Os contratos futuros de petróleo encerraram a sexta-feira (9) em alta, sustentados pelas interrupções na produção americana provocadas pelo furacão Isaias e pelos riscos persistentes ao abastecimento internacional decorrentes da guerra no Oriente Médio. O Brent para dezembro avançou 0,42%, fechando a US$ 104,72 por barril na Intercontinental Exchange (ICE), em Londres, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) para novembro subiu 0,39%, a US$ 91,85, na bolsa de Nova York. O resultado consolidou uma semana de valorização, apesar das oscilações provocadas pelas negociações diplomáticas envolvendo Estados Unidos e Irã e por medidas anunciadas para ampliar a disponibilidade de combustíveis.
A principal pressão sobre a oferta nesta sexta-feira veio do Golfo do México, onde operadores de plataformas marítimas suspenderam aproximadamente 1,46 milhão de barris diários de produção, segundo dados oficiais da Marine Minerals Administration (MMA), agência vinculada ao Departamento do Interior americano. O volume representa 71,51% da produção de petróleo em águas federais da região, percentual superior aos 62,89% registrados na quinta-feira (8). A paralisação preventiva ocorre enquanto o furacão Isaias, classificado na categoria 3, avança em direção à costa americana, ameaçando instalações de extração, transporte e refino.
Na comparação semanal, o Brent acumulou valorização de 2,41%, enquanto o WTI registrou ganho de 0,81%. Com base nesses percentuais, o petróleo de referência internacional havia encerrado a semana anterior próximo de US$ 102,26, o que representa uma elevação aproximada de US$ 2,46 por barril. Já o contrato americano apresentou aumento equivalente a US$ 0,74, partindo de cerca de US$ 91,11. A diferença de desempenho reflete a exposição distinta dos dois mercados às interrupções internacionais de fornecimento e às condições de produção nos Estados Unidos.
O encerramento positivo ocorreu mesmo depois de o presidente americano, Donald Trump, anunciar um entendimento com o presidente russo, Vladimir Putin, para ampliar a oferta internacional de diesel. O governo dos Estados Unidos também autorizou temporariamente determinadas transações envolvendo combustível de origem russa, até então sujeitas a restrições econômicas. A iniciativa acrescentou um novo elemento às negociações de energia, especialmente diante dos preços elevados dos derivados e das dificuldades enfrentadas por refinarias e distribuidores.
Furacão Isaias interrompe quase três quartos da produção marítima americana
O avanço do furacão Isaias provocou uma rápida ampliação das paralisações nas instalações petrolíferas do Golfo do México. De acordo com os relatórios da Marine Minerals Administration, a produção interrompida passou de 511.619 barris por dia na quarta-feira (7) para 1.282.879 barris na quinta-feira (8), alcançando 1.458.814 barris nesta sexta-feira. Em apenas dois dias, o volume de produção suspensa aumentou aproximadamente 947 mil barris diários, crescimento superior a 185%.
Entre quinta e sexta-feira, a quantidade de petróleo retirada temporariamente da produção avançou 175.935 barris por dia, o equivalente a aproximadamente 13,7%. O aumento mostra que as empresas continuaram desativando instalações à medida que o sistema meteorológico se aproximava da costa, mesmo depois de uma parcela expressiva das operações já ter sido interrompida.
As medidas de segurança envolveram a retirada de trabalhadores de 129 plataformas de produção, correspondentes a 34,77% das 371 instalações tripuladas monitoradas pela agência. Também foram evacuadas oito unidades móveis de perfuração, enquanto duas plataformas com sistemas de posicionamento dinâmico foram deslocadas de suas áreas de operação para reduzir a exposição ao fenômeno.
O impacto alcançou ainda a produção de gás natural. Segundo a MMA, aproximadamente 1,26 bilhão de pés cúbicos diários deixaram de ser produzidos, volume equivalente a 58,84% da produção regional. A interrupção simultânea de petróleo e gás amplia os efeitos potenciais do furacão sobre diferentes segmentos do setor energético, incluindo unidades industriais que dependem do fornecimento contínuo desses insumos.
As paralisações são procedimentos preventivos destinados a proteger trabalhadores, instalações e o meio ambiente. As operadoras fecham válvulas de segurança e interrompem o fluxo dos poços antes da chegada das condições meteorológicas mais severas. Depois da passagem da tempestade, a produção poderá ser retomada mediante inspeções técnicas, desde que não sejam identificados danos estruturais. Portanto, os volumes suspensos não representam necessariamente perdas permanentes de produção.
O Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC) informou que Isaias deve atingir a costa americana entre a noite desta sexta-feira e o início de sábado (10). A trajetória projetada coloca sob risco áreas de produção e processamento de petróleo e gás, além de instalações industriais e logísticas próximas ao litoral. A intensidade dos efeitos dependerá do ponto de chegada do furacão e das condições encontradas pelas empresas durante a retomada das operações.
