O escritório de advocacia do ex-presidente Michel Temer (MDB) firmou um contrato de até R$ 30 milhões com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, para atuar na tentativa de viabilizar a aquisição de parte da instituição financeira pelo Banco de Brasília (BRB). O acordo, datado de 3 de setembro de 2025, previa R$ 10 milhões em honorários iniciais e outros R$ 20 milhões condicionados à conclusão da operação, que dependia de autorização do Banco Central. A negociação acabou rejeitada pela autoridade monetária, mas os documentos revelados nesta quarta-feira (14) mostram que a contratação abrangia procedimentos judiciais, acompanhamento de uma representação perante o Tribunal de Contas da União (TCU) e interlocução com órgãos públicos.
As informações sobre o contrato foram reveladas pelo jornal O Globo, com base em documentos e mensagens trocadas entre Vorcaro e o publicitário Elsinho Mouco, interlocutor do ex-presidente. O material detalha a estrutura dos honorários, as atribuições previstas para o escritório e as dificuldades enfrentadas pelo banqueiro para realizar pagamentos durante os meses que antecederam a liquidação do Master. Procurados pelo jornal para comentar a nova revelação, Temer e Mouco não se manifestaram.
A existência de pagamentos ao escritório do ex-presidente, porém, já havia sido divulgada anteriormente. Em abril deste ano, documentos encaminhados pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado mostraram que o Banco Master declarou repasses de R$ 10 milhões ao escritório de Temer em 2025. À época, o ex-presidente confirmou a contratação para serviços jurídicos de mediação, mas apresentou um valor diferente: segundo sua versão, foram recebidas duas parcelas, de R$ 5 milhões e R$ 2,5 milhões, totalizando R$ 7,5 milhões.
A comparação entre os dados fiscais e os termos do contrato torna a revelação mais relevante. Embora os valores inicialmente previstos se aproximem dos declarados pelo banco, os documentos disponíveis publicamente não permitem reconciliar integralmente os pagamentos nem concluir que o escritório recebeu os R$ 30 milhões estabelecidos como remuneração máxima. Também não há demonstração de que os R$ 20 milhões condicionados ao sucesso da operação tenham se tornado devidos, já que a aquisição não foi autorizada.
Como funcionava o contrato de R$ 30 milhões
O acordo dividia a remuneração do escritório em duas modalidades. A primeira correspondia a honorários fixos de R$ 10 milhões, com pagamento previsto em duas parcelas: R$ 5 milhões na assinatura e outros R$ 5 milhões após 30 dias. A segunda, de R$ 20 milhões, estava vinculada ao êxito da negociação envolvendo o Banco Master e o BRB.
Conforme as cláusulas divulgadas pela imprensa, os honorários adicionais seriam pagos 20 dias depois da conclusão definitiva do negócio, condicionada à autorização do Banco Central. Essa previsão tornava a aprovação regulatória determinante para a maior parte da remuneração contratada. Em termos proporcionais, dois terços do valor máximo do acordo dependiam de um resultado que estava fora do controle direto das partes e submetido à análise da autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro.
O contrato também especificava os serviços que seriam prestados. O escritório deveria acompanhar uma ação judicial relacionada ao Banco Central, atuar em uma representação apresentada ao TCU e buscar mediação junto às autoridades competentes para viabilizar a negociação entre as instituições financeiras. A documentação mencionava ainda a possibilidade de questionamento de decisões tomadas no âmbito da autoridade monetária, cuja atuação vinha sendo contestada pelo próprio Master.
Uma das frentes envolvia uma representação apresentada pelo Banco Bluebank, integrante do mesmo grupo financeiro, ao Tribunal de Contas da União. Segundo o material divulgado pelo O Globo, o procedimento foi distribuído ao ministro Jhonatan de Jesus. O contrato estabelecia que os profissionais do escritório de Temer trabalhariam em conjunto com outros advogados já contratados pela instituição, indicando uma atuação articulada entre diferentes equipes jurídicas.
As atribuições previstas demonstram que o objetivo da contratação não se limitava à análise documental de uma operação societária. A prestação de serviços envolvia iniciativas judiciais e administrativas relacionadas aos obstáculos enfrentados pelo Master durante a negociação. A atuação de escritórios de advocacia nesses procedimentos é uma atividade profissional admitida pela legislação. A existência de honorários elevados ou de remuneração por êxito, isoladamente, não constitui prova de irregularidade.
Banco Central vetou a aquisição no mesmo dia da assinatura
Um dos aspectos mais relevantes da cronologia é que o contrato foi assinado em 3 de setembro de 2025, mesma data em que o Banco Central decidiu rejeitar a operação entre o Banco Master e o BRB. Naquela noite, o Banco de Brasília divulgou um fato relevante informando ao mercado que havia recebido a comunicação de indeferimento do requerimento apresentado em 28 de março daquele ano.
