O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), teve seu nome associado a uma suspeita de encontro com garotas de programa durante uma festa organizada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Mensagens encontradas no celular do empresário registram que um funcionário relatou a presença de um ministro acompanhado de cinco mulheres em um quarto de seu triplex, em São Paulo, na noite de 28 de fevereiro de 2025. Uma semana depois, uma mulher responsável por intermediar a participação de convidadas no evento procurou o banqueiro para cobrar R$ 10 mil e afirmou que uma delas havia ficado com alguém identificado apenas como “Kassio”.
A revelação foi publicada pela jornalista Daniela Lima, do UOL, em 13 de outubro de 2026, e posteriormente repercutida por outros veículos, entre eles a Revista Fórum, em reportagem de Julinho Bittencourt. Segundo a apuração original, investigadores da Polícia Federal (PF) e interlocutores do STF consideram a possibilidade de que o homem mencionado nas conversas seja Kassio Nunes Marques. A associação, entretanto, não está comprovada: os registros divulgados não identificam expressamente o magistrado como participante da festa, tampouco demonstram que o ministro citado pelo funcionário seja a mesma pessoa chamada de “Kassio” na cobrança posterior.
As mensagens apresentam uma sequência de acontecimentos que inclui a organização de um churrasco para aproximadamente 15 pessoas, orientações sobre o recolhimento de celulares, a disponibilização de um quarto para um convidado tratado como ministro e cobranças relacionadas à participação de garotas de programa. Um relatório de despesas vinculado ao evento registra gastos de aproximadamente R$ 62,3 mil. O conjunto dessas informações ampliou os questionamentos sobre a natureza dos encontros privados promovidos por Vorcaro e sua relação com pessoas de influência política e institucional.
Procurado após a divulgação da reportagem, Nunes Marques afirmou que nunca solicitou favores ao banqueiro, não manteve conversas por mensagens com ele e jamais autorizou terceiros a agir em seu nome. A manifestação, porém, não esclareceu especificamente se esteve na festa de fevereiro de 2025. A ausência dessa resposta não representa confirmação de sua presença, que permanece sem comprovação pública.
Funcionário relatou presença de ministro com cinco mulheres
A festa ocorreu em 28 de fevereiro de 2025, em um triplex utilizado por Daniel Vorcaro na capital paulista. Embora não estivesse acompanhando pessoalmente todas as etapas do encontro, o empresário recebia atualizações de funcionários responsáveis pela recepção dos convidados, pela preparação do espaço e pela organização dos serviços contratados.
Às 14h25, um funcionário identificado como Gustavo tratou com Vorcaro do recolhimento dos aparelhos celulares das garotas de programa que participariam do evento, segundo a reportagem original do UOL. A medida aparece nas conversas como parte das orientações dadas à equipe encarregada da recepção. Os registros não esclarecem se todos os aparelhos foram efetivamente recolhidos nem por quanto tempo permaneceram sob responsabilidade dos organizadores.
Em outro diálogo, mantido com um interlocutor identificado como Luiz Rennó, o banqueiro mencionou que estava preparando uma recepção para um ministro em São Paulo. A referência ganhou importância quando, horas depois, outro funcionário passou a relatar a movimentação de um convidado identificado pelo mesmo cargo.
Às 20h56, Michael, responsável por acompanhar o andamento da festa no imóvel, informou a Vorcaro que havia disponibilizado um quarto para um ministro acompanhado de cinco mulheres. A mensagem dizia que o funcionário tentara solicitar autorização antes de ceder o espaço, mas não conseguira falar com o empresário.
A comunicação sugere que o convidado recebeu tratamento diferenciado dos demais participantes, com a disponibilização de um ambiente reservado. O registro, porém, não esclarece a identidade do homem, nem permite determinar o que ocorreu dentro do quarto.
Às 22h58, Michael voltou a mencionar o participante, informando que ele permanecia na festa e havia demonstrado disposição para prolongar o encontro. Cerca de 20 minutos depois, às 23h17, o funcionário comunicou sua saída.
A sequência de horários permite estabelecer a duração aproximada dos relatos sobre a permanência do convidado no imóvel, mas não comprova que o homem mencionado fosse Kassio Nunes Marques. Os trechos divulgados não apresentam sobrenome, imagem ou identificação funcional suficientemente específica para estabelecer essa conclusão.
A interpretação de que o participante poderia ser o presidente do TSE surgiu posteriormente, a partir do cruzamento desses registros com outra conversa encontrada no celular de Vorcaro.
Cobrança de R$ 10 mil mencionou encontro com “Kassio”
Em 7 de março de 2025, uma semana depois da festa, uma mulher identificada como Rayanna procurou Daniel Vorcaro para tratar de um pagamento relacionado à participação de uma convidada no encontro.
Segundo os registros divulgados pelo UOL, a intermediária perguntou ao banqueiro se a participação de sua amiga havia ocorrido conforme o esperado. Em seguida, afirmou que a mulher havia ficado com alguém chamado “Kassio” e que estava cobrando o pagamento.
