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Lula e Flávio Bolsonaro mudam estratégia para último debate na Globo em disputa empatada

Presidente aposta na defesa do governo e em propostas, enquanto senador busca reduzir confrontos; debate desta sexta-feira (23) pode influenciar eleitores indecisos antes do segundo turno.

por Júlia Campos
23/10/2026 às 14h07
em Política
Debate - Gazeta Mercantil

Reprodução

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participam nesta sexta-feira (23), às 21h20, do último debate presidencial das eleições de 2026, promovido pela TV Globo. O confronto acontece em um momento decisivo da campanha, depois de pesquisa Datafolha apontar empate entre os candidatos, com 50% dos votos válidos para cada um. Após o primeiro embate, realizado pela Band no domingo (18) e marcado por provocações, as duas campanhas reformularam suas estratégias para tentar conquistar votos na reta final. O encontro será realizado nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com mediação do jornalista César Tralli, a menos de 48 horas da votação do segundo turno.A preparação dos candidatos reflete avaliações distintas sobre o resultado do confronto anterior e sobre os desafios políticos da última semana de campanha. Lula recebeu orientações para evitar reações impulsivas às provocações do adversário, administrar melhor o tempo de resposta e concentrar suas intervenções na apresentação de propostas e realizações do governo. Flávio Bolsonaro, por sua vez, foi aconselhado a moderar o comportamento confrontador, aprofundar suas explicações sobre políticas públicas e evitar gestos que possam ser interpretados como desrespeitosos. As mudanças procuram ampliar a capacidade de comunicação com eleitores que ainda não consolidaram suas escolhas.

O cenário eleitoral aumenta a importância do confronto televisivo. Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22) mostrou que Flávio Bolsonaro aparece com 47% das intenções de voto totais, contra 46% de Lula, enquanto 5% dos entrevistados declararam voto branco ou nulo e 2% disseram estar indecisos. Considerando apenas os votos válidos, os dois candidatos registram 50%, caracterizando empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Com a disputa indefinida, as campanhas tentam transformar o debate em uma oportunidade de mobilizar apoiadores e alcançar eleitores resistentes às candidaturas.

Lula prepara discurso para evitar provocações e defender realizações do governo

A equipe de Lula dedicou a quinta-feira (22) à preparação para o encontro, com reuniões estratégicas e simulações do formato adotado pela emissora. O presidente recebeu orientações específicas sobre posicionamento diante das câmeras, administração do tempo e organização das respostas. A jornalista e especialista em comunicação Olga Curado participou do treinamento, que incluiu uma estrutura semelhante ao cenário do debate. Lula também cancelou uma entrevista à Record e suspendeu gravações para preservar a voz antes do confronto.

A estratégia central do presidente será combinar a defesa de seu governo com propostas para um eventual quarto mandato. Entre os assuntos considerados importantes pela campanha estão segurança pública, emprego, programas sociais, saúde, educação e o impacto das políticas econômicas sobre a renda das famílias. A equipe também pretende explorar contradições nas propostas do adversário, especialmente em temas relacionados à proteção social e ao funcionamento dos programas de transferência de renda. A prioridade, entretanto, será evitar que as críticas pessoais dominem o tempo destinado à apresentação de políticas públicas.

O comportamento de Lula no debate anterior entrou no centro das avaliações de seus assessores. O confronto na Band foi marcado por momentos de tensão e trocas de acusações, que reduziram o espaço para discussões mais detalhadas sobre propostas de governo. Na avaliação estratégica da campanha petista, respostas excessivamente concentradas em ataques podem dificultar a comunicação com os eleitores que buscam informações concretas antes de decidir o voto. Por isso, a orientação é privilegiar a exposição de resultados e apresentar compromissos para os próximos quatro anos.

Outro desafio para o presidente será responder a questionamentos sobre assuntos controversos envolvendo integrantes de seu entorno político e familiar. Entre os temas que poderão ser levantados pelo adversário estão investigações relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e questionamentos sobre a atuação de pessoas próximas ao governo. A existência de investigações, contudo, não comprova irregularidades nem autoriza atribuir responsabilidades sem elementos específicos. A capacidade de responder às perguntas sem abandonar o eixo programático será um dos testes da estratégia presidencial.

Flávio Bolsonaro tenta reduzir ataques e apresentar imagem mais moderada

Do outro lado, Flávio Bolsonaro chega ao debate pressionado a demonstrar maior domínio dos temas administrativos e econômicos que poderão orientar um eventual governo. A preparação do senador contou com a participação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do publicitário Duda Lima, responsável pela estratégia de comunicação da campanha. A orientação é reduzir intervenções excessivamente agressivas e apresentar respostas mais objetivas sobre suas propostas. A mudança representa uma tentativa de ampliar o alcance do discurso para além do eleitorado que já apoia sua candidatura.

