O ouro encerrou a sexta-feira (9) em alta de 1,43% na bolsa de Nova York, com o contrato futuro para dezembro negociado a US$ 4.216,30 por onça-troy. A valorização acumulada na semana foi de aproximadamente 1,30%, considerando o fechamento de US$ 4.162,30 registrado em 2 de outubro. O movimento interrompeu parte da pressão observada nas últimas semanas sobre o metal precioso, que continua enfrentando os efeitos dos juros elevados nos Estados Unidos, mas encontra sustentação na demanda de bancos centrais e na procura de investidores por proteção diante das incertezas econômicas e geopolíticas.
Na Comex, divisão de metais da bolsa de Nova York, a prata também terminou a sessão em alta, com valorização próxima de 2,7%, para US$ 61,04 por onça-troy no contrato para dezembro. No acumulado dos cinco pregões, o avanço foi de aproximadamente 1,04%, ligeiramente inferior ao desempenho do ouro. Os resultados mostram uma recuperação conjunta dos metais preciosos, embora as perspectivas de política monetária americana continuem impondo limitações à valorização das commodities que não oferecem remuneração periódica aos investidores.
A recuperação semanal do ouro corresponde a um ganho de US$ 54 por onça-troy em relação ao encerramento da sexta-feira anterior. No caso da prata, a diferença foi de aproximadamente US$ 0,63, considerando a cotação de US$ 60,415 registrada em 2 de outubro. Apesar das altas, o comportamento recente dos dois metais permanece marcado pela volatilidade, em um mercado que procura conciliar a possibilidade de novos aumentos das taxas americanas com a demanda institucional e os riscos associados ao conflito no Oriente Médio.
Um dos principais elementos de sustentação das cotações vem da China. O Banco Popular da China (PBoC) ampliou suas reservas oficiais de ouro em aproximadamente 23 toneladas durante setembro, prolongando para 23 meses consecutivos a sequência de aquisições. O movimento ocorreu justamente em um período de desvalorização internacional do metal, reforçando a importância das compras dos bancos centrais como componente da demanda global, mesmo quando as condições monetárias favorecem aplicações financeiras remuneradas.
China amplia reservas de ouro e acumula mais de 100 toneladas compradas em 2026
Os dados divulgados pela Administração Estatal de Câmbio da China mostram que as reservas oficiais de ouro passaram de 76,73 milhões de onças-troy em agosto para 77,47 milhões em setembro. A diferença de 740 mil onças corresponde a aproximadamente 23 toneladas e representa o maior volume mensal adquirido pelo banco central chinês em três anos, conforme avaliação do Commerzbank. As aquisições de setembro também superaram as aproximadamente 650 mil onças incorporadas em agosto, uma expansão de cerca de 13,8% no volume comprado de um mês para o outro.
Desde o início de 2026, o estoque oficial chinês passou de 74,19 milhões para 77,47 milhões de onças-troy, crescimento de 3,28 milhões de onças, equivalente a aproximadamente 102 toneladas. Ao final de setembro, as reservas alcançavam cerca de 2.410 toneladas. O aumento demonstra a continuidade da estratégia de diversificação dos ativos internacionais da China, embora não seja possível atribuir todas as compras a uma única motivação, como redução da exposição ao dólar ou proteção contra instabilidade geopolítica.
A diferença entre a evolução das quantidades e o valor financeiro das reservas é particularmente relevante. Apesar de ter ampliado o estoque físico em setembro, a China registrou redução no valor de mercado do ouro contabilizado entre seus ativos oficiais. O montante passou de aproximadamente US$ 350,08 bilhões em agosto para US$ 323,52 bilhões em setembro, uma diminuição de US$ 26,56 bilhões, equivalente a cerca de 7,6%. Isso ocorreu porque a desvalorização internacional do metal reduziu o valor do estoque existente em proporção superior ao efeito positivo das novas aquisições.
