A JBS N.V. (JBSS32) passou a concentrar uma visão mais favorável de analistas diante da perspectiva de melhora do ciclo pecuário nos Estados Unidos. A XP Investimentos elevou a companhia à principal recomendação no setor de proteÃnas e definiu preço-alvo de US$ 20,30 para a ação negociada em Nova York, estimando potencial de valorização de 69%. A tese combina uma recuperação esperada da operação de carne bovina norte-americana com revisões positivas para os negócios brasileiros.
A mudança ocorre em um momento em que o desempenho operacional da JBS ainda é desigual entre as unidades de negócio. O segundo trimestre mostrou receita recorde, mas também confirmou a pressão sobre a rentabilidade da carne bovina nos Estados Unidos. Nos seis meses até junho, a companhia teve receita lÃquida de US$ 45,51 bilhões, enquanto o Ebitda ajustado sob a metodologia US GAAP somou US$ 2,17 bilhões. No trimestre, a receita alcançou US$ 23,9 bilhões, alta de 13,8% sobre um ano antes, mas o Ebitda ajustado recuou 8%, para US$ 1,257 bilhão.
A principal aposta para a melhora está na combinação entre uma oferta de gado ainda apertada, redução de capacidade de abate e normalização gradual do fluxo de animais importados do México. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos informou em julho que havia 28,5 milhões de vacas de corte no paÃs em 1º de julho, queda de 1% em relação ao ano anterior. A safra de bezerros também caiu 2%, para 32,5 milhões de cabeças, sinalizando que a reposição do rebanho continua limitada.
Recuperação do gado pode mudar o resultado da operação americana
A XP estima uma mudança expressiva na contribuição da carne bovina dos Estados Unidos para o resultado da JBS. Pelas projeções da corretora, o Ebitda dessa operação passaria de uma perda de US$ 226 milhões em 2026 para um resultado positivo de US$ 385 milhões em 2027. A diferença entre os dois números chega a US$ 611 milhões, o que representa uma reversão relevante no desempenho operacional de uma das áreas que hoje mais pressionam o grupo.
A lógica da projeção está relacionada ao estágio do ciclo pecuário americano. Menor disponibilidade de animais costuma elevar o preço do gado e pressionar os custos dos frigorÃficos. Para que a rentabilidade dos processadores se recupere, é necessário que a oferta caminhe para uma situação mais equilibrada ou que o preço dos produtos finais avance mais rapidamente do que o custo da matéria-prima.
Os dados oficiais mais recentes ainda mostram uma oferta estruturalmente apertada. O USDA afirmou, em setembro, que o abate de bovinos permanecia em nÃveis historicamente baixos e reduziu as projeções de produção de carne bovina para 2026 e 2027. Ao mesmo tempo, o órgão passou a considerar uma trajetória de preços de bovinos menos pressionada que nos picos registrados no primeiro semestre.
Outro elemento relevante é a retomada gradual das importações de gado vivo do México. O serviço veterinário do USDA informou que as entradas de bovinos foram reabertas de forma escalonada em postos da fronteira sul. Douglas, no Arizona, voltou a operar em 24 de agosto, enquanto Santa Teresa, no Novo México, foi reaberto em 24 de setembro. O movimento amplia a disponibilidade potencial de animais para a cadeia americana, embora o processo ainda esteja sujeito a restrições sanitárias e a uma reabertura parcial.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que as estimativas de 2027 estão se tornando mais favoráveis do que as de 2026. A recuperação, contudo, depende de uma melhora efetiva dos spreads — a diferença entre o valor da carne comercializada e o custo do gado e de processamento — e não apenas da redução pontual dos preços dos animais.
Receita cresce, mas margem ainda mostra efeito do ciclo
Os números do segundo trimestre ajudam a dimensionar o ponto de partida. A receita de US$ 23,9 bilhões foi 13,8% maior que os US$ 21,0 bilhões registrados no mesmo perÃodo de 2025. O Ebitda ajustado pelo padrão US GAAP, porém, caiu de US$ 1,368 bilhão para US$ 1,257 bilhão.
O efeito pode ser observado na margem. O Ebitda ajustado equivalente à receita recuou de aproximadamente 6,5% no segundo trimestre de 2025 para 5,3% no mesmo perÃodo deste ano, uma redução de cerca de 1,26 ponto percentual. O contraste entre receita recorde e margem menor mostra que o crescimento de volume e preços não foi suficiente para neutralizar integralmente as pressões de custos.
A própria JBS destacou que a diversificação geográfica e entre proteÃnas ajudou a compensar parcialmente o ambiente menos favorável em determinadas operações. A empresa registrou desempenho positivo em unidades como Austrália e Brasil, com crescimento de receita apoiado por preços e volumes. No mercado brasileiro, a companhia informou que o Ebitda da operação de carne bovina alcançou o maior nÃvel para um segundo trimestre, mesmo com o preço médio do boi vivo cerca de 12% acima do registrado um ano antes.
