O Magazine Luiza (MGLU3) encerrou setembro de 2026 com o maior volume mensal de vendas do ano, segundo apuração publicada pelo Radar Econômico, da revista Veja. O resultado teria acrescentado aproximadamente R$ 1 bilhão ao montante comercializado pela companhia e ocorreu em um período de retração das vendas reais do varejo brasileiro, marcado por dificuldades no consumo e diferenças importantes de desempenho entre os canais físicos e digitais.
A evolução representa um sinal positivo para a varejista, que vinha enfrentando dificuldades para ampliar as vendas pela internet. No segundo trimestre, o comércio eletrônico da companhia recuou 11,9% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto as lojas físicas avançaram 10,3%. A empresa registrou, no conjunto, uma queda de 5,1% nas vendas totais, para R$ 14,5 bilhões.
A informação sobre o desempenho de setembro ainda não vem acompanhada, na publicação que revelou o recorde, de uma abertura detalhada dos valores por canal ou da base de comparação utilizada para calcular o acréscimo de aproximadamente R$ 1 bilhão. Assim, não é possível determinar a contribuição individual do comércio eletrônico, das lojas físicas e das vendas realizadas por plataformas parceiras para o resultado mensal. Segundo o Radar Econômico, a companhia não comentou as informações quando procurada.
O desempenho é relevante porque antecede o período de maior concentração de campanhas promocionais do varejo, que inclui a Black Friday e as compras de fim de ano. Para o Magazine Luiza, a possibilidade de sustentar o crescimento dependerá tanto da capacidade de atrair consumidores quanto da preservação das margens em um ambiente no qual preço, crédito e custos de operação influenciam a decisão de compra.
Crescimento da rede física e retração digital mudaram a composição das vendas
Os resultados divulgados pelo Magazine Luiza para o segundo trimestre ajudam a dimensionar o desafio enfrentado pela companhia antes da recuperação informada em setembro. Entre abril e junho de 2026, as vendas totais somaram R$ 14,5 bilhões, ante R$ 15,3 bilhões no mesmo intervalo de 2025. A diferença representa uma redução de aproximadamente R$ 778 milhões, calculada a partir dos valores divulgados pela empresa.
O resultado foi determinado pela divergência entre os canais. As lojas físicas movimentaram R$ 5,18 bilhões no segundo trimestre, contra R$ 4,70 bilhões um ano antes. O aumento foi de aproximadamente R$ 485 milhões. Já o comércio eletrônico, considerando tanto o estoque próprio quanto as vendas de terceiros em marketplace, recuou de R$ 10,59 bilhões para R$ 9,33 bilhões, uma redução próxima de R$ 1,26 bilhão.
A retração digital superou, portanto, o avanço obtido nas lojas físicas. A diferença ajuda a explicar por que a expansão do canal presencial não foi suficiente para impedir a queda das vendas consolidadas no período.
A mudança também alterou a composição do negócio. No segundo trimestre de 2025, as lojas físicas respondiam por 30,7% das vendas totais. Um ano depois, a participação passou para 35,7%, avanço de cinco pontos percentuais. No sentido oposto, o comércio eletrônico perdeu participação, passando de 69,3% para 64,3%.
O desempenho das unidades físicas foi associado pela empresa, entre outros fatores, à comercialização de produtos relacionados à Copa do Mundo de Futebol, com destaque para televisores. A companhia também informou ter obtido ganho de participação de mercado nesse canal. O avanço, contudo, não elimina a necessidade de recuperar o segmento digital, que concentra a maior parcela de suas vendas.
No comércio eletrônico, a retração atingiu tanto as operações com mercadorias próprias quanto o marketplace. As vendas de estoque próprio, identificadas pela companhia como operação 1P, caíram 11,5% no segundo trimestre, para aproximadamente R$ 5,76 bilhões. No marketplace, modelo em que vendedores terceiros comercializam produtos por meio da plataforma, as vendas recuaram 12,6%, para cerca de R$ 3,57 bilhões.
Os números mostram que a dificuldade não estava restrita à comercialização de produtos mantidos diretamente no estoque da varejista. O desempenho negativo dos dois modelos indicava a necessidade de ampliar o alcance comercial e recuperar a atratividade dos canais digitais, mantendo o controle sobre os custos de aquisição de clientes e a rentabilidade das transações.
