O Ueno Bank, instituição financeira que se tornou um dos maiores sÃmbolos da transformação digital e do consumo no Paraguai, entrou em colapso depois de uma expansão acelerada, marcada por campanhas publicitárias milionárias, patrocÃnios esportivos e uma estratégia de inclusão bancária que alcançou milhões de pessoas. Na terça-feira, 3 de novembro de 2026, o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou a intervenção da instituição após identificar uma deterioração patrimonial que reduziu seu Ãndice de solvência para menos da metade do mÃnimo regulatório exigido.
A decisão atingiu um banco que, poucos dias antes, ainda apresentava ao mercado um plano de capitalização de US$ 100 milhões e projetava ampliar seus negócios. O Ueno havia captado US$ 350 milhões em uma emissão internacional de tÃtulos em março e contava com investimentos de instituições financeiras estrangeiras. Sua rápida ascensão, entretanto, ocorreu paralelamente ao crescimento dos depósitos de recursos públicos e à concessão de empréstimos que agora são investigados pelas autoridades paraguaias.
O episódio ultrapassou o sistema financeiro e desencadeou uma crise institucional. O Ministério Público abriu investigações sobre operações com empresas vinculadas ao banco e sobre a atuação de autoridades públicas. A Câmara dos Deputados aprovou, por 78 votos, a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña, que apresentou sua renúncia em meio à s acusações. A saÃda do mandatário, porém, ainda depende de deliberação formal do Congresso, enquanto o Senado analisa o processo de responsabilização.
Para os clientes, as consequências foram imediatas. A interrupção dos serviços impediu o acesso a depósitos, transferências e pagamentos, levando o Banco Central a organizar um programa emergencial de restituição. O regulador afirma que a crise está concentrada na instituição e não representa uma deterioração generalizada do sistema bancário paraguaio.
Como o Ueno Bank conquistou milhões de clientes no Paraguai
A trajetória do Ueno Bank foi construÃda sobre a promessa de tornar os serviços financeiros mais acessÃveis em um paÃs onde uma parcela significativa da população ainda enfrentava dificuldades para abrir e movimentar contas bancárias. A instituição apostou em um aplicativo de uso simplificado, cartões de crédito com programas de benefÃcios, pagamentos digitais e uma rede de atendimento que procurava se diferenciar das agências tradicionais.
Seu crescimento acompanhou a expansão da digitalização financeira no Paraguai. O banco passou a oferecer serviços para consumidores que antes utilizavam predominantemente dinheiro em espécie, ao mesmo tempo que ampliava sua presença entre trabalhadores, pequenos comerciantes e empresas.
A estratégia foi acompanhada de investimentos intensivos em publicidade. O Ueno tornou-se patrocinador da seleção paraguaia de futebol, de competições esportivas e de grandes eventos culturais. A marca passou a aparecer em estádios, campanhas publicitárias, festivais e iniciativas voltadas ao empreendedorismo.
Em setembro de 2025, a instituição apresentou uma campanha vinculada à seleção nacional, utilizando o idioma guarani para reforçar a identificação com a cultura local. O projeto fazia parte de uma estratégia de posicionamento que pretendia associar o banco à modernização da economia paraguaia.
O crescimento da base de usuários também se tornou um dos principais argumentos apresentados a investidores. No primeiro trimestre de 2026, a instituição informava possuir aproximadamente 2,8 milhões de clientes, o equivalente a cerca de 60% da população adulta do paÃs. Em outubro, passou a divulgar uma base superior a 3 milhões de usuários.
Segundo dados apresentados pelo próprio banco, mais de 1,2 milhão de paraguaios teriam ingressado pela primeira vez no sistema bancário por meio de seus serviços desde 2021.
A dimensão dessa expansão ajuda a explicar o impacto social da intervenção. O Ueno não era apenas uma instituição utilizada por investidores e grandes empresas. Também havia se tornado o principal canal de acesso a serviços financeiros para consumidores que dependiam de suas contas para receber rendimentos e realizar pagamentos cotidianos.
Depósitos públicos ultrapassaram US$ 800 milhões
Um dos pontos centrais da crise envolve a presença de recursos do setor público no balanço do Ueno Bank.
Em carta institucional divulgada em setembro de 2026, o próprio banco informou que possuÃa aproximadamente US$ 2,8 bilhões em depósitos ao final de junho daquele ano. Desse montante, cerca de US$ 2 bilhões pertenciam ao setor privado, enquanto US$ 295 milhões correspondiam a aplicações do Instituto de Previdência Social (IPS) e outros US$ 532 milhões eram provenientes de instituições públicas.
