A inteligência artificial deixou de ocupar apenas projetos experimentais e passou a integrar processos administrativos cotidianos de grandes empresas. Entre as companhias industriais brasileiras pesquisadas pelo IBGE, a proporção que utilizava IA saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, avanço de 25 pontos percentuais em apenas dois anos.
O movimento começa a chegar também às áreas de compras, onde sistemas passaram a automatizar etapas como requisição, aprovação, seleção de fornecedores, análise de políticas internas e acompanhamento de contratos. Um exemplo é a utilização da plataforma Nimbi pela Cruzeiro do Sul Educacional (CSED3), grupo que operava 28 campi, aproximadamente 1.570 polos e mais de 514 mil alunos no segundo trimestre de 2024.
O projeto envolvendo a companhia educacional foi premiado na categoria de eficiência operacional do Prêmio Inbrasc em 2025, segundo informações divulgadas pela Nimbi. A solução combina chatbot, automação de políticas de compras e ferramentas de cotação e gestão de fornecedores.
Os números do IBGE ajudam a colocar o caso em perspectiva. Na pesquisa realizada com 10.167 empresas das indústrias extrativas e de transformação com 100 ou mais pessoas ocupadas, a área de administração concentrava 87,9% das aplicações de inteligência artificial. Comercialização aparecia com 75,2%, seguida pelo desenvolvimento de produtos, processos e serviços, com 73,1%.
Uso de IA cresceu 147,9% em dois anos
Em 2024, 89,1% das empresas analisadas pelo IBGE utilizavam pelo menos uma tecnologia digital avançada.
A computação em nuvem continuava sendo a mais difundida, presente em 77,2% das companhias. A internet das coisas aparecia em 50,3%, seguida pela inteligência artificial, com 41,9%, e pela robótica, com 30,5%.
Dois anos antes, a IA estava presente em apenas 16,9% das empresas pesquisadas.
Em termos relativos, a expansão foi de aproximadamente 147,9%, o maior crescimento entre as tecnologias investigadas.
O levantamento também mostra que a adoção não ocorreu de maneira uniforme dentro das organizações. Na produção, a utilização localizada de IA diminuiu de 56,4% para 52% entre 2022 e 2024. Nas funções administrativas, comerciais e de desenvolvimento, entretanto, houve avanço.
O principal benefício apontado pelas empresas que utilizavam tecnologias digitais avançadas foi aumento da eficiência, citado por 90,3%. Maior flexibilidade nos processos administrativos, produtivos e organizacionais apareceu em seguida, com 89,5%.
Compras passam de automação simples para tomada de decisão
No procurement, a mudança ocorre porque a inteligência artificial começa a atuar além da simples digitalização de formulários.
Segundo a Nimbi, sua ferramenta de cotação inteligente utiliza informações de fornecedores e histórico de desempenho para apoiar a seleção de propostas e condições comerciais. Um chatbot permite incorporar políticas de compras ao sistema para responder dúvidas de requisitantes e fornecedores sem necessidade de intervenção manual constante da equipe responsável.
A plataforma informa possuir mais de 600 clientes, aproximadamente 300 mil fornecedores cadastrados, mais de R$ 800 bilhões em transações realizadas e catálogo superior a 400 mil itens.
Esses números são fornecidos pela própria empresa e, portanto, devem ser interpretados como indicadores institucionais da escala declarada da plataforma, e não como métricas auditadas de mercado.
A arquitetura inclui ainda homologação de fornecedores, fluxos de aprovação, gestão documental, contratos e avaliação de diferentes categorias de risco.
Na prática, a proposta é transformar o processo de compras em uma sequência integrada: a empresa solicita um produto ou serviço, o sistema aplica as regras internas, encaminha as aprovações necessárias, identifica fornecedores elegíveis e mantém registros das etapas posteriores.
Nimbi atribui redução de até 40% no ciclo de compras
A empresa afirma que o acesso a itens previamente negociados e fornecedores pré-qualificados pode reduzir em até 40% o ciclo de compras e gerar aproximadamente 30% de ganho de produtividade.
Esses percentuais correspondem a indicadores divulgados comercialmente pela Nimbi e não devem ser generalizados como resultados automáticos para qualquer empresa.
O efeito real depende da estrutura anterior de cada organização, nível de digitalização, integração com sistemas internos, volume de fornecedores e complexidade das políticas de aprovação.
Ainda assim, os números ajudam a dimensionar o objetivo dessas plataformas: reduzir tarefas operacionais repetitivas para que as equipes de compras concentrem mais tempo em negociação, gestão de risco e planejamento.
Cruzeiro do Sul mostra escala do problema administrativo
O caso da Cruzeiro do Sul Educacional ajuda a entender por que grandes organizações buscam centralizar esses processos.
No segundo trimestre de 2024, a companhia tinha aproximadamente 514 mil alunos considerando graduação presencial, medicina, pós-graduação, colégios, ensino digital e modalidades semipresenciais.
No trimestre seguinte, a empresa informou crescimento de 7,2% na graduação presencial e 16,4% na modalidade digital. A retenção da base apta atingiu aproximadamente 90% no presencial, enquanto a rematrícula digital chegou a 78%.
O tamanho da operação aumenta a quantidade de unidades, fornecedores, contratos, solicitações e níveis de aprovação que precisam ser controlados.
No terceiro trimestre de 2024, a Cruzeiro do Sul registrou geração de caixa livre de R$ 199 milhões, descrita pela companhia como a maior de sua história até aquele momento. O EBITDA ex-IFRS 16 cresceu 27,5%, enquanto o lucro líquido chegou a R$ 62 milhões.
