A decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de deixar o Brasil após a derrota na eleição presidencial é considerada errada por 62% dos entrevistados que tiveram conhecimento da viagem aos Estados Unidos. O resultado integra a pesquisa Quaest divulgada neste domingo (8), que também identificou uma divisão entre os próprios eleitores do candidato derrotado. Para 29% das pessoas que souberam da saída do país, a decisão foi correta, enquanto 9% não souberam ou preferiram não responder.
O levantamento, denominado O Brasil depois das urnas, ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais entre 30 de outubro e 2 de novembro. A margem de erro geral é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada depois do segundo turno presidencial, vencido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 25 de outubro.
A viagem do senador, que chegou aos Estados Unidos em 28 de outubro, era conhecida por 89% dos entrevistados. Esse percentual delimita o universo considerado na pergunta sobre aprovação ou reprovação da decisão. Calculada sobre o total da amostra, a parcela que tomou conhecimento do episódio e considerou a viagem errada corresponde a aproximadamente 55%, considerando os percentuais arredondados divulgados pela Quaest.
A pesquisa também procurou identificar como a população interpreta os motivos da saída de Flávio Bolsonaro do país. Para 56% dos entrevistados, o senador buscou fugir da Justiça, enquanto 35% acreditam que a decisão teve como objetivo protegê-lo de uma eventual perseguição política. Outros 2% rejeitaram as duas hipóteses apresentadas e 7% não souberam ou não responderam.
Essas respostas expressam percepções dos entrevistados e não constituem uma conclusão judicial sobre a motivação da viagem.
Um terço dos eleitores de Flávio Bolsonaro reprova a viagem
A avaliação negativa não está restrita aos eleitores que apoiaram Lula na eleição presidencial. Entre os entrevistados que declararam ter votado em Flávio Bolsonaro no segundo turno, 32% consideram errada sua decisão de deixar o país. A maioria desse grupo, equivalente a 58%, avalia que o senador agiu corretamente, enquanto os demais não manifestaram opinião.
Entre os eleitores de Lula, a reprovação chega a 89%. A diferença entre os dois grupos evidencia como a identificação eleitoral continua associada à interpretação dos acontecimentos posteriores ao pleito, embora a pesquisa também registre críticas ao senador dentro de sua própria base de votação.
Uma divisão semelhante aparece entre os entrevistados identificados com a direita, mas que não se declaram bolsonaristas. Nesse segmento, 46% consideram correta a viagem aos Estados Unidos, enquanto 45% a classificam como errada. A diferença de apenas um ponto percentual não permite identificar predominância estatisticamente significativa de uma das posições.
A avaliação é diferente entre os que se identificam especificamente como bolsonaristas. Nesse grupo, 90% apoiam a decisão e apenas 5% a reprovam. O resultado demonstra a importância de distinguir os eleitores que votaram em Flávio no segundo turno daqueles que se identificam diretamente com o bolsonarismo, pois os dois conjuntos não possuem necessariamente o mesmo comportamento.
Entre os entrevistados independentes, 63% consideram que Flávio errou ao deixar o Brasil, contra 21% que avaliam a decisão como acertada. Outros 16% não apresentaram uma posição.
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, destacou na divulgação do levantamento a divisão observada entre os eleitores de direita e a parcela da base eleitoral do senador que não concorda com sua saída do país.
Para 56%, Flávio Bolsonaro saiu do Brasil para fugir da Justiça
As opiniões sobre os motivos da viagem também apresentam diferenças expressivas conforme o voto declarado no segundo turno.
Entre os eleitores de Lula, 83% acreditam que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil para escapar da Justiça. Outros 11% consideram que a viagem foi motivada pela tentativa de se proteger de perseguição política.
Entre os eleitores de Flávio, a interpretação predominante é oposta. Nesse grupo, 65% acreditam que o senador buscou proteção contra perseguição política, enquanto 29% avaliam que seu objetivo foi evitar a atuação da Justiça brasileira.
A distância entre as duas interpretações evidencia a polarização em torno da situação do ex-candidato presidencial. A formulação da pergunta apresentou aos entrevistados hipóteses sobre a motivação da viagem, sem estabelecer que qualquer uma delas estivesse juridicamente comprovada.
A distinção é relevante porque deixar o Brasil não configura, por si só, uma conduta criminosa. Para caracterizar eventual descumprimento de medida judicial, obstrução de investigação ou outro ilícito, seria necessária a demonstração dos requisitos previstos na legislação e a avaliação das autoridades competentes.
O levantamento da Quaest não substitui esse processo e tampouco comprova que a saída do país tenha ocorrido por receio de responsabilização criminal ou por perseguição política.
Pesquisa mostra que 59% desaprovam questionamentos ao resultado eleitoral
Além da viagem aos Estados Unidos, a Quaest investigou a reação da população às manifestações de Flávio Bolsonaro sobre o resultado das eleições presidenciais.
Segundo o levantamento, 59% dos entrevistados desaprovam a decisão do senador de questionar o resultado das urnas, enquanto 34% aprovam a postura. Outros 7% não souberam ou não responderam.
A distribuição é semelhante à registrada pela pesquisa após a eleição de 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro também questionou o processo eleitoral depois de ser derrotado por Lula. Na ocasião, 61% desaprovavam seus questionamentos e 34% os aprovavam.
