônico de pagamentos relacionados às operações lotéricas estaduais.

O Pregão Presencial nº 01/2022 foi realizado em 23 de dezembro de 2022 e teve como critério de julgamento a maior oferta apresentada à administração pública. Segundo os registros da Loterj, duas empresas participaram da disputa: Pixs Cobrança e Idea Maker Meios de Pagamento e Consultoria. A segunda apresentou proposta de repasse de 26%, mas foi desclassificada por descumprimento de exigências formais previstas no edital.

A controvérsia envolveu a apresentação do percentual com duas casas decimais, quando o edital exigia três, além de questões sobre o credenciamento do representante da concorrente. Após a desclassificação, a Pixs permaneceu na disputa e apresentou proposta final de 26,455%. A empresa foi declarada vencedora do procedimento.

Os documentos oficiais confirmam a existência de recursos administrativos contra a desclassificação. A Loterj rejeitou os questionamentos, sustentando que as exigências editalícias deveriam ser cumpridas e que a oferta final da Pixs era superior à apresentada pela concorrente. O entendimento consta da decisão administrativa publicada pela autarquia.

A Polícia Federal procura esclarecer se a exclusão da concorrente ocorreu exclusivamente pela aplicação das regras do edital ou se houve influência indevida sobre a contratação. A investigação considera a hipótese de Willer Tomaz possuir participação econômica não declarada na empresa vencedora. A comprovação dessa suspeita dependerá de informações societárias, financeiras e de eventuais elementos sobre a atuação dos envolvidos.

A existência de uma controvérsia administrativa não demonstra automaticamente fraude. Também não há, nos documentos públicos examinados, prova de que Flávio Bolsonaro tenha participado da licitação ou determinado o resultado do procedimento. A relevância desse episódio para o inquérito decorre principalmente das relações empresariais e pessoais que a Polícia Federal procura reconstruir.

Contrato de pagamentos coloca negócios de Willer Tomaz sob análise

A contratação da Pixs resultou no Contrato nº 003/2023, celebrado para a prestação de serviços de processamento de pagamentos destinados às operações lotéricas do Rio de Janeiro. Registros públicos da Loterj identificam valor estimado de R$ 32 milhões e vigência prevista de 60 meses. A documentação também registra alterações contratuais relacionadas às condições de remuneração.

A empresa passou a utilizar a denominação RioPag, mantendo sua identificação nos registros administrativos da contratação. A mudança de nome não representa, isoladamente, transferência irregular de direitos ou alteração indevida do contrato. Para avaliar a execução financeira, é necessário considerar os valores efetivamente movimentados e as obrigações previstas nos documentos.

O valor estimado da contratação não corresponde necessariamente à receita recebida pela empresa. Serviços de processamento de pagamentos podem envolver remuneração calculada sobre transações, percentuais contratuais e condições específicas de repasse. A dimensão econômica efetiva depende do volume de operações e das regras de remuneração aplicadas.

A investigação procura esclarecer se Willer Tomaz mantinha participação econômica na empresa e se essa relação tinha alguma conexão com agentes públicos responsáveis pela contratação. A suspeita de propriedade oculta é diferente da existência de vínculo profissional entre advogado e empresa. Para demonstrar controle empresarial de fato, são necessários elementos relacionados a decisões de gestão, benefícios financeiros e direitos sobre os resultados do negócio.

O episódio também oferece uma perspectiva sobre a importância do setor de pagamentos no mercado de apostas. Empresas que processam transações financeiras podem administrar grandes volumes de recursos, mas essas movimentações não equivalem necessariamente a faturamento próprio. A análise de lavagem de dinheiro exige distinguir dinheiro de terceiros, receita efetiva e eventuais operações destinadas à ocultação de valores.

Cláudio Castro é citado em apuração sobre contrato da Loterj

O ex-governador Cláudio Castro também passou a figurar nas informações relacionadas ao inquérito, em razão das suspeitas sobre a contratação da empresa de pagamentos. A Polícia Federal identificou mensagens e registros de viagens que, segundo os investigadores, demonstrariam proximidade pessoal entre Castro e Willer Tomaz. A apuração procura estabelecer se essa relação teve alguma influência sobre decisões administrativas da Loterj.

Durante o governo de Castro, a autarquia era presidida por Hazenclever Lopes, nomeado para o cargo por indicação política. Os investigadores examinam informações sobre vínculos profissionais anteriores entre Hazenclever e o advogado. O objetivo é verificar se essas relações possuem relevância para as suspeitas de direcionamento contratual.

Castro reconhece conhecer Willer desde 2020 e afirma manter com ele uma relação de amizade. Segundo sua assessoria, o advogado participou de processos relacionados à defesa do ex-governador sem cobrança de honorários, em razão da proximidade pessoal. Castro também confirmou viagens realizadas em conjunto, mas afirmou que cada participante arcou com as próprias despesas e as de seus familiares.

