A condução das investigações relacionadas ao Banco Master pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, entrou no centro da disputa política após uma sequência de decisões que expôs diferenças no ritmo e no grau de publicidade dos procedimentos envolvendo políticos de campos distintos. O contraste mais sensível está entre a apuração que atingiu o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, tornada pública pouco mais de um mês depois da operação autorizada pelo ministro, e o inquérito relacionado ao projeto Dark Horse, que alcança o senador Flávio Bolsonaro e permaneceu sob sigilo por mais tempo apesar de ter sido aberto em julho.
Mendonça autorizou em 17 de junho medidas requeridas no conjunto de investigações da Operação Compliance Zero. No dia seguinte, a Polícia Federal deflagrou uma etapa que alcançou Jaques Wagner e pessoas relacionadas ao ex-sócio do Master Augusto Ferreira Lima. Em 30 de julho, o ministro determinou a publicidade das peças da PET 16.210, procedimento relacionado ao senador baiano, ao considerar esgotada a finalidade daquela petição.
No eixo Dark Horse, porém, o tratamento foi diferente. Documentos revelados posteriormente mostraram que Flávio Bolsonaro passou a ser formalmente investigado em julho em uma apuração relacionada ao financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal investiga possíveis crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos correlatos. O procedimento permaneceu protegido por sigilo mesmo quando outros braços do caso Master passaram a ser divulgados.
A diferença não demonstra, por si só, favorecimento político. Investigações podem exigir graus distintos de sigilo conforme as diligências em andamento, os dados envolvidos e o risco de comprometimento da apuração. Ainda assim, a sucessão de decisões passou a ser utilizada por políticos, ministros do próprio Supremo e comentaristas como argumento para questionar os critérios adotados por Mendonça.
Wagner foi exposto enquanto Dark Horse permaneceu sob sigilo
O contraste tornou-se mais visível porque a investigação relacionada a Jaques Wagner recebeu publicidade em um momento de alta sensibilidade eleitoral. Os autos mostraram elementos reunidos pela Polícia Federal sobre a relação do senador com Augusto Lima, incluindo registros de dezenas de ligações entre os dois. A investigação também examinou deslocamentos, contatos e informações obtidas de materiais apreendidos em fases anteriores da Compliance Zero.
A publicidade ocorreu em 30 de julho, pouco mais de dois meses antes do primeiro turno das eleições de 2026 e quando Wagner já aparecia como personagem importante da composição política do PT na Bahia.
No caso Dark Horse, o público demorou mais para saber que Flávio Bolsonaro era formalmente investigado. A existência do inquérito foi revelada posteriormente, em meio à pressão para que o Supremo retirasse o sigilo dos diversos procedimentos derivados do caso Master.
Segundo documentos das investigações, Flávio atuou como interlocutor na busca de recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro. As apurações examinam transferências milionárias relacionadas a Daniel Vorcaro e estruturas financeiras no exterior. Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que os recursos envolvidos eram privados e que não houve prática criminosa.
A divergência na publicidade dos dois casos alimentou acusações de assimetria. O ponto passou a ser especialmente sensível porque Mendonça foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro, embora essa circunstância, isoladamente, não constitua evidência de interferência ou favorecimento na condução de processos.
Pressão sobre Mendonça chegou ao próprio Supremo
A crítica à forma como os sigilos estavam sendo administrados deixou de ser apenas partidária quando chegou ao interior do STF. Alexandre de Moraes questionou a divulgação parcial de documentos e pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que todo o material relacionado às investigações fosse disponibilizado, argumentando que uma abertura incompleta poderia resultar em seleção subjetiva do que chegaria ao conhecimento público.
Mendonça rebateu as acusações e afirmou ter liberado o material que poderia ser tornado público sem prejudicar investigações em curso ou expor indevidamente dados bancários, fiscais e pessoais protegidos por lei.
Fachin passou então a atuar diretamente para reorganizar os procedimentos. O presidente do Supremo requisitou autos relacionados ao Master e determinou medidas destinadas a concentrar a análise institucional da crise, em meio a uma disputa crescente entre ministros da Corte. A relatoria formal de partes das investigações permaneceu com Mendonça, mas a Presidência passou a exercer controle mais direto sobre o material e sobre os conflitos envolvendo integrantes do próprio tribunal.
A controvérsia transformou o caso Master em uma questão institucional. O debate já não se limita ao conteúdo das mensagens, transferências e relações de Daniel Vorcaro. Passou a envolver também a maneira pela qual o Supremo administra investigações capazes de atingir simultaneamente ministros, parlamentares e candidatos em plena campanha eleitoral.
Vorcaro coloca ACM Neto e Rueda no centro de nova controvérsia
A dimensão baiana do caso ganhou força com a divulgação do conteúdo de uma proposta de colaboração apresentada por Daniel Vorcaro e rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.
Na proposta, o ex-controlador do Banco Master atribuiu ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto e ao presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, participação na articulação de aportes realizados por institutos de previdência e outras estruturas públicas no banco.
Segundo a versão apresentada por Vorcaro, a movimentação teria alcançado aproximadamente R$ 2 bilhões, envolvendo recursos relacionados ao Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, além da Cedae. O ex-banqueiro afirmou que haveria comissões equivalentes a 10% das captações, o que poderia representar até R$ 200 milhões.
A proposta, entretanto, não foi homologada. PF e PGR rejeitaram os termos apresentados por Vorcaro, e as declarações do ex-banqueiro não equivalem a fatos judicialmente comprovados. ACM Neto e Antônio Rueda negam irregularidades.
Esse ponto é essencial para separar duas situações diferentes. A existência de uma alegação feita em proposta de colaboração pode justificar apuração, mas não permite tratar os políticos mencionados como beneficiários comprovados do suposto esquema. Também não há, até agora, condenação que confirme o pagamento das comissões descritas por Vorcaro.