Somados, os depósitos públicos declarados chegavam a aproximadamente US$ 827 milhões, equivalentes a quase 30% do total informado naquele perÃodo. Estimativas posteriores situaram a exposição do Estado paraguaio em torno de US$ 850 milhões, embora esse valor mais recente dependa da consolidação das posições das diferentes entidades públicas.
A concentração desses recursos passou a ser questionada por parlamentares, especialmente em relação às aplicações previdenciárias. O Instituto de Previdência Social administra recursos destinados à aposentadoria e à proteção de trabalhadores, o que torna a segurança de suas aplicações uma questão de interesse público.
As suspeitas envolvem a possibilidade de que os depósitos do IPS tenham ultrapassado limites previstos na legislação e nos regulamentos de investimento. Essa hipótese integra as acusações apresentadas contra o presidente Santiago Peña, mas ainda depende de apuração e decisão das instâncias competentes.
Na sexta-feira, 6 de novembro, o IPS informou que entregou documentos ao Banco Central para formalizar sua participação no processo de resolução do Ueno. A instituição pretende comprovar os créditos que mantém junto ao banco e preservar seus direitos como credora.
O problema também afeta aposentados que utilizavam a instituição para receber benefÃcios. Aproximadamente 32 mil aposentados e pensionistas estavam vinculados ao Ueno para pagamentos do sistema previdenciário.
O IPS organizou a migração dessas contas para outras instituições financeiras e informou que o pagamento dos benefÃcios de novembro e da gratificação anual está assegurado, sem necessidade de solicitação individual dos aposentados.
Banco anunciou aporte de US$ 100 milhões quatro dias antes da intervenção
O contraste entre a situação apresentada pela administração e o diagnóstico posterior do Banco Central é outro elemento relevante da crise.
Em 29 de outubro, o Ueno anunciou um plano de capitalização de US$ 100 milhões destinado a fortalecer seu patrimônio e sustentar o crescimento das operações. A proposta incluÃa US$ 50 milhões de aporte de sua controladora, U Holdings, previstos para novembro, e outros US$ 50 milhões por meio de uma emissão de ações voltada a investidores paraguaios.
A instituição estimava que, depois da implementação integral do programa, seu Ãndice de capital principal subiria de 11,7% para 14,9%, acima do mÃnimo regulatório de 8%. O Ãndice de capital total passaria de 13,8% para 15,9%, também superior à exigência de 12%.
Esses números foram apresentados como projeções condicionadas à conclusão dos aportes e às autorizações regulatórias. Não representavam recursos integralmente incorporados ao patrimônio do banco.
Quatro dias depois, o Banco Central aprovou a abertura do procedimento de resolução, com base em um diagnóstico substancialmente diferente. Segundo o regulador, ajustes realizados nos demonstrativos financeiros durante o processo de regularização revelaram um Ãndice de solvência inferior a 50% do mÃnimo exigido.
A discrepância entre as informações divulgadas pelo banco e a situação identificada pela supervisão reforçou os questionamentos sobre a qualidade dos demonstrativos, a avaliação dos ativos e a transparência das operações.
O BCP não detalhou, no comunicado inicial, o valor total do déficit patrimonial nem apresentou um balanço definitivo de exclusão de ativos e passivos. A apuração desses números integra o trabalho dos interventores.
O plano de recapitalização não chegou a impedir a medida regulatória.
Empréstimos a empresas relacionadas estão sob investigação
O Ministério Público paraguaio apresentou, em 4 de novembro, imputações contra 27 pessoas ligadas ao Ueno Bank e a empresas que mantinham relações comerciais e societárias com a instituição.
Os investigadores examinam operações realizadas entre 2025 e 2026 que teriam comprometido o patrimônio do banco mediante empréstimos e descobertos em conta concedidos a sociedades vinculadas, em condições incompatÃveis com os parâmetros habituais de análise de risco.
A documentação apresentada pela FiscalÃa descreve suspeitas de concessão de crédito a empresas com capacidade econômica insuficiente para justificar os valores recebidos. Também são investigados contratos com prazos extensos, garantias inadequadas e falhas nos documentos utilizados para aprovar as operações.
Outro ponto examinado envolve a possÃvel transferência de recursos para outras sociedades do mesmo grupo econômico, em vez de sua utilização nas atividades declaradas pelos tomadores dos empréstimos.
