Os investimentos globais em data centers devem alcançar US$ 2,1 trilhões até 2028, mais que o dobro do volume de US$ 1 trilhão projetado para 2026, segundo estimativas divulgadas nesta sexta-feira (23) pelo BofA Global Research, divisão de análises do Bank of America. A expansão é impulsionada principalmente pelo crescimento da inteligência artificial, que exige capacidade crescente de processamento, armazenamento de dados e infraestrutura energética. O levantamento aponta uma transformação na composição dos investimentos mundiais em tecnologia, com efeitos diretos sobre fabricantes de semicondutores, equipamentos industriais e fornecedores de eletricidade. A tendência também abre oportunidades para paÃses interessados em atrair grandes centros de processamento de dados, incluindo o Brasil.
Segundo o BofA, o mercado global de data centers, estimado em US$ 275 bilhões em 2022, poderá atingir US$ 2,93 trilhões até 2030. O banco projeta crescimento médio composto de 37% ao ano entre 2025 e 2030, refletindo a ampliação dos investimentos em inteligência artificial e computação em nuvem. A trajetória representa uma expansão expressiva da infraestrutura necessária para sustentar aplicações digitais utilizadas por empresas, governos e consumidores. Entretanto, as cifras representam projeções de mercado, não compromissos de investimento já contratados ou integralmente financiados.
A intensidade dessa expansão também aumenta a importância de componentes que tradicionalmente recebiam menos atenção do mercado financeiro. Além dos processadores avançados, novos data centers precisam de transformadores, sistemas de refrigeração, geradores, equipamentos de distribuição de energia e infraestrutura de comunicação. A capacidade de atender a essas demandas poderá determinar quais projetos serão efetivamente construÃdos nos próximos anos. O crescimento da inteligência artificial, portanto, tende a produzir efeitos econômicos que ultrapassam o setor de tecnologia.
Inteligência artificial acelera expansão dos data centers
A inteligência artificial tornou-se um dos principais fatores responsáveis pelo aumento dos investimentos em infraestrutura digital. Sistemas capazes de gerar textos, imagens, vÃdeos e executar tarefas complexas dependem de grandes quantidades de processamento, tanto durante o treinamento quanto na utilização cotidiana. À medida que essas aplicações são incorporadas a produtos e serviços, cresce a necessidade de servidores especializados e conexões de alta velocidade. Essa demanda está transformando os data centers em instalações estratégicas para a economia digital.
O movimento também reflete uma mudança na forma como grandes empresas de tecnologia organizam seus investimentos. A expansão dos serviços de inteligência artificial exige não apenas a compra de chips, mas a construção de estruturas capazes de operar continuamente e com elevada disponibilidade. Essas instalações precisam integrar sistemas computacionais, energia, refrigeração, segurança fÃsica e conectividade. A complexidade dos projetos contribui para elevar os custos e ampliar os prazos de implantação.
A Agência Internacional de Energia (IEA) identificou crescimento expressivo dos investimentos realizados pelas maiores empresas de tecnologia. Segundo relatório publicado em abril de 2026, os gastos de capital de cinco grandes companhias superaram US$ 400 bilhões em 2025, com expectativa de aumento de aproximadamente 75% em 2026. Esses desembolsos abrangem diferentes investimentos tecnológicos e não devem ser confundidos com a estimativa global de data centers apresentada pelo BofA. Ainda assim, demonstram a escala dos recursos mobilizados para ampliar a infraestrutura de inteligência artificial.
O crescimento também depende da capacidade das empresas de transformar investimentos em receitas recorrentes. A instalação de novos servidores eleva despesas com equipamentos, energia, manutenção e atualização tecnológica. Para justificar esses desembolsos, operadores precisam garantir utilização suficiente da capacidade instalada e contratos comerciais capazes de sustentar o retorno financeiro. A velocidade de adoção da inteligência artificial será determinante para a rentabilidade desses projetos.
Construção de data centers pode custar US$ 49 milhões por megawatt
O levantamento do BofA apresenta uma estimativa detalhada dos custos associados à implantação de data centers. Segundo o banco, a construção e o aparelhamento dessas instalações exigem aproximadamente US$ 49 milhões por megawatt de capacidade, considerando a infraestrutura tecnológica e os demais componentes necessários ao funcionamento. Desse total, cerca de 78% correspondem a despesas relacionadas à tecnologia da informação. O percentual demonstra que servidores, redes e equipamentos computacionais concentram a maior parcela dos investimentos.
