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Magazine Luiza (MGLU3) dispara 20,8% com expectativa de juros menores

Ações da varejista chegaram a R$ 12,38 nesta sexta-feira (9), impulsionadas pela reavaliação dos riscos econômicos e pelas expectativas para a Selic, apesar dos prejuízos recentes.

por Camila Braga
09/10/2026 às 17h06
em Mercados
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As ações do Magazine Luiza (MGLU3) registravam valorização de 20,78% na tarde desta sexta-feira (9), negociadas a R$ 12,38 por volta das 16h30, em mais uma sessão de recuperação das empresas brasileiras de varejo na B3. O avanço ocorre em meio à revisão das expectativas dos investidores sobre os rumos da política econômica e dos juros no Brasil após o primeiro turno das eleições presidenciais. Sem a divulgação de um novo fato relevante que explique individualmente a valorização, a alta da companhia acompanha a procura por ações consideradas mais sensíveis às mudanças nas condições de crédito e financiamento.

O movimento ganhou força ao longo da semana, depois que o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno presidencial à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O resultado foi interpretado por parte dos investidores como um fator de possível mudança na orientação da política fiscal a partir de 2027, embora as propostas econômicas dos candidatos ainda estejam sujeitas ao debate eleitoral. Essa avaliação contribuiu para a queda dos juros futuros e para a valorização de empresas cujos resultados são particularmente afetados pelo custo do dinheiro, como varejistas, construtoras e companhias com elevada exposição ao mercado doméstico.

Considerando a cotação de R$ 12,38 registrada nesta sexta-feira e o preço de R$ 7,61 observado no encerramento de 2 de outubro, as ações do Magazine Luiza acumulavam valorização aproximada de 62,7% na semana, segundo cálculo realizado a partir das séries históricas de negociação. A diferença corresponde a um ganho de R$ 4,77 por ação em cinco pregões. Em relação ao fechamento de setembro, de R$ 7,46, a valorização alcançava aproximadamente 66%, demonstrando a intensidade da recuperação recente do papel.

O avanço é expressivo também na comparação com o comportamento do setor. Desde o encerramento da semana anterior, as varejistas acompanhadas pelo BTG Pactual haviam registrado valorização média próxima de 12%, segundo levantamento divulgado pelo banco. O Magazine Luiza apresentou desempenho superior ao movimento setorial, refletindo sua maior sensibilidade às expectativas de juros e à percepção de risco dos investidores. A valorização, entretanto, não corresponde a uma melhora equivalente já observada nos resultados financeiros da empresa.

Juros menores podem aumentar lucro do Magazine Luiza em 19%, estima BTG

A expectativa de redução dos juros é um dos elementos centrais para compreender a valorização recente da varejista. O Magazine Luiza opera em segmentos como eletrodomésticos, móveis e eletrônicos, nos quais o financiamento das compras exerce influência direta sobre a demanda. Além disso, a companhia utiliza crédito para financiar parte de suas operações, o que torna o resultado financeiro sensível às mudanças na taxa básica de juros e nas condições de captação de recursos.

Em estudo divulgado nesta semana, o BTG Pactual estimou que uma redução de 100 pontos-base, equivalente a um ponto percentual, na taxa Selic poderia elevar o lucro líquido projetado do Magazine Luiza em aproximadamente 19%, mantendo constantes as demais variáveis consideradas no exercício. O cálculo não significa que essa melhora já tenha ocorrido, nem representa uma projeção de crescimento garantido. Trata-se de uma simulação sobre os efeitos potenciais de juros mais baixos nas despesas financeiras e nos resultados da companhia.

A dimensão desse benefício é superior à estimada pelo mesmo banco para outras varejistas. Segundo o levantamento, um corte de um ponto percentual na Selic teria impacto positivo aproximado de 9,9% sobre o lucro do Assaí (ASAI3), de 5,7% na Pague Menos (PGMN3) e de 5,1% no Grupo SBF (SBFG3). A diferença decorre da estrutura de financiamento, do endividamento e da relação entre despesas financeiras e lucro projetado de cada empresa.