Mesmo com essas ressalvas, a revelação produziu impacto político imediato porque aproximou do caso Master figuras centrais da oposição baiana justamente quando a disputa pelo governo do Estado está tecnicamente equilibrada.
Caso Master invade eleição para o governo da Bahia
A primeira pesquisa AtlasIntel/A TARDE divulgada em setembro mostrou ACM Neto com 48,8% das intenções de voto no primeiro turno e o governador Jerônimo Rodrigues, do PT, com 47,5%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, os candidatos estão tecnicamente empatados.
O dado mais sensível para as duas campanhas está no voto cruzado. Aproximadamente um quarto dos eleitores identificados com Lula admite votar em ACM Neto para governador, fenômeno especialmente relevante nas grandes cidades baianas.
Esse eleitorado pode se transformar em campo decisivo da campanha. Para Jerônimo Rodrigues, recuperar uma parcela dos lulistas que hoje preferem ACM Neto pode ser suficiente para alterar o resultado de uma disputa equilibrada. Para o ex-prefeito de Salvador, preservar esse grupo significa manter uma base que ultrapassa as fronteiras tradicionais da oposição ao PT.
É nesse ponto que o caso Master ganha valor eleitoral.
Se as acusações feitas por Vorcaro contra ACM Neto permanecerem no noticiário e forem acompanhadas de novos elementos de investigação, o PT terá incentivo para explorar o episódio entre eleitores que apoiam Lula nacionalmente, mas consideram votar na oposição para o governo estadual.
Se, ao contrário, as acusações não encontrarem sustentação documental, ACM Neto poderá apresentar o episódio como tentativa de utilizar uma delação rejeitada para produzir desgaste político durante a campanha.
João Roma amplia conexão política, mas não prova envolvimento
O nome do ex-ministro João Roma, aliado do campo bolsonarista na Bahia, também aparece nas discussões sobre a rede de relações políticas de Augusto Lima e do Banco Master. A proximidade política de Roma com Flávio Bolsonaro ajuda a ampliar o interesse eleitoral pelo caso, mas não constitui, por si só, evidência de participação em irregularidades.
A mesma cautela vale para as diferentes pessoas mencionadas nos materiais associados ao Master. O fato de um nome aparecer em mensagem, contrato, agenda, relação empresarial ou depoimento não significa automaticamente participação em crime.
O escândalo alcançou dimensão excepcional justamente porque Daniel Vorcaro manteve relações com integrantes de diferentes partidos e Poderes. As investigações atingem ou mencionam personagens da esquerda, da direita e do centro político, além de integrantes do Judiciário e de órgãos públicos.
Essa amplitude reduz a possibilidade de enquadrar o caso como escândalo exclusivo de um único grupo político e aumenta a cobrança para que os mesmos critérios de investigação e transparência sejam aplicados a todos.
Seletividade passa a ser o principal problema político para Mendonça
É nesse ambiente que André Mendonça enfrenta seu maior problema de natureza política e institucional. Não existe decisão judicial que conclua que o ministro tenha protegido Flávio Bolsonaro, ACM Neto ou qualquer outra liderança. Também não há prova pública suficiente para afirmar que decisões de sigilo tenham sido tomadas para produzir vantagem eleitoral.
O que existe é uma diferença objetiva na cronologia dos procedimentos, acompanhada por uma disputa sobre quais informações deveriam ou não permanecer protegidas.
No caso Wagner, medidas foram autorizadas em junho e o procedimento ganhou publicidade no fim de julho. No caso Dark Horse, aberto em julho e envolvendo Flávio Bolsonaro, o sigilo persistiu por mais tempo e o conhecimento público sobre a condição formal de investigado surgiu apenas posteriormente.
Esse contraste é suficiente para sustentar questionamentos sobre os critérios empregados, mas não para transformar a hipótese de favorecimento em fato estabelecido.
A resposta institucional a essa dúvida será decisiva. Quanto mais transparentes forem as regras usadas para determinar sigilo, publicidade e prioridade das investigações, menor será o espaço para a interpretação de que o calendário judicial está sendo influenciado pela eleição.
Escândalo pode redefinir voto cruzado na reta final
Na Bahia, o impacto mais imediato tende a aparecer justamente sobre o eleitor que pretende combinar Lula para presidente e ACM Neto para governador. Esse grupo tornou-se alvo estratégico das duas campanhas e pode ser particularmente sensível a novas informações sobre o caso Master.
O PT tentará demonstrar que votar em Neto significa aproximar a escolha estadual de figuras e grupos hoje associados politicamente ao entorno de Vorcaro e de Flávio Bolsonaro. A oposição deverá responder lembrando que uma proposta de delação rejeitada não comprova crime e que Jaques Wagner também aparece em investigação relacionada ao Master.
A disputa eleitoral transforma, assim, qualquer nova revelação em munição instantânea.
Para André Mendonça, o desafio é diferente. Sua atuação será medida menos pelo resultado eleitoral e mais pela capacidade de demonstrar que as mesmas regras valem quando a investigação alcança Jaques Wagner, Flávio Bolsonaro, ACM Neto ou qualquer outro personagem.
O caso Master deixou de ser apenas uma investigação sobre fraudes financeiras. Tornou-se um teste sobre transparência, igualdade de tratamento e independência institucional em uma eleição altamente polarizada. Na Bahia, onde a diferença entre os principais candidatos está dentro da margem de erro, até mesmo uma pequena mudança no comportamento do eleitor lulista que hoje apoia ACM Neto pode ser suficiente para alterar o equilíbrio da disputa.