O ex-governador nega ter participado da licitação ou de qualquer negociação envolvendo a Pixs ou a RioPag. Também afirma que desconhecia eventual participação econômica de Willer na empresa e vínculos anteriores entre o advogado e o presidente da Loterj. Sua assessoria sustenta que a autarquia possuía gestão própria.

As declarações apresentam a versão do ex-governador sobre os acontecimentos. A investigação deverá confrontá-las com os registros obtidos e determinar se existiram atos específicos de interferência ou participação em eventuais irregularidades. A nomeação de um dirigente e a manutenção de relações pessoais não bastam, isoladamente, para estabelecer responsabilidade criminal.

PF examina pagamentos de R$ 270 mil relacionados a Alexandre Ramagem

Outra frente da investigação envolve pagamentos que somam R$ 270 mil e aparecem em documentos examinados pela Polícia Federal. Segundo as informações divulgadas sobre o pedido de investigação, os recursos foram divididos em três parcelas de R$ 90 mil e teriam Alexandre Ramagem como beneficiário final. As transferências, entretanto, não foram feitas diretamente para contas pessoais do ex-deputado.

A destinatária formal dos valores foi a empresa Torre Comunicação Estratégica. Os investigadores procuram esclarecer a finalidade dos pagamentos, a origem dos recursos e a efetiva prestação dos serviços associados à contratação. A hipótese policial deverá ser confrontada com documentos comerciais e registros financeiros.

A Torre afirmou ter prestado serviços de assessoria de imprensa ao escritório de advocacia de Willer Tomaz e Eugênio de Aragão. Segundo a empresa, o trabalho foi desenvolvido para Ramagem quando ele era pré-candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro, envolvendo planejamento estratégico, monitoramento de informações e treinamento para entrevistas. A consultoria informou que os serviços duraram três meses e foram acompanhados da emissão de notas fiscais.

A explicação apresentada pela empresa estabelece uma finalidade contratual para os pagamentos. Para demonstrar eventual irregularidade, seria necessário identificar elementos que contrariassem essa justificativa, como simulação de serviços, destinação incompatível dos valores ou mecanismos de ocultação financeira. O simples fato de um escritório de advocacia contratar serviços para um cliente não caracteriza crime.

Ramagem foi diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência durante o governo Jair Bolsonaro. Em 2025, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal na ação penal relacionada à tentativa de golpe de Estado, recebendo pena de 16 anos, um mês e 15 dias de reclusão. A Câmara dos Deputados declarou a perda de seu mandato em dezembro do mesmo ano.

A condenação anterior pertence a um processo diferente e não constitui prova das suspeitas financeiras agora examinadas. A responsabilização por eventuais irregularidades relacionadas aos R$ 270 mil dependerá de investigação própria e da demonstração das condutas atribuídas ao ex-deputado.

Willer Tomaz nega lavagem de dinheiro e critica divulgação do inquérito

A defesa de Willer Tomaz afirma que o advogado não teve acesso integral ao procedimento e tomou conhecimento de parte das acusações por meio da imprensa. Segundo a manifestação divulgada, os advogados responsáveis solicitaram formalmente acesso aos autos para apresentar esclarecimentos às autoridades. Tomaz sustenta que suas participações empresariais são lícitas e estão identificadas em registros públicos.

A defesa também nega a existência de sócios ocultos, contas não declaradas ou patrimônio escondido. Sobre Flávio Bolsonaro, afirma que os dois mantêm uma relação de amizade entre famílias, sem a existência de negócios irregulares. O advogado rejeita a interpretação de que a proximidade pessoal constitua evidência de atuação criminosa.

Em relação à licitação da Loterj, Tomaz sustenta que as informações divulgadas não demonstram ter havido intervenção sua na desclassificação da concorrente. A defesa argumenta que a decisão administrativa decorreu do descumprimento de exigências previstas no edital. Também considera relevante o fato de a Pixs ter apresentado, ao final do procedimento, percentual superior à oferta inicialmente formulada pela Idea Maker.

A manifestação ainda critica a divulgação de elementos de investigação sigilosa às vésperas do segundo turno presidencial. Segundo os advogados, a circulação seletiva de documentos antes de sua disponibilização à defesa prejudica o exercício do contraditório e amplia a exposição pública dos envolvidos. A defesa afirma esperar que a análise integral das operações demonstre sua regularidade.

Flávio Bolsonaro também negou anteriormente a existência de relações comerciais irregulares com Willer Tomaz. O senador sustenta que sua relação com o advogado é de amizade. As informações divulgadas sobre os registros bancários e as viagens são objeto da apuração, sem conclusão definitiva sobre sua natureza jurídica.

As manifestações das defesas deverão ser consideradas na análise das provas reunidas. Uma investigação pode identificar vínculos pessoais, registros empresariais e movimentações financeiras sem que todos esses elementos configurem práticas criminosas. A definição de responsabilidades dependerá da comprovação de fatos específicos.