Os servidores representam o componente mais caro, com custo estimado de US$ 31,4 milhões por megawatt. Na sequência aparecem os equipamentos de rede, responsáveis por aproximadamente US$ 4,8 milhões por megawatt. Esses sistemas permitem distribuir tarefas de processamento, transmitir informações e conectar grandes conjuntos de equipamentos. Sua importância aumenta em ambientes destinados ao treinamento e à execução de modelos avançados de inteligência artificial.
Os componentes elétricos e de refrigeração também representam despesas relevantes, embora individualmente menores que as dos servidores. Segundo o BofA, equipamentos como quadros de distribuição, geradores, sistemas de energia de reserva e resfriadores apresentam custos que variam de US$ 100 mil a US$ 1,1 milhão por megawatt, dependendo da função. A instalação desses sistemas é indispensável para assegurar a continuidade das operações. Interrupções no fornecimento de energia ou falhas de refrigeração podem comprometer serviços digitais e provocar prejuÃzos expressivos.
O custo por megawatt é uma referência utilizada para comparar a intensidade de capital de diferentes projetos. Entretanto, não representa uma estimativa universal aplicável a qualquer empreendimento, já que despesas com terrenos, conexão elétrica, equipamentos e caracterÃsticas técnicas variam conforme a localização. Também é importante distinguir a capacidade elétrica de uma instalação de sua efetiva utilização ao longo do tempo. Esses fatores influenciam diretamente o retorno esperado pelos investidores.
Data centers especializados em IA exigem investimentos ainda maiores
A expansão da inteligência artificial também impulsiona uma categoria de instalações frequentemente denominada neoclouds. Esses data centers são desenvolvidos especificamente para oferecer infraestrutura de processamento de alta capacidade, normalmente baseada em aceleradores e outros equipamentos especializados. Diferentemente de estruturas convencionais, podem concentrar maior potência computacional em áreas fÃsicas relativamente menores. Essa configuração exige projetos de energia e refrigeração adaptados à elevada densidade dos equipamentos.
Segundo o BofA, as neoclouds apresentam custo estimado de US$ 57 milhões por megawatt, aproximadamente 16% superior à referência de US$ 49 milhões atribuÃda aos data centers tradicionais. A diferença está associada à maior intensidade tecnológica e à s exigências dos sistemas destinados à inteligência artificial. Embora possam utilizar menos espaço para determinadas cargas computacionais, essas instalações precisam administrar elevada demanda elétrica por área ocupada. A redução da necessidade de espaço, portanto, não significa necessariamente menor investimento total.
A concentração de equipamentos de alto desempenho também amplia a necessidade de tecnologias avançadas de refrigeração. Sistemas convencionais de circulação de ar podem apresentar limitações diante do calor produzido por processadores de maior potência. Por isso, operadores avaliam soluções como resfriamento lÃquido e novas arquiteturas de distribuição térmica. A evolução dessas tecnologias poderá influenciar os custos operacionais e a viabilidade de futuros empreendimentos.
Demanda por eletricidade pode quase dobrar até 2030
A disponibilidade de energia elétrica aparece entre os maiores desafios para sustentar o crescimento do setor. De acordo com a Agência Internacional de Energia, o consumo mundial de eletricidade dos data centers poderá passar de aproximadamente 485 terawatts-hora em 2025 para 950 terawatts-hora em 2030. O volume projetado corresponderia a cerca de 3% da demanda mundial de eletricidade no fim da década. O consumo das instalações especificamente voltadas à inteligência artificial tende a crescer ainda mais rapidamente.
Essa expansão cria desafios para sistemas elétricos que já enfrentam dificuldades relacionadas à capacidade de transmissão e à conexão de novos consumidores industriais. Grandes data centers precisam de fornecimento contÃnuo, com elevada confiabilidade e sistemas redundantes para evitar interrupções. Em regiões onde a rede opera próxima de seus limites, novos empreendimentos podem exigir investimentos adicionais em subestações e linhas de transmissão. A disponibilidade de eletricidade passa, assim, a influenciar diretamente a localização dos projetos.
