A AMP Pay Marketing e Negócios, empresa citada em uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo plataformas de apostas, transferiu R$ 17,7 milhões à Talismã Digital, ligada à influenciadora Virginia Fonseca. Os pagamentos foram realizados em cinco operações via Pix entre março e setembro de 2024, período em que a empresária mantinha contratos publicitários com a casa de apostas Blaze. As movimentações foram consideradas atípicas pelo Banco Santander e comunicadas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
As informações constam de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) encaminhado à CPI das Bets do Senado Federal em 2025, segundo documentos revelados em apurações divulgadas nesta sexta-feira (6). A Polícia Federal também examina possíveis vínculos entre o advogado Willer Tomaz e a AMP Pay, investigando se a empresa teria sido utilizada na circulação de recursos associados a operações financeiras suspeitas.
A assessoria de Virginia Fonseca afirmou que os pagamentos recebidos pela Talismã Digital correspondem a campanhas publicitárias regularmente contratadas. A influenciadora também declarou que não conhece Willer Tomaz, nunca manteve contato com ele e não possui contratos em que o advogado figure como parte. A defesa não especificou quais campanhas justificaram os cinco pagamentos identificados nos documentos.
Willer Tomaz, por sua vez, negou categoricamente qualquer vínculo societário ou administrativo com a AMP Pay. O advogado afirmou que não é sócio, acionista ou administrador da empresa e que as informações utilizadas para associá-lo à companhia foram interpretadas incorretamente. O proprietário formal da AMP Pay, Guilherme Maciel, também negou conhecer Tomaz ou manter relações empresariais com ele.
As suspeitas ainda dependem de esclarecimentos sobre a origem dos recursos e a natureza das operações. A existência de transferências financeiras e sua comunicação ao Coaf não comprova, isoladamente, lavagem de dinheiro ou participação dos destinatários em eventuais irregularidades.
AMP Pay transferiu R$ 17,7 milhões em cinco operações via Pix
Os repasses à Talismã Digital chamaram a atenção dos mecanismos de monitoramento do Banco Santander, responsável por comunicar as movimentações ao Coaf. O volume financeiro foi considerado incompatível com determinados elementos cadastrais e tributários da empresa remetente, especialmente seu enquadramento no Simples Nacional.
A AMP Pay Marketing e Negócios está registrada em Itajaí, Santa Catarina, com capital social declarado de R$ 50 mil. Segundo as informações cadastrais atribuídas à Receita Federal, a empresa atua em atividades de intermediação e agenciamento de serviços e negócios, além de marketing direto.
O regime tributário do Simples Nacional estabelece limite geral de receita bruta anual de R$ 4,8 milhões para a permanência de empresas elegíveis. O montante de R$ 17,7 milhões transferido à Talismã Digital entre março e setembro de 2024 supera esse valor, circunstância que contribuiu para a classificação das operações como atípicas pela instituição financeira.
Entretanto, há uma distinção relevante entre movimentação financeira e faturamento. Empresas que atuam na intermediação de pagamentos podem movimentar valores pertencentes a terceiros, sem que todos os recursos que transitam por suas contas representem necessariamente receita própria. A identificação de eventual irregularidade tributária exige verificar a natureza das operações, os contratos comerciais, os registros contábeis e a parcela efetivamente reconhecida como receita da empresa.
Guilherme Maciel, identificado como proprietário da AMP Pay, declarou que a companhia funcionou regularmente como intermediadora de pagamentos entre 2024 e 2025. Ele não detalhou, nas manifestações divulgadas, quais serviços estavam relacionados aos valores transferidos à empresa de Virginia Fonseca.
A investigação procura esclarecer se as operações representavam pagamentos por serviços efetivamente prestados, repasses realizados por conta de terceiros ou movimentações incompatíveis com a atividade declarada da empresa.
Polícia Federal investiga possível ligação de Willer Tomaz com a AMP Pay
A Polícia Federal examina a atuação de Willer Tomaz em operações financeiras relacionadas ao setor de apostas. Um dos elementos considerados pelos investigadores é uma comunicação enviada ao Magnum Bank em 2024, na qual haveria referências a participações societárias e vínculos do advogado com determinadas empresas.
Segundo informações extraídas dos documentos investigativos, a AMP Pay foi incluída entre as pessoas jurídicas cuja atuação merece aprofundamento. A suspeita é de que algumas empresas possam ter funcionado como instrumentos intermediários para movimentar valores e dificultar a identificação dos beneficiários finais de determinadas operações.