O que caracteriza lavagem de dinheiro na legislação brasileira?

A investigação envolvendo Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz examina uma possível infração prevista na Lei nº 9.613, de 1998. A legislação define lavagem de dinheiro como a ocultação ou dissimulação da natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal.

O crime pode envolver diferentes mecanismos de movimentação patrimonial, incluindo estruturas empresariais, contas bancárias e operações realizadas por terceiros. Entretanto, a utilização desses instrumentos não é ilegal por si só. Empresas sediadas no exterior, pagamentos de serviços e transferências entre contas podem integrar atividades econômicas regulares.

A caracterização penal exige elementos relacionados à origem ilícita dos recursos e à conduta de ocultação ou dissimulação. Valores elevados, relações de amizade ou acesso a uma conta empresarial não são suficientes, isoladamente, para comprovar lavagem de dinheiro. A investigação precisa determinar como os recursos circularam e qual foi a participação efetiva de cada pessoa.

No caso examinado pela Polícia Federal, essa distinção será particularmente importante para avaliar o cadastro bancário atribuído a Flávio Bolsonaro. A existência de privilégios operacionais em uma conta não comprova necessariamente participação societária ou apropriação de recursos. O significado jurídico dependerá das permissões concedidas, das operações eventualmente realizadas e da documentação correspondente.

O mesmo raciocínio se aplica às viagens internacionais e aos pagamentos relacionados a terceiros. Será necessário identificar a origem dos valores, a efetiva responsabilidade pelos custos e a existência de qualquer operação destinada a ocultar sua natureza. Sem essa demonstração, os elementos permanecem como questões sob investigação.

Investigação chega à reta final do segundo turno presidencial

O encaminhamento das suspeitas ao Supremo Tribunal Federal ocorre em um momento de intensa exposição pública de Flávio Bolsonaro. O senador disputa a Presidência da República no segundo turno de 25 de outubro, enquanto a Polícia Federal examina suas relações financeiras com Willer Tomaz. A coincidência temporal amplia a repercussão do caso, mas não altera os requisitos legais para responsabilização criminal.

A relatoria atribuída a Alexandre de Moraes coloca o procedimento sob supervisão do STF, de acordo com as competências aplicáveis. A Polícia Federal deverá continuar a análise dos elementos reunidos e das diligências autorizadas, enquanto o Ministério Público exercerá suas atribuições sobre os resultados da investigação.

A eventual apresentação de denúncia dependerá da existência de elementos considerados suficientes pelo órgão competente. O oferecimento de acusação criminal não decorre automaticamente da abertura de um inquérito, assim como a inclusão de uma pessoa na investigação não representa demonstração de culpa.

No caso de Flávio Bolsonaro, os principais pontos a esclarecer estão relacionados à conta vinculada à Alcazar Holding, aos pagamentos de viagens internacionais e à possível existência de relações econômicas com empresas associadas a Willer Tomaz. A ampliação das apurações para incluir elementos sobre Cláudio Castro e Alexandre Ramagem poderá contribuir para compreender outras movimentações financeiras investigadas, mas cada situação exige demonstração própria.

A documentação da Loterj permite confirmar a existência de uma contratação contestada administrativamente, enquanto as informações sobre contas, viagens e supostos beneficiários de transferências dependem, em grande parte, do material atribuído ao inquérito sigiloso. A distinção entre esses níveis de documentação é essencial para compreender o alcance das suspeitas.

Flávio Bolsonaro enfrenta, assim, uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro que ultrapassa sua relação pessoal com Willer Tomaz e alcança estruturas empresariais e financeiras examinadas pela Polícia Federal. O aprofundamento das diligências deverá esclarecer se os vínculos identificados correspondem a operações legítimas ou se existem elementos capazes de sustentar responsabilização criminal. Até essa definição, permanecem válidas as garantias de presunção de inocência e de defesa dos envolvidos.

Fontes

Loteria do Estado do Rio de Janeiro — Edital do Pregão Presencial nº 01/2022, processo SEI-150162/000531/2022.

Loteria do Estado do Rio de Janeiro — Recursos administrativos, contrarrazões e decisão sobre a desclassificação da Idea Maker e a proposta apresentada pela Pixs Cobrança.

Loteria do Estado do Rio de Janeiro — Registros públicos do Contrato nº 003/2023 e documentação associada à contratação dos serviços de processamento de pagamentos.

Polícia Federal — Comunicações institucionais sobre a Operação Sem Desconto e investigações financeiras relacionadas a fraudes envolvendo benefícios previdenciários.

Supremo Tribunal Federal — Comunicado institucional de 22 de dezembro de 2025 sobre a situação processual de Alexandre Ramagem.

Presidência da República — Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998, sobre os crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores.

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