A IEA também alerta para restrições nas cadeias de fornecimento de transformadores, turbinas e componentes utilizados em sistemas elétricos. O aumento simultâneo da demanda por esses equipamentos pode elevar custos e prolongar os prazos de entrega. Em alguns mercados, projetos de data centers poderão enfrentar atrasos mesmo quando houver disponibilidade de recursos financeiros. Essa limitação mostra que a expansão da inteligência artificial depende de fatores industriais e energéticos, não apenas de avanços no desenvolvimento de software.
Outro desafio envolve os efeitos ambientais e o consumo de água de determinados sistemas de resfriamento. A escolha da tecnologia depende das condições climáticas, da disponibilidade hÃdrica e das caracterÃsticas operacionais de cada empreendimento. Soluções que reduzem o uso de água podem apresentar exigências diferentes de energia e investimento. A definição dessas alternativas será importante para compatibilizar a expansão digital com metas de sustentabilidade.
Brasil tenta atrair investimentos com incentivos fiscais
O crescimento global do mercado ocorre em um momento em que o Brasil procura ampliar sua participação na infraestrutura de processamento de dados. Em setembro de 2026, o governo federal sancionou a Lei nº 15.504, que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, conhecido como Redata. A legislação estabelece incentivos fiscais destinados à aquisição de equipamentos e à instalação de novos centros de processamento. A iniciativa pretende estimular investimentos, ampliar a oferta nacional de serviços digitais e fortalecer cadeias produtivas relacionadas à tecnologia.
O Redata prevê suspensão de tributos por cinco anos em determinadas aquisições de equipamentos, observadas as condições estabelecidas na legislação. Para acessar os benefÃcios, as empresas precisam cumprir contrapartidas relacionadas à sustentabilidade, à oferta de serviços ao mercado brasileiro e aos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Entre os requisitos anunciados está a destinação de pelo menos 10% da capacidade efetiva de processamento, armazenamento e tratamento de dados ao mercado interno. O regime também exige compromissos especÃficos relacionados ao fornecimento de energia e à eficiência hÃdrica.
A polÃtica procura aproveitar caracterÃsticas relevantes do mercado brasileiro, como a disponibilidade de fontes renováveis de eletricidade e a dimensão de sua economia digital. Entretanto, a capacidade de atrair empreendimentos dependerá também da qualidade das redes de transmissão, da conectividade internacional e da segurança regulatória. Incentivos tributários podem reduzir determinados custos de instalação, mas não substituem a necessidade de infraestrutura fÃsica adequada. A competitividade brasileira será determinada pela combinação desses fatores.
A expansão do setor também poderá criar oportunidades para empresas nacionais de engenharia, construção, instalações elétricas e serviços de tecnologia. A implantação de data centers exige projetos especializados, equipamentos de distribuição de energia e manutenção de infraestrutura crÃtica. Parte dessas atividades pode ser contratada no mercado interno, dependendo das exigências técnicas e da capacidade dos fornecedores. Já os componentes computacionais mais avançados continuam sujeitos a cadeias internacionais de produção, o que representa um desafio para a ampliação do conteúdo nacional.
Fabricantes de equipamentos industriais ganham espaço
Embora os semicondutores recebam grande parte da atenção dos investidores, o crescimento dos data centers também beneficia fornecedores de equipamentos industriais. A instalação de novas unidades exige geradores, transformadores, painéis elétricos, sistemas de distribuição e equipamentos de refrigeração. Empresas capazes de entregar esses produtos em escala e dentro dos prazos estabelecidos podem encontrar oportunidades relevantes no novo ciclo de investimentos. A expansão da infraestrutura digital aproxima, dessa forma, os setores de tecnologia, indústria e energia.
O segmento de construção também tende a ser beneficiado pela complexidade dos empreendimentos. Grandes instalações exigem obras civis, sistemas de segurança, estruturas de suporte e projetos especializados de engenharia. A necessidade de colocar equipamentos em operação rapidamente aumenta a importância da capacidade de execução. A disponibilidade de mão de obra qualificada e de fornecedores confiáveis poderá influenciar os custos finais.
Para investidores, entretanto, o crescimento do mercado não representa garantia de valorização de todas as empresas associadas à cadeia de data centers. A expansão das receitas precisa ser acompanhada de margens adequadas e de capacidade para cumprir contratos. Empresas excessivamente dependentes de poucos clientes ou de produtos sujeitos a rápidas mudanças tecnológicas podem enfrentar riscos relevantes. A análise financeira deve considerar tanto o potencial de crescimento quanto os custos necessários para aproveitar a demanda.