Parcerias com marketplaces ampliam o alcance comercial
A ampliação da distribuição em plataformas de terceiros passou a ocupar uma posição central na estratégia do Magazine Luiza para recuperar o crescimento digital. A iniciativa permite que a companhia apresente mercadorias de seu próprio estoque a consumidores que utilizam outros ambientes de compras, sem depender exclusivamente do tráfego gerado por seus sites e aplicativos.
A parceria com a Amazon, iniciada em meados de junho de 2026, já integrava o plano anunciado pela empresa no balanço do segundo trimestre. Na ocasião, a administração indicou a intenção de ampliar a presença do catálogo em canais externos e associou essa estratégia à retomada das vendas on-line sem abandonar a disciplina de rentabilidade.
Em 15 de outubro, o grupo iniciou uma nova parceria com a Shopee. O acordo abrange produtos de estoque próprio das marcas Magazine Luiza e KaBuM!, incluindo eletrodomésticos, eletroeletrônicos, móveis, jogos e artigos de informática. Os itens são disponibilizados na seção de lojas oficiais da plataforma, enquanto as entregas ficam sob responsabilidade da Magalog, operação logística do grupo.
A iniciativa amplia o acesso da companhia à audiência de outra plataforma digital e abre a possibilidade de utilizar ferramentas de comércio social, como transmissões ao vivo e vídeos de produtos. A estratégia combina distribuição, divulgação e logística, com o objetivo de aumentar o alcance comercial sem exigir que o consumidor inicie a jornada de compra nos canais próprios do grupo.
A expansão, porém, não garante, por si só, crescimento rentável. As vendas realizadas por marketplaces externos estão sujeitas às condições comerciais de cada plataforma, aos custos logísticos e às despesas relacionadas à aquisição de clientes. A contribuição efetiva para o resultado depende do volume adicional obtido e do retorno financeiro de cada operação.
A distinção entre canais também é importante para a leitura dos próximos balanços. Quando o Magazine Luiza comercializa mercadorias próprias em uma plataforma externa, a operação corresponde à venda de estoque próprio, ou 1P. Já o marketplace tradicional da companhia reúne produtos comercializados por vendedores terceiros. A entrada em novos canais externos busca ampliar a distribuição do estoque próprio e não deve ser confundida automaticamente com crescimento das vendas de terceiros no marketplace da empresa.
Varejo nacional mantém pressão sobre bens duráveis
O recorde informado em setembro ocorreu em um mercado com indicadores ainda desfavoráveis. O Índice Cielo do Varejo Ampliado apontou queda real de 3,9% nas vendas do comércio brasileiro na comparação com setembro de 2025. O resultado foi o pior para o mês desde 2020 e representou o 16º mês consecutivo de retração real do indicador.
A contração foi disseminada, mas atingiu com maior intensidade segmentos importantes para o Magazine Luiza. Segundo a Cielo, as vendas de bens duráveis e semiduráveis caíram 7,3% em termos reais, enquanto o grupo de serviços registrou recuo de 9%. Os bens não duráveis apresentaram queda mais moderada, de 0,7%, indicando maior resistência relativa dos gastos com produtos essenciais.
A diferença entre o desempenho dos segmentos ajuda a explicar por que os resultados de cada varejista podem divergir do movimento agregado. Empresas com maior exposição a eletrodomésticos, eletrônicos, móveis e outros bens duráveis estão sujeitas às oscilações das compras de maior valor, que podem ser adiadas quando o consumidor enfrenta restrições de orçamento ou de crédito.
No mesmo levantamento, o comércio eletrônico brasileiro registrou crescimento nominal de 5,1% em setembro, enquanto as lojas físicas tiveram queda nominal de 0,1%. Esses indicadores descrevem o conjunto do varejo e não podem ser utilizados diretamente para calcular o desempenho real do Magazine Luiza. Além de abrangerem empresas e segmentos distintos, os números do comércio eletrônico divulgados pela Cielo são nominais, sem descontar a inflação.