A comparação mostra uma diferença de dois pontos percentuais na desaprovação entre os dois levantamentos, dentro da margem de erro geral informada para a pesquisa atual. O percentual favorável aos questionamentos permaneceu em 34%.
A Quaest também investigou como os entrevistados avaliam o comportamento de Flávio Bolsonaro após a derrota. Entre aqueles que tiveram conhecimento do episódio envolvendo suas declarações posteriores à votação, 60% consideraram que o senador agiu mal, enquanto 25% avaliaram positivamente sua postura. Outros 9% responderam que ele não agiu nem bem nem mal, e 6% não apresentaram opinião.
O episódio chegou ao conhecimento de 70% dos entrevistados. A repercussão incluiu uma manifestação em que Flávio contestou o resultado eleitoral e apresentou-se como presidente eleito, expressão posteriormente modificada para líder do Brasil.
A pesquisa registra a reação da população a essas manifestações, mas não altera o resultado oficial proclamado pela Justiça Eleitoral.
Maioria considera que as eleições de 2026 foram limpas e justas
A confiança no processo eleitoral constitui outro eixo relevante do levantamento. Para 61% dos entrevistados, as eleições presidenciais de 2026 foram limpas e justas. Outros 30% acreditam que houve fraude, enquanto 9% não souberam ou não quiseram responder.
Em dezembro de 2022, a Quaest havia registrado 64% de entrevistados que consideravam as eleições daquele ano limpas e justas, diante de 29% que acreditavam em fraude. Na comparação, a confiança declarada recuou três pontos percentuais, enquanto a percepção de fraude avançou um ponto.
Os resultados mostram que a avaliação sobre a integridade das eleições permanece fortemente associada à preferência eleitoral.
Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 64% acreditam que houve fraude na eleição de 2026, enquanto 28% consideram o processo limpo e justo. Entre os eleitores de Lula, 93% reconhecem a lisura da votação e apenas 3% afirmam acreditar em fraude.
As diferenças regionais também aparecem no levantamento. No Nordeste, 72% dos entrevistados consideram que a eleição ocorreu de maneira limpa e justa. No Sul, a parcela que acredita na existência de fraude alcança 41%, o maior percentual identificado entre as regiões do país.
A percepção dos entrevistados sobre possíveis irregularidades não comprova a ocorrência de fraude eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza os resultados oficiais, os Boletins de Urna e outros arquivos relacionados à totalização dos votos, permitindo a conferência pública das informações registradas durante a votação.
Lula venceu segundo turno por 4,43 milhões de votos
O resultado oficial divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral confirma que Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito em 25 de outubro de 2026 com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos.
Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%. A diferença entre os dois candidatos foi de 4.430.191 votos, ou 3,58 pontos percentuais.
A totalização de todas as urnas foi concluída às 23h26 do próprio domingo da eleição. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, anunciou oficialmente a vitória de Lula e apresentou o balanço do processo eleitoral.
Segundo os dados da Justiça Eleitoral, aproximadamente 128,2 milhões de eleitores compareceram às urnas no segundo turno, de um universo superior a 158 milhões de pessoas aptas a votar. A abstenção ficou em 19,2%, abaixo dos 21,08% registrados no primeiro turno.
Os números oficiais são relevantes para contextualizar a pesquisa Quaest porque o questionamento sobre a legitimidade da votação ocorre depois de um resultado já proclamado pela autoridade eleitoral.
Pesquisa ouviu 2.004 brasileiros após o segundo turno
A pesquisa O Brasil depois das urnas foi realizada entre 30 de outubro e 2 de novembro, período posterior à eleição presidencial e à chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos.
O instituto entrevistou 2.004 pessoas com 16 anos ou mais, utilizando uma amostra nacional. A margem de erro geral divulgada é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Os percentuais apresentados para grupos específicos, como eleitores de Lula, eleitores de Flávio, bolsonaristas, independentes e moradores de diferentes regiões, devem ser interpretados considerando que essas parcelas possuem quantidade de entrevistas menor que a amostra nacional. Por isso, a margem geral de dois pontos não deve ser aplicada automaticamente a todos os recortes.
Também é necessário observar os diferentes universos utilizados nas perguntas. Enquanto a avaliação da viagem considera os entrevistados que declararam conhecer o episódio, outras questões tratam das percepções do conjunto pesquisado ou de grupos definidos pelo voto e pela identificação política.
O levantamento oferece, portanto, uma fotografia da opinião pública no início de novembro, após a definição das eleições presidenciais. Ele não permite determinar as motivações pessoais do senador nem antecipar como essas opiniões poderão evoluir nos meses seguintes.
Fontes:
Quaest — pesquisa O Brasil depois das urnas, divulgada em 8 de novembro de 2026, com resultados sobre a viagem de Flávio Bolsonaro, percepções eleitorais e metodologia.
Felipe Nunes, diretor da Quaest — divulgação pública dos resultados e análise dos recortes políticos do levantamento de novembro de 2026.
Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, publicado em 26 de outubro.
Tribunal Superior Eleitoral — informações oficiais sobre totalização dos votos, participação eleitoral e disponibilização dos Boletins de Urna.