A transação previa a aquisição de 49% das ações ordinárias e de 100% das ações preferenciais do Banco Master. Segundo informações oficiais do BRB, essa composição representava 58,04% do capital social total da instituição. O negócio, portanto, não envolvia a compra integral do banco, mas uma participação majoritária que permitiria formar um novo conglomerado financeiro sob a liderança da instituição controlada pelo governo do Distrito Federal.
O projeto vinha sendo apresentado pelo BRB como parte de uma estratégia de expansão nacional e diversificação de negócios. Em agosto de 2025, a instituição havia informado que a operação já contava com anuência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e aguardava a conclusão da análise do Banco Central. Também havia sido sancionada uma lei distrital autorizando o banco público a adquirir a participação societária pretendida.
A decisão da autoridade monetária alterou o curso da negociação. No comunicado divulgado em setembro, o BRB informou que solicitara acesso à íntegra dos fundamentos do indeferimento para avaliar eventuais medidas. Sem a autorização exigida para a mudança societária, a transação não poderia ser concluída nas condições previstas.
A coincidência entre a data do veto e a assinatura do contrato com o escritório de Temer exige cuidado na interpretação dos fatos. Os documentos conhecidos mostram que a contratação ocorreu em meio à etapa decisiva da análise regulatória, mas não estabelecem o horário exato de todos os acontecimentos nem demonstram que a decisão do Banco Central tenha sido influenciada pela atuação do ex-presidente. O resultado formal da análise foi desfavorável à operação.
Mensagens mostram cobranças de pagamentos a Daniel Vorcaro
O publicitário Elsinho Mouco teve participação direta na comunicação entre o escritório de Temer e o controlador do Banco Master. Segundo os registros divulgados pelo O Globo, ele encaminhou o contrato a Vorcaro em 3 de setembro de 2025, informando que o documento já estava assinado e continha os dados bancários necessários para a transferência dos honorários.
No dia seguinte, Mouco voltou a procurar o banqueiro para tratar do pagamento e solicitar o comprovante de transferência. As cobranças continuaram ao longo de setembro, outubro e novembro, período em que o Master enfrentava dificuldades financeiras crescentes. Em algumas mensagens, Vorcaro mencionou problemas administrativos e pendências na tesouraria que estariam atrasando os repasses.
Os diálogos indicam que, mesmo depois do veto do Banco Central, a questão dos honorários continuou sendo discutida entre os envolvidos. Em outubro, diante de novas cobranças, Vorcaro relatou dificuldades para manter as operações da instituição e afirmou que sua situação estava particularmente complicada. Em novembro, o publicitário voltou a pedir prioridade para os pagamentos, mencionando compromissos financeiros do escritório.
Em 11 de novembro de 2025, Mouco informou que havia recebido metade do valor que estava sendo cobrado naquele momento. A mensagem, contudo, não identifica de maneira inequívoca a quantia a que ele se referia. Por isso, não é possível utilizar esse registro isoladamente para determinar o montante total transferido ao escritório.
As informações fiscais divulgadas meses depois ajudam a dimensionar a questão, mas não eliminam todas as diferenças. De um lado, o Banco Master declarou à Receita Federal R$ 10 milhões em pagamentos ao escritório de Temer durante 2025, conforme documentos obtidos pela Folha de S.Paulo. De outro, o próprio ex-presidente reconheceu o recebimento de R$ 7,5 milhões, distribuídos em duas parcelas. Os dados disponíveis não esclarecem a origem da divergência de R$ 2,5 milhões.
A distinção também afeta a interpretação do contrato revelado agora. Os R$ 30 milhões representam o teto da remuneração prevista, e não uma quantia comprovadamente recebida. Os R$ 10 milhões correspondem aos honorários iniciais contratados e ao montante informado pelo Master em sua documentação fiscal. Já os R$ 7,5 milhões constituem o valor que Temer declarou ter efetivamente recebido por serviços prestados à instituição.
Temer reconheceu serviços de mediação ao Banco Master
A manifestação anterior de Michel Temer oferece um contraponto importante às novas informações. Ao comentar os pagamentos identificados nos documentos fiscais, em abril de 2026, o ex-presidente afirmou que seu escritório havia sido contratado para uma atividade jurídica de mediação relacionada à negociação entre o Master e o BRB. Ele reconheceu os recebimentos, mas contestou o valor declarado pela instituição financeira.
Essa posição antecede a reportagem de 14 de outubro, que tornou públicos os detalhes da estrutura contratual e das mensagens envolvendo Mouco e Vorcaro. Até a conclusão desta apuração, não havia sido identificada uma nova manifestação de Temer especificamente sobre a integralidade das cláusulas divulgadas pelo O Globo.
A atuação profissional do ex-presidente ocorreu em um contexto no qual diferentes grupos políticos, escritórios de advocacia e consultorias mantinham contratos com o Banco Master. Documentos fiscais analisados pela Folha também identificaram pagamentos a profissionais e empresas ligados a outros ex-integrantes de governos e dirigentes partidários, com valores variados e serviços declarados de natureza jurídica, econômica e institucional.