Vorcaro respondeu solicitando os dados necessários para realizar a transferência e perguntou qual era a quantia devida. Rayanna informou que o valor era de R$ 10 mil e reiterou que a convidada havia se encontrado com o homem mencionado.
O diálogo constitui o principal elemento de ligação entre o nome Kassio e a festa realizada no triplex. Embora apareça no contexto de um evento com garotas de programa, a conversa não apresenta a identificação completa do suposto participante nem descreve detalhadamente o serviço ao qual a cobrança se referia.
Também não há confirmação de que o pagamento tenha sido realizado. Os registros mostram a solicitação de dados para transferência, mas não incluem documentação bancária suficiente para demonstrar o repasse dos R$ 10 mil à intermediária ou à mulher mencionada.
O material divulgado não permite determinar, ainda, se a pessoa chamada de “Kassio” na conversa de março é a mesma identificada como ministro pelo funcionário Michael na noite de 28 de fevereiro.
Essa distinção é essencial para compreender o alcance das suspeitas. A reportagem original reúne duas referências surgidas em momentos diferentes: a primeira descreve a presença de um ministro acompanhado de mulheres; a segunda registra uma cobrança relacionada a uma pessoa identificada por um primeiro nome. A hipótese de que ambas correspondam a Kassio Nunes Marques depende de elementos adicionais de identificação.
Segundo o UOL, investigadores consideram essa possibilidade. Não foi apresentada, contudo, confirmação oficial ou prova pública independente que estabeleça a presença do magistrado na festa, sua participação em eventual encontro remunerado ou o recebimento de qualquer benefício custeado por Vorcaro.
Festa de Vorcaro teve despesas superiores a R$ 62 mil
Os documentos divulgados também ajudam a dimensionar a estrutura mobilizada para o evento. Vorcaro havia contratado um chef para preparar um churrasco destinado a um grupo inicialmente estimado em 15 convidados, enquanto funcionários cuidavam da alimentação, das bebidas e de outras providências necessárias à recepção.
Um relatório de despesas associado à festa registra gastos próximos de R$ 62,3 mil. A relação inclui alimentos, bebidas, insumos e serviços prestados pela equipe encarregada da organização.
Esse montante não deve ser confundido com os R$ 10 mil solicitados posteriormente por Rayanna. O primeiro representa as despesas registradas na preparação e realização do encontro. O segundo corresponde a uma cobrança individual, apresentada em uma conversa posterior e associada à participação de uma das mulheres.
Os registros tornados públicos não esclarecem se o pagamento mencionado pela intermediária já estava incluído no orçamento da festa ou se seria realizado separadamente. Também não permitem identificar todas as pessoas que compareceram ao evento.
A combinação entre contratação de serviços, organização de mulheres convidadas, recolhimento de celulares e atualizações constantes enviadas ao empresário revela uma estrutura de apoio para a realização de recepções privadas. Esses elementos, isoladamente, não permitem concluir que cada encontro ou participante estivesse envolvido em alguma irregularidade.
O interesse público sobre o episódio está relacionado à possibilidade de que pessoas que ocupam cargos relevantes no Estado tenham participado de eventos financiados por um empresário posteriormente investigado por suspeitas de irregularidades financeiras e de exploração sexual. A comprovação dessa hipótese, entretanto, exige a identificação dos envolvidos e a análise das circunstâncias específicas de cada encontro.
Kassio Nunes Marques nega ter solicitado favores a Vorcaro
Após a publicação da reportagem de Daniela Lima, Kassio Nunes Marques encaminhou uma manifestação ao UOL negando ter solicitado benefícios a Daniel Vorcaro.
Na nota, o ministro afirmou que nunca trocou mensagens com o empresário e que não autorizou outras pessoas a falar em seu nome. Também declarou não poder ser responsabilizado por conversas ou atitudes de terceiros.
Nunes Marques acrescentou que não proferiu decisões favoráveis ao banqueiro e mencionou seu voto pela manutenção da prisão do ex-controlador do Banco Master.
A manifestação foi divulgada na tarde de 13 de outubro, depois que os diálogos encontrados no celular do empresário ganharam repercussão nacional.
Embora trate da inexistência de pedidos de favores e de comunicações diretas entre o magistrado e Vorcaro, a nota não responde de maneira específica à possibilidade de participação na festa de 28 de fevereiro de 2025.
Essa circunstância foi observada por comentaristas do UOL, que defenderam a apuração das referências presentes nas mensagens. A ausência de uma negativa específica, contudo, não equivale a uma admissão de presença ou participação.
O fato de Kassio Nunes Marques integrar o STF e presidir o TSE amplia a relevância institucional das informações. Eventuais relações entre magistrados e pessoas com interesses em procedimentos judiciais podem suscitar questionamentos sobre imparcialidade, conflitos de interesse e vantagens indevidas.
Para avaliar uma situação concreta, porém, é indispensável demonstrar quem participou do encontro, em quais condições ocorreu e se houve algum benefício relacionado ao exercício da função pública. Nenhum desses elementos foi comprovado publicamente em relação a Nunes Marques no episódio da festa.
