João Camargo vira foco central da CPI do INSS e é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro
A atuação do alfaiate João Camargo, conhecido por vestir algumas das maiores celebridades da televisão brasileira, tornou-se o novo elemento de maior impacto das investigações conduzidas pela CPI do INSS no Congresso Nacional. O profissional, reconhecido há anos no universo da moda masculina de luxo, agora ocupa o centro de uma apuração que envolve suspeitas de lavagem de dinheiro, repasses milionários, empresas de fachada e conexões diretas com entidades investigadas por desviar recursos de aposentados e pensionistas em todo o país.
A presença de João Camargo na sessão desta terça-feira transformou o clima da comissão. Parlamentares esperavam que ele esclarecesse o papel desempenhado nas transações identificadas como suspeitas pelo Coaf. Mas, amparado por habeas corpus, ele optou por permanecer em silêncio, ampliando o desgaste político, a desconfiança dos membros da CPI e a percepção pública de que sua participação no esquema pode ir além do que inicialmente se imaginava.
Mesmo sem responder perguntas, sua presença física e sua recusa em colaborar elevaram a gravidade das investigações e reforçaram a necessidade de examinar detalhadamente seu envolvimento em empresas que movimentaram cifras que ultrapassam a casa de dezenas de milhões de reais.
A partir de agora, o nome João Camargo passa a ser mencionado como elemento-chave da CPI — não apenas como investigado, mas como potencial elo entre a etapa operacional da fraude e o sistema de lavagem necessário para ocultar a origem dos recursos desviados do INSS.
A trajetória de João Camargo que agora contrasta com as investigações
Por quase duas décadas, João Camargo construiu uma imagem pública associada ao refinamento, à exclusividade e ao alto padrão. Seu ateliê de São Paulo tornou-se ponto de referência para artistas, apresentadores e empresários. Vestir celebridades o transformou em um personagem frequente em reportagens de moda e lifestyle.
Essa imagem sofisticada, porém, hoje convive com o peso de uma investigação que pode revelar um segundo eixo de sua atuação: o empresarial. A CPI do INSS tenta compreender se a visibilidade e a reputação de Camargo foram utilizadas como elemento de blindagem para encobrir atividades que, segundo parlamentares, destoam completamente do perfil de um alfaiate tradicional.
A suspeita principal é que empresas associadas ao seu nome foram utilizadas para movimentar parte dos valores desviados por associações envolvidas no esquema de descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas.
MKT Connection Group: o epicentro das suspeitas envolvendo João Camargo
A empresa que colocou João Camargo definitivamente no alvo das investigações é a MKT Connection Group. Criada em dezembro de 2022, ela movimentou R$ 24,3 milhões recebidos da Amar Brasil — entidade apontada como peça fundamental do esquema que descontava valores indevidos de beneficiários do INSS.
O fluxo financeiro identificado revela:
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65 transações registradas entre 2022 e 2025
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54 pagamentos da Amar Brasil diretamente para a empresa de João Camargo
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R$ 784 mil retornaram da empresa para a associação
A CPI entende que os números não apenas destoam do perfil típico de uma empresa ligada a consultoria ou moda, mas também sugerem circularidade de recursos, característica comum a estruturas usadas para lavagem de dinheiro.
Como João Camargo não explicou a natureza dos serviços prestados — alegando direito ao silêncio — a CPI intensificou a análise documental para determinar se a MKT Connection Group servia como elo final do esquema, responsável por dar aparência de legalidade a valores desviados do sistema previdenciário.
Kairos Representações: a segunda empresa que reforça o enredo suspeito
Além da MKT, os parlamentares identificaram outro ponto de alerta envolvendo João Camargo: a empresa Kairos Representações. Aberta em outubro de 2023 e encerrada poucos meses depois, a sociedade tinha como sócios outros quatro investigados pela Polícia Federal.
Todos eles já foram mencionados em documentos da CPI como possíveis operadores de entidades associativas envolvidas no desvio. O encerramento repentino da empresa e a coincidência dos perfis levantaram suspeitas de que a Kairos seria mais uma engrenagem destinada a movimentar recursos oriundos do esquema.
A CPI tenta determinar se João Camargo participou do processo de abertura e dissolução estratégica dessa empresa para fins de lavagem ou ocultação de valores. Os parlamentares também analisam se a empresa funcionou como instrumento adicional para distribuir recursos entre diferentes entidades ligadas ao escândalo.
O silêncio como estratégia e o aumento da pressão política
A postura adotada por João Camargo durante a sessão teve efeitos imediatos. Parlamentares interpretaram sua recusa em responder a perguntas básicas como sinal de que ele tenta evitar contradições ou informações que possam ser usadas contra si. A blindagem jurídica concedida pelo habeas corpus, embora legítima, acentuou o desgaste político.
A CPI busca reconstruir a rota financeira completa do esquema e esperava que Camargo explicasse:
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a natureza dos pagamentos recebidos
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os contratos firmados com entidades investigadas
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o fundamento comercial das transações
Sem respostas, o relator anunciou que apresentará pedido formal de prisão contra o alfaiate, argumentando que o silêncio, embora amparado constitucionalmente, não retira seu compromisso de colaborar com a comissão em temas que não o incriminem diretamente.
Para a CPI, João Camargo passou de investigado periférico a figura central de resistência dentro do esquema, o que aumenta a relevância das diligências sobre suas atividades empresariais.
Como o nome de João Camargo se torna crucial para esclarecer a lavagem
O papel do alfaiate nas investigações não envolve apenas repasses financeiros. Ele aparece como possível personagem da fase final do esquema — aquela que dá forma, coerência e aparência de licitude ao dinheiro desviado.
A CPI tenta esclarecer:
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Se as empresas de João Camargo existiam com finalidade econômica real
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Se serviços foram realmente prestados às entidades envolvidas no esquema
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Se os valores recebidos são compatíveis com o setor de atuação declarado
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Se houve combinação prévia entre dirigentes das associações e o alfaiate
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Se Camargo atuou como beneficiário ou intermediário
A análise das movimentações financeiras mostra um volume significativamente superior ao padrão de um ateliê de moda, reforçando a hipótese de que empresas vinculadas a João Camargo podem ter sido usadas como veículos de lavagem.
A CPI avança para a fase decisiva
Com o avanço das investigações, a comissão tenta fechar o cerco contra personagens considerados estratégicos. O nome João Camargo já é apontado pelos parlamentares como peça indispensável para reconstruir o fluxo do dinheiro que saiu das contas de aposentados e pensionistas e chegou a empresas suspeitas.
A CPI deve:
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solicitar novas quebras de sigilo
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convocar envolvidos ligados aos sócios de Camargo
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cruzar dados com informações enviadas pelo Coaf
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aprofundar o mapeamento de transações atípicas
A expectativa política é que a presença do alfaiate tenha sido apenas o primeiro capítulo de uma investigação que ainda trará desdobramentos.






