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Galípolo diz que dívida atrelada à Selic pode dificultar trabalho do Banco Central

Presidente do BC afirmou no Senado que a elevada fatia de títulos públicos corrigidos pela taxa básica reduz a potência da política monetária e pode reforçar a renda de detentores de LFTs

por Maria Helena Costa - Repórter de Economia
19/05/2026 às 15h47
em Economia, Destaque, Notícias
Galípolo - Gazeta Mercantil

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira, 19 de maio, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, em Brasília, que a elevada participação de títulos públicos atrelados à Selic na dívida soberana brasileira pode dificultar o trabalho da autoridade monetária no combate à inflação. Segundo Galípolo, quando o Banco Central eleva os juros para desacelerar a atividade econômica, a remuneração dos detentores de papéis pós-fixados, como as Letras Financeiras do Tesouro, também aumenta, criando uma particularidade que reduz a potência da política monetária no Brasil.

A declaração foi feita em um momento de juros ainda elevados, expectativas de inflação acima da meta e preocupação do mercado com a trajetória fiscal. A Selic está em 14,50% ao ano, em patamar considerado restritivo pelo Banco Central, enquanto a meta de inflação perseguida pela autoridade monetária é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Galípolo afirmou aos senadores que cerca de 50% da dívida soberana está vinculada à Selic. Em março, segundo o Relatório Mensal da Dívida Pública Federal, os títulos indexados à taxa básica representavam 47,7% da composição da dívida pública, acima das fatias de papéis corrigidos por índices de preços e de títulos prefixados.

A avaliação do presidente do Banco Central expõe uma questão estrutural da economia brasileira: o alto peso dos papéis pós-fixados na dívida pública. Esses títulos ajudam o Tesouro Nacional a rolar a dívida em momentos de maior incerteza, mas também tornam o custo do endividamento mais sensível às decisões de política monetária.

Dívida indexada à Selic reduz potência dos juros

A principal mensagem de Galípolo foi que a política monetária brasileira opera em um ambiente menos simples do que em economias com menor peso de dívida pós-fixada.

Em tese, quando o Banco Central aumenta a Selic, o crédito fica mais caro, o consumo tende a desacelerar, os investimentos perdem força e a inflação passa a ceder. No Brasil, porém, a alta dos juros também eleva a remuneração de uma parcela expressiva dos detentores de títulos públicos ligados à taxa básica.

Esse efeito cria uma transmissão ambígua. De um lado, a Selic elevada encarece o crédito e freia a demanda. De outro, aumenta a renda financeira de investidores que carregam papéis pós-fixados, especialmente LFTs. Foi esse ponto que Galípolo destacou ao afirmar que, quanto mais o Banco Central sobe juros, mais renda recebe o detentor desses títulos.

A crítica não significa que o Banco Central deixará de usar a Selic para controlar a inflação. A taxa básica continua sendo o principal instrumento da autoridade monetária. O ponto levantado por Galípolo é que a estrutura da dívida pública pode exigir juros mais altos ou por mais tempo para produzir o mesmo efeito sobre a demanda.

Na prática, isso ajuda a explicar por que o Brasil convive historicamente com juros reais elevados. O peso dos títulos pós-fixados, a percepção de risco fiscal, a indexação da economia e a desancoragem das expectativas de inflação tornam a reação da política monetária mais complexa.

LFTs ganham peso em momentos de incerteza

As Letras Financeiras do Tesouro são títulos públicos pós-fixados remunerados pela Selic. Elas costumam ganhar apelo em períodos de juros elevados ou de maior incerteza, porque oferecem menor risco de marcação a mercado em comparação com papéis prefixados ou indexados à inflação de prazo mais longo.

Para o investidor, a LFT funciona como uma alternativa conservadora, com remuneração acompanhando a taxa básica. Para o Tesouro, o papel facilita a rolagem da dívida quando o mercado exige prêmios elevados para comprar títulos prefixados.

O problema, do ponto de vista macroeconômico, é que uma dívida muito concentrada em papéis pós-fixados aumenta a velocidade com que a alta da Selic se transforma em custo fiscal. Quanto maior a parcela indexada à taxa básica, mais rapidamente a despesa com juros responde às decisões do Banco Central.

Em março, a Dívida Pública Federal caiu de R$ 8,840 trilhões para R$ 8,633 trilhões, segundo o Tesouro Nacional, movimento explicado principalmente por resgates líquidos de títulos, parcialmente compensados pela apropriação positiva de juros. Ainda assim, a composição da dívida manteve peso elevado dos papéis vinculados à Selic.

A composição por indexador é um dos pontos acompanhados por investidores porque indica a sensibilidade da dívida a choques de juros, inflação e câmbio. Quanto maior a participação de títulos prefixados, maior a previsibilidade do custo. Quanto maior a fatia de papéis pós-fixados, maior a exposição do Tesouro à trajetória da Selic.

Economia aquecida mantém pressão sobre a inflação

Galípolo também afirmou que a economia brasileira segue resiliente, com desemprego baixo e crescimento da renda dos trabalhadores acima da inflação, mesmo diante de juros restritivos. Para o Banco Central, esse quadro indica que a demanda continua pressionando a oferta, o que dificulta a convergência da inflação à meta.

A leitura é relevante porque o Comitê de Política Monetária (Copom) calibra a Selic com base no comportamento da inflação corrente, das expectativas, da atividade econômica e do balanço de riscos. Quando a economia se mantém aquecida, o Banco Central tende a adotar postura mais cautelosa.