O primeiro confronto entre os presidenciáveis expôs diferenças de estilo e provocou críticas ao comportamento adotado por Flávio durante as intervenções do adversário. Em determinados momentos, o senador circulou pelo cenário e permaneceu próximo ou atrás de Lula, realizando gestos enquanto o presidente falava. A dinâmica chamou atenção e motivou questionamentos sobre os limites da movimentação dos candidatos durante debates televisivos. Na Globo, as regras foram modificadas para impedir a repetição desse tipo de situação.

A campanha de Flávio também procura fortalecer a apresentação de propostas nas áreas de economia, segurança pública e administração federal. O senador tem defendido mudanças na estrutura do governo, redução do número de ministérios e medidas de controle das despesas públicas. Essas propostas tendem a ser confrontadas com perguntas sobre seus efeitos sobre serviços públicos, programas sociais e investimentos federais. A capacidade de explicar como pretende financiar e executar suas prioridades será relevante para avaliar a consistência do programa apresentado aos eleitores.

O desafio do candidato do PL será equilibrar a mobilização de sua base política com uma linguagem capaz de dialogar com segmentos menos identificados com o bolsonarismo. A insistência exclusiva em ataques ao adversário pode reforçar o apoio de eleitores já convencidos, mas não necessariamente ampliar sua votação. Uma apresentação mais detalhada das propostas poderá reduzir dúvidas sobre a condução de um eventual governo. Esse objetivo, porém, dependerá da forma como o senador responder às perguntas e administrará os embates durante a transmissão.

Globo muda regras para impedir que candidatos circulem atrás do adversário

O debate desta sexta-feira terá quatro blocos de perguntas e respostas, além das considerações finais, conforme as regras divulgadas pela TV Globo. Nos três primeiros blocos, o candidato que estiver com a palavra poderá circular pelo cenário, enquanto o adversário deverá permanecer junto ao seu púlpito. A determinação impede que um participante se posicione atrás do outro durante as intervenções, como ocorreu no confronto realizado pela Band. A medida procura concentrar a atenção do público no conteúdo das respostas e reduzir interferências visuais.

No primeiro bloco, serão realizadas seis rodadas com assuntos relacionados às diferentes regiões do Brasil e a um tema prioritário de alcance nacional. Cada candidato terá três minutos por rodada, divididos entre perguntas, respostas, réplicas e tréplicas, conforme a dinâmica definida pela emissora. Nos segundo e terceiro blocos, Lula e Flávio escolherão temas apresentados em um telão para formular perguntas ao adversário. O formato busca ampliar a exposição dos programas de governo e distribuir o debate entre diferentes áreas de interesse público.

O quarto bloco será dedicado ao debate livre, com oito minutos de fala para cada candidato e sem limite de intervenções. Nessa etapa, ambos poderão se movimentar pelo cenário, mas deverão permanecer nos respectivos lados do estúdio. A configuração permite confrontos mais diretos, preservando uma separação física entre os participantes. A ordem das perguntas será definida por sorteios conduzidos pelo mediador César Tralli.

A Globo também anunciou que as declarações dos candidatos serão submetidas à verificação de fatos durante o debate, com publicação de checagens nas plataformas digitais do grupo. O trabalho deverá examinar informações utilizadas pelos participantes para sustentar críticas, apresentar realizações ou questionar propostas. A iniciativa ganha relevância diante da circulação intensa de conteúdos políticos nas redes sociais durante a campanha. A checagem, entretanto, não substitui a avaliação dos eleitores sobre a viabilidade e a consistência das propostas apresentadas.

Datafolha aponta empate de 50% e aumenta pressão sobre candidatos

O resultado da pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro tornou ainda mais sensível a preparação para o último debate. O levantamento ouviu 2.520 eleitores entre os dias 20 e 22, em 154 municípios, e apresenta margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-09709/2026. Os resultados mostram uma disputa estatisticamente equilibrada, sem vantagem conclusiva para qualquer um dos concorrentes.

Na comparação com a rodada anterior, divulgada em 15 de outubro, Flávio Bolsonaro passou de 51% para 50% dos votos válidos, enquanto Lula avançou de 49% para 50%. As mudanças representam oscilações dentro da margem de erro, não sendo possível afirmar que houve uma alteração estatisticamente significativa na preferência do eleitorado. Nos votos totais, o senador manteve 47%, enquanto o presidente passou de 45% para 46%. A pesquisa indica que o desfecho da eleição permanece aberto.

A reduzida proporção de indecisos torna a mobilização eleitoral particularmente importante. Segundo o Datafolha, 94% dos entrevistados afirmaram já ter decidido o voto, percentual que restringe o espaço para mudanças expressivas na preferência declarada. Isso não significa, entretanto, que todos esses eleitores comparecerão às urnas ou que suas escolhas permanecerão inalteradas. A participação efetiva e a capacidade de cada campanha de mobilizar seus apoiadores poderão ter peso relevante no resultado.