A comparação, ainda assim, mostra que os canais de venda tiveram comportamentos diferentes no período. O resultado geral do comércio eletrônico foi positivo em valores correntes, embora o varejo tenha continuado a registrar retração real. Nesse contexto, a volta do crescimento digital informada para o Magazine Luiza precisa ser analisada em conjunto com o volume efetivamente vendido e a evolução das margens.
Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística também apontavam uma recuperação limitada do comércio até agosto. Na Pesquisa Mensal de Comércio, o volume de vendas do varejo cresceu 0,1% em relação a julho, após a queda de 0,8% registrada no mês anterior. Na comparação com agosto de 2025, a alta foi de 0,4%, enquanto o acumulado de janeiro a agosto chegou a 1,7%.
No varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, o volume de vendas caiu 0,2% na comparação mensal. A pesquisa do IBGE ainda não contemplava setembro na data de publicação desta reportagem, e a divulgação dos dados daquele mês estava prevista para 13 de novembro. Até lá, o indicador da Cielo constitui uma das referências disponíveis para acompanhar o desempenho agregado do comércio em setembro, embora adote metodologia própria.
A combinação entre os indicadores revela um mercado sem crescimento uniforme. Enquanto algumas empresas e canais conseguem ampliar suas vendas, os dados setoriais mostram que o consumo continuava pressionado. Por isso, o resultado mensal do Magazine Luiza não deve ser interpretado isoladamente como evidência de recuperação generalizada do varejo.
Resultado financeiro ainda exige recuperação operacional
A melhora informada para setembro precisa ser considerada à luz dos resultados financeiros apresentados pela varejista no trimestre anterior. Entre abril e junho, a receita líquida do Magazine Luiza somou R$ 8,9 bilhões, uma redução de 2,6% na comparação anual. O Ebitda ajustado, indicador de resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, atingiu R$ 708,8 milhões, com margem de 8%.
O lucro líquido ajustado, por sua vez, foi negativo em R$ 50,4 milhões, ante resultado positivo de R$ 1,8 milhão no segundo trimestre de 2025. Considerados os efeitos não recorrentes, o prejuízo contábil chegou a R$ 72,5 milhões. Os números mostram que a companhia ainda precisava recompor o desempenho financeiro, apesar do avanço nas vendas presenciais e da manutenção de uma margem operacional relevante.
A estrutura de caixa oferecia uma base para sustentar a estratégia comercial. Ao final de junho, o grupo informou posição total de caixa de R$ 5,8 bilhões e caixa líquido ajustado de R$ 800 milhões. A geração de caixa operacional foi de R$ 258,8 milhões no trimestre. Esses indicadores, entretanto, não eliminam a necessidade de avaliar se o crescimento das vendas digitais será suficiente para compensar os custos de distribuição e preservar a rentabilidade.
O avanço de setembro constitui um sinal favorável para a operação, mas ainda faltam dados públicos detalhados que permitam verificar sua composição e sustentabilidade. O acréscimo de aproximadamente R$ 1 bilhão informado pelo Radar Econômico não permite, sem uma base de comparação explicitada, calcular uma taxa de crescimento anual ou atribuir o resultado a uma única iniciativa comercial.
O próximo ponto de atenção será a capacidade do Magazine Luiza de manter o ritmo de vendas com a aproximação da Black Friday e do Natal. A evolução do comércio eletrônico, a contribuição dos marketplaces parceiros e o comportamento das lojas físicas serão determinantes para avaliar se o desempenho de setembro representa uma mudança consistente em relação à retração observada no primeiro semestre.
Fontes:
Magazine Luiza — divulgação de resultados do segundo trimestre de 2026, com dados de vendas por canal, receita, Ebitda, resultado líquido e posição de caixa.
Cielo — Índice Cielo do Varejo Ampliado de setembro de 2026, com variações reais do varejo, desempenho por segmento e indicadores dos canais físico e digital.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Pesquisa Mensal de Comércio de agosto de 2026, com indicadores de volume de vendas e variações mensais, anuais e acumuladas.
B3 — cadastro da Magazine Luiza S.A. e confirmação do código de negociação MGLU3.
Estadão/Broadcast — informações sobre o início da parceria entre Magazine Luiza, KaBuM! e Shopee em outubro de 2026, categorias comercializadas e operação logística da Magalog.