Essa estrutura é importante para a tese dos analistas porque reduz a dependência da JBS de um único mercado. Uma melhora da operação americana pode ocorrer simultaneamente a resultados sustentados no Brasil, enquanto aves, suÃnos e alimentos preparados funcionam como amortecedores em ciclos menos favoráveis.
Oferta pela Pilgrim’s adiciona outra variável ao caso de investimento
A avaliação das ações também ocorre em meio a uma movimentação societária relevante na América do Norte. Em agosto, a JBS apresentou uma proposta não vinculante para adquirir as ações da Pilgrim’s Pride Corporation (PPC) que ainda não pertencem ao grupo. A companhia já detém aproximadamente 82% da empresa americana e propôs uma relação fixa de 2,086 ações classe A da JBS por ação da Pilgrim’s Pride remanescente.
A operação ainda não está concluÃda e depende da análise de um comitê especial formado pelo conselho da Pilgrim’s Pride, além das aprovações previstas para os acionistas minoritários. Portanto, qualquer impacto financeiro definitivo sobre a JBS permanece condicionado ao avanço da proposta.
O negócio, entretanto, é relevante para a leitura dos investidores porque reforça a estratégia de concentração de ativos de proteÃnas na América do Norte. Caso seja concluÃdo, o movimento pode simplificar a estrutura societária do grupo e ampliar a integração entre negócios que já possuem vÃnculos operacionais e acionários.
A JBS também atravessa uma transição de comando. A companhia anunciou que Wesley Batista Filho assumirá a posição de CEO global em janeiro de 2027, enquanto Gilberto Tomazoni deixará a função executiva e passará à vice-presidência do conselho. Batista Filho atualmente lidera a operação da JBS nos Estados Unidos, o que coloca a execução da estratégia norte-americana no centro da transição de gestão.
Ação ainda está distante da máxima de 52 semanas
Na B3, o movimento mais recente indica reação dos investidores às revisões positivas. Às 14h35 de 8 de outubro, o BDR JBSS32 era negociado a R$ 63,57, em alta de 2,70%, depois de abrir a R$ 62,00. O papel chegou a R$ 63,83 na máxima intradiária.
Mesmo com a alta, o ativo permanece 32,2% abaixo da máxima de 52 semanas de R$ 93,74 e 14,7% acima da mÃnima de R$ 55,44. A distância em relação ao topo ajuda a dimensionar o tamanho do espaço necessário para que a tese mais otimista dos analistas se reflita integralmente na cotação.
A recuperação recente também ocorre depois de uma sequência de desempenho inferior ao de alguns pares do setor. O mercado passou a considerar que parte do desconto aplicado à JBS pode estar associado a fatores transitórios, enquanto a perspectiva de normalização da carne bovina americana tende a ganhar peso nas projeções para 2027.
A próxima confirmação operacional virá com os resultados do terceiro trimestre. O calendário de relações com investidores da JBS prevê a divulgação do balanço em 9 de novembro, seguida da teleconferência em 10 de novembro. Os números serão especialmente importantes para avaliar se a melhora sequencial nas operações indicada pela companhia no segundo trimestre continua avançando.
No curto prazo, a tese ainda convive com riscos. A recomposição do rebanho americano é um processo lento, a reabertura da fronteira mexicana ocorre de forma gradual e os custos do gado continuam elevados. Além disso, a companhia precisa administrar simultaneamente investimentos, geração de caixa e eventuais movimentos de consolidação.
No médio prazo, porém, o ponto central da discussão mudou. A questão deixou de ser apenas o quanto a carne bovina americana está pressionando os resultados atuais e passou a ser em que velocidade a operação conseguirá transformar uma oferta limitada de gado em margens melhores. Para a XP, a resposta pode aparecer de forma significativa em 2027, com recuperação de US$ 611 milhões no Ebitda estimado da unidade americana entre 2026 e 2027. Para os investidores da JBS, os próximos resultados serão o principal teste dessa hipótese.
A perspectiva de remuneração ao acionista também permanece no radar. A administração da JBS já indicou nos resultados e em teleconferências anteriores que mantém a referência de aproximadamente US$ 1 bilhão anual em dividendos, condicionada à geração de caixa e ao nÃvel de alavancagem. Esse histórico ajuda a explicar por que a recuperação da rentabilidade nos Estados Unidos pode ter efeito duplo para o investidor: melhora do resultado operacional e maior capacidade de distribuição de capital.
Fontes:
JBS N.V. – divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026 e indicadores financeiros consolidados
JBS N.V. – central de resultados, calendário de relações com investidores e informações sobre a transição de liderança
XP Investimentos – atualização do modelo da JBS após os resultados do segundo trimestre de 2026 e preço-alvo para a companhia
USDA National Agricultural Statistics Service – Cattle Report de julho de 2026 e dados sobre o rebanho bovino norte-americano
USDA Animal and Plant Health Inspection Service – reabertura gradual dos postos de entrada para bovinos provenientes do México
JBS N.V. – proposta não vinculante para aquisição das ações remanescentes da Pilgrim’s Pride Corporation
InfoMoney – reportagem sobre as avaliações da XP Investimentos e do Morgan Stanley para JBS e carne bovina nos Estados Unidos