O primeiro turno oferece uma dimensão desse desafio. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%, diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. A abstenção superou 21% do eleitorado, o que representa um contingente expressivo de pessoas que não participaram da primeira votação. A capacidade de reduzir ausências entre os próprios apoiadores pode ser tão importante quanto conquistar votos de eleitores ainda indecisos.

Economia, programas sociais e segurança estarão entre os temas decisivos

A discussão econômica deve ocupar espaço relevante no debate, especialmente diante das diferenças entre as propostas dos candidatos para a política fiscal e a administração federal. Lula tende a defender os resultados de seu governo nas áreas de emprego, renda e proteção social, enquanto Flávio deverá enfatizar críticas à gestão petista e apresentar alternativas para reduzir gastos públicos. O confronto poderá esclarecer posições sobre investimentos, dívida pública, tributação e prioridades orçamentárias. O conteúdo efetivamente abordado dependerá das escolhas dos participantes e dos temas determinados pela emissora.

Os programas sociais também poderão se transformar em um dos principais pontos de divergência. A campanha de Lula pretende questionar declarações e propostas associadas à eventual revisão de benefícios, enquanto Flávio terá a oportunidade de explicar seus compromissos com as políticas de transferência de renda. A discussão sobre o Bolsa Família tende a exigir respostas objetivas a respeito de critérios de permanência, financiamento e mecanismos de fiscalização. Para os eleitores, a diferença entre promessas genéricas e compromissos detalhados poderá ser relevante na avaliação das candidaturas.

Na segurança pública, os candidatos deverão enfrentar questionamentos sobre combate ao crime organizado, financiamento das forças policiais e divisão de responsabilidades entre União e estados. O tema ganhou importância durante a campanha e envolve decisões administrativas, orçamentárias e legislativas. Propostas de endurecimento penal, ampliação de investimentos ou reorganização das estruturas de segurança exigem explicações sobre seus custos e mecanismos de implementação. O debate oferece uma oportunidade para comparar a consistência dessas medidas.

A relação entre o governo federal e o Congresso Nacional também poderá aparecer entre os assuntos discutidos. Independentemente do vencedor, o próximo presidente terá de negociar projetos e medidas orçamentárias com deputados e senadores eleitos para a legislatura seguinte. A capacidade de construir maiorias parlamentares influencia diretamente a execução das propostas apresentadas durante a campanha. Esse componente institucional costuma receber menos atenção que os confrontos pessoais, mas será determinante para a governabilidade a partir de 2027.

Último debate pode influenciar a mobilização antes da votação de domingo

O encontro desta sexta-feira representa a última oportunidade de confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro em rede nacional antes do segundo turno. Além da audiência televisiva, trechos das respostas deverão circular nas redes sociais e integrar a comunicação das campanhas durante as horas finais da disputa. A repercussão digital poderá ampliar o alcance de declarações específicas, mas também favorecer interpretações descontextualizadas. Por isso, a precisão das informações e a capacidade de responder a questionamentos concretos serão elementos importantes para os dois participantes.

A estratégia de Lula será demonstrar estabilidade, experiência administrativa e capacidade de apresentar resultados, evitando transformar o debate em uma sequência de disputas pessoais. Flávio Bolsonaro buscará apresentar uma imagem de preparo para a Presidência e convencer eleitores de que possui propostas capazes de produzir mudanças na gestão federal. Ambos precisam administrar o risco de declarações controversas em um momento no qual novas oportunidades de esclarecimento serão limitadas. O desempenho de cada candidato será avaliado tanto pelo conteúdo das respostas quanto pela postura diante das provocações.

O segundo turno será realizado no domingo, 25 de outubro, das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, conforme o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral. Mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar nas eleições gerais de 2026, embora a participação efetiva dependa do comparecimento às urnas. O debate poderá influenciar percepções e estimular a mobilização, mas não existe garantia de que um desempenho considerado positivo se traduza automaticamente em vantagem eleitoral. O resultado dependerá da decisão dos eleitores no domingo.

Com a pesquisa Datafolha apontando 50% dos votos válidos para cada candidato, o último confronto da campanha ocorre sem um favorito estatisticamente definido. A expectativa das equipes é evitar erros capazes de afastar apoiadores e, ao mesmo tempo, aproveitar eventuais fragilidades do adversário. A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro chega ao momento decisivo combinando diferenças de projeto político, estratégias de comunicação e elevada competitividade eleitoral. O debate da Globo será o último teste público dessa combinação antes de o eleitorado escolher quem ocupará o Palácio do Planalto.

Fontes

TV Globo — Comunicado oficial sobre as regras e a transmissão do debate presidencial de 23 de outubro de 2026.

Instituto Datafolha — Pesquisa presidencial divulgada em 22 de outubro de 2026, registro TSE BR-09709/2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Resultados oficiais do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Resolução nº 23.760/2026, calendário eleitoral.

Tribunal Superior Eleitoral — Estatísticas do eleitorado para as Eleições Gerais de 2026.

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