A Rússia colocou sob administração temporária as duas principais estruturas corporativas da Nestlé no país, ampliando a intervenção estatal sobre negócios de grupos ocidentais que permaneceram no mercado russo após a invasão da Ucrânia. O decreto assinado pelo presidente Vladimir Putin em 17 de setembro transferiu para a L.E.V. Management as participações estrangeiras em Nestlé Russia e Nestlé Kuban. A companhia suíça informou nesta sexta-feira (18) que está avaliando a situação e suas alternativas para proteger os próprios direitos e assegurar a continuidade das operações, especialmente em relação aos empregados.
A medida não equivale, juridicamente, a uma transferência definitiva de propriedade. O mecanismo russo de administração temporária, criado por decreto presidencial em 2023, permite que um gestor indicado pelo Estado exerça poderes do proprietário sobre determinados ativos, com exceção da disposição patrimonial. Em casos anteriores, porém, esse tipo de intervenção foi seguido por processos de venda ou transferência de ativos de empresas estrangeiras para compradores russos.
No caso da Nestlé, o decreto alcança 100% das participações estrangeiras de duas subsidiárias. Na Nestlé Kuban, 67,44% pertencem à Societe des Produits Nestle S.A. e 32,56% à Nestle Deutschland AG. Na Nestlé Russia, as participações são de 84,082% e 15,918%, respectivamente. Em ambos os casos, a soma chega a 100%, o que significa que a decisão alcança integralmente o capital controlado pelos acionistas estrangeiros nas duas empresas.
Medida atinge duas empresas da Nestlé e outras companhias ocidentais
A decisão sobre a Nestlé faz parte de um decreto mais amplo. A mesma medida colocou sob administração temporária ativos da Auchan, da antiga Leroy Merlin — hoje operada no país sob a marca Lemana Pro — e de duas estruturas russas da empresa de logística FM Logistic. Levantamentos da imprensa empresarial russa indicam que, ao todo, 16 pessoas jurídicas foram incluídas no decreto.
Dentro desse conjunto, Nestlé Russia e Nestlé Kuban representam duas das 16 entidades alcançadas, ou 12,5% do total. A amplitude do decreto, que reúne alimentos, varejo, logística e outros negócios ligados a grupos estrangeiros, mostra que a intervenção não está restrita à indústria alimentícia. Para a Nestlé, o efeito imediato é a perda do controle direto sobre suas duas subsidiárias enquanto a administração temporária estiver em vigor.
A L.E.V. Management, empresa que recebeu a responsabilidade pela gestão, foi registrada em Moscou em 2024 e tem capital social de 15 mil rublos, segundo registros empresariais russos citados pela imprensa local. Andrei Krayushkin aparece como diretor-geral desde 10 de setembro de 2026. Os dados societários públicos consultados não estabelecem, por si só, uma relação formal de controle da companhia com o Estado russo.
Nestlé reduziu presença no país, mas manteve fábricas e produção essencial
A Nestlé está presente na Rússia desde a década de 1990 e mantém seis fábricas no país, com produção de itens como café, alimentos para animais e fórmulas infantis. A empresa informa que emprega cerca de 7 mil pessoas em território russo. Depois da invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, a companhia interrompeu diversas marcas, reduziu importações e exportações não essenciais, suspendeu publicidade e investimentos de capital e concentrou sua atuação em produtos considerados essenciais.
Essa estratégia reduziu a exposição financeira da Rússia ao resultado consolidado do grupo. Em 2021, último ano em que a companhia divulgou separadamente um valor de vendas russo antes da mudança de política, as receitas no país ficaram em cerca de 2 bilhões de francos suíços, equivalentes a aproximadamente 2% das vendas globais. Estimativas de analistas citadas nesta sexta-feira apontam participação próxima de 1% atualmente. Comparados de forma simples, os dois indicadores sugerem uma redução pela metade da fatia russa nas vendas do grupo, embora os períodos e as bases de cálculo não sejam idênticos.
A existência de seis fábricas e de milhares de empregados mantém a relevância operacional da operação, mesmo com a participação menor na receita consolidada. A decisão atinge, portanto, não apenas a estrutura societária, mas atividades industriais, distribuição e relações com fornecedores locais.
Em comunicado divulgado nesta sexta-feira, a empresa afirmou que tomou conhecimento do decreto e que está avaliando a situação e as opções disponíveis. A Nestlé disse estar comprometida em tomar as medidas necessárias para proteger seus direitos e manter a continuidade dos negócios em benefício de todas as partes interessadas, com destaque para os funcionários.
Decreto russo amplia uma estratégia adotada desde 2023
A base jurídica para esse tipo de intervenção foi criada em abril de 2023, quando Vladimir Putin assinou o Decreto nº 302 sobre a administração temporária de determinados bens. A norma estabelece que ativos de empresas vinculadas a países classificados pelo governo russo como hostis podem ser colocados sob gestão temporária em determinadas circunstâncias. O texto também prevê a possibilidade de o presidente designar um administrador diferente da Agência Federal de Gestão de Propriedade, a Rosimushchestvo.
