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Raízen (RAIZ4) pode trocar de comando: credores negociam assumir até 80% da companhia

Plano bilionário prevê conversão de dívida em ações, aporte da Shell e levanta dúvidas sobre o futuro de Rubens Ometto na empresa.

por João Souza
26/05/2026 às 21h33
em Mercados
Raízen (Raiz4) - Gazeta Mercantil

A Raízen (RAIZ4) entrou em uma das etapas mais decisivas de sua história. Com uma dívida próxima de R$ 65 bilhões e pressionada por resultados negativos, a companhia negocia um plano de reestruturação que pode transferir o controle da empresa para os credores e reduzir drasticamente a influência dos atuais acionistas.

As discussões avançam em torno de uma proposta que prevê a conversão de cerca de 45% do endividamento em ações. Caso o modelo seja aprovado, os credores passariam a deter aproximadamente 80% do capital da companhia, transformando-se nos principais controladores da empresa criada pela parceria entre Cosan (CSAN3) e Shell.

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O acordo também contempla uma capitalização bilionária liderada pela Shell, mudanças profundas na governança e até uma possível divisão dos negócios da companhia.

O desfecho é aguardado com atenção pelo mercado financeiro, já que poderá redefinir o futuro de uma das maiores empresas do setor sucroenergético e de distribuição de combustíveis do país.

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Credores podem assumir o comando da Raízen

Segundo informações divulgadas por O Globo, as negociações caminham para uma solução baseada na troca de parte da dívida por participação acionária.

A conversão de aproximadamente 45% dos passivos financeiros reduziria significativamente o nível de alavancagem da companhia e entregaria aos credores uma posição dominante na estrutura societária.

Na prática, o plano representaria uma mudança histórica de controle, reduzindo o peso dos atuais acionistas na condução da empresa.

A proposta em discussão prevê ainda um aporte de R$ 3,5 bilhões realizado pela Shell, sócia da Cosan na operação.

Além disso, fontes ligadas às negociações afirmam que existe a possibilidade de a Raízen ser dividida em duas empresas independentes em uma etapa posterior da reestruturação.

Uma companhia concentraria as operações de produção de etanol e bioenergia. A outra ficaria responsável pelo negócio de distribuição de combustíveis e pela rede de postos licenciados da marca Shell no Brasil.

Futuro de Rubens Ometto ainda divide credores

Outro ponto sensível das negociações envolve a permanência de Rubens Ometto no processo de capitalização e na estrutura de governança da companhia.

O empresário, fundador da Cosan (CSAN3) e atual presidente do conselho de administração da Raízen, havia sinalizado um aporte de aproximadamente R$ 500 milhões.

No entanto, segundo informações publicadas pelo Broadcast, parte dos credores passou a defender uma solução sem a participação financeira direta de Ometto, avaliando que o valor teria impacto limitado diante do tamanho da crise enfrentada pela companhia.

Se confirmado, o investimento do empresário elevaria para cerca de R$ 4 bilhões o total de recursos injetados na empresa, considerando também a contribuição da Shell.

Em declarações recentes ao InvestNews, Ometto afirmou que mantém sua disposição de investir na Raízen independentemente de sua permanência ou não à frente do conselho de administração.

A empresa não comentou oficialmente as negociações.

Corrida contra o tempo para evitar recuperação judicial

A Raízen protocolou seu pedido de recuperação extrajudicial em março deste ano como forma de renegociar dívidas diretamente com credores e evitar um processo de recuperação judicial tradicional.

O mecanismo permite negociações mais rápidas, reduz custos operacionais e busca preservar valor para acionistas e financiadores.

O prazo de proteção previsto pela legislação termina no início de junho, aumentando a pressão para que um acordo seja fechado nos próximos dias.

Fontes envolvidas nas discussões afirmam que existe consenso entre credores, bancos e acionistas de que uma recuperação judicial seria o pior cenário para todas as partes.

Por isso, as negociações ganharam intensidade nas últimas semanas.

Da euforia do IPO à crise financeira

A situação atual contrasta com o cenário vivido pela companhia quando estreou na bolsa em 2021.

Na época, a Raízen chegou ao mercado avaliada em cerca de R$ 76 bilhões, impulsionada pelas expectativas relacionadas ao crescimento do etanol de segunda geração, à transição energética e ao fortalecimento das pautas ESG.

Mas o cenário mudou rapidamente.

A desaceleração global dos investimentos sustentáveis, a expansão da produção de etanol de milho e a pressão sobre os preços de açúcar e combustíveis reduziram a atratividade da tese de crescimento da empresa.

Ao mesmo tempo, anos de expansão acelerada, investimentos elevados e aquisições aumentaram significativamente o nível de endividamento da companhia.

O resultado foi uma forte deterioração financeira e uma expressiva perda de valor de mercado.

Hoje, as ações da Raízen (RAIZ4) são negociadas abaixo de R$ 1, enquadrando a companhia entre as chamadas penny stocks da bolsa brasileira.

Venda de ativos não evitou agravamento das contas

Na tentativa de reduzir o endividamento, a empresa iniciou um amplo plano de reorganização operacional no fim de 2024.

O processo incluiu troca de comando, revisão de investimentos e venda de ativos considerados não estratégicos.

Até fevereiro de 2026, a companhia havia arrecadado aproximadamente US$ 5 bilhões com desinvestimentos envolvendo usinas e outras operações.

Apesar dos esforços, os resultados continuaram pressionados.

No terceiro trimestre da safra 2025/2026, a Raízen registrou prejuízo de R$ 15,65 bilhões.

No mesmo período, a dívida líquida avançou de R$ 38,6 bilhões para R$ 55,3 bilhões.

A alavancagem financeira, medida pela relação dívida líquida sobre Ebitda, saltou de 3 vezes para 5,3 vezes em apenas um ano.

O agravamento da situação levou a companhia a suspender temporariamente pagamentos vinculados às dívidas incluídas na recuperação extrajudicial e culminou na exclusão da ação de importantes índices da B3, incluindo o Ibovespa.

Credores exigem mais dinheiro e mudanças na governança

As negociações passaram por diversos impasses desde o início da recuperação extrajudicial.

Em abril, uma proposta inicial de conversão de dívida em ações foi rejeitada por parte dos credores.

Posteriormente, grupos de bondholders apresentaram contrapropostas que poderiam elevar sua participação para até 90% do capital social da companhia.

Além disso, bancos e investidores passaram a defender mudanças mais profundas na governança corporativa, incluindo alterações no conselho de administração e maior influência dos credores nas decisões estratégicas.

Também houve pressão por aportes mais robustos dos atuais acionistas.

Enquanto alguns grupos defendiam uma capitalização próxima de R$ 8 bilhões, as negociações envolvendo Shell e Cosan trabalhavam com valores significativamente menores.

Mercado aguarda decisão que pode redefinir a empresa

A expectativa é que as próximas semanas sejam decisivas para o futuro da Raízen (RAIZ4).

O acordo em negociação poderá representar uma das maiores reestruturações corporativas da história recente do mercado brasileiro, alterando a composição acionária, a governança e até a estrutura operacional da companhia.

Para investidores, credores e analistas, o caso tornou-se um dos principais testes de reestruturação empresarial do país em 2026.

O resultado poderá servir como referência para futuras renegociações de grandes empresas brasileiras altamente endividadas.

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