Tomaz contesta essa interpretação. Em esclarecimento divulgado após a publicação das informações, sua assessoria afirmou que o documento enviado ao Magnum Bank não demonstra participação na AMP Pay. Segundo a defesa, a mensagem do banco solicitava esclarecimentos sobre uma relação de sociedades, e a resposta do advogado teria excluído expressamente a AMP Pay e a Artemis por não existir vínculo com nenhuma das duas.
O advogado também declarou desconhecer os proprietários da AMP Pay e afirmou não ter condições de explicar as transferências realizadas à Talismã Digital. Para sua defesa, esses esclarecimentos devem ser solicitados diretamente às empresas responsáveis pelos pagamentos e aos destinatários.
A divergência sobre o conteúdo do documento constitui um dos pontos que precisam ser esclarecidos pelas autoridades. A eventual identificação de participação societária não declarada depende de provas documentais, financeiras ou contratuais que demonstrem o efetivo controle ou a influência exercida sobre a empresa.
A Polícia Federal também analisa a possibilidade de que plataformas de apostas tenham sido utilizadas em operações destinadas a dificultar o rastreamento de recursos. Entre os mecanismos examinados estão depósitos sucessivos, apostas de valores elevados, reaplicação de ganhos e retiradas posteriores de dinheiro.
Essas práticas podem dificultar a reconstrução das movimentações financeiras quando associadas a operações estruturadas para ocultar a origem ou a destinação dos recursos. Entretanto, movimentações elevadas em plataformas de apostas não demonstram automaticamente a existência de crime, sendo necessário comprovar a origem ilícita dos valores ou outros elementos exigidos pela legislação penal.
Willer Tomaz movimentou bilhões em apostas, segundo dados da Fazenda
O advogado também aparece em documentos relacionados a movimentações de grande volume em plataformas de apostas. Informações atribuídas a uma nota técnica do Ministério da Fazenda apontam que Tomaz realizou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas ao longo de 2025, figurando entre os maiores movimentadores de recursos nas plataformas analisadas.
A cifra exige uma interpretação específica. O valor total apostado corresponde ao volume acumulado de operações, e não necessariamente ao dinheiro inicialmente depositado pelo usuário. Recursos obtidos em apostas anteriores podem ser utilizados novamente em outras rodadas, fazendo com que o volume registrado nas transações cresça significativamente sem representar uma entrada equivalente de novos recursos.
Documentos mencionados nas investigações também apontam depósitos e retiradas de centenas de milhões de reais, além de operações realizadas na Blaze. Os investigadores procuram identificar se o padrão de movimentação é compatível com a atividade declarada e com a origem dos recursos utilizados.
Outra frente de apuração envolve a possível existência de vínculos comerciais ou operacionais entre Tomaz e empresas relacionadas à plataforma. A Polícia Federal identificou coincidências de endereços empresariais e movimentações financeiras que justificariam o aprofundamento das diligências, sem que esses elementos, isoladamente, comprovem participação societária oculta.
O advogado já contestou publicamente interpretações relacionadas a suas operações em casas de apostas e afirmou que os recursos possuem origem lícita e compatível com seus rendimentos. As investigações permanecem em andamento, sem conclusão definitiva sobre as suspeitas examinadas.
Virginia Fonseca já prestou depoimento à CPI das Bets
A relação comercial de Virginia Fonseca com empresas de apostas foi examinada anteriormente pelo Senado. Em 13 de maio de 2025, a influenciadora compareceu à CPI das Bets para prestar esclarecimentos sobre contratos publicitários, divulgação de jogos online e possíveis impactos das campanhas sobre seus seguidores.
Durante o depoimento, Virginia confirmou que realizava publicidade para empresas do setor e afirmou que seus contratos estavam vinculados à prestação de serviços de divulgação. A empresária negou receber remuneração calculada sobre as perdas financeiras dos apostadores que acessavam as plataformas por meio de seus conteúdos.
A influenciadora também explicou que determinadas cláusulas contratuais estabeleciam remuneração adicional associada ao desempenho comercial das campanhas, mas negou que esses pagamentos correspondessem a percentuais sobre os prejuízos dos usuários.
Amparada por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, Virginia optou por não revelar publicamente os valores específicos recebidos em contratos com casas de apostas. Ela se comprometeu, contudo, a encaminhar documentos contratuais à comissão parlamentar.
