Macron rejeita acordo UE-Mercosul e mobiliza oposição política na Europa
O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou nesta quinta-feira (8) que a França votará contra a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Ao defender uma rejeição política unânime, Macron argumentou que a decisão se fundamenta nos recentes debates legislativos que demonstraram forte resistência ao pacto, sobretudo por parte de setores agrícolas do país.
Apesar de reconhecer avanços nas negociações conduzidas pela Comissão Europeia, o líder francês afirmou que continuará lutando para proteger os interesses dos agricultores locais e assegurar que compromissos ambientais e produtivos sejam plenamente respeitados. Macron reforça que a etapa de votação não encerra a disputa política sobre o tema, mantendo a pressão sobre os parceiros europeus e sul-americanos.
A resistência de outros países europeus
A oposição francesa ao acordo UE-Mercosul encontra eco em outras nações do bloco. Países como Hungria, Polônia e Irlanda demonstraram alinhamento à posição de Macron. O vice-primeiro-ministro irlandês, Simon Harris, confirmou que seu país também votará contra o tratado nas instâncias decisórias da União Europeia.
No entanto, a resistência sofreu um revés estratégico com a Itália, que sinalizou retorno ao apoio ao acordo após negociações que resultaram em concessões financeiras. O governo italiano obteve a antecipação de aproximadamente US$ 48,6 bilhões (cerca de R$ 262,4 bilhões) em subsídios do orçamento europeu, destinados a acalmar produtores rurais preocupados com a competição direta com as commodities do Mercosul.
Votação decisiva e impacto para o Mercosul
A votação final no Conselho Europeu está marcada para sexta-feira (9), e, segundo avaliações internas, os votos contrários liderados pela França podem não ser suficientes para formar uma minoria de bloqueio. Caso o pacto seja aprovado, a assinatura formal poderá ocorrer já na próxima semana, abrindo caminho para um dos maiores acordos de livre comércio do mundo.
Para o Brasil e os demais países do Mercosul, a ratificação do tratado significaria acesso ampliado ao mercado europeu, incluindo setores estratégicos como veículos, máquinas, vinhos e bebidas. No entanto, o protecionismo agrícola e as tensões diplomáticas continuam sendo obstáculos relevantes para a implementação integral do acordo.
Protestos de agricultores franceses
A posição de Macron e a proximidade da votação geraram protestos em Paris nesta quinta-feira (8). Centenas de agricultores chegaram à capital francesa em tratores, reivindicando a suspensão do acordo e denunciando concorrência desleal com produtos sul-americanos. Alguns veículos pararam em pontos simbólicos, como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo, carregando mensagens contrárias ao pacto comercial.
Ludovic Ducloux, líder de uma das seções do sindicato Confederação Rural, declarou: “Dissemos que viríamos a Paris – e aqui estamos”. Já Damien Cornier, agricultor da região de Eure, ressaltou que os manifestantes buscam apenas preservar suas condições de trabalho e garantir a sobrevivência econômica do setor: “Só queremos trabalhar e ganhar a vida com a nossa profissão”.
Desafios e oportunidades do acordo
O tratado UE-Mercosul tem potencial para criar uma das maiores áreas de livre comércio global, promovendo intercâmbio comercial estratégico entre Europa e América Latina. Para a União Europeia, o acordo é uma oportunidade de exportar produtos manufaturados e industrializados, enquanto o Mercosul vislumbra expansão de suas commodities e fortalecimento econômico.
No entanto, os desafios permanecem significativos. A resistência de agricultores europeus, preocupados com preços mais baixos de produtos sul-americanos, e a necessidade de alinhamento ambiental e regulatório entre os blocos podem influenciar a implementação efetiva do tratado. A condução política de Macron e de outros líderes europeus será determinante para conciliar interesses econômicos e sociais.
A decisão de Macron rejeita acordo UE-Mercosul evidencia a complexidade das negociações comerciais internacionais e a importância de fatores políticos internos na aprovação de tratados. Enquanto a França lidera a resistência, outros países tentam equilibrar interesses econômicos e proteção de setores estratégicos. A assinatura definitiva do acordo dependerá da votação do Conselho Europeu e do alinhamento dos Estados-membros, incluindo concessões financeiras e ajustes regulatórios que possam acalmar produtores e minimizar impactos sociais.
O desfecho desse processo terá repercussão global, afetando relações comerciais, investimentos e a dinâmica política dentro da União Europeia e do Mercosul, confirmando que tratados internacionais vão muito além da economia e exigem habilidade diplomática e negociação estratégica.






