O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, de 52 anos, tornou-se o principal nome para assumir o comando do país após Santiago Peña apresentar sua renúncia nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026, em meio à crise provocada pelo colapso do Ueno Bank. Integrante do Partido Colorado e aliado histórico do ex-presidente Horacio Cartes, Alliana teve o pedido de impeachment contra ele rejeitado pela Câmara dos Deputados, preservando sua posição na linha constitucional de sucessão.
A transferência do poder, entretanto, ainda não foi efetivada. A sessão conjunta do Congresso convocada para examinar a renúncia de Peña terminou sem quórum, enquanto a Câmara aprovou, por 78 votos, a acusação de impeachment contra o presidente. Alliana permanece na Vice-Presidência até que haja uma definição sobre a situação do chefe do Executivo.
Com mais de duas décadas de atividade política, Alliana construiu sua trajetória no governo regional, na Câmara dos Deputados e na direção nacional do Partido Colorado, uma das principais forças políticas paraguaias. Sua proximidade com Cartes, que governou o país entre 2013 e 2018, continua sendo um elemento importante de sua atuação política.
Pedro Alliana nasceu em Pilar e iniciou carreira política em 2006
Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez nasceu em 19 de fevereiro de 1974, em Pilar, capital do departamento de Ñeembucú, no sul do Paraguai. Antes de ingressar na política, trabalhou no comércio local e teve participação no basquete, modalidade na qual integrou a seleção paraguaia durante a juventude.
Sua primeira candidatura ocorreu em 2006, quando disputou a prefeitura de Pilar pelo Partido Colorado, mas não foi eleito. Dois anos depois, conquistou o governo de Ñeembucú, assumindo sua primeira função executiva e ampliando sua projeção regional. Permaneceu à frente do departamento até 2013, período em que consolidou relações políticas e administrativas.
Naquele ano, foi eleito deputado nacional por Ñeembucú, iniciando uma trajetória de dez anos na Câmara dos Deputados. Durante o mandato, participou de comissões relacionadas a Orçamento, Relações Exteriores, Assuntos Municipais e Departamentais e Entidades Binacionais Hidrelétricas.
Alliana também presidiu a Câmara em diferentes períodos, incluindo o intervalo entre 2019 e 2022. A experiência ampliou sua participação nas negociações legislativas e nas relações institucionais entre o Congresso e o Poder Executivo.
Ligação com Horacio Cartes fortaleceu liderança no Partido Colorado
A ascensão nacional de Alliana ocorreu em paralelo ao fortalecimento do movimento Honor Colorado, liderado por Horacio Cartes. O ex-presidente apoiou sua candidatura ao comando da Associação Nacional Republicana (ANR), nome oficial do Partido Colorado.
Alliana venceu a disputa interna de julho de 2015 e foi proclamado presidente da legenda em abril de 2016, após receber 559.551 votos no processo de escolha. Permaneceu na direção partidária até janeiro de 2023, quando Cartes assumiu o posto.
Durante esse período, participou das articulações para a formação de alianças, a seleção de candidatos e a organização das campanhas eleitorais do partido. A relação com Cartes consolidou sua posição entre os dirigentes nacionais do coloradismo.
Em 2023, Alliana integrou a chapa presidencial de Santiago Peña, também vinculada ao Honor Colorado. Os dois venceram as eleições gerais de 30 de abril e assumiram seus cargos em 15 de agosto, com mandato previsto até 2028.
Na Vice-Presidência, passou a atuar na interlocução entre o governo, o Congresso e diferentes setores da administração pública. Também participou de iniciativas relacionadas à infraestrutura regional e aos programas sociais, mantendo atenção especial ao departamento de Ñeembucú.
A relação com Cartes voltou ao centro das articulações nesta quinta-feira. O ex-presidente manifestou apoio ao impeachment de Peña e participou de conversas com Alliana sobre a situação política. Setores do Partido Colorado passaram a defender a permanência do vice-presidente como forma de assegurar a continuidade do governo.
Câmara rejeita impeachment contra Alliana por 48 votos a 30
A crise política também atingiu Alliana depois que parlamentares de oposição apresentaram pedidos de impeachment contra ele e Santiago Peña. As acusações estão relacionadas às suspeitas de favorecimento ao Ueno Bank e à aplicação de recursos públicos na instituição financeira.
No caso do vice-presidente, os autores do pedido alegaram possível omissão diante das irregularidades investigadas e proteção política a decisões que teriam contribuído para a crise bancária. As alegações ainda não representam comprovação de responsabilidade pessoal.