Em levantamento publicado em abril, o jornal identificou pagamentos declarados pelo Master a dezenas de escritórios de advocacia ao longo de quatro anos. O volume dessas contratações evidencia a dimensão da rede de assessoria profissional formada em torno da instituição, especialmente durante sua expansão e posterior crise. Os dados fiscais, entretanto, não especificam individualmente os serviços executados em cada contrato, o que impede concluir, apenas com base nas transferências, que tenham ocorrido condutas irregulares.
No caso de Temer, a documentação divulgada em outubro permite compreender melhor o objeto dos serviços negociados, ao relacioná-los diretamente à tentativa de superar obstáculos judiciais e regulatórios à aquisição pelo BRB. Ainda assim, a avaliação sobre a efetiva execução das atividades dependeria do exame dos procedimentos acompanhados, das manifestações apresentadas pelos advogados e dos registros financeiros correspondentes.
Relação com Vorcaro incluía contatos anteriores e reuniões em Dubai
As conversas analisadas pelo O Globo indicam que os contatos entre Michel Temer e Daniel Vorcaro começaram antes da assinatura do contrato de setembro de 2025. Registros de outubro de 2023 mostram aproximação relacionada à produção de um documentário sobre a trajetória política do ex-presidente, intitulado 963 Dias.
Na ocasião, Vorcaro procurou Temer para tratar do projeto, e Elsinho Mouco ficou responsável por encaminhar informações sobre a possibilidade de patrocínio. Segundo a apuração divulgada pelo jornal, um fundo ligado à família do banqueiro adquiriu uma cota de R$ 1 milhão na produção audiovisual, cujo orçamento total informado foi de R$ 12 milhões.
Os registros posteriores também mostram que Temer e Vorcaro mantiveram contato direto após a formalização do contrato jurídico. Entre as conversas estão mensagens sobre a organização de compromissos internacionais, especialmente reuniões realizadas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, no início de novembro de 2025.
De acordo com o material divulgado, o ex-presidente auxiliou na organização de encontros do banqueiro com interlocutores estrangeiros, incluindo representantes de Dubai e do Iraque. Essas agendas ocorreram quando o Master já buscava alternativas à negociação frustrada com o BRB e enfrentava dificuldades de liquidez.
Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando pretendia embarcar para Dubai. A Polícia Federal interpretou a viagem como uma tentativa de fuga, enquanto o banqueiro sustentou que o deslocamento estava relacionado a negociações empresariais. A referência às reuniões anteriores não permite concluir que Temer tivesse conhecimento de eventual intenção de fuga ou participação em irregularidades relacionadas à viagem.
Liquidação do Banco Master encerrou tentativa de solução
No dia seguinte à prisão de Vorcaro, em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições integrantes do conglomerado. A decisão marcou o encerramento da tentativa de preservar o banco por meio de uma solução negociada com outros grupos financeiros.
Em comunicado oficial, a autoridade monetária informou que a medida foi motivada pela grave crise de liquidez, pelo comprometimento significativo da situação econômico-financeira do conglomerado e por violações às normas que disciplinam o funcionamento das instituições financeiras. A decisão também determinou providências relacionadas à administração do regime especial e à apuração de responsabilidades.
A liquidação ocorreu pouco mais de dois meses depois do veto à aquisição pelo BRB. Nesse intervalo, o Master continuou buscando alternativas de reorganização, enquanto os registros apresentados pela imprensa mostram que os pagamentos relacionados à contratação do escritório de Temer permaneciam em discussão.
A sequência dos acontecimentos delimita o alcance do resultado previsto no contrato. Como a operação com o BRB não recebeu a autorização do Banco Central, não foi cumprida a condição estabelecida para os honorários de êxito de R$ 20 milhões. O desfecho também evidencia que a contratação do escritório não foi suficiente para produzir a aprovação regulatória pretendida pelo banco.
A divulgação do acordo acrescenta um elemento à compreensão das relações mantidas pelo Master com profissionais que ocuparam posições relevantes na administração pública. No caso de Temer, as novas informações permitem identificar o valor máximo negociado, os serviços jurídicos previstos e a participação de intermediários nas tratativas. Não demonstram, por si só, pagamento indevido ou interferência irregular nas decisões dos órgãos públicos.
Permanece sem esclarecimento público completo a composição dos pagamentos feitos ao escritório, diante da diferença entre o valor declarado pelo Master à Receita Federal e aquele reconhecido pelo ex-presidente. A documentação também não permite identificar todas as atividades efetivamente executadas no âmbito do contrato.
O fato comprovado pelos registros oficiais é que o Banco Central rejeitou a aquisição de participação majoritária do Master pelo BRB em setembro de 2025 e decretou a liquidação da instituição em novembro. Já o contrato milionário e as mensagens divulgadas nesta quarta-feira ajudam a reconstruir as iniciativas adotadas pelo banco para tentar concluir o negócio e preservar suas operações durante os meses que antecederam sua intervenção.







