O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou na segunda-feira (5) que a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva não discute uma troca de ministros como estratégia para melhorar a avaliação do governo antes do segundo turno das eleições presidenciais. A declaração foi dada após uma reunião de Lula com integrantes da coordenação eleitoral e aliados em Brasília, um dia depois de o presidente terminar o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Na totalização final do primeiro turno, Flávio recebeu 56.104.503 votos, ante 53.879.538 de Lula. A diferença de 2.224.965 votos corresponde a 1,87 ponto percentual dos votos válidos. O resultado colocou os dois candidatos no segundo turno, marcado para 25 de outubro. O calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê o início da propaganda eleitoral gratuita da nova etapa em 9 de outubro.
Segundo Edinho, a substituição de ministros não esteve entre os assuntos discutidos pela campanha. A Constituição Federal estabelece que a nomeação e a exoneração dos ministros de Estado são competências privativas do presidente da República. O dirigente petista, porém, sustentou que a discussão não faz parte da estratégia eleitoral neste momento.
A negativa ocorre num momento em que a campanha de Lula precisa reorganizar sua estratégia para uma disputa em que a diferença inicial é estreita, mas a composição regional do resultado impõe desafios distintos ao candidato. O primeiro turno mostrou vantagem de Flávio em parte relevante do eleitorado das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, enquanto Lula preservou uma margem superior no Nordeste. A partir de agora, a campanha petista terá de buscar votos fora de sua base mais consolidada sem perder mobilização nos estados em que mantém vantagem.
Resultado do primeiro turno expõe perda de votos de Lula
O desempenho de Lula em 2026 ficou abaixo do registrado por ele no primeiro turno de 2022. Naquela eleição, o então candidato petista recebeu 57.259.504 votos, equivalentes a 48,43% dos votos válidos. Em 2026, foram 53.879.538 votos e 45,16%. A diferença representa uma perda de 3.379.966 votos e de 3,27 pontos percentuais na participação entre os votos válidos.
A retração não se distribuiu de maneira uniforme. Levantamentos sobre a votação indicam que Lula perdeu participação em 25 das 27 unidades da Federação em comparação com 2022. São Paulo concentrou uma parcela expressiva da perda em números absolutos: o petista recebeu 9.505.413 votos, enquanto Flávio alcançou 12.922.023, abrindo vantagem de 3.416.610 votos no maior colégio eleitoral do país.
A fotografia nacional, portanto, combina uma diferença relativamente pequena no total entre os dois concorrentes com uma distribuição geográfica bastante desigual. Isso aumenta o peso das alianças estaduais e da capacidade de cada campanha de ampliar a votação em regiões onde o adversário começou a segunda etapa em posição mais favorável.
Para Lula, o Nordeste permanece como principal reserva eleitoral. Flávio Bolsonaro, contudo, conseguiu aumentar sua participação na região em relação ao desempenho obtido por Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022. O candidato do PL alcançou 10,4 milhões de votos no Nordeste, equivalentes a 30,85% dos votos válidos regionais, reduzindo parte da vantagem histórica do campo petista na região.
A campanha de Lula terá, assim, duas frentes simultâneas. Uma consiste em recuperar votos perdidos em relação à eleição anterior, especialmente nos grandes colégios eleitorais. Outra é preservar a vantagem no Nordeste, região na qual a diferença acumulada continua sendo um dos principais fatores para impedir que Flávio amplie a liderança nacional.
Crise no STF entra no diagnóstico eleitoral do PT
Edinho também voltou a atribuir parte do desempenho de Lula no primeiro turno ao desgaste provocado pela crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). Em declaração dada após a votação, o presidente do PT afirmou que o presidente acabou absorvendo politicamente o desgaste associado ao caso, embora, segundo ele, Lula tenha defendido a investigação das denúncias.
O tema ganhou peso na campanha porque episódios relacionados ao Banco Master colocaram o STF no centro de investigações e decisões de grande repercussão política. Em setembro, o ministro Flávio Dino determinou a abertura de investigação pela Polícia Federal sobre possíveis irregularidades na atuação da Comissão de Valores Mobiliários no caso, após relatório apontar fragilidades na autarquia e problemas na apuração de uma denúncia. O mérito e a responsabilidade individual dos envolvidos são matérias próprias das investigações e decisões judiciais em andamento.
Na avaliação política apresentada por Edinho, Lula pretende manter a discussão sobre uma reforma do Judiciário e do próprio STF no centro da campanha. Trata-se, porém, de uma posição política da direção do PT, e não de uma mudança institucional já aprovada. O partido ainda terá de transformar essa agenda em propostas concretas para a segunda etapa da eleição.