O mesmo fenômeno de reavaliação dos ativos afetou as reservas cambiais chinesas, que diminuíram de US$ 3,438 trilhões para aproximadamente US$ 3,400 trilhões no período. Segundo a Administração Estatal de Câmbio, a queda de US$ 38,1 bilhões, ou 1,11%, refletiu principalmente o fortalecimento do dólar e a redução dos preços de ativos financeiros internacionais. O comportamento das reservas mostra que decisões de ampliar determinadas posições podem ocorrer simultaneamente à diminuição de seu valor contábil, sobretudo em momentos de oscilação acentuada dos mercados.
A China não é a única autoridade monetária que continua aumentando sua exposição ao ouro. Levantamento divulgado em 6 de outubro pelo Conselho Mundial do Ouro (World Gold Council) identificou compras líquidas de 39 toneladas pelos bancos centrais em agosto. No acumulado dos oito primeiros meses do ano, as aquisições oficialmente reportadas alcançaram aproximadamente 170 toneladas. China, Uzbequistão e Polônia estiveram entre os compradores relevantes em agosto, evidenciando uma procura institucional que envolve economias com diferentes estruturas de reservas e necessidades de gestão financeira.
Fundos de ouro receberam US$ 10 bilhões mesmo com queda de 8,5% em setembro
A demanda de investidores privados também oferece elementos para compreender a recuperação do ouro. Segundo o Conselho Mundial do Ouro, os fundos negociados em bolsa com lastro físico no metal receberam aproximadamente US$ 10 bilhões em aplicações líquidas durante setembro. O resultado ocorreu apesar de uma desvalorização de 8,5% nas cotações internacionais naquele mês, quando o preço de referência utilizado pela entidade terminou próximo de US$ 4.176 por onça-troy.
As entradas de setembro elevaram para US$ 31 bilhões o fluxo positivo acumulado no terceiro trimestre, considerado recorde na série acompanhada pela instituição. O volume físico mantido pelos fundos aumentou 67 toneladas no mês, alcançando 4.256 toneladas. Mesmo com novas aplicações e crescimento das reservas físicas, o patrimônio administrado caiu 7% em relação a agosto, para US$ 574 bilhões, devido principalmente à redução dos preços internacionais.
A diferença entre os movimentos revela que a valorização do ativo não é condição necessária para que investidores ampliem suas posições. Fundos podem receber aplicações durante períodos de queda, especialmente quando seus participantes procuram diversificação patrimonial ou consideram os preços mais atraentes. Nesse contexto, o aumento de 67 toneladas nas reservas físicas mostra que as entradas de recursos corresponderam a uma expansão efetiva das posições dos veículos de investimento, embora não tenham impedido a perda de valor do patrimônio anteriormente acumulado.
Na distribuição regional, os fundos registrados na América do Norte receberam aproximadamente US$ 4 bilhões durante setembro, sendo US$ 3,8 bilhões nos Estados Unidos. Na Europa, as entradas alcançaram US$ 3,6 bilhões, enquanto os fundos asiáticos captaram cerca de US$ 2,3 bilhões. O Reino Unido teve participação relevante no trimestre, com entradas de US$ 7,5 bilhões, seu maior volume trimestral registrado até então. A diversificação geográfica dos aportes indica que a procura pelo metal não esteve concentrada exclusivamente nos mercados diretamente afetados pelas mudanças na política monetária americana.
O comportamento dos fundos contrastou com a movimentação dos contratos futuros. De acordo com o Conselho Mundial do Ouro, as posições compradas líquidas na Comex diminuíram 13% em setembro, redução equivalente a aproximadamente 100 toneladas. Entre os gestores de recursos classificados na categoria de investimentos administrados, a diminuição chegou a 84 toneladas. Essa retração ajuda a explicar por que os preços recuaram significativamente ao longo do mês, apesar das compras realizadas por bancos centrais e das entradas de recursos nos fundos lastreados em ouro.
Federal Reserve mantém perspectiva de juros elevados até o fim do ano
A política monetária americana continua sendo um dos principais fatores de influência sobre as cotações do ouro. Na reunião encerrada em 16 de setembro, o Federal Reserve (Fed) elevou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, estabelecendo um intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. A decisão foi unânime e ocorreu diante da persistência da inflação acima da meta de 2%, em uma economia que continuava apresentando atividade relativamente resistente às condições financeiras mais restritivas.
