O Federal Reserve manteve em 29 de julho a taxa básica dos Estados Unidos no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano, mas a divisão registrada no Comitê Federal de Mercado Aberto alterou o centro do debate sobre a política monetária: três dos 12 participantes com direito a voto defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual. A decisão, tomada em Washington por nove votos a três, mostrou que inflação persistente, crescimento da demanda privada e efeitos ainda presentes do choque energético no Oriente Médio reduziram o espaço para cortes e colocaram uma eventual retomada do aperto monetário entre as alternativas efetivamente discutidas pelo banco central.
O intervalo está inalterado desde o início do ano. No comunicado de julho, o Fed evitou oferecer uma trajetória futura para os juros e limitou-se a registrar a manutenção da faixa e da política de reservas bancárias amplas. A ausência de indicação sobre cortes é coerente com a estratégia do novo presidente da instituição, Kevin Warsh, de reduzir a orientação antecipada ao mercado.
Essa mudança encontrou uma economia que não oferece uma direção confortável. O Produto Interno Bruto perdeu velocidade no segundo trimestre, mas a demanda privada acelerou; a criação de vagas diminuiu, enquanto o desemprego permaneceu baixo; e a inflação mensal arrefeceu, embora as medidas em 12 meses continuem bem acima do objetivo de 2%. O conjunto não caracteriza recessão nem comprova que a desinflação esteja consolidada.
O reposicionamento já aparecia antes da reunião. No Relatório de Política Monetária de julho, preços de contratos de swap indicavam expectativa de que a taxa efetiva dos fundos federais se aproximasse de 4% no fim de 2026. Em dezembro de 2025, esses mesmos preços apontavam uma trajetória descendente. A inversão transforma a hipótese de flexibilização, antes dominante, em um cenário dependente de uma desaceleração mais clara da inflação e da atividade.
Três dirigentes defenderam elevação de 0,25 ponto
Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan votaram por elevar imediatamente o intervalo para 3,75% a 4%. A divergência não se restringiu ao ritmo de um futuro ciclo de cortes: ela se deu entre manter a taxa e voltar a aumentá-la. O placar tornou visível a preocupação de uma parcela do comitê com o risco de que a política atual seja insuficientemente restritiva para reconduzir a inflação à meta.
Na entrevista posterior à decisão, Warsh afirmou que a economia demonstrava resiliência, o mercado de trabalho permanecia estável e a inflação seguia elevada. Ele disse que, se a alta de preços continuar durante o horizonte de projeção, os juros poderão integrar a resposta do banco central. Também recusou a ideia de que a manutenção tenha sido uma pausa automática, descrevendo a reunião como uma avaliação ativa de todas as alternativas.
Warsh assumiu a presidência do Fed em 22 de maio, após o fim do mandato de Jerome Powell no comando da instituição. A reunião de julho foi apenas a segunda presidida por ele. Seu mandato vai até maio de 2030, de acordo com a biografia oficial do Federal Reserve, o que encerrou a transição no comando e deslocou a atenção para a estratégia já adotada pela nova gestão.
Entre as reuniões de junho e julho, os rendimentos nominais e reais dos títulos do Tesouro subiram de forma relevante, apertando as condições financeiras mesmo sem alteração da taxa básica. O movimento também influencia crédito, câmbio, investimento e consumo.
PCE de 3,7% mantém inflação distante da meta
Divulgado no dia seguinte à reunião, o índice de preços das despesas de consumo pessoal, referência usada pelo Fed, acumulou alta de 3,7% nos 12 meses encerrados em junho. O núcleo, que exclui alimentos e energia, avançou 3,3%. Os números do Bureau of Economic Analysis permanecem com folga acima do objetivo de 2%.
Na comparação mensal, o índice cheio recuou 0,1%, enquanto o núcleo avançou 0,1%. A melhora de um único mês, porém, não foi suficiente para alterar o diagnóstico do comitê. Warsh afirmou que o Fed observa tendências e não pretende apoiar uma decisão em um indicador isolado, sobretudo depois de mais de cinco anos de inflação acima do objetivo.
Os dados trimestrais reforçam a cautela. No segundo trimestre, o PCE subiu à taxa anualizada de 5,1%, acima dos 4,6% registrados nos três primeiros meses do ano. O núcleo desacelerou de 4,4% para 3,4%, mas o índice de preços das compras domésticas avançou 5,7%, ante 3,6% no trimestre anterior.
As projeções dos integrantes do Fed também pioraram. Em junho, a mediana para a inflação PCE ao fim de 2026 passou a 3,6%, contra 2,7% na rodada de março. Para o núcleo, a projeção subiu igualmente de 2,7% para 3,3%. A estimativa mediana para a taxa básica no encerramento do ano avançou de 3,4% para 3,8%, nível superior ao ponto médio do intervalo vigente.
