A saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, após sua derrota na eleição presidencial de 2026, envolveu uma operação logística com aeronaves particulares, deslocamentos pela Argentina e a presença de um homem apontado como ex-integrante do serviço de inteligência de Israel. A movimentação foi detalhada em investigação exibida pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo, 1º de novembro, que revelou inconsistências nos registros migratórios e levantou dúvidas sobre a atuação de empresas e intermediários responsáveis pelo transporte.
Entre os elementos apresentados estão três registros de entrada do senador na Argentina, realizados em um intervalo de 34 minutos com documentos diferentes, além da participação de uma agência de turismo cujo endereço cadastrado na Receita Federal corresponde a um estacionamento em Foz do Iguaçu, no Paraná. A reportagem também identificou a presença de um cidadão israelense com histórico de atuação na área de inteligência, que atravessou a fronteira em um veículo associado à mesma empresa.
A viagem ocorreu depois que Flávio Bolsonaro recebeu uma determinação judicial para entregar seus passaportes. O senador chegou aos Estados Unidos na manhã de 28 de outubro, acompanhado da mulher e das duas filhas. As circunstâncias da saída e os procedimentos realizados em território argentino passaram a provocar questionamentos sobre a eventual participação de agentes públicos e intermediários internacionais.
Flávio Bolsonaro utilizou diferentes aeronaves na viagem
Segundo a investigação do Fantástico, a operação foi organizada em trajetos separados para o senador e seus familiares. Flávio deixou Brasília às 5h05 de terça-feira, 27 de outubro, em um jato particular apontado como ligado ao advogado Willer Tomaz, com destino à região de Buenos Aires. Posteriormente, teria embarcado em outra aeronave para Puerto Iguazú, cidade argentina localizada na fronteira com Foz do Iguaçu.
A escolha de Puerto Iguazú foi considerada estratégica para a operação. O aeroporto internacional da cidade possui uma pista de aproximadamente 3.300 metros, capaz de receber aeronaves executivas de grande porte, permitindo a realização de voos internacionais sem necessidade de deslocamento até os principais terminais aeroportuários argentinos.
Enquanto o senador seguia pela rota aérea, integrantes de sua família teriam utilizado outro percurso, passando pelo oeste do Paraná antes de atravessar a fronteira terrestre. A divisão dos trajetos e o uso de aeronaves diferentes são apontados como características da operação, embora não haja comprovação pública de que todos os deslocamentos tenham sido planejados com a finalidade de evitar a fiscalização.
Agência de turismo tinha estacionamento como endereço cadastrado
Uma das empresas mencionadas na investigação foi a Dallas Turismo, identificada nos registros relacionados ao transporte terrestre realizado na região da tríplice fronteira. De acordo com o Fantástico, o endereço informado pela empresa à Receita Federal correspondia a um estacionamento, onde trabalhadores afirmaram que a agência nunca havia funcionado.
A descoberta levantou questionamentos sobre a estrutura operacional da empresa e sua participação nos deslocamentos realizados durante a viagem. A existência de um endereço cadastral sem funcionamento aparente, entretanto, não comprova isoladamente uma irregularidade, sendo necessário verificar a situação cadastral e a documentação dos serviços contratados.
A empresa negou ter transportado Flávio Bolsonaro. A investigação, porém, relacionou veículos utilizados na travessia à movimentação de pessoas próximas ao senador, o que tornou os registros de transporte e de entrada no território argentino parte central da apuração.
Sistema argentino registrou três entradas do senador em 34 minutos
Os registros migratórios apresentados pelo Fantástico revelaram uma sequência incomum de lançamentos relacionados à entrada de Flávio Bolsonaro na Argentina. O primeiro ocorreu às 22h37, com um passaporte italiano. Três minutos depois, às 22h40, houve outro registro, desta vez com uma carteira de motorista brasileira. Um terceiro lançamento foi realizado às 23h11, mediante apresentação de um passaporte brasileiro.
Os registros foram associados ao mesmo veículo, mas os dois lançamentos feitos com documentos brasileiros acabaram cancelados. Permaneceu válida apenas a entrada registrada com o passaporte italiano.
A investigação não esclareceu definitivamente por que o sistema migratório recebeu três lançamentos, quem realizou os cancelamentos ou se houve alguma determinação específica de autoridades argentinas. Essas informações são relevantes para compreender se os procedimentos decorreram de falhas administrativas ou de alguma intervenção deliberada.
Outra divergência está relacionada ao deslocamento do senador. Embora os registros indiquem uma entrada por via terrestre, a reportagem aponta que Flávio chegou a Puerto Iguazú em um voo procedente da região de Buenos Aires e permaneceu durante horas dentro da aeronave, aguardando a chegada dos familiares.
A diferença entre o deslocamento aéreo relatado e os registros de passagem terrestre tornou-se um dos principais pontos a esclarecer na reconstrução da viagem.
Ex-integrante da inteligência israelense aparece na operação
A investigação também identificou a presença de Menachem Booky Halevy, cidadão israelense apontado como ex-integrante de um serviço de inteligência de Israel. Ele teria cruzado a fronteira em outra van vinculada à operação, acompanhado de Roberto Jorge Alexandre, advogado que atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.