A insistência no tema também mostra que a campanha petista procura responder a uma questão mais ampla: a associação entre o governo federal e a avaliação negativa de instituições que passaram a ocupar espaço elevado no debate eleitoral. Ao atribuir parte da perda de votos à crise no Judiciário, o comando da campanha estabelece uma linha de defesa para o resultado do primeiro turno e tenta deslocar a discussão para a imagem das instituições.
PT tenta ampliar alianças para superar desvantagem inicial
Outro problema identificado pela campanha está na necessidade de ampliar alianças estaduais. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) foi reeleita no primeiro turno com 2.805.438 votos, equivalentes a 53,27% dos votos válidos, segundo o TSE. Durante a disputa presidencial, ela indicou que pretende manter posição de neutralidade entre Lula e Flávio.
A posição de Raquel é particularmente relevante porque Pernambuco integra a região em que Lula ainda possui vantagem eleitoral expressiva. Ao mesmo tempo, o episódio evidencia uma dificuldade da campanha petista em transformar vínculos com lideranças estaduais em apoio formal à candidatura presidencial.
A governadora havia enfrentado João Campos (PSB), candidato que recebeu apoio explícito de Lula no segundo turno da eleição estadual de 2026. Com a reeleição de Raquel, a campanha presidencial passou a buscar uma aproximação com a chefe do Executivo estadual, embora ela tenha sinalizado que não pretende aderir formalmente a nenhum dos dois candidatos.
Edinho afirmou que está aberto ao diálogo com a governadora. A estratégia acompanha uma necessidade mais ampla do PT: ampliar interlocução com partidos e lideranças que não estão alinhados automaticamente com nenhum dos dois polos da disputa presidencial.
O cenário partidário produzido pela eleição legislativa também reduz a margem de manobra do campo governista. O PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada da Câmara, enquanto o PT obteve 70 cadeiras. O resultado reforça o peso do Congresso que será eleito para o próximo mandato e pode se tornar um componente adicional do debate presidencial no segundo turno.
Campanha terá 19 dias para reorganizar a disputa
A partir desta terça-feira (6), Lula e Flávio têm 19 dias até a votação de 25 de outubro. A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa em 9 de outubro e será veiculada até 23 de outubro, dois dias antes da votação.
Edinho indicou que Lula pretende participar de mais debates nesta etapa da disputa. O presidente não participou dos principais confrontos do primeiro turno, mas a campanha petista passou a defender o confronto direto com Flávio como instrumento para apresentar diferenças entre os dois projetos políticos.
A mudança de dinâmica é relevante porque o segundo turno elimina os demais candidatos presidenciais e concentra a disputa entre dois nomes. Isso reduz a dispersão dos votos válidos e aumenta o peso das estratégias de rejeição, alianças, desempenho em debates e capacidade de mobilização dos eleitores que não participaram de maneira decisiva da primeira etapa.
Nesse ambiente, a negativa de Edinho sobre uma eventual troca de ministros delimita a resposta imediata da campanha às especulações sobre mudanças no governo. A declaração não representa compromisso sobre a composição futura da equipe ministerial, mas afirma que uma reforma ministerial não está sendo utilizada, neste momento, como instrumento eleitoral pela coordenação da campanha.
A questão mais urgente para o PT é outra: transformar os 53,88 milhões de votos obtidos no primeiro turno em uma base suficiente para ultrapassar Flávio. O adversário começa a nova etapa com vantagem de 2,22 milhões de votos e com desempenho superior em importantes colégios eleitorais, enquanto Lula mantém uma vantagem regional relevante no Nordeste.
Até a votação de 25 de outubro, a campanha petista terá de combinar recuperação de votos em estados onde perdeu espaço, preservação da liderança nordestina, ampliação de alianças e exposição direta dos dois candidatos. A disputa entra, portanto, em uma fase em que a capacidade de transferência de apoio político e de conversão de eleitores dos demais candidatos poderá ser tão importante quanto a mobilização das bases de Lula e Flávio.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral – resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 e confirmação de Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno
Tribunal Superior Eleitoral – calendário oficial e regras de propaganda eleitoral para o segundo turno de 2026
Tribunal Superior Eleitoral – resultado da eleição para o governo de Pernambuco e reeleição de Raquel Lyra
Presidência da República e Planalto – Constituição Federal, artigo 84, sobre a competência presidencial para nomeação e exoneração de ministros de Estado
Supremo Tribunal Federal – decisão que determinou investigação da atuação da CVM no caso Banco Master