Nos nove primeiros meses daquele ano, a receita líquida avançou 12% e o lucro líquido atingiu R$ 154 milhões, crescimento de 65% em relação ao mesmo período de 2023.
Automação passa a ser também mecanismo de governança
Em empresas com múltiplas unidades, a vantagem de automatizar compras não está apenas na velocidade.
Quando regras internas são incorporadas aos sistemas, cada solicitação pode seguir alçadas previamente definidas antes de chegar à etapa seguinte. Isso reduz o risco de que unidades distintas apliquem políticas diferentes ou que etapas obrigatórias sejam ignoradas.
A mesma lógica se aplica aos contratos.
A Nimbi informa que sua plataforma possui alertas de saldo e prazo, assinatura digital e integração com ferramentas externas de gestão contratual. Também permite configurar documentos obrigatórios e periodicidade de atualização para diferentes fornecedores.
Esses recursos aumentam a rastreabilidade do processo, principalmente em organizações que mantêm grande número de contratos simultaneamente.
Crescimento da medicina amplia complexidade de fornecedores
A expansão de cursos de medicina também adicionou complexidade operacional à Cruzeiro do Sul.
A companhia informou ter alcançado 1.019 vagas na modalidade depois da expansão de 334 vagas desde junho de 2024, incluindo aquisições e autorizações do Ministério da Educação.
Operações desse tipo exigem equipamentos, laboratórios, serviços especializados e fornecedores submetidos a padrões técnicos e regulatórios mais elevados.
Nesse ambiente, a homologação não envolve apenas preço. Passa a incluir documentação fiscal, capacidade financeira, requisitos jurídicos e, dependendo da atividade, critérios ambientais e de integridade.
Custo continua sendo principal barreira
A rápida expansão da IA não elimina os obstáculos de implementação.
Entre as empresas que utilizavam tecnologias digitais avançadas, 78,6% apontaram o alto custo das soluções como dificuldade. A falta de profissionais qualificados foi mencionada por 54,2%, enquanto 47,2% citaram riscos relacionados à segurança e à privacidade.
Entre as empresas que ainda não utilizavam nenhuma das tecnologias investigadas, 74,3% apontaram custo elevado como uma das razões.
Isso mostra que a adoção de IA corporativa ainda está fortemente associada à capacidade de investimento das empresas.
Também explica por que companhias maiores tendem a avançar primeiro: além de possuírem orçamento para tecnologia, têm escala suficiente para diluir o investimento entre milhares de transações e usuários.
Integração com ERP vira próxima disputa
Depois da automação isolada de tarefas, uma das próximas etapas é conectar compras diretamente aos sistemas corporativos já utilizados.
A Nimbi desenvolveu, em parceria com a BDO, o Nimbi One, voltado à integração com clientes do SAP Business One. A proposta é fazer com que requisitantes, compradores, aprovadores e fornecedores utilizem uma jornada conectada ao ERP.
A companhia também oferece integração por APIs e sistemas de punchout para empresas interessadas apenas em determinados módulos.
A dificuldade de conectar tecnologias a áreas diferentes da organização aparece inclusive na pesquisa do IBGE. Problemas de integração entre áreas de negócio foram mencionados por 45,1% das empresas no levantamento.
Reforma tributária adiciona nova camada ao processo
A entrada gradual da reforma tributária também amplia a pressão sobre os sistemas de compras.
Pedidos, notas fiscais, contratos e cadastros de fornecedores passam a precisar incorporar novas informações tributárias, classificações e regras de apuração.
A Nimbi afirma ter adaptado seus sistemas para incluir campos relacionados às mudanças que começaram a entrar em vigor em 2026.
Nesse contexto, a digitalização deixa de ser apenas mecanismo de ganho operacional. Passa também a funcionar como instrumento de conformidade, permitindo que alterações tributárias sejam aplicadas de maneira padronizada a diferentes unidades e fornecedores.
IA deixa de ser ferramenta isolada
O quadro observado entre 2022 e 2024 indica uma mudança de escala.
O número de empresas industriais pesquisadas pelo IBGE que utilizavam inteligência artificial passou de 1.619 para 4.261 em dois anos.
Ao mesmo tempo, plataformas corporativas passaram a incorporar IA a ferramentas que já executavam aprovações, contratos, pagamentos, seleção de fornecedores e análise de indicadores.
Isso altera o papel da tecnologia.
Em vez de funcionar apenas como um assistente capaz de responder perguntas ou produzir textos, a IA passa a atuar dentro de processos administrativos que movimentam dinheiro e exigem cumprimento de políticas internas.
O caso da Cruzeiro do Sul mostra esse estágio de evolução: uma organização de grande escala utiliza a tecnologia dentro de uma arquitetura maior de compras, fornecedores e governança.
A adoção ainda enfrenta limitações de custo, integração, segurança e qualificação profissional. Mas os dados do IBGE indicam que a utilização empresarial avançou rapidamente.
Em apenas dois anos, a presença de inteligência artificial entre as empresas industriais analisadas passou de menos de uma em cada cinco para mais de quatro em cada dez.
O próximo desafio não será apenas adotar a tecnologia. Será demonstrar que essas automações produzem ganhos mensuráveis, preservam controles internos e conseguem operar em escala sem transformar decisões corporativas relevantes em processos pouco transparentes.
Fontes
IBGE — Pesquisa de Inovação Semestral sobre adoção de tecnologias digitais avançadas.
Nimbi — informações institucionais sobre plataforma, inteligência artificial, gestão de fornecedores, marketplace e automação de compras.
Cruzeiro do Sul Educacional — informações trimestrais e comunicados de resultados de 2024.
Inbrasc — Prêmio Inbrasc 2025.