Reabertura de Ormuz reduz petróleo, mas deixa efeitos acumulados
O choque no Oriente Médio já deixou a fase mais aguda. O Estreito de Ormuz ficou efetivamente fechado ao tráfego desde 28 de fevereiro, quando começaram as ações militares, mas Estados Unidos e Irã assinaram em 18 de junho um memorando para encerrar o conflito e reabrir a passagem. O corredor é decisivo para o mercado de energia: no primeiro semestre de 2025, recebeu fluxo equivalente a cerca de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo, segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos.
A retomada do tráfego derrubou as cotações, sem apagar o choque já incorporado à economia. O Brent teve média de US$ 85 por barril em junho, US$ 22 abaixo de maio, e caiu para menos de US$ 70 em 1º de julho. Ainda assim, a média do segundo trimestre ficou em US$ 103, refletindo as restrições de oferta, a interrupção de embarques e a redução dos estoques durante os meses mais agudos da crise.
O relatório de julho da agência de energia estima que a produção interrompida no Oriente Médio atingiu 11,2 milhões de barris por dia em maio e recuou para 8,3 milhões em junho. Os estoques globais teriam diminuído em média 5,1 milhões de barris por dia no segundo trimestre e ainda devem cair 2,2 milhões por dia no terceiro, antes de uma recomposição mais ampla da oferta.
A agência projeta o Brent em US$ 70 no quarto trimestre e US$ 65, em média, em 2027. Esse cenário reduziria a contribuição direta da energia para a inflação. O Fed, contudo, acompanha a transmissão dos choques para transporte, bens industriais, margens empresariais e expectativas.
Demanda privada cresce apesar da desaceleração do PIB
A economia americana cresceu à taxa anualizada de 1,5% no segundo trimestre, abaixo dos 2,1% dos três primeiros meses do ano. A desaceleração, informada na estimativa inicial do Bureau of Economic Analysis, decorreu principalmente da queda dos gastos governamentais e do menor ritmo do investimento e das exportações. Consumo, investimento e vendas externas ainda contribuíram positivamente para o resultado.
O indicador mais relevante para a leitura da demanda interna foi mais forte. As vendas finais reais a compradores privados domésticos, que somam consumo e investimento fixo privado, cresceram 3,9%, após avanço de 1,7% no primeiro trimestre. O dado sinaliza que famílias e empresas mantêm capacidade de gasto suficiente para sustentar a atividade, mesmo com crédito caro e incerteza internacional.
O investimento empresarial tem recebido atenção especial. Gastos com equipamentos e propriedade intelectual avançaram no segundo trimestre, enquanto a expansão de centros de dados manteve elevada a procura por máquinas, semicondutores e software. Warsh afirmou que o investimento em equipamentos de alta tecnologia crescia perto de 20% em quatro trimestres, movimento que pode elevar a produtividade, mas também pressiona preços no curto prazo.
O mercado de trabalho oferece sinais mais moderados, sem deterioração abrupta. Os Estados Unidos criaram 57 mil vagas fora do setor agrícola em junho, e a taxa de desemprego ficou em 4,2%, segundo o Bureau of Labor Statistics. A baixa expansão do emprego recomenda cautela contra um aperto excessivo, mas o nível do desemprego e a continuidade do consumo não criam urgência para estímulo monetário.
Juros americanos restringem margem de economias emergentes
A manutenção de retornos elevados nos Estados Unidos aumenta o custo de oportunidade para recursos aplicados fora do país. Títulos do Tesouro mais rentáveis oferecem uma alternativa de menor risco a investidores globais, elevam o custo de captação em dólar e podem pressionar moedas de economias emergentes. O próprio Fed informou que o dólar se valorizou moderadamente em 2026 e permaneceu forte, em termos reais, diante de sua média histórica.
Para o Brasil, a política americana não determina a Selic, mas influencia o câmbio, as expectativas de inflação e o prêmio exigido nos títulos públicos. O Comitê de Política Monetária reduziu a taxa brasileira para 14,25% ao ano em junho. Se a taxa americana subir ou permanecer elevada por um período prolongado, o diferencial de juros, o risco fiscal doméstico e a trajetória dos preços no Brasil ganham peso adicional na definição do espaço para novos cortes.
O Fed voltará a decidir os juros em 15 e 16 de setembro. Antes disso, receberá o relatório de emprego de julho em 7 de agosto, novos dados do PCE em 26 de agosto e a segunda estimativa do PIB do segundo trimestre na mesma data. Esses indicadores mostrarão se a queda mensal da inflação e a desaceleração do produto prevalecem sobre a resistência da demanda privada — ou se os três votos por alta em julho poderão atrair apoio adicional dentro do comitê.