Segundo o Ministério Público, os saldos pendentes das operações analisadas alcançam US$ 166,98 milhões e 343,16 bilhões de guaranis. Esses montantes representam valores sujeitos à investigação e não devem ser automaticamente classificados como prejuÃzo definitivamente comprovado.
A investigação também identificou uma transferência de carteira de crédito de aproximadamente US$ 74,4 milhões para uma sociedade que, segundo a hipótese dos promotores, teria utilizado recursos originados indiretamente do próprio banco.
Os fatos investigados incluem suspeitas de administração indevida em situação de crise, lesão de confiança, tentativa de fraude e descumprimento de obrigações relacionadas à escrituração comercial.
As imputações não equivalem a condenações. A responsabilidade individual dos investigados dependerá da análise das provas e das decisões judiciais.
Ex-presidente-executivo é investigado e carros de luxo são apreendidos
Miguel Vázquez, ex-presidente-executivo do Grupo Vázquez e do Ueno Bank, está entre os principais investigados na crise da instituição financeira.
Na noite de quinta-feira (5), integrantes do Ministério Público realizaram buscas em sua residência, em Assunção, como parte da apuração sobre operações financeiras atribuÃdas ao grupo.
Durante a diligência, os investigadores apreenderam nove veÃculos de alto padrão, posteriormente encaminhados à Secretaria Nacional de Administração de Bens Apreendidos e Confiscados (Senabico).
A apreensão integra medidas de preservação patrimonial adotadas no decorrer das investigações. Não constitui, por si só, prova definitiva de que os bens tenham sido adquiridos com recursos de origem ilÃcita.
Segundo o Ministério Público, a investigação aponta a possÃvel existência de uma estrutura de empresas com dirigentes, endereços e operadores em comum, utilizada para movimentar recursos dentro e fora do conglomerado financeiro.
A Justiça determinou prisão preventiva de seis dirigentes da instituição e prisão domiciliar, com monitoramento eletrônico, de duas mulheres também investigadas.
Além das medidas patrimoniais, a FiscalÃa realizou buscas em instalações empresariais relacionadas ao Grupo Vázquez, recolhendo documentos que deverão ser examinados para identificar a finalidade dos contratos e os beneficiários das operações financeiras.
A investigação procura determinar se os problemas de solvência decorreram exclusivamente de decisões inadequadas de administração de risco ou se também envolveram operações deliberadamente estruturadas para ocultar perdas e favorecer empresas relacionadas.
Crise do Ueno Bank ameaça governo de Santiago Peña
A dimensão polÃtica do escândalo está relacionada aos antigos vÃnculos de Santiago Peña com empresas do grupo controlador do banco e à s decisões de seu governo envolvendo a supervisão financeira e a aplicação de recursos públicos.
Deputados apresentaram uma acusação constitucional sustentando que o presidente teria incorrido em conflito de interesses em razão de sua participação anterior na Ueno Holding. O documento também questiona sua decisão de nomear Carlos Carvallo, que havia dirigido uma empresa financeira do grupo, para a presidência do Banco Central.
A acusação afirma que a concentração de recursos previdenciários no Ueno e a condução da supervisão bancária precisam ser examinadas para determinar se houve omissão ou favorecimento indevido.
Peña nega ter praticado irregularidades.
Em 5 de novembro, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment por 78 votos favoráveis. O presidente apresentou uma declaração de renúncia, mas sua efetivação permaneceu pendente de resolução congressual, enquanto o processo de julgamento polÃtico foi encaminhado ao Senado.
Na mesma data, os deputados rejeitaram a abertura de impeachment contra o vice-presidente Pedro Alliana. O resultado foi de 48 votos contrários e 30 favoráveis à acusação.
A decisão preservou Alliana na linha constitucional de sucessão presidencial, caso seja formalizada uma vacância definitiva no cargo de chefe do Executivo.
Paralelamente, a FiscalÃa Geral abriu três investigações penais para examinar a supervisão e a resolução do banco, a colocação de recursos públicos e a atuação de autoridades e ex-autoridades.
Essas apurações possuem objeto distinto das acusações criminais relacionadas à administração da instituição financeira. A abertura de investigações não significa que o presidente ou outras autoridades já tenham sido consideradas culpadas.
Banco Central começa devolução de depósitos a clientes
A prioridade imediata do Banco Central do Paraguai passou a ser a restituição dos recursos dos depositantes e a organização da resolução bancária.
