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Análise aponta 316 registros de contatos atribuídos a Moraes e Vorcaro

Levantamento identifica mensagens e outros registros atribuídos ao ministro do STF no celular do ex-controlador do Banco Master; Moraes nega as conversas e questiona a integridade do material.

por Carlos Menezes
06/11/2026 às 12h56
em Política
Alexandre De Moraes - Gzt - Gazeta Mercantil

Uma nova análise de dados extraídos do celular do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, aponta a existência de 316 registros de interação com um contato identificado como sendo do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre setembro e novembro de 2025. O levantamento, divulgado nesta sexta-feira, 6 de novembro de 2026, amplia as informações anteriormente conhecidas sobre as comunicações atribuídas aos dois, incluindo mensagens de caráter pessoal e possíveis tratativas para um encontro em Brasília poucos dias antes da prisão do banqueiro. Moraes nega ter mantido os diálogos apresentados e contesta a autenticidade e a integridade das informações.

Dos 316 registros identificados no levantamento, 187 correspondem a mensagens enviadas por Vorcaro, enquanto os outros 129 abrangem mensagens atribuídas ao contato do ministro e notificações geradas pelo próprio aplicativo de comunicação. A contagem inclui diferentes tipos de eventos, como mensagens de texto, imagens, chamadas e avisos do sistema, não sendo correto interpretá-la como 316 conversas completas ou 316 mensagens trocadas diretamente entre os dois.

A nova análise afirma ter recuperado o conteúdo de 17 mensagens que não apareciam no relatório inicialmente divulgado pela Polícia Federal. Os registros foram obtidos a partir de bases de dados secundárias do WhatsApp, utilizadas pelo aplicativo para armazenar informações auxiliares. Parte dos arquivos originais permanece indisponível, e algumas frases foram reconstruídas a partir de palavras armazenadas fora de ordem, circunstância que limita a precisão de determinadas interpretações. A nova contagem e os textos recuperados ainda não foram confirmados por uma perícia independente publicamente disponível.

O caso já integra procedimentos em tramitação no Supremo. Em setembro, a Corte confirmou oficialmente a existência de um relatório policial com supostos diálogos relacionados a Moraes e informou que o Plenário examinava questões processuais sobre a validade e o encaminhamento do material. O mérito das suspeitas não foi julgado.

Mensagens sugerem encontro em Brasília três dias antes da prisão

Entre os registros apresentados no novo levantamento estão comunicações datadas de 14 de novembro de 2025, quando Vorcaro viajou de São Paulo para Brasília em uma aeronave particular. A sequência atribuída aos interlocutores indica que o banqueiro teria informado sua chegada à capital federal e recebido mensagens sobre um possível deslocamento para encontrá-lo.

Os dados apontam contatos realizados durante a tarde daquele dia. Uma mensagem atribuída a Moraes teria solicitado que Vorcaro avisasse quando pousasse, enquanto outra indicaria que o interlocutor estava a caminho depois da confirmação da chegada do empresário.

A sequência é compatível com uma possível combinação de encontro, mas não comprova que a reunião tenha efetivamente ocorrido. A confirmação dependeria de outros elementos, como registros de deslocamento, informações de acesso ao local e documentação independente que permitisse verificar a presença dos envolvidos.

Outras comunicações atribuídas aos contatos teriam ocorrido em 12 de novembro, envolvendo comentários sobre compromissos familiares e assuntos pessoais. Segundo a análise divulgada, a linguagem utilizada nessas interações sugere uma relação de familiaridade, diferente da comunicação estritamente institucional.

A interpretação sobre o grau de proximidade, entretanto, depende da autenticidade e do contexto integral dos registros. As informações disponíveis não permitem reconstruir todas as conversas nem determinar, apenas a partir das mensagens recuperadas, a natureza completa do relacionamento entre o banqueiro e o magistrado.

Polícia Federal havia identificado 52 mensagens enviadas por Vorcaro

A controvérsia teve origem em um relatório elaborado pela Polícia Federal em agosto de 2026, com base no exame do aparelho celular apreendido durante a primeira prisão de Daniel Vorcaro, em novembro do ano anterior.

A análise policial identificou um conjunto de 52 registros associados a textos preparados pelo empresário no aplicativo de notas do telefone. O procedimento descrito consistia em escrever mensagens, fazer capturas de tela e encaminhar as imagens pelo WhatsApp utilizando o recurso de visualização única.

Como esse mecanismo permite que o conteúdo desapareça depois de aberto pelo destinatário, os investigadores recorreram à correlação de informações armazenadas no aparelho. Entre os elementos examinados estavam horários de criação dos arquivos, registros de utilização de aplicativos e metadados relacionados ao envio de mensagens.

A documentação encaminhada ao Supremo relacionou essas atividades a um contato salvo na agenda de Vorcaro com o nome de Alexandre de Moraes. O relatório, contudo, não recuperou integralmente as respostas que teriam sido enviadas pelo interlocutor, uma das principais limitações apontadas durante a discussão sobre o material.