O Banco Central mantém atualmente a Selic em 13,75% ao ano, depois de reduzi-la de 14% na reunião de setembro. A decisão deu continuidade ao ciclo de flexibilização monetária, mas o Comitê de Política Monetária (Copom) ressaltou que a inflação acima da meta e as incertezas internacionais exigem cautela na condução dos próximos movimentos. Isso significa que a perspectiva de juros menores possui fundamento no ciclo monetário em andamento, embora a intensidade e o calendário das próximas reduções permaneçam indefinidos.

Para o Magazine Luiza, a queda dos juros pode produzir efeitos diferentes ao longo do tempo. O primeiro é a redução das despesas relacionadas ao financiamento da companhia, dependendo das condições e dos prazos de suas obrigações. O segundo envolve a possibilidade de melhorar a oferta de crédito aos consumidores, ampliando o acesso a compras parceladas. Um terceiro efeito pode surgir do aumento da demanda por produtos de maior valor, caso as famílias recuperem capacidade de consumo.

Esses benefícios, contudo, não são automáticos. A elevada participação de dívidas no orçamento das famílias brasileiras pode limitar a disposição para novas compras, mesmo que o crédito fique mais barato. Além disso, bancos e financeiras consideram inadimplência, renda e risco de cada consumidor ao decidir sobre a concessão de empréstimos ou parcelamentos.

Valorização das ações ocorre após prejuízo de R$ 72,5 milhões no segundo trimestre

A recuperação do Magazine Luiza no mercado acionário contrasta com os resultados financeiros mais recentes da companhia. No segundo trimestre de 2026, a varejista registrou prejuízo líquido contábil de R$ 72,5 milhões, acima da perda de aproximadamente R$ 24,4 milhões apurada no mesmo período do ano anterior. Desconsiderando efeitos não recorrentes, o prejuízo ajustado foi de R$ 50,4 milhões, revertendo o lucro ajustado de R$ 1,8 milhão registrado entre abril e junho de 2025.

A receita líquida consolidada alcançou R$ 8,9 bilhões, queda de 2,6% na comparação anual, enquanto as vendas totais somaram R$ 14,5 bilhões, recuo de 5,1%. Os números mostram que a companhia ainda enfrenta dificuldades para expandir suas operações em um ambiente de crédito caro e consumo enfraquecido, apesar de avanços em determinadas atividades.

O desempenho das lojas físicas foi uma das principais exceções. As vendas nesse canal cresceram 10,3% em relação ao segundo trimestre de 2025, elevando sua participação no volume total de negócios de 30,7% para 35,7%. Em contrapartida, o comércio eletrônico apresentou retração de aproximadamente 12%, incluindo queda de 11,5% nas vendas digitais com estoque próprio e de 12,6% nas operações do marketplace.

A diferença entre os canais indica que a recuperação da rentabilidade dependerá de fatores adicionais à queda dos juros. A companhia precisa enfrentar a concorrência no comércio eletrônico, melhorar a eficiência de suas operações e ampliar a contribuição de serviços financeiros, logística e tecnologia para os resultados consolidados. O crescimento das lojas físicas ajudou a compensar parte da retração digital, mas não foi suficiente para impedir a diminuição das vendas totais.

O Ebitda ajustado, indicador utilizado para avaliar o desempenho operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, somou R$ 708,8 milhões no trimestre, queda de aproximadamente 2,5% na comparação anual. A margem Ebitda ajustada permaneceu em torno de 8%, mostrando relativa estabilidade operacional apesar da redução da receita.

O resultado financeiro foi um dos principais fatores de pressão sobre o lucro. Segundo análise do BB Investimentos, as despesas financeiras líquidas alcançaram R$ 572,3 milhões no segundo trimestre, refletindo o custo do endividamento e das operações de antecipação de recebíveis de cartões. O montante corresponde a aproximadamente 80,7% do Ebitda ajustado trimestral, comparação que ajuda a dimensionar o peso das despesas financeiras sobre a capacidade de geração de resultados da companhia.