Ritmo dos investimentos dependerá do retorno da inteligência artificial
A projeção de US$ 2,1 trilhões para 2028 evidencia a expectativa de crescimento acelerado da infraestrutura digital, mas também levanta questões sobre a sustentabilidade econômica desse movimento. A construção de data centers exige desembolsos elevados antes da geração integral das receitas previstas. Parte dos projetos depende de financiamento de longo prazo e de contratos que assegurem demanda suficiente para a capacidade instalada. Mudanças nas expectativas de retorno podem levar empresas a revisar cronogramas de expansão.
A evolução dos próprios sistemas de inteligência artificial também poderá modificar a demanda por infraestrutura. Avanços na eficiência dos modelos e dos processadores permitem executar determinadas tarefas com menor consumo de recursos computacionais. Ao mesmo tempo, custos menores podem ampliar o número de usuários e estimular novas aplicações, elevando a demanda agregada. O efeito final dependerá da velocidade relativa desses movimentos.
Outro fator de risco está relacionado à concentração dos investimentos em um grupo limitado de grandes empresas de tecnologia. Quando diferentes fornecedores dependem dos mesmos clientes, mudanças nas decisões de investimento podem afetar simultaneamente fabricantes de chips, operadores de data centers e empresas industriais. A diversificação da demanda será importante para reduzir essa exposição. O desenvolvimento de aplicações comerciais rentáveis poderá sustentar o crescimento além dos atuais ciclos de construção.
A IEA observa que restrições na oferta de componentes, energia e infraestrutura já representam obstáculos à expansão acelerada do setor. Mesmo diante de projetos anunciados e recursos disponÃveis, parte dos empreendimentos poderá ser adiada ou redimensionada. Por isso, a projeção do BofA deve ser interpretada como um cenário de mercado sujeito a condições tecnológicas, financeiras e regulatórias. O volume de investimentos efetivamente realizado poderá diferir das estimativas.
Data centers se tornam infraestrutura estratégica da economia digital
A perspectiva de investimentos globais de US$ 2,1 trilhões até 2028 mostra que o desenvolvimento da inteligência artificial está associado a uma transformação mais ampla da infraestrutura econômica. O setor deixa de depender exclusivamente da capacidade de produzir softwares e passa a exigir uma integração crescente entre tecnologia, construção, energia e financiamento. Essa combinação deverá influenciar decisões empresariais e polÃticas industriais em diferentes regiões. PaÃses capazes de oferecer eletricidade confiável, conectividade e condições competitivas poderão disputar uma parcela maior dos futuros investimentos.
Para o Brasil, a criação do Redata representa uma tentativa de participar desse movimento e ampliar a capacidade nacional de processamento de informações. O potencial econômico dependerá da implementação dos incentivos, da expansão das redes de infraestrutura e da presença de fornecedores qualificados. A instalação de novos empreendimentos também exigirá equilÃbrio entre competitividade, consumo de recursos naturais e benefÃcios econômicos para as regiões envolvidas. A simples disponibilidade de energia não assegura, isoladamente, a atração dos investimentos.
O levantamento do BofA reforça a dimensão financeira alcançada pela inteligência artificial e a crescente importância dos data centers para empresas e governos. Entre 2026 e 2028, a estimativa apresentada pelo banco prevê que o volume global de investimentos mais que dobre, impulsionado pela necessidade de ampliar a capacidade computacional. O desafio será transformar essa expansão em infraestrutura economicamente sustentável, evitando que investimentos elevados resultem em capacidade ociosa ou custos incompatÃveis com a demanda. A trajetória do setor dependerá, em última análise, do retorno efetivo proporcionado pelas aplicações de inteligência artificial.
Fontes
BofA Global Research — Estimativas globais para investimentos e custos de infraestrutura de data centers, divulgadas em 23 de outubro de 2026.
Agência Internacional de Energia (IEA) — Key Questions on Energy and AI, abril de 2026.
Ministério da Fazenda — Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, comunicado oficial de 16 de setembro de 2026.
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Informações sobre a sanção do Redata, setembro de 2026.
Presidência da República — Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026.