Guerra no Oriente Médio mantém petróleo acima de US$ 100
Embora a interrupção americana tenha exercido influência direta sobre os preços nesta sexta-feira, o conflito no Oriente Médio continua sendo o principal fator estrutural de pressão sobre o mercado internacional de petróleo. Ataques a navios, instalações de produção e rotas de exportação reduziram a previsibilidade do fornecimento, aumentando os custos de transporte e de seguro marítimo.
O Estreito de Ormuz permanece no centro das preocupações. Localizada entre o Irã e Omã, a passagem concentra uma parcela relevante do comércio mundial de petróleo e derivados. Antes da guerra, aproximadamente 20% do consumo global de líquidos petrolíferos correspondia ao volume movimentado pela rota. Qualquer interrupção significativa afeta diretamente as exportações de países produtores do Golfo Pérsico e exige a utilização de trajetos alternativos, nem sempre disponíveis em capacidade suficiente.
O presidente Donald Trump afirmou nesta sexta-feira que mais de 28 milhões de barris haviam atravessado o Estreito de Ormuz na quinta-feira. A declaração foi apresentada como sinal de recuperação do fluxo marítimo, mas o volume mencionado não foi confirmado de maneira independente pelos dados oficiais consultados. A movimentação de navios continua sujeita a mudanças rápidas conforme a evolução das condições de segurança.
Trump também reiterou que Washington mantém negociações com Teerã e que o conflito deverá terminar, com ou sem um acordo formal entre os dois governos. As declarações contribuíram para reduzir temporariamente a pressão sobre os preços durante o pregão. Entretanto, a continuidade das operações militares e a ausência de um entendimento definitivo impediram que o mercado eliminasse o prêmio de risco associado à região.
A instabilidade também alcançou o Estreito de Bab el-Mandeb, no acesso ao Mar Vermelho, onde confrontos envolvendo forças do governo do Iêmen e os houthis ampliaram as ameaças à navegação comercial. Autoridades iemenitas anunciaram avanços militares na região, mas as condições de segurança permanecem incertas. A rota é especialmente importante para o transporte de petróleo saudita destinado à Europa e para a circulação internacional de mercadorias pelo Canal de Suez.
Arábia Saudita retoma fornecimento e reduz pressão sobre refinarias europeias
Um dos fatores que ajudaram a conter uma valorização mais intensa do petróleo foi a recuperação parcial da infraestrutura de exportação da Arábia Saudita. A Saudi Aramco informou a refinarias europeias que pretende atender integralmente aos pedidos de petróleo para novembro, depois da retomada das operações no oleoduto East-West, atingido anteriormente por ataques.
A estrutura conecta instalações produtoras próximas ao Golfo Pérsico ao terminal de Yanbu, no Mar Vermelho, permitindo exportar petróleo por uma rota que evita a passagem pelo Estreito de Ormuz. Antes das interrupções registradas em setembro, o oleoduto transportava mais de cinco milhões de barris por dia destinados à exportação, segundo estimativas da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA).
A recuperação do sistema representa uma alternativa importante para consumidores europeus, que enfrentaram dificuldades de abastecimento durante as paralisações. Entretanto, o funcionamento do oleoduto não elimina os riscos associados à navegação no Mar Vermelho. O petróleo transportado até Yanbu ainda depende de condições adequadas de segurança marítima para alcançar os mercados consumidores.
A EIA estima que a produção interrompida no Oriente Médio tenha alcançado média de 4,8 milhões de barris diários em setembro, abaixo dos 5,8 milhões registrados em agosto. No momento de maior restrição, em maio, as paralisações chegaram a aproximadamente 10,9 milhões de barris por dia. Os números indicam recuperação parcial da capacidade de abastecimento, embora o mercado continue operando sob limitações superiores às observadas antes do conflito.
A retomada das exportações sauditas e a reorganização das rotas de transporte ajudam a explicar por que o petróleo não permaneceu nas máximas registradas em setembro. Ainda assim, os custos adicionais de seguro, frete e segurança continuam incorporados às operações comerciais, especialmente nas regiões diretamente expostas aos ataques.
Estados Unidos liberam importação de diesel russo até abril de 2027
A preocupação com o fornecimento de combustíveis refinados levou o governo americano a anunciar uma mudança específica em sua política de sanções contra a Rússia. Nesta sexta-feira, Trump declarou ter chegado a um entendimento com Vladimir Putin para disponibilizar mais de 300 mil toneladas de diesel imediatamente aos mercados americano e internacional.
Segundo o presidente dos Estados Unidos, o acordo prevê outras 500 mil toneladas em novembro e mais um milhão de toneladas posteriormente. Também foi mencionada a possibilidade de fornecimento adicional de três milhões de toneladas, condicionada às condições operacionais das refinarias russas. Considerados todos os volumes anunciados, o potencial total chegaria a 4,8 milhões de toneladas, mas parte desse montante ainda depende de capacidade produtiva e logística.
O anúncio foi acompanhado por uma decisão formal do Departamento do Tesouro americano. O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) publicou a Licença Geral nº 135, autorizando operações relacionadas à venda, entrega, descarga e importação de diesel de origem russa até 7 de abril de 2027. A autorização constitui uma exceção específica às restrições econômicas aplicáveis ao combustível e não representa a suspensão geral das sanções impostas à Rússia.