De acordo com os registros apresentados pelo Fantástico, Halevy havia ingressado no Brasil em outubro pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e acumulava quatro passagens pelo país ao longo de 2026. A reportagem também mencionou sua presença em eventos com autoridades israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
O motorista responsável pelo transporte afirmou ter sido contratado apenas para conduzir passageiros de um posto de combustível em Foz do Iguaçu até o aeroporto de Puerto Iguazú. Ele negou ter transportado integrantes da família Bolsonaro e declarou não conhecer previamente as pessoas que estavam no veículo.
A presença de Halevy na travessia levantou dúvidas sobre a possibilidade de participação de profissionais especializados em operações de inteligência e segurança. Entretanto, os elementos divulgados não permitem concluir que ele tenha coordenado a saída do senador ou atuado oficialmente em nome de autoridades israelenses.
Justiça argentina determina preservação de imagens da fronteira
Os deslocamentos em Puerto Iguazú também despertaram questionamentos na Argentina. Informações divulgadas pela imprensa do país apontaram para a utilização de veículos com acesso diferenciado ao aeroporto e a possível participação de agentes responsáveis pela segurança e pela movimentação dos passageiros.
Segundo reportagem do jornal argentino Clarín, familiares de Flávio Bolsonaro teriam chegado ao aeroporto antes do horário inicialmente informado, em veículos cujos movimentos teriam sido organizados com apoio de agentes norte-americanos. A publicação mencionou ainda o acesso a uma área restrita do terminal, por uma entrada que permitiria alcançar diretamente a pista.
Essas informações permanecem sujeitas a confirmação independente. A reportagem também relatou a mobilização de diferentes veículos e aeronaves para assegurar alternativas caso o planejamento original não pudesse ser executado.
Diante das dúvidas, a Justiça argentina determinou a preservação de imagens das câmeras de segurança do aeroporto e dos pontos de passagem pela fronteira. O material poderá contribuir para identificar os veículos utilizados, os ocupantes e eventuais autorizações concedidas por agentes públicos.
O governo argentino não apresentou explicações detalhadas sobre os procedimentos adotados. Segundo o Fantástico, a Secretaria de Comunicação da Presidência informou que não tinha declarações a fazer sobre o episódio.
Chegada aos Estados Unidos ocorreu com autorização temporária
Flávio Bolsonaro e seus familiares desembarcaram em Miami na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, em um jato particular. Segundo informações atribuídas a uma autoridade norte-americana, a entrada foi autorizada por meio do mecanismo conhecido como parole, instrumento que permite o ingresso temporário de estrangeiros nos Estados Unidos em determinadas circunstâncias.
A autorização não representa automaticamente a concessão de residência permanente nem, por si só, comprova que o deslocamento tenha sido organizado pelo governo norte-americano.
Uma análise publicada pelo The New York Times também levantou dúvidas sobre a documentação apresentada na chegada. Segundo o jornal, um registro público do governo dos Estados Unidos sugere a utilização de um número associado a um passaporte diplomático brasileiro anteriormente cancelado.
A possível utilização desse documento depende de esclarecimentos adicionais sobre os procedimentos de admissão adotados pelas autoridades migratórias norte-americanas.
O nome de Jason Miller, ligado ao governo de Donald Trump e que mantém contatos com Eduardo Bolsonaro, também apareceu nas informações sobre os preparativos da viagem. O alcance de sua eventual participação, entretanto, não foi esclarecido publicamente.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, negou que tivesse prestado auxílio à saída de Flávio Bolsonaro. Donald Trump, por sua vez, afirmou que não tomou partido na eleição presidencial brasileira.
Flávio Bolsonaro afirma que não se arrepende de suas decisões
Em manifestação divulgada nas redes sociais no domingo, 1º de novembro, Flávio Bolsonaro voltou a criticar as medidas judiciais adotadas depois da eleição e afirmou não se arrepender das decisões tomadas.
O senador relacionou sua situação à determinação de entrega dos passaportes, recebida depois de uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A declaração ocorreu em meio à repercussão internacional de sua saída do país e aos questionamentos sobre a logística empregada na viagem.
A defesa contesta a caracterização do episódio como fuga e questiona informações divulgadas sobre o deslocamento. Já os relatos apresentados pelas investigações jornalísticas mantêm dúvidas sobre a contratação dos transportes, a atuação dos intermediários e a divergência entre os registros migratórios e os percursos efetivamente realizados.
A preservação das imagens de segurança e a análise dos documentos administrativos poderão contribuir para esclarecer a sequência dos acontecimentos. Até o momento, as informações divulgadas não estabelecem a responsabilidade individual de todos os envolvidos nem comprovam a existência de uma operação oficialmente coordenada por governos estrangeiros.
Fontes:
Fantástico, TV Globo — investigação exibida em 1º de novembro de 2026, com apresentação de informações e registros migratórios.
Direção Nacional de Migrações da Argentina — registros mencionados na investigação do Fantástico, sem verificação independente dos documentos originais.
Flávio Bolsonaro — manifestação pública divulgada em 1º de novembro de 2026.
Clarín — reportagem de Nicolás Wiñazki sobre os deslocamentos em território argentino.
The New York Times — análise de registro público norte-americano relacionado à documentação de entrada nos Estados Unidos.
Declarações públicas de Donald Trump e Marco Rubio sobre a viagem.