Pela legislação paraguaia, a garantia ordinária de depósitos alcança até 75 salários mÃnimos mensais por pessoa fÃsica ou jurÃdica, em cada instituição financeira. Em novembro de 2026, esse limite equivale a 228,3 milhões de guaranis, aproximadamente US$ 38 mil, dependendo da cotação cambial.
O valor corresponde ao teto da proteção legal, não ao montante que todos os clientes receberão imediatamente.
Em comunicado de 5 de novembro, o BCP anunciou o inÃcio dos pagamentos para um primeiro grupo de depositantes que possuÃam até 10 milhões de guaranis, não tinham dÃvidas com o Ueno e mantinham contas em outras instituições financeiras paraguaias.
Para os clientes que atendem a essas condições, o pagamento corresponde à totalidade dos depósitos abrangidos pela primeira etapa.
O regulador informou que os demais grupos serão contemplados progressivamente, conforme os procedimentos legais de restituição. A instituição também estabeleceu mecanismos para que correntistas consultem os bancos responsáveis pelo recebimento dos valores.
Nos casos em que o saldo supera a cobertura garantida, a recuperação dependerá dos procedimentos de resolução, da avaliação dos ativos disponÃveis e de eventuais mecanismos complementares de proteção.
O processo poderá envolver a transferência de ativos e passivos para outras instituições, de acordo com as regras previstas na legislação bancária paraguaia.
Enquanto isso, empresas com recursos superiores aos valores garantidos enfrentam incertezas sobre os prazos e as condições de recuperação de suas aplicações.
Colapso expõe riscos para a confiança no sistema financeiro paraguaio
O Ueno Bank havia se apresentado como uma das principais histórias de sucesso da inclusão financeira no Paraguai. A combinação de tecnologia, publicidade e ampliação do acesso bancário permitiu alcançar milhões de consumidores em poucos anos.
A mesma expansão, entretanto, foi acompanhada por operações financeiras cuja qualidade e adequação às normas passaram a ser questionadas. A dependência de depósitos institucionais, a existência de transações com empresas relacionadas e a fragilidade patrimonial identificada pelo regulador transformaram um problema bancário em uma crise que afeta investidores, aposentados, empresas e autoridades públicas.
A intervenção também levanta dúvidas sobre a capacidade de supervisão das instituições financeiras que crescem rapidamente. A concessão de uma licença bancária e a divulgação de Ãndices elevados de capital não eliminam a necessidade de fiscalização contÃnua, especialmente quando existem operações complexas com empresas do mesmo conglomerado.
O Banco Central insiste que a situação do Ueno representa um caso especÃfico, sem evidência de insolvência generalizada no sistema financeiro. A autoridade monetária também tem procurado conter informações falsas sobre supostas intervenções em outras instituições.
Ainda assim, a perda de acesso às contas por uma parcela expressiva da população e a necessidade de reorganizar pagamentos previdenciários demonstram que as consequências de uma resolução bancária ultrapassam os interesses dos acionistas.
A recuperação dos depósitos, a conclusão das investigações e o desfecho da crise polÃtica serão determinantes para avaliar os efeitos do episódio sobre a confiança no sistema financeiro paraguaio.
O banco que construiu sua reputação associando serviços digitais à modernização do paÃs tornou-se, em poucos dias, o centro de uma das maiores crises financeiras e institucionais do Paraguai nos últimos anos.
Fontes:
Banco Central do Paraguai — Comunicados de 3 e 5 de novembro de 2026 sobre o procedimento de resolução do Ueno Bank, a insuficiência de solvência e o pagamento da garantia aos depositantes.
Ministério Público do Paraguai — Comunicados de 4 e 6 de novembro de 2026 sobre as imputações contra 27 investigados, os empréstimos a empresas vinculadas e as diligências patrimoniais.
Ueno Bank — Carta institucional de 21 de setembro de 2026 sobre a composição dos depósitos e comunicado de 29 de outubro sobre o plano de capitalização de US$ 100 milhões.
Instituto de Previdência Social do Paraguai — Comunicados de 3 e 6 de novembro de 2026 sobre a proteção dos recursos previdenciários e a transferência de pagamentos de aposentados.
Câmara dos Deputados do Paraguai — Comunicados de 5 de novembro de 2026 sobre a aprovação do processo de impeachment contra Santiago Peña e a rejeição da acusação contra Pedro Alliana.