A medida procura aliviar a escassez de derivados em um período de preços elevados. Nos Estados Unidos, o diesel alcançou média de US$ 6,28 por galão na quinta-feira, conforme dados da associação automobilística AAA. O combustível possui papel central no transporte rodoviário de mercadorias, na atividade agrícola e em diversas operações industriais, de modo que sua valorização pode alcançar os preços finais de produtos e serviços.
Os estoques americanos de destilados, categoria que inclui diesel e óleo para aquecimento, somavam aproximadamente 105,1 milhões de barris na semana encerrada em 2 de outubro, segundo a EIA. O volume ficou praticamente estável em relação à semana anterior, depois de ter registrado níveis superiores a 107 milhões de barris em setembro. A disponibilidade limitada de estoques reduz a margem de resposta do mercado a interrupções inesperadas na produção e no refino.
O anúncio de Trump provocou reação nos contratos de diesel, mas o efeito sobre a oferta física dependerá da concretização dos embarques, da capacidade das refinarias russas e das condições comerciais estabelecidas. A emissão da licença americana permite determinadas transações, porém não comprova que os volumes anunciados já tenham sido entregues.
EIA prevê Brent a US$ 105 no último trimestre de 2026
As cotações desta sexta-feira ficaram próximas da estimativa mais recente da EIA para o mercado internacional. No relatório Perspectivas Energéticas de Curto Prazo, divulgado em 6 de outubro, a agência projetou preço médio de US$ 105 por barril para o Brent no quarto trimestre de 2026. A previsão foi elevada em US$ 14 em relação ao levantamento anterior, refletindo a persistência das restrições ao fornecimento no Oriente Médio.
A estimativa representa uma revisão de aproximadamente 15,4% sobre a projeção anterior, de US$ 91. A alteração ocorreu depois de setembro registrar preço médio de US$ 114 para o Brent, US$ 23 acima do observado em agosto. Naquele mês, a cotação diária chegou a US$ 131 por barril em 15 de setembro, quando ataques ao oleoduto saudita ampliaram as preocupações com a capacidade de exportação da região.
A EIA também projeta redução média de 700 mil barris diários nos estoques mundiais durante o quarto trimestre, depois de estimar uma queda de 1,9 milhão de barris por dia entre julho e setembro. A continuidade da utilização das reservas para atender ao consumo indica que a recuperação parcial das exportações ainda não foi suficiente para normalizar completamente o equilíbrio entre oferta e demanda.
Para 2027, a agência considera a possibilidade de redução gradual das cotações, com o Brent alcançando média de US$ 87 no segundo trimestre e US$ 74 nos últimos três meses do ano. Essas estimativas pressupõem melhora das condições de exportação, recuperação de instalações produtivas e recomposição dos estoques internacionais. Não se trata, portanto, de preços garantidos, mas de cenários condicionados à evolução do conflito e da capacidade de abastecimento.
A diferença entre Brent e WTI também merece atenção. Com os fechamentos desta sexta-feira, o petróleo internacional terminou US$ 12,87 acima da referência americana, distância equivalente a aproximadamente 14% do preço do WTI. O diferencial reflete características próprias dos contratos, locais de entrega, qualidade do petróleo e condições regionais de oferta e demanda, além das dificuldades de abastecimento enfrentadas por compradores internacionais.
A semana terminou, assim, com duas fontes de pressão sobre os preços: a interrupção imediata da produção americana pelo furacão Isaias e a continuidade das restrições energéticas associadas à guerra no Oriente Médio. A recuperação das exportações sauditas e a autorização para comercialização de diesel russo oferecem alternativas de abastecimento, mas seus efeitos dependerão da normalização efetiva dos fluxos de petróleo e derivados. Nos próximos dias, a retomada das operações no Golfo do México e as condições de navegação nas principais rotas internacionais serão determinantes para avaliar se o mercado conseguirá reduzir parte das pressões que mantiveram o Brent acima de US$ 100.
Fontes:
Marine Minerals Administration – boletins oficiais de 7, 8 e 9 de outubro de 2026 sobre paralisações da produção de petróleo e gás, evacuação de plataformas e medidas de segurança durante o furacão Isaias.
Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos – avisos meteorológicos e projeções de trajetória e intensidade do furacão Isaias em outubro de 2026.
Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos – relatório Perspectivas Energéticas de Curto Prazo de 6 de outubro de 2026, com projeções para os preços internacionais do petróleo, produção interrompida e estoques mundiais.
Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos – análise de 9 de outubro de 2026 sobre os impactos do furacão Isaias na infraestrutura energética americana.
Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos – levantamento de 5 de outubro de 2026 sobre os preços do petróleo, margens de refino e interrupções no fornecimento durante o terceiro trimestre.
Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos – estatísticas semanais de estoques de destilados divulgadas em 7 de outubro de 2026.
Departamento do Tesouro dos Estados Unidos – Licença Geral nº 135, de 9 de outubro de 2026, sobre autorização temporária de transações envolvendo diesel de origem russa.