Polícia Federal investiga estrutura de prostituição associada ao banqueiro
A divulgação das mensagens sobre a festa ocorreu no mesmo dia em que uma investigação jornalística do UOL apresentou informações sobre uma suposta rede internacional de prostituição financiada por Daniel Vorcaro.
A reportagem, assinada por Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fabio Serapião, apontou que o empresário teria investido pelo menos R$ 4,3 milhões em uma estrutura de recrutamento de mulheres e organização de encontros privados, com participação de intermediários responsáveis por viagens, hospedagens e pagamentos.
Segundo a investigação, a operação envolvia mulheres de diferentes nacionalidades, incluindo ucranianas, russas, venezuelanas e argentinas. Parte das participantes estaria em situação de vulnerabilidade, inclusive mulheres que deixaram a Ucrânia em decorrência da guerra.
Os documentos obtidos pelo UOL mencionam ainda uma agência de modelos utilizada nas negociações, a Allure Eventos, e a atuação de intermediários como Diogo Batista e Leonardo Serrano, associados à organização dos encontros e à contratação de serviços.
A Polícia Federal abriu um inquérito em maio de 2026 para apurar a participação de mulheres estrangeiras nesses eventos e possíveis irregularidades relacionadas à contratação dos serviços.
Esse procedimento é distinto da hipótese envolvendo Kassio Nunes Marques. A existência de uma investigação sobre a estrutura de recrutamento não significa que a presença do magistrado na festa tenha sido comprovada ou que ele figure formalmente como investigado nesse episódio.
No Brasil, a prostituição voluntária entre adultos não constitui crime. A exploração sexual, o favorecimento de atividades ilícitas e o tráfico de pessoas são questões juridicamente diferentes, sujeitas a requisitos específicos de caracterização e comprovação.
A condição de uma pessoa como convidada de um evento também não demonstra, por si só, envolvimento com crimes eventualmente praticados por seus organizadores.
Vorcaro contesta acusações e autenticidade das mensagens
Daniel Vorcaro rejeitou as acusações relacionadas à suposta rede de prostituição. Em manifestação encaminhada ao UOL, o empresário negou ter explorado ou desrespeitado mulheres e contestou a divulgação de informações privadas extraídas de seu aparelho celular.
A defesa afirmou que o ex-banqueiro não reconhece a autoria, a autenticidade ou o contexto de parte das conversas divulgadas. Também criticou os vazamentos de material obtido durante investigações e a exposição de informações pessoais.
O empresário declarou estar disposto a prestar esclarecimentos às autoridades pelos meios legais e indicou que pretende questionar a divulgação de conteúdos que considera indevidos.
A manifestação não esclarece individualmente todos os registros referentes à festa de fevereiro de 2025, mas estabelece a contestação apresentada pelo empresário diante das acusações de exploração de mulheres e dos materiais publicados pela imprensa.
A análise dos diálogos depende tanto da verificação técnica de sua autenticidade quanto da reconstrução do contexto em que foram produzidos. Mensagens privadas podem oferecer elementos relevantes a uma investigação, mas referências incompletas a terceiros não substituem procedimentos de identificação e confirmação dos acontecimentos.
Relação entre empresários e autoridades permanece no centro da apuração
O episódio envolvendo as mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro acrescenta um novo elemento à discussão sobre as relações entre empresários do setor financeiro e pessoas que ocupam cargos de influência no poder público.
A eventual participação de autoridades em encontros privados custeados por empresários pode suscitar questões institucionais quando houver demonstração de vantagens, conflitos de interesse ou relação com decisões oficiais. Entretanto, tais circunstâncias não podem ser presumidas apenas com base na existência de uma festa ou na menção a um primeiro nome em conversas de terceiros.
No caso divulgado pelo UOL, há três questões centrais ainda sem esclarecimento público conclusivo: quem era o homem identificado como ministro na noite de 28 de fevereiro, quem era a pessoa chamada de “Kassio” na cobrança de 7 de março e se o pagamento de R$ 10 mil foi efetivamente realizado.
As mensagens mostram que um funcionário relatou ter disponibilizado um quarto para um ministro acompanhado de cinco mulheres. Também registram que uma intermediária afirmou que sua amiga havia ficado com uma pessoa chamada “Kassio” e cobrou o pagamento relacionado ao encontro.
A associação desses registros a Kassio Nunes Marques foi apresentada como hipótese por investigadores ouvidos pela reportagem original. Até agora, entretanto, não há confirmação pública de que o presidente do TSE tenha comparecido à festa ou mantido relações com garotas de programa contratadas no contexto dos eventos organizados por Vorcaro.
A identificação dos participantes e o esclarecimento das circunstâncias são necessários para determinar se existe qualquer desdobramento jurídico ou institucional. Enquanto essas informações não forem verificadas, o envolvimento de Kassio Nunes Marques permanece uma suspeita atribuída a fontes da investigação, e não uma conclusão demonstrada pelos documentos divulgados.