As novas informações divulgadas nesta sexta-feira procuram ampliar esse conjunto documental a partir de registros que permanecem armazenados em bases auxiliares do aplicativo. A existência desses arquivos não substitui a necessidade de verificar a origem dos dados, a correspondência com os registros originais e a integridade da extração.

Também é necessário distinguir as 52 mensagens analisadas inicialmente pela Polícia Federal das 17 mensagens adicionais apresentadas no novo levantamento. A soma de 69 se refere ao conjunto de mensagens cujo conteúdo teria sido recuperado ou identificado, enquanto as 316 ocorrências abrangem uma categoria mais ampla de registros digitais.

Vorcaro teria buscado ajuda diante de medidas contra o Banco Master

As informações anteriormente encaminhadas ao STF indicam que Vorcaro demonstrava preocupação com a possibilidade de novas medidas da Polícia Federal e do Banco Central contra o Banco Master.

Entre os textos atribuídos ao empresário estão referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O conteúdo examinado sugere que Vorcaro buscava informações sobre a evolução das investigações e avaliava a possibilidade de conseguir uma intervenção que adiasse providências contra a instituição financeira.

A existência desses pedidos não demonstra que tenham sido atendidos. Também não permite concluir que Moraes tenha fornecido informações sigilosas, interferido em investigações ou atuado para impedir medidas das autoridades. Essas hipóteses exigem comprovação específica e não podem ser deduzidas exclusivamente das mensagens atribuídas ao banqueiro.

A cronologia é relevante porque a crise do Banco Master atingiu seu ponto mais grave em novembro de 2025. No dia 18 daquele mês, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição e de outras empresas do conglomerado, em razão de problemas de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

A decisão ocorreu no mesmo período da primeira prisão de Vorcaro, realizada no âmbito da Operação Compliance Zero. As investigações examinam suspeitas de irregularidades financeiras, incluindo operações com carteiras de crédito negociadas com o Banco de Brasília (BRB).

O Banco Central informou posteriormente que sua área de supervisão identificou inconsistências nessas carteiras e realizou análises técnicas que apontaram a insubsistência de determinados ativos. A autoridade monetária também comunicou os indícios de irregularidades ao Ministério Público Federal e adotou medidas preventivas para limitar novos riscos ao BRB.

As decisões regulatórias são documentadas oficialmente. Já uma eventual interferência externa sobre sua execução depende de apuração própria e não está demonstrada pelos registros apresentados até agora.

Moraes nega diálogos e contesta integridade das provas

Alexandre de Moraes rejeita a existência das conversas atribuídas a ele e sustenta que o relatório produzido a partir do celular de Vorcaro apresenta inconsistências. Em manifestações relacionadas ao caso, o ministro também questionou a cadeia de custódia do aparelho e a forma como as informações foram extraídas e interpretadas.

A cadeia de custódia reúne os procedimentos destinados a documentar a preservação, o armazenamento, o manuseio e a análise de vestígios utilizados como prova. No caso de evidências digitais, o exame inclui a integridade dos arquivos, os métodos de extração e a possibilidade de reproduzir tecnicamente os resultados.

A defesa de Vorcaro também apresentou questionamentos sobre a preservação dos dados e o tratamento conferido ao conteúdo apreendido. O próprio STF determinou, em março de 2026, a abertura de investigação para apurar o vazamento de informações retiradas de aparelhos do banqueiro.

Esses questionamentos não significam automaticamente que o material seja falso ou imprestável. Da mesma forma, a existência de registros técnicos associados a determinado contato não comprova, isoladamente, que todas as mensagens tenham sido efetivamente redigidas ou recebidas pela pessoa identificada.

O debate sobre a validade das informações está entre as questões submetidas ao Supremo. A Procuradoria-Geral da República já apresentou manifestação contestando o relatório policial, enquanto procedimentos relacionados ao caso também examinam alegações de irregularidades na condução das investigações.

Em setembro, o Plenário iniciou a análise de uma questão de ordem envolvendo duas petições relacionadas ao Banco Master. Uma delas trata do relatório com menções a Moraes; a outra foi aberta a partir de informações apresentadas pelo próprio ministro sobre a atuação de investigadores.

O julgamento foi interrompido por pedido de vista de Flávio Dino, sem decisão definitiva sobre a validade do material ou eventual responsabilização de autoridades.

Contratos com escritório da família de Moraes também integram o caso

As informações sobre o relacionamento entre Vorcaro e Moraes ganharam relevância adicional em razão dos contratos firmados entre empresas ligadas ao Banco Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, conduzido por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

A documentação examinada nas investigações inclui contratos de prestação de serviços jurídicos, registros de pagamentos e comunicações relacionadas às atividades profissionais do escritório. Os valores associados aos contratos alcançariam aproximadamente R$ 130 milhões, conforme os documentos e informações tornados públicos no contexto do caso.

A contratação de serviços jurídicos por uma instituição financeira não constitui, por si só, uma irregularidade. A análise de eventual conflito de interesses exige considerar as atividades efetivamente contratadas, os pagamentos realizados, a existência de processos relacionados e a participação individual de pessoas que possam ter exercido influência sobre decisões públicas.

