Mercado projeta preço do petróleo Brent a US$ 70: especialista analisa impactos da guerra no Oriente Médio
A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que já se estende por 13 dias e mantém o Estreito de Ormuz praticamente bloqueado, tem provocado fortes repercussões nos mercados globais. O preço do petróleo Brent superou os US$ 100 na manhã desta quinta-feira, cotado a US$ 97,73 às 9h, refletindo a alta volatilidade e a preocupação internacional com o fornecimento de energia. No entanto, especialistas apontam que, apesar do impacto imediato, os contratos futuros indicam uma estabilidade relativa para os próximos meses.
Alex André, analista de Corporate Access da MZ Group, destacou em entrevista ao Pré-Market, do Times Brasil, que a percepção de longo prazo do mercado é mais moderada do que os noticiários sugerem. “Mesmo com o choque do preço do petróleo no curto prazo, a curva de longo prazo projeta um Brent médio próximo de US$ 70”, afirmou André, trazendo uma visão de calma em meio à turbulência.
Mercado à vista x contratos futuros: duas leituras distintas
O especialista explica que é importante diferenciar os dois segmentos do mercado de petróleo. O mercado à vista, mais sensível, reage imediatamente às notícias sobre ataques, bloqueios e declarações políticas, como as oscilações do presidente americano Donald Trump, que alterna entre indicar o fim do conflito e sinalizar novas ações militares.
Por outro lado, os contratos futuros revelam expectativas mais cautelosas. O mercado não aposta em um conflito prolongado, levando em consideração fatores como a pressão do G7 pela liberação de reservas estratégicas, a insatisfação de Trump com o aumento dos custos de energia e o contexto político interno nos Estados Unidos, marcado pelas eleições de meio de mandato e pela inflação crescente.
Essa análise detalhada reforça que, apesar da volatilidade do preço do petróleo Brent no curto prazo, a tendência de médio e longo prazo é de acomodação, com o mercado projetando preços mais próximos de US$ 70 o barril.
O papel do novo líder do Irã na estabilidade do petróleo
Outro ponto de atenção no cenário global é a incerteza sobre o comportamento do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, que assumiu após a morte de seu pai em ataques realizados por Israel e Estados Unidos. Segundo André, a postura do novo governo será decisiva para definir o rumo do preço do petróleo Brent.
Se o Irã optar por ampliar os ataques, a volatilidade do mercado permanecerá elevada. Caso o novo governo busque uma postura mais conciliatória, os preços podem se estabilizar mais rapidamente. “Tudo depende se os Estados Unidos vão avançar em novas ofensivas ou se irão cessar as tensões. Essa decisão influenciará diretamente a curva de preços do Brent”, acrescentou o especialista.
Impactos para a economia brasileira
O cenário de alta do preço do petróleo Brent chega em um momento delicado para o Brasil. O mercado já projetava uma Selic mais alta antes do início do conflito, e o aumento nos custos de energia tende a reforçar pressões inflacionárias, segundo as últimas estimativas do Boletim Focus. Agentes de mercado agora consideram uma Selic terminal próxima de 13%.
Para André, entretanto, é necessário que o Banco Central ajuste sua estratégia de forma pragmática. “Os juros estão disfuncionais. O custo de capital no Brasil está muito caro”, afirmou, ressaltando que sinais recentes da economia real justificam uma intervenção, mesmo que gradual.
Essa avaliação ganha peso diante de situações recentes no setor empresarial brasileiro. Grandes redes como Raízen e Grupo Pão de Açúcar entraram com pedidos de recuperação extrajudicial, evidenciando dificuldades em custear dívidas e reforçando a necessidade de políticas monetárias calibradas. “Existem empresas listadas na bolsa que não estão conseguindo custear o custo da dívida. Isso acaba impactando toda a cadeia econômica”, alertou André.
Estratégia de cortes graduais pelo Banco Central
A proposta do analista é de ação imediata e cautelosa: reduzir a Selic agora, mesmo que em 0,25 ponto percentual, e ajustar os próximos movimentos de acordo com a evolução do conflito no Oriente Médio. Se as tensões diminuírem e o preço do petróleo Brent se normalizar, o Banco Central terá espaço para acelerar cortes futuros, podendo chegar a reduções de 0,5 a 0,75 ponto percentual.
“Se o preço do petróleo normalizar no curto prazo, o Banco Central pode cortar um pouco mais na frente. Isso pode até acelerar o ciclo de cortes”, disse André. A próxima reunião do Copom, marcada para a quarta-feira da semana seguinte, será decisiva, mas até lá o Banco Central mantém silêncio institucional, sem manifestações públicas sobre a política monetária.
Perspectivas globais: volatilidade e recuperação
Enquanto o cenário político no Oriente Médio mantém o preço do petróleo Brent volátil, os mercados internacionais acompanham de perto qualquer sinal de estabilização. A tendência de médio prazo, apoiada em contratos futuros, sugere uma acomodação do preço próximo a US$ 70 o barril, reforçando que o impacto imediato da guerra pode ser atenuado por decisões estratégicas e pressões internacionais.
Especialistas apontam que a coordenação de reservas estratégicas pelo G7, junto a medidas internas dos Estados Unidos, será determinante para evitar choques prolongados no mercado energético global. Além disso, a resposta diplomática do Irã e a postura americana em evitar escaladas adicionais serão fatores críticos para a estabilidade dos preços e para o equilíbrio econômico mundial.
O alerta para investidores e empresas brasileiras
Para empresas brasileiras e investidores, a volatilidade do petróleo é um alerta sobre os riscos de curto prazo, mas também uma oportunidade de planejar estratégias de hedge e ajustar portfólios. A dinâmica do preço do petróleo Brent influencia diretamente custos de produção, transporte e preços ao consumidor, além de impactar investimentos em setores sensíveis à energia.
A atenção agora se volta para a evolução do conflito, a política monetária brasileira e a resposta do mercado global de petróleo, elementos que definirão o ritmo de recuperação e a estabilidade econômica. O cenário exige monitoramento constante, decisões ágeis e estratégia bem fundamentada para minimizar impactos e aproveitar oportunidades de mercado.