O presidente do BC disse que, quando os indicadores mostram atividade forte e demanda pressionando a oferta, a resposta exigida da autoridade monetária é manter os juros em patamar restritivo para tentar devolver a inflação à meta dentro do horizonte relevante.

Esse diagnóstico reforça a dificuldade de uma flexibilização mais rápida da Selic. Mesmo que parte da inflação venha de choques de oferta, a persistência de núcleos elevados e expectativas acima da meta limita o espaço para cortes expressivos.

Expectativas para 2028 preocupam o Banco Central

Outro ponto de preocupação citado por Galípolo foi a alta das expectativas de inflação para prazos mais longos. Segundo ele, choques de oferta podem afetar projeções de curto prazo, mas não deveriam, isoladamente, provocar deterioração relevante nas estimativas para 2028.

O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central na segunda-feira mostrou que a mediana das projeções do mercado para o IPCA de 2026 subiu para 4,92%. Para 2027, a estimativa ficou em 4,00%. Para 2028, a projeção avançou para 3,65%, acima do centro da meta de 3%.

A piora nas expectativas de longo prazo é particularmente sensível para o Banco Central porque indica perda de confiança na convergência da inflação. Quando agentes econômicos passam a projetar inflação persistentemente acima da meta, empresas e trabalhadores tendem a ajustar preços, salários e contratos com base nessa expectativa.

Esse processo torna a desinflação mais custosa. O Banco Central precisa manter juros restritivos por mais tempo para reancorar as expectativas e convencer o mercado de que a inflação voltará à meta.

Galípolo chamou atenção para o fato de os núcleos de inflação acompanhados pelo BC estarem próximos da inflação cheia. Os núcleos excluem itens mais voláteis e ajudam a medir a tendência subjacente dos preços. Quando esses indicadores também estão elevados, a leitura é de que a pressão inflacionária está mais disseminada.

Petróleo e clima elevam risco de novos choques

Na audiência, Galípolo citou dois choques de oferta que pressionam o cenário econômico: a alta do petróleo, em meio às tensões no Oriente Médio, e os efeitos climáticos associados ao El Niño. Esses fatores podem afetar combustíveis, energia, alimentos e custos de produção.

Choques de oferta têm natureza diferente de pressões de demanda. Eles aumentam preços mesmo sem crescimento excessivo do consumo. O desafio para o Banco Central é evitar que esses choques contaminem expectativas e se espalhem para outros preços da economia.

A alta do petróleo costuma ter impacto direto sobre combustíveis e transporte. Também pode afetar custos logísticos e cadeias produtivas. Já eventos climáticos extremos influenciam safras, alimentos e energia, com efeito potencial sobre o IPCA.

O Banco Central não controla preço internacional de petróleo nem clima. Ainda assim, precisa reagir quando esses choques ameaçam alterar expectativas de inflação e gerar efeitos secundários sobre a economia.

Por isso, a comunicação de Galípolo sinaliza cautela. A autoridade monetária reconhece choques externos, mas observa que a deterioração das expectativas para horizontes mais longos exige atenção.

Autonomia financeira do BC volta ao centro do debate

Galípolo também voltou a defender a autonomia financeira do Banco Central. Segundo ele, a autarquia perdeu cerca de 1.300 servidores nos últimos dez anos, ao mesmo tempo em que aumentou o número de instituições financeiras supervisionadas.

O presidente do BC afirmou que, diante de recursos limitados, a autoridade monetária pode ter de escolher prioridades de fiscalização. A declaração foi feita em meio ao debate sobre a capacidade operacional do Banco Central para acompanhar bancos, fintechs, instituições de pagamento, cooperativas, corretoras e demais participantes do sistema financeiro.

A autonomia operacional do Banco Central já foi aprovada em lei, mas a autonomia financeira continua em discussão. O tema envolve orçamento próprio, estrutura administrativa e capacidade de contratação.

Para Galípolo, a falta de recursos pode asfixiar a instituição, justamente porque o Banco Central não negocia seu mandato no jogo político. A fala reforça a tentativa da autarquia de ampliar sua independência administrativa para cumprir suas funções de política monetária, supervisão e estabilidade financeira.

Fala no Senado reforça elo entre fiscal, juros e inflação

A audiência de Galípolo no Senado reforçou a conexão entre três temas centrais da economia brasileira: dívida pública, taxa Selic e inflação. Ao destacar o peso dos títulos indexados à Selic, o presidente do Banco Central colocou a composição da dívida no centro da discussão sobre a eficácia da política monetária.

O recado tem implicações para o governo, para o Tesouro Nacional e para o mercado financeiro. Uma dívida muito dependente de papéis pós-fixados eleva a sensibilidade do custo fiscal aos juros. Ao mesmo tempo, expectativas fiscais frágeis podem dificultar a queda da Selic, criando um ciclo de retroalimentação entre dívida, juros e inflação.

Para investidores, a fala de Galípolo reforça a importância de acompanhar a trajetória da dívida pública, as projeções do Focus, a comunicação do Copom e os sinais sobre atividade econômica. Esses fatores influenciam a curva de juros, o câmbio, a renda fixa, a Bolsa e o custo de capital das empresas.

O Banco Central, por sua vez, sinaliza que continuará atento à inflação corrente, aos núcleos, às expectativas e ao comportamento da demanda. Enquanto a inflação projetada permanecer acima da meta e a economia mostrar resiliência, a autoridade monetária tende a preservar uma postura cautelosa na condução da Selic.

Tags: Banco CentralBoletim FocusCAEdívida públicaEconomiaGabriel GalípoloinflaçãoIPCAjurosLFTpolítica monetáriaSelicSenadoTesouro Nacional

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