O escritório possui personalidade e atuação profissional próprias, distintas das funções exercidas pelo ministro no Supremo. A investigação sobre eventuais irregularidades precisa estabelecer fatos concretos que justifiquem qualquer responsabilização, sem presumir participação de familiares ou integrantes do Judiciário apenas pela existência dos contratos.

A documentação relacionada às operações continua sendo examinada no âmbito dos procedimentos judiciais e administrativos ligados ao Banco Master.

STF mantém investigação sob gestão provisória de Fachin

Em 29 de outubro de 2026, o presidente do STF, Edson Fachin, decidiu manter temporariamente sob a gestão da Presidência os procedimentos da Operação Compliance Zero relacionados às petições 15.556 e 16.662.

A decisão foi adotada porque as investigações contêm referências a autoridades com prerrogativa de foro no Supremo. A condução provisória permite a análise de medidas urgentes, mas não representa definição permanente sobre a competência nem conclusão sobre a responsabilidade de qualquer pessoa mencionada.

Fachin estabeleceu que a permanência dos procedimentos na Presidência será limitada a até 90 dias, contados de 12 de setembro, ou até que ocorram determinados eventos processuais, incluindo a conclusão de julgamento pendente e a apresentação de informações complementares solicitadas à Polícia Federal.

Em comunicado institucional de 13 de outubro, o Supremo informou que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, participou de reunião com Fachin para tratar do encaminhamento de informações envolvendo autoridades com foro na Corte.

O presidente do tribunal afirmou que as referências encontradas durante investigações devem ser encaminhadas com seu contexto, em caráter descritivo. Também destacou que a realização de atos investigativos contra ministros depende dos procedimentos e das autorizações aplicáveis.

A Lei Orgânica da Magistratura estabelece regras específicas para situações em que surgem indícios de crime envolvendo magistrados. O artigo 33, parágrafo único, prevê o encaminhamento dos autos ao tribunal competente, responsável por decidir sobre o prosseguimento das providências cabíveis.

A exigência busca preservar a competência constitucional do órgão judicial e a regularidade da investigação, sem impedir a apuração de eventuais ilícitos.

Novas informações ainda dependem de validação técnica

O principal desdobramento desta sexta-feira é a ampliação do conjunto de registros digitais atribuídos às comunicações entre Vorcaro e Moraes. A identificação de 316 ocorrências, incluindo mensagens cujo conteúdo não havia aparecido nas análises anteriores divulgadas publicamente, acrescenta informações ao debate sobre o relacionamento entre os dois.

Entretanto, a nova contagem não representa uma conclusão oficial da Polícia Federal divulgada nesta data. Parte do material foi recuperada por técnicas de análise de bases secundárias, e os próprios registros apresentam limitações decorrentes da exclusão de mensagens e da organização dos dados armazenados.

A diferença entre um registro de atividade digital e uma mensagem efetivamente autenticada será central para qualquer avaliação judicial. A confirmação de encontros, o conteúdo integral das conversas e a eventual existência de pedidos atendidos por autoridades dependerão de provas adicionais.

No âmbito da investigação principal, a Polícia Federal apresentou em 28 de outubro um relatório parcial com 15 indiciamentos e solicitou mais 60 dias para concluir perícias e diligências complementares. As imputações abrangem suspeitas de gestão fraudulenta, falsidade em informações contábeis, organização criminosa e lavagem de capitais, conforme a participação atribuída a cada investigado.

O relatório parcial da Operação Compliance Zero e os procedimentos relativos às menções a ministros do STF possuem objetos e consequências processuais que precisam ser diferenciados. O indiciamento de participantes do esquema financeiro não significa que Moraes tenha sido indiciado.

A definição sobre o tratamento das novas informações dependerá da avaliação de sua autenticidade, da manifestação das autoridades competentes e das decisões do Supremo. Até agora, os registros divulgados ampliam os questionamentos sobre a relação entre o ex-controlador do Banco Master e o ministro, mas não estabelecem a ocorrência de interferência indevida em investigações ou decisões do Banco Central.

Fontes:

Supremo Tribunal Federal — Comunicado de 15 de setembro de 2026 sobre as petições 16.662 e 16.704, o relatório da Polícia Federal e a suspensão da análise pelo Plenário.

Supremo Tribunal Federal — Comunicados de 13 e 29 de outubro de 2026 sobre o encaminhamento de informações envolvendo magistrados e a gestão provisória da Operação Compliance Zero.

Polícia Federal — Comunicado de 28 de outubro de 2026 sobre os 15 indiciamentos e a continuidade das diligências da Operação Compliance Zero.

Banco Central do Brasil — Comunicado nº 44.234, de 18 de novembro de 2025, e esclarecimentos institucionais sobre a liquidação do Banco Master e as operações com carteiras de crédito do BRB.

Procuradoria-Geral da República — Nota de esclarecimento de 9 de outubro de 2026 sobre as tratativas de colaboração premiada de Daniel Vorcaro.

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