Durante a sessão de 5 de novembro, deputados contrários à acusação argumentaram que Alliana não possuía competência direta sobre as decisões de fiscalização bancária. Também defenderam a preservação da estabilidade institucional durante a tramitação do processo contra Peña.
A proposta recebeu 30 votos favoráveis e 48 contrários, impedindo sua aprovação. O presidente da Câmara, Raúl Latorre, determinou o arquivamento do pedido, encerrando essa etapa da acusação parlamentar contra o vice-presidente.
A situação de Peña seguiu outro caminho. A Câmara aprovou por unanimidade dos 78 votantes a acusação contra o presidente, permitindo que o processo avançasse à etapa de julgamento político no Senado.
A rejeição do pedido contra Alliana não equivale a uma decisão judicial sobre as suspeitas apresentadas pela oposição. O resultado, porém, representa uma definição parlamentar importante para sua permanência na Vice-Presidência.
Colapso do Ueno Bank provocou crise no governo Peña
A crise política teve origem no agravamento da situação financeira do Ueno Bank, instituição que atendia aproximadamente três milhões de clientes. Em 2 de novembro, o Banco Central do Paraguai decidiu iniciar o procedimento de resolução do banco depois de constatar que seu índice de solvência havia caído para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação.
A medida provocou a suspensão das operações e dificuldades de acesso aos depósitos, levando clientes e aposentados a protestar pela recuperação dos recursos. A situação também ampliou os questionamentos sobre a atuação dos órgãos reguladores e a gestão de aplicações financeiras de instituições públicas.
Parlamentares da oposição passaram a investigar a relação anterior de Peña com o grupo controlador do Ueno Bank, do qual havia sido acionista até março de 2025. Também levantaram suspeitas sobre a nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central, em 2023, depois de ele ter dirigido a instituição financeira.
Carvallo deixou o comando da autoridade monetária em 3 de novembro, após pedido de Peña. No dia seguinte, o governo anunciou a indicação do economista Raúl Vera Bogado para substituí-lo, nomeação sujeita às etapas constitucionais de aprovação.
Diante do avanço das investigações e da pressão parlamentar, Peña apresentou sua renúncia, afirmando que pretendia preservar a estabilidade institucional e a tranquilidade dos depositantes afetados. Parte da oposição, entretanto, defende que o impeachment prossiga, em razão das possíveis consequências jurídicas e políticas de uma destituição formal.
Constituição prevê que Alliana conclua mandato até agosto de 2028
O artigo 234 da Constituição paraguaia estabelece que o vice-presidente substitui o presidente nas hipóteses previstas em lei. Em caso de vacância definitiva, assume o Executivo até o encerramento do mandato constitucional.
Caso a saída de Peña seja formalizada, Alliana poderá governar até 15 de agosto de 2028, data prevista para o término do período presidencial iniciado em 2023.
A eventual ascensão também abriria uma vaga na Vice-Presidência. Como o mandato já ultrapassou seu terceiro aniversário, caberia ao Congresso Nacional escolher o novo vice-presidente por maioria absoluta de seus integrantes, conforme a regra constitucional aplicável aos dois últimos anos do período presidencial.
A definição sobre Peña permanece pendente porque a renúncia ainda não foi aceita pelo Congresso e o processo de impeachment depende de julgamento no Senado. São procedimentos distintos, com requisitos e consequências próprias.
Para Alliana, a principal mudança confirmada nesta quinta-feira foi a rejeição de sua destituição pela Câmara. Sua experiência no Legislativo, no Executivo regional e na direção do Partido Colorado, somada às relações políticas com Horacio Cartes, compõe o perfil do vice-presidente que poderá assumir o governo caso a saída de Peña seja formalizada.
Fontes:
Congresso Nacional do Paraguai — Comunicados oficiais de 5 de novembro de 2026 sobre os pedidos de impeachment contra Santiago Peña e Pedro Alliana e os resultados das votações.
Câmara dos Deputados do Paraguai — Histórico parlamentar e informações biográficas de Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez.
Vice-Presidência da República do Paraguai — Registros institucionais da posse de Pedro Alliana em 15 de agosto de 2023.
Associação Nacional Republicana — Registros partidários da escolha de Pedro Alliana para a presidência do Partido Colorado.
Banco Central do Paraguai — Comunicado oficial de novembro de 2026 sobre o procedimento de resolução do Ueno Bank.








