Fundos multimercados registram recuperação histórica em abril com aposta no “Kit Brasil”
O mercado financeiro brasileiro testemunha, neste encerramento de abril de 2026, uma das reviravoltas mais vigorosas na rentabilidade da indústria de gestão de recursos. Após um primeiro trimestre marcado por volatilidade acentuada e incertezas macroeconômicas, os fundos multimercados recuperaram o fôlego, impulsionados por uma aposta consensual no chamado “Kit Brasil” — uma combinação estratégica de posições compradas em bolsa, vendidas em dólar e aplicadas em juros. Segundo levantamento exclusivo divulgado pela XP nesta terça-feira (28), o mês caminha para consolidar-se como um dos melhores registros de performance da série histórica para as gestoras que operam mandatos macro.
A pesquisa, que consultou 21 das principais gestoras de recursos do país, indica que o Índice de Hedge Funds da Anbima (IHFA) registrou uma valorização de aproximadamente 3% até o dia 20 de abril. O movimento representa uma correção robusta após a queda de 4,56% verificada no intervalo entre o final de fevereiro e março. Para os analistas de fundos da XP, Clara Sodré, Luiz Felippo, Pedro Frota e José Pini, este deslocamento positivo diz menos sobre uma mudança estrutural de posicionamento e mais sobre uma transição no regime de mercado global, onde o Brasil passou a ser o destino preferencial de uma rotação de fluxo voltada a mercados emergentes.
O consenso absoluto sobre a taxa Selic e os juros nominais
No epicentro das estratégias dos fundos multimercados está a convicção inabalável sobre o afrouxamento monetário de curto prazo. Pela primeira vez em meses, a pesquisa revelou uma unanimidade: 100% dos gestores entrevistados projetam que o Comitê de Política Monetária (Copom), em sua reunião iniciada nesta terça-feira, optará por um corte de 25 pontos-base na taxa Selic. Essa visão homogênea reflete a leitura de que, apesar das pressões inflacionárias persistentes, há espaço para um ajuste técnico que preserve a atividade econômica.
O reflexo prático desse consenso é visível nas carteiras: 62% dos gestores de fundos multimercados seguem “aplicados” em juros nominais, uma posição que lucra com a queda das taxas futuras. Mais sintomático ainda é o fato de que as posições “tomadas” (que apostam na alta dos juros) foram completamente zeradas. No segmento de juros reais, a confiança também é elevada, com 71% das casas mantendo posições aplicadas, sinalizando que a queda das taxas deve superar a inflação implícita no curto horizonte.
Câmbio: O maior consenso da série histórica contra o dólar
Se nos juros há unanimidade sobre o Copom, no mercado de câmbio o cenário é de convicção absoluta contra a moeda norte-americana. O fundos multimercados atingiram o maior nível de consenso já registrado na série histórica da pesquisa XP: 100% das gestoras consultadas estão posicionadas na desvalorização do dólar. Simultaneamente, 91% das casas mantêm apostas na valorização do real, configurando o que analistas chamam de “aposta máxima na moeda local”.
Essa manutenção da tese, mesmo sob o estresse cambial verificado em março, foi o principal diferencial de performance para os fundos multimercados no período recente. A resiliência dos gestores em não estopar suas posições vendidas em dólar permitiu que capturassem a apreciação do real em abril, conforme o fluxo estrangeiro migrava para o Brasil em busca de carry trade e exposição a ativos de risco subjacentes. Para as gestoras, o real permanece subvalorizado frente aos fundamentos, e o diferencial de juros ainda atua como um poderoso ímã de capital, apesar da tendência de queda da Selic.
Apetite por Bolsa Brasil atinge patamar recorde de 2025
A despeito de uma visão mais cética sobre os fundamentos macroeconômicos internos, o apetite dos fundos multimercados pela Bolsa brasileira disparou. As posições compradas em ações locais saltaram de 52% em março para 71% em abril, atingindo o nível mais alto desde setembro de 2025. Esse movimento de “compra de risco” ocorre em um hiato curioso: o aumento da exposição ao Ibovespa aconteceu enquanto a percepção sobre a economia brasileira tornava-se mais desafiadora.
A parcela de gestores de fundos multimercados com visão positiva sobre o cenário doméstico caiu para 24%, enquanto a visão negativa saltou de 4% para 19%. Essa desconexão entre “preço e fundamento” explica-se pelo fator externo. O Brasil passou a ser visto como um “porto seguro” relativo entre os emergentes, beneficiado pela distância de conflitos geopolíticos agudos no Oriente Médio e na Europa, além de possuir uma matriz de energia limpa e minerais estratégicos que atraem o fluxo global. Assim, a bolsa sobe não necessariamente porque a economia local vai bem, mas porque o fluxo de capital estrangeiro decidiu que o Brasil está barato no relativo.
A cautela com a Selic terminal em 2026 e o cenário global
Embora o otimismo de curto prazo seja dominante, o horizonte de longo prazo dos fundos multimercados inspira uma vigilância rigorosa. A pesquisa aponta para uma elevação contínua nas expectativas para a taxa Selic ao final de 2026, agora projetada em 13%. Esse prêmio de risco elevado é um reflexo direto do ambiente global incerto e da possibilidade de novos choques nas commodities e na energia, que poderiam reacender a inflação global e forçar o Banco Central brasileiro a interromper ou reverter o ciclo de quedas mais cedo do que o esperado.
No cenário internacional, o pessimismo com cortes rápidos de juros nos Estados Unidos é quase total. Entre os gestores de fundos multimercados, 95% esperam que o Federal Reserve (Fed) mantenha as taxas inalteradas na próxima decisão, enquanto apenas 5% ainda acalentam a esperança de um corte residual de 25 pontos-base. Essa postura “higher for longer” (juros altos por mais tempo) nos EUA serve como um teto para o otimismo emergente, exigindo que as gestoras brasileiras sejam cirúrgicas na gestão de risco para evitar que o “Kit Brasil” se torne uma armadilha em caso de reprecificação global abrupta.
Fluxo de capital estrangeiro supera fundamentos internos
A recuperação dos fundos multimercados em abril é, em última análise, um testemunho do poder do fluxo sobre os fundamentos. O relatório da XP deixa claro que a materialização da rentabilidade no período deveu-se mais a uma “rotação de fluxo” do que a melhorias tangíveis na política fiscal ou monetária brasileira. O investidor estrangeiro, ao buscar refúgio em mercados com correlação positiva com commodities e segurança geopolítica, encontrou no Brasil a liquidez necessária para alocar grandes volumes.
Para as gestoras de fundos multimercados, o desafio agora é monitorar a sustentabilidade desse fluxo. Se a inflação americana der sinais de arrefecimento e o Fed sinalizar flexibilização, o real e a bolsa podem ter uma nova pernada de alta. Por outro lado, se os riscos fiscais domésticos voltarem a ocupar o centro do debate ou se o cenário externo se deteriorar via choques de energia, o consenso verificado em abril pode rapidamente se desfazer, exigindo uma redução drástica na exposição ao risco Brasil para proteger o patrimônio dos cotistas.