A característica central do modelo é a diferença entre administração e transferência definitiva da propriedade. O administrador temporário passa a exercer poderes do proprietário sobre os ativos abrangidos, mas a estrutura jurídica não transforma automaticamente a medida em uma venda ou expropriação definitiva. Por isso, o caso da Nestlé deve ser descrito neste momento como administração temporária.
O histórico do mecanismo ajuda a dimensionar o risco futuro sem transformar uma possibilidade em fato consumado. Empresas como a francesa Danone e a cervejaria Carlsberg já tiveram negócios colocados sob controle russo desde o início da guerra. Em casos anteriores, a administração temporária foi seguida por processos de venda ou transferência dos ativos para compradores russos. Também houve situações de saída negociada de empresas estrangeiras com descontos e tributação sobre saídas.
Pedido de empresa russa antecedeu decisão de Putin
A intervenção também tem uma cronologia específica. Antes da assinatura do decreto, a empresa russa KS Logistika havia pedido ao Kremlin que submetesse ativos da Nestlé a administração temporária. O pedido, segundo relatos publicados em agosto, abrangia cinco entidades ligadas à companhia suíça e poderia, em tese, abrir caminho para uma mudança de propriedade.
Naquele momento, a Nestlé afirmou que não havia sido contatada pelas autoridades russas sobre o pedido. A sequência entre a solicitação, a publicação do decreto em 17 de setembro e a reação oficial da empresa em 18 de setembro estabelece uma mudança rápida de status jurídico e operacional: o pedido deixou de ser uma demanda externa e passou a resultar em uma ordem presidencial com efeitos sobre o controle das subsidiárias.
O governo russo apresentou o enquadramento político da medida por meio da classificação de Suíça e França como países “hostis”. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que essa condição foi considerada na decisão. A Suíça passou a adotar grande parte das sanções da União Europeia contra a Rússia depois da invasão da Ucrânia, aumentando o atrito entre Moscou e empresas suíças que continuaram a operar no mercado russo.
Para a Nestlé, há ainda um elemento específico relacionado à política empresarial adotada desde 2022. A companhia reduziu substancialmente a expansão e o investimento no país, ao mesmo tempo em que manteve atividades relacionadas a alimentos considerados essenciais. Relatos da imprensa russa indicaram que a falta de planos de ampliação de capacidade e a interrupção de exportações de produtos fabricados no país estavam entre os motivos associados ao pedido de administração temporária.
Impacto financeiro imediato é menor que o risco patrimonial
As primeiras reações do mercado indicaram pressão sobre as ações da Nestlé em Zurique, que chegaram a cair cerca de 1,5% no início do pregão de sexta-feira. O movimento ocorreu em um cenário no qual os analistas avaliam que a Rússia representa uma parcela relativamente pequena das vendas consolidadas do grupo.
O risco patrimonial, porém, vai além da participação da Rússia na receita. A companhia passa a enfrentar a possibilidade de perder o controle sobre ativos industriais e comerciais e de ter de definir sua estratégia diante de um regime de gestão que ela não escolheu. O impacto final dependerá da duração da administração temporária, da preservação das operações, de eventual processo de desinvestimento e das condições impostas pelo governo russo.
O caso também aumenta a atenção sobre a política adotada por multinacionais que ainda mantêm ativos na Rússia. Desde 2022, empresas estrangeiras passaram a enfrentar restrições crescentes para vender negócios, com exigências de descontos e tributação sobre saídas. A administração temporária adiciona outro elemento: mesmo quando a empresa mantém formalmente a propriedade, ela pode perder a capacidade de exercer o controle operacional e societário sobre os ativos.
Neste momento, a Nestlé não anunciou uma medida jurídica ou financeira específica além da revisão de alternativas e da afirmação de que pretende proteger seus direitos. Também não há indicação, no comunicado da empresa, de uma retirada imediata das fábricas ou de interrupção das operações. O próximo passo dependerá da forma como a administração temporária será implementada e de quais decisões serão tomadas pelo gestor nomeado pelo Kremlin.
A distinção entre controle e propriedade será central para a evolução do caso. Enquanto a estrutura acionária permanecer formalmente em nome das empresas estrangeiras, a Nestlé continuará com seus direitos patrimoniais reconhecidos. Se a administração temporária vier a ser seguida por venda compulsória, transferência para um comprador russo ou outra forma de alienação, o episódio passará para uma etapa diferente, com efeitos financeiros e jurídicos potencialmente mais amplos para a companhia suíça e seus acionistas.
Fontes:
Nestlé – comunicado de 18 de setembro de 2026 sobre a administração temporária de suas operações na Rússia
Kommersant – decreto presidencial de 17 de setembro de 2026 e composição societária da Nestlé Russia e Nestlé Kuban
Reuters – informações sobre a administração temporária, presença industrial da Nestlé na Rússia e histórico do mecanismo
RBC – dados societários e cadastrais da L.E.V. Management e das empresas colocadas sob administração temporária
Vedomosti – relação das empresas e pessoas jurídicas incluídas no decreto de 17 de setembro de 2026