Magazine Luiza tem dívida de R$ 4,9 bilhões e vencimento relevante em outubro

A estrutura de capital do Magazine Luiza também ajuda a explicar por que suas ações apresentam movimentos intensos diante de alterações nas expectativas de juros. Ao final do segundo trimestre, a dívida bruta da companhia estava próxima de R$ 4,9 bilhões, enquanto a dívida líquida alcançava aproximadamente R$ 3,2 bilhões, uma redução de 22% em relação ao mesmo período de 2025, segundo os dados examinados pelo BB Investimentos.

A companhia possui ainda cerca de R$ 4 bilhões em recebíveis de cartões de crédito, considerados em sua metodologia de caixa líquido ajustado. A inclusão desses valores leva a uma posição positiva de aproximadamente R$ 806 milhões, embora os recebíveis não devam ser confundidos integralmente com dinheiro imediatamente disponível em caixa, uma vez que possuem prazos e características próprias de realização.

Outro elemento relevante para a estrutura financeira é o vencimento da décima emissão de debêntures do Magazine Luiza, previsto para 15 de outubro. Em comunicado encaminhado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em agosto, a companhia informou que a operação envolve amortização próxima de R$ 900 milhões, correspondente ao vencimento final dos títulos.

O montante representa aproximadamente 18,4% da dívida bruta de R$ 4,9 bilhões divulgada para o segundo trimestre. Segundo esclarecimento da própria varejista, a amortização será realizada com recursos já disponíveis, reduzindo simultaneamente a dívida bruta e a posição de caixa. Por essa razão, a operação é considerada substancialmente neutra para a dívida líquida e não representa, isoladamente, uma melhora equivalente na situação econômica da empresa.

A informação é importante porque diferencia uma redução contábil do endividamento bruto de uma efetiva geração adicional de recursos. Ao quitar uma dívida com dinheiro existente, a companhia reduz obrigações futuras, mas também diminui seus ativos líquidos. Os benefícios financeiros posteriores dependem das características dos títulos, dos custos de refinanciamento e das demais necessidades operacionais.

A administração já havia informado que a amortização estava prevista contratualmente e não deveria ser interpretada como nova projeção de resultados. Assim, o vencimento das debêntures é um acontecimento financeiro conhecido pelo mercado, diferente de uma medida extraordinária capaz de explicar, por si só, a valorização registrada nesta sexta-feira.

Reprecificação do varejo ocorre antes de melhora efetiva dos lucros

O avanço das ações de varejistas não reflete apenas expectativas sobre despesas financeiras. Segundo o BTG Pactual, o primeiro movimento de recuperação do setor foi provocado principalmente pela redução do retorno exigido pelos investidores para manter posições em empresas brasileiras, diante da reavaliação dos riscos econômicos e políticos.

Nesse processo, os múltiplos de negociação aumentaram. O levantamento do banco mostrou que o preço mediano das ações do setor passou de aproximadamente oito para nove vezes o lucro projetado para 2027, uma elevação de 12,5% no múltiplo de avaliação. A mudança significa que os investidores passaram a aceitar pagar mais pelas mesmas estimativas de resultado futuro, mesmo sem revisões equivalentes nas projeções de lucro.

O fenômeno é conhecido no mercado financeiro como reprecificação dos ativos. Quando a percepção de risco diminui, o retorno exigido pode cair, elevando o valor atribuído aos fluxos de caixa futuros das empresas. O efeito costuma ser mais expressivo em companhias cujos resultados esperados estão concentrados em períodos posteriores e dependem fortemente das condições de financiamento.

Em análise divulgada na terça-feira (6), o Itaú BBA apresentou simulações para o setor utilizando diferentes hipóteses de crescimento econômico, redução dos juros e normalização dos múltiplos. Entre as empresas examinadas, o Magazine Luiza figurava em um grupo com potencial de valorização superior a 40% no cenário considerado pelo banco. Esse percentual é resultado de um exercício condicionado às premissas utilizadas e às cotações de referência do estudo, não podendo ser tratado como ganho garantido ou potencial remanescente após as altas posteriores.