A ata daquela reunião, publicada em 7 de outubro, mostrou que a maioria dos participantes considerava provável a necessidade de outro aumento dos juros até o encerramento de 2026. Os dirigentes também ressaltaram que as decisões futuras dependeriam das informações econômicas disponíveis e da evolução dos riscos para a inflação e o mercado de trabalho. A próxima reunião de política monetária está marcada para os dias 27 e 28 de outubro, quando o banco central voltará a avaliar a trajetória dos preços, da atividade e do emprego.
Para o ouro, a perspectiva de juros mais elevados representa um obstáculo porque o metal não paga dividendos nem oferece rendimento periódico. Quando os títulos públicos americanos passam a remunerar melhor seus detentores, aumenta o custo de oportunidade de manter recursos aplicados em uma commodity cujo retorno depende essencialmente da valorização de mercado. Além disso, juros mais altos podem contribuir para o fortalecimento do dólar, tornando a compra do metal relativamente mais cara para investidores que utilizam outras moedas.
Essa relação esteve presente no desempenho de setembro. Segundo o Conselho Mundial do Ouro, o rendimento dos títulos públicos americanos de dez anos aumentou aproximadamente 0,53 ponto percentual naquele mês, alcançando 5,3% ao ano. No mesmo intervalo, o índice do dólar avançou cerca de 2%. A combinação dos dois movimentos contribuiu para a queda de 8,5% do preço internacional do metal, embora a intensidade da desvalorização também tenha refletido ajustes de posições no mercado futuro.
O cenário se tornou mais complexo com a elevação dos preços do petróleo associada ao conflito no Oriente Médio. O encarecimento da energia pode prolongar pressões inflacionárias e reduzir o espaço para flexibilização monetária, mantendo os rendimentos dos títulos americanos em patamares elevados. Ao mesmo tempo, a instabilidade internacional e as preocupações com a sustentabilidade das contas públicas de grandes economias podem ampliar a procura por ativos utilizados na diversificação de reservas e patrimônios. O resultado é um ambiente em que fatores favoráveis e desfavoráveis ao ouro atuam simultaneamente, sem estabelecer uma direção única para os preços.
Prata sobe 2,7% na sessão e acompanha recuperação dos metais preciosos
A prata apresentou valorização diária superior à do ouro nesta sexta-feira, mas terminou a semana com desempenho acumulado mais moderado. Considerando os fechamentos de 2 e 9 de outubro, a alta semanal de aproximadamente 1,04% ficou 0,26 ponto percentual abaixo da valorização de 1,30% registrada pelo ouro. A diferença mostra que o ganho mais intenso da prata na última sessão não foi suficiente para superar o resultado semanal do outro metal.
Embora ambos sejam negociados como metais preciosos, a demanda por prata possui uma componente industrial relevante, associada à fabricação de equipamentos eletrônicos, componentes elétricos e tecnologias de energia solar. Isso torna suas cotações sensíveis não apenas às expectativas sobre juros, câmbio e preservação patrimonial, mas também às perspectivas de produção industrial e de consumo de matérias-primas. O ouro, por sua vez, apresenta uma demanda institucional particularmente relevante, relacionada à composição de reservas internacionais e à gestão de carteiras de investimentos.
A evolução das cotações nas próximas semanas dependerá de uma combinação de fatores que ainda apresentam elevado grau de incerteza. As decisões do Federal Reserve, os rendimentos dos títulos americanos, o comportamento do dólar e a duração das tensões no Oriente Médio continuarão influenciando os preços. As compras dos bancos centrais e os investimentos em fundos lastreados em ouro representam fontes importantes de demanda, mas não eliminam os efeitos das condições monetárias sobre o mercado futuro.
O fechamento acima de US$ 4.200 por onça-troy nesta sexta-feira confirma a recuperação parcial das perdas recentes, sem representar uma reversão definitiva da tendência observada em setembro. Com os investidores divididos entre a remuneração oferecida pelos títulos públicos americanos e a procura por proteção diante da instabilidade internacional, o ouro permanece sujeito a oscilações significativas. A reunião do Federal Reserve no fim de outubro e os próximos levantamentos sobre reservas oficiais e fluxos de investimento serão referências importantes para avaliar a continuidade da recuperação.








