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Guerra no Irã pressiona petróleo e acende alerta para o agronegócio brasileiro

Alta do Brent, ameaça ao Estreito de Ormuz e risco de encarecimento de fertilizantes e diesel elevam cautela no campo e levam produtores a adiar investimentos.

por Daniel Wicker
10/05/2026 às 21h30
em Agronegócio
Fertilizantes No Agronegócio - Gzt - Gazeta Mercantil

A escalada da guerra no Irã voltou a pressionar os preços do petróleo neste domingo, 10 de maio, e ampliou o alerta sobre os impactos para o agronegócio brasileiro.

O Brent, referência internacional da commodity, subia mais de 3% no início da noite, negociado perto de US$ 104,50 por barril, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitar a resposta iraniana a uma proposta de paz de Washington e o Irã renovar ameaças envolvendo o Estreito de Ormuz. O avanço afeta diretamente custos de frete, diesel, fertilizantes, defensivos, máquinas agrícolas e decisões de investimento no campo.

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O movimento ocorre em um momento de cautela entre produtores brasileiros. No Paraná, agricultores já vêm suspendendo investimentos e adiando a compra de máquinas diante da combinação entre incerteza externa, custos elevados e dúvidas sobre margens futuras. A alta do petróleo agrava esse quadro porque se espalha por diferentes elos da cadeia.

Estreito de Ormuz no centro do risco

O Estreito de Ormuz é uma das rotas mais sensíveis do comércio global de energia. Qualquer interrupção, bloqueio parcial ou aumento do risco de navegação tende a elevar o chamado prêmio de risco do petróleo.

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Neste domingo, o Brent para entrega em julho subia cerca de 3,14%, para US$ 104,50 por barril, enquanto o WTI avançava aproximadamente 3,07%, para US$ 98,35 por barril. A variação ocorreu após Trump afirmar que considerava “totalmente inaceitável” a resposta do Irã à proposta americana. A Reuters informou neste domingo que o Brent avançava mais de US$ 3 por barril após o fracasso nas negociações, em meio à manutenção da tensão sobre Ormuz.

Para o Brasil, a preocupação é indireta, mas relevante. Mesmo sendo grande produtor de petróleo, o agronegócio segue exposto ao custo internacional da energia. O simples risco de interrupção já é suficiente para elevar preços, com traders, refinarias e companhias de navegação precificando oferta menor, atraso de entregas e custos adicionais de segurança.

Esse encarecimento chega ao Brasil por meio dos combustíveis, do frete marítimo, do transporte interno e dos fertilizantes nitrogenados, especialmente a ureia, cujo mercado global tem forte ligação com o Oriente Médio.

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Petróleo mais caro eleva custo no campo

A alta é uma preocupação imediata porque o setor depende intensamente de diesel, transporte rodoviário, logística portuária, máquinas e insumos derivados de energia. Mesmo quando o repasse aos combustíveis não ocorre de forma instantânea, a elevação persistente tende a aumentar a pressão sobre custos.

No campo, o diesel pesa no preparo do solo, plantio, pulverização, colheita e transporte. Em regiões distantes dos portos, o impacto é ainda maior, porque o custo logístico representa parcela relevante da formação de preço recebido pelo produtor.

A pressão também chega pela cadeia de máquinas agrícolas. Equipamentos, peças, pneus, lubrificantes e componentes importados ficam mais sensíveis a variações de câmbio, frete internacional e custos industriais. Em um cenário de incerteza, produtores tendem a postergar compras de tratores, colheitadeiras, plantadeiras e implementos.

Esse comportamento já aparece no Paraná, um dos principais polos de soja, milho, trigo, carnes e leite. Quando produtores locais reduzem compras, o efeito alcança concessionárias, fabricantes, cooperativas e fornecedores de tecnologia, atrasando renovação de frota e adoção de tecnologias.

Fertilizantes são o elo mais vulnerável

O efeito mais sensível pode estar nos fertilizantes. O Brasil é altamente dependente de importações. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), cerca de 80% da demanda brasileira é suprida por importações, o que deixa o país vulnerável a choques externos de oferta, preço e logística.

A vulnerabilidade é maior nos nitrogenados, como a ureia. O Oriente Médio tem papel relevante nesse mercado porque concentra produção baseada em gás natural e depende de rotas marítimas estratégicas para exportar. Levantamento citado pela Brasilagro aponta que cerca de 15% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil vêm do Oriente Médio e que 45% das exportações globais de ureia transitam por rotas marítimas da região.

Quando há ameaça a Ormuz, o risco não se limita ao petróleo. Fretes sobem, seguradoras elevam prêmios e compradores passam a antecipar pedidos. Para o produtor brasileiro, isso significa aumento de custo antes mesmo do plantio, já que fertilizantes representam uma das principais despesas de soja, milho, algodão, café e cana.

Crédito e logística amplificam o choque

A guerra no Irã também afeta o agronegócio pelo canal financeiro. A alta do petróleo tende a pressionar inflação global, influenciar juros e reduzir o apetite por risco em mercados emergentes. Esse ambiente pode encarecer captações, afetar câmbio e tornar o crédito rural mais seletivo.

O produtor depende de financiamento para custeio, investimento, armazenagem e comercialização. Quando bancos e cooperativas percebem maior incerteza, podem exigir garantias adicionais. Empresas do agro que acessam o mercado de capitais também podem encontrar custo maior em emissões de dívida.

A estrutura logística brasileira amplifica parte dos efeitos. A produção percorre longas distâncias entre fazendas, armazéns e portos como Santos, Paranaguá, Rio Grande e os do Arco Norte. Em muitas regiões, o rodoviário ainda domina a etapa mais cara. Com petróleo em alta, o custo do frete tende a subir, reduzindo o preço líquido recebido pelo produtor.

Margem da próxima safra em risco

A principal consequência é o risco de compressão de margens. Se fertilizantes, diesel e frete sobem, mas os preços de venda das commodities agrícolas não acompanham na mesma proporção, a rentabilidade diminui.

O impacto varia por cultura. Grãos como soja e milho têm forte exposição a fertilizantes, logística e câmbio. Café, cana e algodão também sentem efeitos em insumos e transporte. Na pecuária, o custo pode aparecer em ração, energia e fertilização de pastagens.

A alta do petróleo pode ainda influenciar o mercado de biocombustíveis. Etanol, biodiesel e diesel renovável passam a ser acompanhados com mais atenção, gerando efeitos cruzados para açúcar, milho, soja e óleos vegetais.

A guerra no Irã tende a recolocar na pauta a dependência de fertilizantes importados, tema que ganhou força após a guerra na Ucrânia. No curto prazo, a resposta mais comum é diversificar origens, antecipar compras e reforçar estoques. No médio prazo, o desafio é reduzir vulnerabilidade estrutural.

Enquanto a incerteza persiste, o produtor brasileiro tende a agir com prudência. O adiamento de compras no Paraná é um indicativo de que a crise já influencia decisões no campo. A próxima etapa será observar se a alta do petróleo se mantém ou se haverá descompressão com algum avanço diplomático, além do comportamento dos preços dos fertilizantes, do frete marítimo, do diesel e do câmbio nas próximas semanas.

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