O mesmo cuidado se aplica às estimativas de lucro associadas à Selic. Uma queda de um ponto percentual nos juros pode produzir benefícios financeiros, mas as ações também podem registrar perdas caso os investidores revisem suas expectativas, os resultados operacionais se deteriorem ou a melhora econômica prevista não se concretize.

O próprio comportamento recente das ações demonstra essa sensibilidade. O Magazine Luiza havia encerrado setembro a R$ 7,46 e chegou a R$ 12,38 nesta sexta-feira, diferença de R$ 4,92 por papel. A valorização aproximada de 66% ocorreu sem que a empresa tivesse apresentado novo balanço trimestral ou anunciado uma mudança operacional de dimensão semelhante nesse intervalo.

Inflação de setembro supera expectativas e aumenta incerteza sobre Selic

A recuperação do varejo ocorreu no mesmo dia em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma inflação acima das expectativas do mercado. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,82% em setembro, depois de recuar 0,32% em agosto. A diferença entre os dois resultados foi de 1,14 ponto percentual, refletindo principalmente o aumento dos preços da energia elétrica e de outros itens do orçamento das famílias.

No acumulado de 12 meses, a inflação alcançou 4,58%, ultrapassando o limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância da meta perseguida pelo Banco Central. A energia elétrica residencial subiu 7,98% no mês, influenciada pelo encerramento dos efeitos do desconto temporário associado ao Bônus de Itaipu.

A aceleração dos preços acrescenta dificuldades à trajetória de redução dos juros, uma vez que o Banco Central precisa avaliar se as pressões inflacionárias são temporárias ou podem comprometer a convergência à meta. O Copom também acompanha a evolução dos preços dos alimentos, dos serviços e das expectativas de inflação, além dos impactos do conflito no Oriente Médio sobre petróleo e combustíveis.

Apesar do resultado do IPCA, as ações brasileiras mais sensíveis aos juros continuaram valorizadas nesta sexta-feira. O comportamento indica que os investidores atribuíram peso relevante à revisão das expectativas sobre a política econômica no período posterior às eleições. Essa interpretação, entretanto, não significa que a inflação tenha perdido importância para as decisões monetárias ou para os resultados futuros das empresas.

Para o varejo, uma redução mais lenta da Selic pode adiar a recuperação das condições de crédito, especialmente em produtos vendidos por meio de financiamentos de prazo mais longo. Por outro lado, uma eventual combinação de inflação menor, melhora da renda e ampliação das concessões de crédito poderia favorecer a demanda, desde que acompanhada de condições financeiras sustentáveis.

A próxima divulgação de resultados do Magazine Luiza está prevista para 5 de novembro, quando a companhia deverá apresentar os números do terceiro trimestre de 2026. O balanço permitirá avaliar a evolução das vendas físicas e digitais, das despesas financeiras, da margem operacional e dos indicadores de crédito após o período de juros elevados.

Até lá, a valorização das ações continuará sendo influenciada por expectativas que ainda não se converteram integralmente em resultados. O avanço de 20,78% observado nesta sexta-feira e a recuperação superior a 60% em relação ao fechamento da semana anterior mostram a intensidade da reavaliação realizada pelos investidores. A sustentação desse movimento dependerá da confirmação das hipóteses econômicas que levaram o mercado a atribuir um valor maior à companhia, sobretudo a redução efetiva dos custos financeiros e a recuperação do consumo.

Fontes:

Magazine Luiza – comunicado ao mercado de 10 de agosto de 2026 encaminhado à Comissão de Valores Mobiliários, com esclarecimentos sobre endividamento e amortização de debêntures.

Magazine Luiza – divulgação de resultados do segundo trimestre de 2026, com informações sobre receita, prejuízo, margens, vendas e estrutura de capital.

BB Investimentos – análise dos resultados do Magazine Luiza no segundo trimestre de 2026, incluindo desempenho operacional, despesas financeiras, vendas digitais e endividamento.

Banco Central do Brasil – comunicado da decisão do Copom de setembro de 2026, com a definição da taxa Selic em 13,75% ao ano.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – divulgação do IPCA de setembro de 2026, com variação mensal, inflação acumulada e composição dos preços.

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