A relatora da CPI, senadora Soraya Thronicke, propôs o indiciamento da influenciadora por suspeitas de publicidade enganosa e estelionato. O relatório final, entretanto, foi rejeitado em 12 de junho de 2025, por quatro votos contrários e três favoráveis, encerrando os trabalhos da comissão sem a aprovação das propostas de indiciamento.
A rejeição do relatório significa que o colegiado não aprovou as conclusões apresentadas pela relatora. Não equivale, por si só, a um julgamento judicial sobre todas as situações examinadas, mas também não autoriza afirmar que a influenciadora tenha sido formalmente indiciada pela CPI.
Os repasses de R$ 17,7 milhões divulgados nesta sexta-feira acrescentam um novo elemento às discussões sobre os contratos comerciais da Talismã Digital, embora não exista demonstração pública de que os pagamentos estejam diretamente relacionados a alguma atividade ilícita.
O que significa uma movimentação suspeita comunicada ao Coaf
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras é responsável por receber e analisar comunicações encaminhadas por instituições obrigadas a monitorar operações financeiras potencialmente incompatíveis com o perfil econômico de seus clientes.
Essas comunicações podem ser feitas quando uma instituição identifica movimentações consideradas atípicas, como transferências de valores elevados, operações incompatíveis com a atividade empresarial declarada ou padrões que demandem investigação adicional.
A classificação de uma transação como suspeita não constitui prova de crime. Trata-se de um mecanismo de inteligência financeira destinado a identificar situações que precisam ser examinadas pelas autoridades competentes.
No caso da AMP Pay, a comunicação das transferências ao Coaf indica que as movimentações ultrapassaram os parâmetros de atenção adotados pelo banco responsável pelo monitoramento. A análise posterior deverá considerar documentos fiscais, contratos publicitários, identificação dos pagadores e beneficiários e a origem dos recursos transferidos.
Também será necessário verificar se a empresa atuava como contratante direta das campanhas de Virginia Fonseca ou apenas como intermediadora financeira de pagamentos realizados por terceiros. Essa diferença é relevante tanto para a avaliação tributária quanto para a identificação de possíveis responsabilidades.
Investigação busca esclarecer origem e destino dos pagamentos
A apuração sobre os repasses à Talismã Digital envolve questões financeiras distintas que ainda não foram esclarecidas integralmente. A primeira diz respeito à natureza comercial das cinco transferências realizadas em 2024 e à identificação dos serviços que justificaram os pagamentos.
Outra questão é a eventual relação entre a AMP Pay e Willer Tomaz, negada pelo advogado e pelo proprietário formal da empresa. A comprovação de qualquer vínculo dependerá do exame dos documentos societários e das movimentações financeiras associados à investigação.
Por fim, as autoridades procuram estabelecer se as operações possuem alguma conexão com o uso de plataformas de apostas para circulação ou ocultação de recursos. Até o momento, os elementos divulgados não demonstram que Virginia Fonseca tenha participado de um esquema de lavagem de dinheiro ou que os pagamentos recebidos por sua empresa sejam comprovadamente ilícitos.
A influenciadora sustenta que os recursos remuneraram campanhas publicitárias regularmente contratadas. Willer Tomaz e Guilherme Maciel negam manter relações empresariais entre si. A identificação de eventuais irregularidades dependerá da análise dos documentos financeiros e das conclusões das autoridades responsáveis.
O episódio evidencia a complexidade das relações entre publicidade digital, intermediadoras de pagamentos e plataformas de apostas, especialmente quando transações de grande valor envolvem múltiplas empresas. O desafio dos órgãos de fiscalização será distinguir operações comerciais legítimas de eventuais mecanismos de ocultação financeira, preservando a responsabilização individual baseada em provas.
Fontes:
Senado Federal — CPI das Bets, notas taquigráficas da 17ª reunião, realizada em 13 de maio de 2025, com depoimento de Virginia Fonseca.
Senado Federal — Comunicado de 12 de junho de 2025 sobre a rejeição do relatório final da CPI das Bets.
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) — Orientações institucionais sobre comunicações de operações suspeitas e produção de inteligência financeira.
Receita Federal — Normas e critérios de enquadramento no Simples Nacional, incluindo o limite anual de receita bruta.
Banco Central do Brasil — Regulamentação e informações institucionais sobre o funcionamento das instituições de pagamento.









